Menu

Elias Jabbour: “Pela primeira vez na história, o Brasil tem um candidato à Presidência abertamente pró-Estados Unidos”

24 Comentários🗣️🔥 Íntegra da entrevista do geógrafo Elias Jabbour, especialista em China, presidente licenciado do Instituto Pereira Passos e pré-candidato a deputado federal pelo PCdoB do Rio de Janeiro, a Miguel do Rosário, do Cafezinho, realizada no dia 20 de abril de 2026. Miguel: Bom, vamos lá. Boa tarde. Estou aqui com Elias Jabbour, geógrafo, […]

24 comentários
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Íntegra da entrevista do geógrafo Elias Jabbour, especialista em China, presidente licenciado do Instituto Pereira Passos e pré-candidato a deputado federal pelo PCdoB do Rio de Janeiro, a Miguel do Rosário, do Cafezinho, realizada no dia 20 de abril de 2026.


Miguel: Bom, vamos lá. Boa tarde. Estou aqui com Elias Jabbour, geógrafo, especialista em China. Tudo bem, Elias?

Elias: Miguel, muito bom te ver, cara. Tudo bem?

Miguel: Maravilha. Elias, você está iniciando agora uma pré-candidatura para deputado federal. Acho que a gente pode começar logo por aí. A gente estava conversando aqui e você estava mencionando o fato de ser um dos poucos candidatos a deputado federal, ou talvez o único, que fala de projeto nacional. Como é que é isso? Que projeto nacional é esse?

Elias: Primeiro que a gente observa, Miguel, um vazio na política brasileira de um discurso totalizante. No Brasil, nos últimos 40 anos, o debate público tem sido reduzido a temas fragmentados, ou seja, não temos totalidade. Por exemplo, em termos de totalidade, desenvolvimento, o que se chama de totalidade é por direito social. E um grande tema de totalidade que saiu do debate público, que o Ciro Gomes tentou trazer recentemente, é o tema do Projeto Nacional.

Nós estamos falando do Projeto Nacional na nossa campanha, é o lema da nossa campanha, mas com um viés. Existe um guarda-chuva no Projeto Nacional, ou seja, é uma administração, sim, mas o eixo desse Projeto Nacional é a questão que envolve a reindustrialização do Brasil.

Por que reindustrialização? Porque é uma forma do país se recolocar no mundo. Esse mundo muito louco que está aí, um mundo de grandes potências, de grandes blocos de capitais competindo loucamente entre si. E uma forma do país se recolocar internamente, a partir do quê? A partir da geração de empregos de qualidade que somente a indústria pode criar.

Porque a partir da industrialização, da reindustrialização, nós podemos pensar em combate ao fascismo pela via da mobilidade social. A mobilidade social traz esperança para as pessoas, e o fascismo é um fenômeno que se alimenta em sociedades em que não existe esperança. A reindustrialização é a chave mestra do projeto nacional que nós estamos discutindo na pré-campanha. É praticamente a única candidatura proporcional a tratar desse tema.

Miguel: Muito bem. A gente sabe que na história brasileira tem uma tradição forte por parte de economistas que são clássicos no Brasil. Você teve tentativas de se empreender projetos de industrialização e tem uma dificuldade de convencer a opinião pública em relação à necessidade disso, porque às vezes parece meio abstrato. Qual é a indústria, porque na realidade tem uma coisa assim material objetiva, qual é a indústria efetivamente que você acha que poderia ser reativada no Brasil?

Elias: Sempre as pessoas vêm com a ideia de que o Brasil tem que fazer uma revolução, entrar na era da revolução 4.0, da quarta revolução industrial. O Brasil precisa fazer X ou Y, vamos dizer. Eu acho, Miguel, que isso é uma postura despropositada que aparece.

Eu acho que o Brasil precisa retomar as indústrias de defesa, por exemplo, complexo industrial de defesa. O Brasil precisa retomar as indústrias de metal mecânica. O Brasil precisa retomar a sua indústria mecânica pesada, que é a indústria que vai fazer os trens, vagões, locomotivas. O Brasil tem que digitalizar a nossa biodiversidade, ou seja, o Brasil exporta 26 bilhões de dólares, se não me engano, de remédio. E você tem os insumos aqui no Brasil.

