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Homens se mobilizam para combater machismo e violência contra mulheres

0 Comentários🗣️🔥 Grupos, cursos, rodas de conversa e campanhas tentam engajar mais homens no combate à violência contra a mulher e na construção de uma sociedade com mais igualdade. “Se a gente for olhar o número de homens hoje engajados pelo fim da violência contra a mulher, ainda é muito pequeno. Então, é urgente a […]

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Grupos, cursos, rodas de conversa e campanhas tentam engajar mais homens no combate à violência contra a mulher e na construção de uma sociedade com mais igualdade.

“Se a gente for olhar o número de homens hoje engajados pelo fim da violência contra a mulher, ainda é muito pequeno. Então, é urgente a gente inserir mais homens nessa discussão”, afirma o psicólogo Flávio Urra, do programa E Agora, José?. Ele avalia que, no enfrentamento à violência, é necessária uma participação maior dos homens.

A Lei Maria da Penha determina o comparecimento obrigatório de agressores a programas de recuperação e acompanhamento psicossocial. O programa E Agora, José? Pelo Fim da Violência contra a Mulher é um grupo socioeducativo de responsabilização de homens.

Flávio Urra considera que o homem, de modo geral, não se enxerga como responsável pelo machismo, o que provoca grande resistência a debater o assunto. Essa resistência é ainda maior entre autores de violência. “Nós fazemos grupos com esses homens, autores de violência contra a mulher, e, no caso deles, a resistência é maior ainda, porque eles se sentem injustiçados por estarem ali obrigados a participar do grupo por uma juíza ou um juiz.”

Os participantes do curso oferecido no âmbito do programa frequentam 20 encontros de duas horas de duração. Ao fim da participação, segundo Flávio Urra, é unânime a percepção de que se tornaram pessoas melhores. “Estão melhores pais, estão melhores companheiros, trazem isso no discurso, que houve uma mudança. Se a gente pensar que já passaram cerca de 2 mil homens pelo programa e conseguimos afetar a vida desses homens e das mulheres que convivem com eles, possivelmente está havendo uma mudança na sociedade.”

Com experiência de sete anos como facilitador de grupos de homens, o consultor de empresas Felipe Requião identificou padrões de comportamento recorrentes, como a desresponsabilização individual, com expressões como “eu não faço esse tipo de coisa, não sou eu” e “tem coisa muito pior que acontece”. Ele cita ainda a invisibilização do impacto e, em alguns casos, a vitimização ou o deslocamento do foco. Segundo Requião, esse comportamento resulta de um aprendizado cultural, por isso as rodas de conversa são importantes no processo de mudança.

A resistência dos homens em participar de conversas também se manifesta no mundo corporativo. “Tem uma resistência muito recorrente, que é a sensação de perda de espaço: ‘Poxa, agora vão tirar espaço dos homens’ ou ‘agora não poderei mais ser considerado para determinadas posições ou promoções’”, afirma.

Felipe Requião ressalta a importância do envolvimento das lideranças na defesa das pautas de diversidade, equidade, inclusão e pertencimento. Para ele, é fundamental que seja uma jornada contínua, não apenas uma palestra ou roda de conversa isolada. Segundo o consultor, os homens começam a se envolver no problema depois de três ou quatro encontros reflexivos. Ele cita estudos que mostram que um ambiente de trabalho com mais igualdade entre homens e mulheres melhora o clima organizacional.

“Uma mudança real acontece quando o homem percebe que não está perdendo, mas se libertando de um modelo que nos restringe, nos limita e nos cerceia. A gente pode fazer diferença performando uma masculinidade de outro lugar.”

Um exemplo de liderança comprometida é o engenheiro Carlos Augusto Souza Carvalho, de 55 anos. Ele levou para os funcionários de sua empresa de engenharia a experiência que aprendeu em um grupo de homens. “Promovo palestras sobre masculinidade, e o que sai dessas reuniões é impressionante. É realmente enriquecedor ver o quanto todos os homens, independentemente de classe social, condição financeira, posição no mundo ou opção sexual, têm a contribuir.”

Na internet, existe um espaço terapêutico online e gratuito, oferecido desde 2017 pelo psicólogo Alexandre Coimbra Amaral. Ele diz que a melhora já começa quando os homens percebem que podem expor suas dores ou apenas testemunhar conversas sobre machismo e masculinidades.

Terapeuta familiar, Amaral defende que pais conversem sobre o assunto com outros pais, nos grupos de mensagens da escola, para trocar experiências sobre como lidar com o problema quando os filhos estão envolvidos. “Construir parâmetros comuns que vão além da família, escutar a escola e percebê-la como um lugar possível para construir pontes é fundamental. A formação de comunidade, que está em baixa no nosso século, é essencial para produzir discursos que vão além da família. A comunidade é esse meio do caminho entre a família e as políticas públicas.”

O movimento global Laço Branco estabeleceu no Brasil a data de 6 de dezembro como Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres. A campanha promove ações o ano todo, como o projeto Homens de Honra, que forma multiplicadores. Segundo a fundadora e diretora do Instituto Laço Branco Brasil, Patricia Zapponi, faz diferença quando é o homem que fala sobre enfrentamento ao machismo em espaços como clubes, escolas e templos.

“Quando você leva o homem, seja para um canteiro de obras ou uma escola, você muda o olhar. É um desafio, porque o homem, na maioria dos casos, é o agente da violência, mas ele passa a ser o agente do enfrentamento. Então, ele tem mais voz para falar com o próprio ofensor.”

Para Patricia Zapponi, o engajamento dos homens nos projetos é um dos destaques. “O nosso número de voluntários homens é quase o dobro do número de voluntárias mulheres. Todos eles passam por uma severa inspeção no CPF para sabermos se não é nenhum ofensor querendo se aproximar da questão.”

A campanha Laço Branco tem ações continuadas e permanentes que envolvem os homens, como o Orange Day. Outra iniciativa são os núcleos integrados de acolhimento à mulher, em que advogados prestam serviço às vítimas de violência.

Na educação de crianças e jovens, o programa Maria da Penha Vai à Escola, para prevenir e coibir a violência contra a mulher, é realizado há dez anos pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT). Atualmente, a parceria inclui o Ministério Público do Distrito Federal e a Secretaria de Estado de Educação do DF, entre outros. Recentemente, o programa se tornou uma das ações previstas no Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, envolvendo os Três Poderes.

A psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello diz que, em todo o país, existem práticas construtivas para promover reflexão. “É importante pensar que já existem boas práticas com certa história e boa avaliação em vários estados brasileiros. Não precisamos inventar a roda, mas trocar esse conhecimento e afinar cada vez mais essas práticas.”

Ela destaca o papel da escola para transformar a comunidade e sugere outras iniciativas que envolvam pais. “É possível também abarcar os pais nesse letramento de gênero, promovendo, por exemplo, nas reuniões, palestras que não sejam apenas informativas, mas que também afetem esses pais. Podemos convidar profissionais de áreas diferentes para falar sobre violência sexual contra crianças e adolescentes ou sobre violência doméstica.”

O orientador familiar Peu Fonseca defende que, para repensar o machismo, é preciso envolver homens e mulheres em rodas plurais. Ele observa, principalmente em comunidades escolares, que os homens têm seus próprios grupos de diálogo e conversam entre si sobre o parentar e o papel no cuidar. “Só que eles não falam, talvez, como a gente espera que seja esse papel. O que eu acho é que precisamos convidar os homens e os pais para ambientes integrados, não apenas entre homens, mas também com mulheres.”

Fonte: Agência Brasil

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