Práticas ilegais de garimpo deixam rastro de poluição que afeta o solo e microrganismos por décadas após o abandono da atividade na região. Em longo prazo, o mercúrio permanece ativo no solo, representando risco para a microbiota, os animais e até para os seres humanos, porque pode entrar na cadeia alimentar.
Pesquisa conduzida em quatro biomas brasileiros avaliou a qualidade de solos que passaram por atividades ilegais de mineração. Amostras coletadas na Mata Atlântica indicam persistência de contaminação por mercúrio 52 anos após o garimpo na região. Diante dos impactos desse resíduo metálico no ecossistema, pesquisadores da USP propõem uma solução baseada no uso de biocarvão, material que absorve o mercúrio e pode repor o carbono no solo.
O estudo, realizado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, investigou de que forma práticas ilegais de mineração e variações climáticas sazonais influenciam a mobilidade do mercúrio no meio ambiente, a qualidade da matéria orgânica e a estrutura da comunidade bacteriana de solos de quatro biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal.
Estima-se que cerca de 700 toneladas de mercúrio sejam depositadas no meio ambiente a cada ano devido à mineração ilegal de ouro, acumulando-se no solo e em ambientes aquáticos. Segundo Matheus Bortolanza Soares, pesquisador e autor do artigo, a quantidade de mercúrio despejada é muito maior quando o processo é artesanal, com baixa tecnologia e ferramentas inadequadas.
“O mercúrio é usado na mineração para recuperar o pó de ouro, formando a pepita. Então, existe uma razão ideal de mercúrio para a quantidade de ouro. Mas, na mineração ilegal ou artesanal, essas proporções não são necessariamente respeitadas”, afirma Soares ao Jornal da USP.
“Como a mineração ilegal não tem fiscalização adequada, as pessoas que a praticam não são diretamente responsabilizadas e cobradas para recuperar ou mitigar as consequências ambientais do uso da terra garimpada”, explica o pesquisador, que comparou amostras de solo garimpado com amostras de solo usado para pastagem, observando a perda biológica decorrente da atividade de mineração.
A persistência da contaminação
Entre as áreas avaliadas, apenas as minas no Cerrado e no Pantanal permaneciam ativas, recebendo continuamente resíduos de mercúrio. As minas da Amazônia estavam inativas havia cinco meses e, na Mata Atlântica, há 52 anos. “Alguns locais monitorados estavam há mais de 50 anos sem exploração de ouro ou outro minério e ainda apresentavam vestígio do impacto da mineração. Em longo prazo, o mercúrio permaneceu ativo no solo, o que representa um risco para a microbiota, os animais e até os seres humanos, porque esse elemento pode entrar na cadeia alimentar”, afirma Bortolanza.
O trabalho também avaliou a influência das condições climáticas na dinâmica do carbono e do mercúrio, fortemente controladas pela disponibilidade de oxigênio e pela entrada sazonal de matéria orgânica fresca. “No nosso estudo, foi possível quantificar, de forma inédita, o efeito das chuvas e da seca na reposição de matéria orgânica no solo, que impactam o microbioma”, afirma o autor.
As amostras de solo coletadas foram submetidas a diversas análises, incluindo extração, sequenciamento e processamento de DNA, para avaliar o impacto da atividade de mineração na estrutura e composição da comunidade bacteriana.
Empobrecimento do solo e seleção artificial de bactérias
Com condições climáticas distintas entre os biomas, foi observada a criação de “filtros ambientais” que refletem as condições hidrológicas e químicas de cada região. Esses filtros selecionaram comunidades microbianas específicas, favorecidas pela tolerância ao mercúrio e capazes de sobreviver em ambientes de escassez de nutrientes e contaminação. Com o estresse cumulativo causado pelo despejo de mercúrio, os pesquisadores acreditam que as mudanças no microbioma alteram os processos de decomposição da matéria orgânica e o equilíbrio do solo, ameaçando o armazenamento de carbono e a resiliência do ecossistema.