Existe uma série de indústrias que vão ter cadeias produtivas, que são da primeira revolução industrial e da quarta revolução industrial e podem conviver aqui em uma unidade contraditória no Brasil. A temática da industrialização é fundamental, é uma questão de sobrevivência do Brasil enquanto nação. Tanto nesse mundo que está colocado aí, como um país que precisa gerar, eu falo numa casa de 10 a 20 milhões de empregos industriais.

Os empregos industriais geram 2, 3, 4, 5 salários mínimos. E hoje os empregos gerados no Brasil são de um salário mínimo a um salário mínimo e meio, ou seja, as pessoas não têm a menor esperança de mudança de vida. O Brasil é quase um país estratificado socialmente. Então a industrialização, a reindustrialização é fundamental para esse processo.

Qual a industrialização? São várias industrializações. Tem que ser várias demandas colocadas pela sociedade, desde transporte de qualidade, com trens de alta velocidade, até remédio de graça para o povo.

Miguel: Muito bem. Dá um salto aqui. Acho importante a gente falar de geopolítica, tem a ver com a questão da industrialização. A gente vive um momento muito dramático no mundo, que é um avanço imperialista com uma agressividade que a gente não via há décadas. A gente teve o presidente da Venezuela sequestrado, agora a gente tem um ataque ao Irã, está passando ainda esse genocídio em Gaza. E a gente sempre fica se perguntando como é que isso vai afetar o Brasil, a campanha brasileira.

A gente sabe, por exemplo, que tem a direita brasileira muito comprometida com o imperialismo. O Flávio Bolsonaro acabou de voltar dos Estados Unidos, ele fez um discurso na CPAC dizendo que se ele for presidente vai entregar as terras raras do Brasil para os Estados Unidos, fazer frente à China. Como é que você vê a geopolítica hoje no debate nacional, eleitoral, político?

Elias: Deveria ser central, né? Porque eu acho, particularmente, que a polarização do nosso projeto nacional deveria ser a polarização desse debate das eleições. Pela primeira vez na história, Miguel, é uma pergunta, talvez você concorde comigo ou não. Pela primeira vez na história nós temos um candidato a presidente abertamente pró-Estados Unidos.

E quando se fala abertamente pró-Estados Unidos, nós estamos falando de ser favorável, por exemplo, ser signatário da nova Doutrina de Segurança Nacional dos Estados Unidos, que prevê o quê? Prevê que a América Latina é um local privilegiado de acesso dos Estados Unidos a reservas naturais e ativos estratégicos. O Flávio Bolsonaro é o candidato da Doutrina de Segurança Nacional dos Estados Unidos para a América Latina. O imperialismo sempre teve as suas preferências no Brasil, só que agora é explícito. Acredito que nós devemos pautar isso no debate eleitoral.

Porque às vezes à esquerda falta ainda um viés nacionalista, um viés desenvolvimentista, que, sob o meu ponto de vista, torna a esquerda brasileira algo muito estranho, quase que uma jabuticaba na periferia do capitalismo, uma esquerda que não seja nacionalista e desenvolvimentista. Mas a necessidade histórica de se colocar é o seguinte: nós temos um candidato, o presidente Lula, que é um candidato da soberania, da defesa dos interesses nacionais, e também, do outro lado, um candidato abertamente pró-Estados Unidos.

Isso aqui, só pra quem chegou de paraquedas agora, o povo brasileiro, o povão, ele é nacionalista. É nacionalista. Se eu tiver que polarizar com a extrema-direita, que é o que eu faço, por exemplo, nos meus vídeos, nas minhas intervenções, é falar abertamente isso. Colocar muito claramente, de alguma forma, objetivo ou não, que a grande contradição que move a sociedade brasileira é entre projeto nacional e fascismo, entre democracia e fascismo. Existe um salto de qualidade na contradição principal a ser apreciada. Nós estamos diante da necessidade ou do projeto nacional ou do fascismo que volta, que é um fascismo entreguista, antinacional.

