Bloco europeu acelera entrada em vigor de acordo comercial. França reage mal, afirmando que “decisão unilateral” passa por cima do Parlamento Europeu, que ainda não deu seu aval.
O acordo de livre comércio entre União Europeia (UE) e Mercosul será aplicado provisoriamente, apesar de uma revisão pendente pelo principal tribunal do bloco europeu, anunciou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, nesta sexta‑feira (27/02).
“Eu já disse antes: quando eles estiverem prontos, nós estamos prontos”, afirmou. O caminho para a aplicação provisória foi aberto na véspera, quando Uruguai e Argentina ratificaram o acordo. Brasil e Paraguai ainda não fizeram o mesmo, mas devem dar este passo em breve, disse ela. No Brasil, a Câmara dos Deputados aprovou o acordo nesta quarta-feira. O texto aguarda agora a aprovação do Senado.
A medida permite a UE, Uruguai e Argentina de aplicar novas regras aduaneiras, antes que o acordo entre formalmente em vigor.
A Comissão não especificou uma data para a aplicação do texto. A primeira possível é 1º de abril, caso as formalidades exigidas sejam concluídas antes do fim do fevereiro. Se a documentação necessária for finalizada em março, então o acordo deve ser aplicado a partir de 1º de maio.
França reage mal
A França, epicentro da resistência ao acordo, reagiu mal à perspectiva de aplicação provisória sem aval parlamentar. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que se tratava de uma “decisão unilateral” que vinha como “má surpresa”.
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, atrai antipatia de agricultores que protestam contra o acordo da UE com o Mercosul | Frederick Florin/AFP/dpa/picture alliance
“A Comissão Europeia tomou a decisão unilateral de aplicar provisoriamente o acordo com o Mercosul, mesmo que o Parlamento Europeu não tenha votado sobre ele. Assim, ela assume uma responsabilidade muito pesada,” afirmou.
O acordo comercial, negociado por mais de duas décadas, é visto de forma crítica por alguns setores na UE. O medo entre agricultores europeus de serem engolidos pela concorrência do Mercosul levou à inclusão de cláusulas de proteção relativas às importações do setor.
“Seremos intransigentes quanto ao cumprimento dessas regras, porque a Europa apertou significativamente as regras para nossos produtores nos últimos anos”, acrescentou Macron. “Jamais defenderei um acordo que seja frouxo com as importações e rigoroso com o que produzimos em casa, porque isso é incoerente para os consumidores europeus e criminoso para a soberania europeia.”
Preocupações ambientais
Já ambientalistas temem que o aumento da demanda da UE por produtos agrícolas do Mercosul possa levar a mais desmatamento na América do Sul, inclusive no Brasil. De outro lado, apoiadores vislumbram oportunidades para os setores automotivo, de engenharia mecânica e farmacêutico.
Diante de críticas persistentes, o Parlamento Europeu decidiu em janeiro, por uma maioria apertada, enviar o acordo para revisão pela Corte de Justiça da União Europeia antes de uma votação final, atrasando a implementação.
“O acordo só pode ser totalmente concluído quando o Parlamento Europeu tiver dado seu consentimento,” disse ainda von der Leyen.
A Comissão rejeita as críticas e argumenta que o acordo é benéfico para a economia da UE, em meio ao aumento da competição global. Segundo a presidente da Comissão, o texto dá à Europa uma “vantagem em um mundo de competição acirrada e horizontes curtos.”
Publicado originalmente pelo DW em 27/02/2026


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