“Imagine que os microrganismos do solo participam de uma sociedade, onde cada um tem uma função para a manutenção do sistema. Se você reduz a diversidade, algumas funções são perdidas. Quando a mineração reduz o teor de carbono do ambiente, o alimento do microrganismo é removido e ele começa a desaparecer. Somado a isso, quando o mercúrio é introduzido no solo, mais espécies de bactérias são eliminadas. O resultado é uma sociedade com menos quantidade e diversidade de microrganismos, o que compromete diversas funções essenciais.”
Segundo Luís Reynaldo Ferracciú Alleoni, professor do Departamento de Ciência do Solo da Esalq e supervisor do estudo, a sobrevivência de poucas espécies resistentes representa um problema para o solo, que depende da variedade microbiana para manter o ecossistema. “Alguns elementos, quando estão na concentração correta no solo, são nutrientes para as plantas. Em doses altas, podem se tornar contaminantes. O caso do mercúrio é pior ainda, porque ele não é um nutriente e é extremamente tóxico”, afirma.
Nada se perde e nada se cria, tudo se transforma
O impacto do mercúrio nas regiões de garimpo é ampliado pela retirada das camadas superficiais do solo ricas em matéria orgânica, que, de acordo com as variações climáticas locais, podem afetar os ciclos biogeoquímicos e causar a degradação de funções ecossistêmicas. A perda de carbono e nitrogênio reduz os nutrientes e a energia disponível para microrganismos, diminuindo a atividade microbiana, a decomposição e a mineralização de nutrientes, o que ameaça comunidades humanas adjacentes.
“Os microrganismos são mediadores de uma série de reações que mantêm o equilíbrio do ecossistema. Então não adianta tentar recuperar o solo pensando nele como um sistema não vivo; é preciso pensar em estratégias de recuperação que considerem esses seres vivos e as funções que eles desempenham no ambiente”, destaca Alleoni.
Restauração “viva”
Segundo o especialista, estratégias de restauração ambiental devem priorizar a reconstrução dos estoques de matéria orgânica, a redução da mobilidade do mercúrio e a preservação da diversidade funcional microbiana, com foco em trajetórias de recuperação de longo prazo. “Conhecendo os microrganismos nativos que foram sumindo do solo, qual função deixaram de desempenhar e sabendo que a presença deles é importante para reequilibrar esse ambiente, é possível desenvolver estratégias de recuperação”, explica Bortolanza.
O pesquisador propõe o uso do biocarvão como solução inicial. “Como o biocarvão é composto de quase 100% de carbono, ele funcionaria para repor esse elemento no solo, além de reter água e atuar como uma esponja que absorve o mercúrio e reduz sua circulação no ambiente. Essa técnica seria a base das estratégias para recuperar uma área minerada, porque retém o contaminante, que é extremamente caro e difícil de retirar por outros meios.”
Por permanecer por décadas no solo, o mercúrio acaba sendo absorvido por plantas e animais que interagem com o ambiente e com as comunidades humanas locais. Assim, a presença do contaminante também oferece risco à saúde humana, podendo infiltrar-se na dieta das pessoas e causar intoxicações graves.
“O solo é sempre lembrado por conta da produção de alimentos, mas ele também funciona como um depósito de resíduos industriais, poluentes, óleos e materiais diversos. A química ambiental é uma área crescente que estuda o solo que não necessariamente tem um fim agrícola, mas é afetado pela ação humana. O próprio estudo do Matheus mostra que um elemento tóxico decorrente da mineração ilegal fica por décadas disponível e oferecendo risco à saúde pública”, afirma Alleoni.
Por fim, o professor destaca que, por causa desse impacto na saúde pública, o trabalho pode contribuir para a formulação de novas políticas públicas. “Esse é um papel muito importante que a universidade e os centros de pesquisa cumprem.”
O estudo contou com o apoio do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), em colaboração com o professor Carlos Eduardo Pellegrino Cerri (Esalq/USP e CCARBON) e Lucas William Mendes (Cena).
O artigo Illegal gold mining filters soil bacterial communities and enhances mercury mobility across Brazilian biomes: A multi-season study, publicado no Journal of Hazardous Materials, pode ser acessado neste link.
Fonte: Jornal da USP


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