Miguel: Foi interessante essa polarização entre o projeto nacional e o fascismo. Porque a concepção de democracia também não deveria ser totalmente fechada, porque a gente sabe que a gente tem um modelo de democracia que também pode ser debatido. É a razão pela qual, por exemplo, a gente vê os ataques ao Irã não serem motivo de indignação, deveriam ser, porque no centro dos países democráticos, o Irã não é uma democracia, então pode matar, pode chegar a esse ponto. E a China também, a gente não faz parcerias com a China, talvez deveria fazer. Como você vê esse tipo de debate da democracia no mundo hoje?

Elias: Primeiro que é um debate muito distorcido, um debate pobre. Eu falo para as pessoas: ditadura e democracia são duas categorias, e os conceitos que as sustentam são muito frágeis. Eu acho que democracia e ditadura, a sua definição depende de cada formação econômica social particular e a história daquela formação econômica social.

Então na China, por exemplo, existe um processo de democracia à base de aldeia que vem desde o Modo de Produção Asiático, dois mil anos atrás, e que é retomado hoje. É uma democracia direta, uma democracia participativa, que é parte do processo chinês. A China é uma democracia do estilo chinês.

A democracia liberal burguesa é uma democracia de tipo específico, que, sob o meu ponto de vista, não entrega mais nenhuma resposta às demandas de uma sociedade. Como nós somos defensores da democracia no Brasil, nós estamos falando da necessidade de manutenção de funcionamento básico das instituições que estão aí. Existe essa dimensão da defesa da democracia, que é a defesa das instituições que estão aí, e que garante minimamente as regras do jogo. E o fascismo mesmo acaba com isso.

Mas o que acho que é interessante na nossa época histórica é que mesmo essa democracia que estou falando aqui, que é a da manutenção das regras do jogo, para ela existir no Brasil hoje vai depender cada vez mais de um projeto nacional de desenvolvimento, da formação de uma outra maioria política no Brasil.

E aqui eu introduzi essa discussão da outra maioria política porque o Lula, na minha opinião, agora tem que ser presidente. É o fim do ciclo do Brasil em que uma única pessoa foi o centro desse ciclo durante 50 anos. Vai se abrir uma disputa dentro da esquerda, saudável, do meu ponto de vista, e que vai ter que emergir daí uma nova maioria política. Inclusive, um dos papéis mais impactantes do mandato federal é a construção de uma outra maioria política no Brasil, que tem um caráter evidentemente de esquerda, porém nacionalista, desenvolvimentista e anti-neoliberal.

Miguel: Outro ponto interessante, que você desenvolveu aqui, é que você faz um debate muito interessante crítico às próprias esquerdas, que perderam um caráter nacionalista que tinham com muita centralidade em algum momento da história. Por que isso aconteceu? Você acha isso mesmo? E como você acha que a gente pode trazer a questão do desenvolvimento, do nacionalismo, para o centro das demandas, das bandeiras da esquerda brasileira?

Elias: Primeiro, vou falar algo que pode parecer polêmico, para você não é, eu sei, mas pode parecer polêmico para o público: não existe esquerda na periferia do capitalismo que não seja nacionalista e desenvolvimentista. Se não for nacionalista e não for desenvolvimentista, é muito estranho falar que é de esquerda na periferia do capitalismo.

Essas referências se perderam no Brasil, em particular, no imediato após o final da União Soviética, em que se abre um vazio completo pela esquerda. A morte do Estado nacional-desenvolvimentista pesa muito isso no Brasil, e aqui abre espaço para dois tipos de crítica. A crítica social que não deu certo, não pegou, mas a China hoje mostra o contrário. E a crítica ao nacional-desenvolvimentismo por conta das desigualdades e contradições surgidas na época do nacional-desenvolvimentismo. Mas poucas pessoas param para perceber que, apesar das suas contradições, a era nacional-desenvolvimentista no Brasil criou condições materiais para superar as nossas contradições.

O desmonte do Estado nacional-desenvolvimentista foi um equívoco em vários níveis, e não ter feito desse legado uma base foi um erro, na minha opinião. É um tiro no pé na esquerda brasileira. Acho que nós perdemos os diferenciais.

Por conta dessa crítica ao Estado, que eu vou chamar de monetarista, e ao sucesso do Real, nós perdemos também porque a maior parte da chamada intelectualidade progressista, na década de 70 e 80, foi toda pra fora do Brasil. A gente, engenheiros, mandou pra fora. O engenheiro que se foi foi Chico de Oliveira. Mandamos geógrafos, historiadores, economistas, sociólogos, filósofos, que vão para o Norte Global estudar e voltam, vão discutir discussões sobre democracia à la Estados Unidos, instituições à la Estados Unidos, e economia neoliberal à la Estados Unidos. A esquerda foi amplamente contaminada por isso. E mais do que isso: hoje existem aparatos privados de poder que operam abertamente na esquerda brasileira, entre intelectuais de esquerda, como o Open Society, por exemplo.

O Open Society é uma ONG cujo dono é o George Soros, que é o maior especulador do mundo, e ela faz uma operação de subversão do pensamento crítico de esquerda no Brasil, em particular, muito grande. Criou-se também uma jovem intelectualidade brasileira a partir da ação do Open Society, da Esquerda Cidadã. Poxa, a juventude de economistas jovens heterodoxos no Brasil não são desenvolvimentistas, não são nacionalistas, são heterodoxos. Quem está nesse processo não quer se associar ao desenvolvimentismo ou ao nacionalismo. Então eu sou muito sozinho como ator a ser colocado na roda quando o assunto é esse.

Eu te peço desculpa por essa resposta um pouco emocionada, porque é uma resposta que me cabe, e às vezes eu me sinto meio que sozinho conversando, por isso que eu falo isso com você. Você é uma pessoa que tem uma honestidade intelectual muito grande, é o típico da coisa que mexe muito comigo.

Miguel: A gente tem essa afinidade em relação, por exemplo, à admiração pela China, que eu acho que a esquerda brasileira muitas vezes não tem noção. A questão, por exemplo, das ferrovias. Você morou na China. Eu vi que o Brasil não vê a questão do transporte sobre trilhos como mais importante.

Elias: Cara, um país que não vê o desenvolvimento como algo importante, e que vê primeiro os recursos públicos como algo a ser poupado antes da prioridade do desenvolvimento econômico, nunca vai levar a sério o trem de alta velocidade. O trem de alta velocidade é caro, demanda subsídio, demanda altíssimos investimentos. Então é uma coisa ligada com a outra: a cultura fiscalista, a cultura do poupar para depois investir.

Forma-se um tipo de cultura em que nem as estradas estão aí, não fazem uma manutenção cotidiana. A gente queria que dentro dessa cultura neoliberal, que vocês pela esquerda já sabem muito bem desse discurso, exista a construção de uma cultura pró-trem de alta velocidade. É uma distância muito grande.

O problema também, eu acho, que falta às pessoas saberem, vocês sabem melhor do que eu, vocês estudam isso, é que os trens de alta velocidade têm uma revolução social na vida das pessoas. São duas dimensões aqui.

Primeiro, o Brasil tem o problema de soberania nacional que tem síntese no fato de que o Brasil hoje está com as suas ligações internas completamente destruídas. Você não vai de Porto Alegre até o norte do Brasil de ônibus ou de caminhão, você não cruza o país de carro, não existe essa condição mais, está tudo destruído. Esse é o problema de soberania nacional e que leva o Brasil a uma condição pré-Revolução de 30: ser uma economia cada vez mais orientada à exportação, que não é uma economia integrada, como passou a ser a partir da década de 50.

E hoje a solução para isso seria o quê? Seria os trens de alta velocidade. Para isso, Miguel, demanda-se um pensamento estratégico, sofisticado, que não existe na esquerda. Seria uma parceria estratégica com a China, de longo prazo, pensando inclusive na nossa reindustrialização, a partir da porta aberta pela China, da formação de um conglomerado público-privado aqui no Brasil. Eu sei que falar pra fora parece ser fácil, mas é um pensamento necessário.

Respondendo a sua pergunta, eu acho que o fiscalismo meio que erodiu nossa capacidade de pensar estrategicamente. E também existe essa questão da falta de um pensamento estratégico no ser brasileiro.

Miguel: Essa questão do pensamento estratégico, do planejamento, você fala muito, você escreve muito sobre isso. É uma questão cultural, uma questão filosófica. Que o nosso próprio modelo democrático também às vezes atrapalha, porque a gente tem eleição a cada quatro anos e ninguém consegue pensar a longo prazo. Mas a gente tem que vencer isso. O Brasil tem que pensar estrategicamente, senão ele nunca vai se desenvolver. Aí você, na sua pré-campanha, como você acha que a gente quebra esse preconceito, que é irracional, contra a cultura do planejamento?

Elias: Miguel, eu coloquei aqui anteriormente que um dos lemas da minha campanha chama-se “por uma nova maioria política”. Somente a formação dessa nova maioria política vai quebrar com esse cerco que nos amarra, com essa pedra que está dentro da gente.

Eu acredito que a reeleição de Lula feche um ciclo político e abra esse muro. E nesse interstício entre esse ciclo político e o próximo, esse debate é o único mesmo. Primeiro porque o mundo, o Brasil se posicionou. Segundo, porque as nossas contradições internas estão ficando insuportáveis: a polarização de renda, a polarização de riqueza, a falta de esperança, o fascismo como uma alternativa.

Hoje, qualquer jovem está completamente desgostoso do sistema, é antiLula e vota no candidato de extrema direita. Existem as nossas contradições internas e a necessidade de se colocar dentro do mundo que vai nos obrigar a fazer esse debate. Eu acho que pessoas como eu e você, Miguel, e aí estou te convocando para isso também, vamos ter que estar preparados para esse debate. De formar uma outra maioria política no Brasil, de caráter de esquerda, nacionalista, desenvolvimentista, anti-neoliberal e que, consequentemente, tenha o valor do planejamento econômico como uma das alavancas. Vai ser uma demanda historicamente colocada para nós.

Miguel: Voltando à questão geopolítica, para a gente já começar a caminhar para o final da nossa conversa: como é que você está vendo essa guerra contra o Irã, como é que você está vendo a formação desses dois polos políticos, considerando que isso aconteça, que é um bloco formado, liderado pela China, pelos BRICS? Aliás, eu até queria saber sua opinião sobre o que significam os BRICS hoje, esse contexto histórico hoje. E o polo liderado pelos Estados Unidos, com esses satélites vassalizados que estão na Europa e no Norte Global como um todo.

Elias: Primeiro que eu acho que os BRICS são um mecanismo em construção. As pessoas, quando falam em BRICS, falam em algo que já existe. Não, não existe os BRICS ainda. Isso é um mecanismo que leva alguns países a se reunirem algumas vezes por ano, e a ter um banco de desenvolvimento, possivelmente, que foi a única coisa que entrega até agora os BRICS. E por isso é diverso, porque tem contradições. Tem países dos BRICS que são defensores da guerra contra o Irã. Esse arranjo vai ter que se reinventar, como qualquer coisa do mundo vai ter que se reinventar ao longo do tempo, e está passando por um grande teste agora.

O que existe no momento é, eu até resisto um pouco com essa coisa de blocos, mas não tem como resistir, é fato. Eu acho que China, Rússia, Irã e Coreia do Norte hoje formam um eixo interessantíssimo de se analisar. O Irã sai dessa guerra como uma potência consolidada, capaz de absorver toda a destruição. Sai dessa guerra como uma potência regional, uma potência de influência internacional muito grande, porque ninguém imaginava que ela fosse capaz de resistir tanto tempo a ataques, ter uma capacidade contra-ofensiva de tamanho muito grande. E mais do que isso: eles não precisam de armas nucleares. Eles têm condições de combater por mais tempo. Ninguém esperava isso.

Isso leva, por exemplo, a outra dimensão: o petrodólar como fenômeno, ele tem os Emirados Árabes como sua porta de entrada, e a sua porta de saída é o Estreito de Ormuz. Então o Irã transformou o Estreito de Ormuz em uma arma estratégica. E dali pode, inclusive, sair o quê? Sair o começo do fim do petrodólar.

Em meio a essa guerra híbrida que está sendo colocada, em que os americanos estão sendo amplamente derrotados, pode sair o começo do fim do petrodólar. Fala-se do fim de 1971 como o marco, ok, mas eu acho que essa guerra em particular, dado o fato dos Emirados Árabes serem a porta de entrada do petrodólar, que é a grana que recicla a máquina da economia estadunidense, o Estreito de Ormuz pode ser a porta de saída. Acho que é uma nova era pautada por uma outra moeda. Não uma outra moeda de reserva, mas por uma dezena de moedas locais, inclusive o yuan, como alternativas ao dólar, está surgindo. Se isso acontecer, pode ser o início do fim do império americano.

Miguel: Outra questão é a juventude. Você tem um diálogo muito bom com a juventude. E a questão geopolítica, não sei se você tem observado isso, você tem uma juventude meio que perdida para a extrema direita, mas ao mesmo tempo você vê nos Estados Unidos, por exemplo, que a juventude hoje americana é fortemente anti-Israel. Era fortemente anti-guerra, pelo menos uma parte importante, os maiores atos de mobilização foram contra a guerra do Irã. Antigamente não era assim. Hoje tem alguma mudança em curso e aqui no Brasil você nota alguma coisa? Esse debate geopolítico pode atrair a juventude? O que você acha?

Elias: Eu acho que a nossa experiência da pré-campanha, voltando a ela novamente, uma das características da pré-campanha nossa é a mobilização da juventude. Por quê? Porque o que a juventude quer? Quer ouvir falar em esperança e futuro. A juventude não quer debater pauta de costumes, pauta de valores, pauta de moralidade, não quer mais saber disso. A exceção é uma parcela mínima da classe média que se interessa por isso, é legítimo. Mas o grosso da juventude quer ouvir falar em quê? Em esperança e futuro.

Quando eu falo, por exemplo, dos jovens, óbvio, você só vai ter futuro quando o Brasil se reindustrializar, porque você vai ter a chance de entrar para a universidade, sair de lá com um emprego que pague três, quatro, cinco salários mínimos. O futuro brilha. Isso é o que está atraindo, por exemplo, os jovens para a nossa pré-campanha. Porque estamos falando em esperança, futuro, reindustrialização, possibilidades de futuro para a juventude.

Esse debate do antissionismo não chegou aqui ainda, infelizmente. Eu tenho dito, por exemplo, eu tenho puxado um veio mais radical do antissionismo, que é deixar muito claro o seguinte, para chamar atenção mesmo: o nazismo está para a Alemanha assim como o sionismo está para Israel. E o imperialismo estadunidense mais o sionismo se converte, hoje em dia, no nazismo do século XXI. Nós estamos diante de um novo nazismo no mundo, que é a aliança entre Estados Unidos e Israel, cometendo crimes de guerra, 10, 15 crimes de guerra por dia.

Eu tenho que ficar nesse lado também, mas o que chama a juventude hoje, para me ouvir e querer se interessar pelo que eu falo, é falar em emprego, falar em futuro, falar em esperança. Porque é isso que pega mesmo, né, Miguel? Os Estados Unidos, a juventude lá, ainda está um pouquinho melhor do que aqui. Aqui as pessoas têm que pensar no emprego, e a reindustrialização é fundamental.

Miguel: Para a gente fechar aqui, Rio de Janeiro. A gente está aqui no Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro sofreu um processo de destruição avassalador, devastador, foi quase como se tivesse uma desindustrialização forçada. A gente estava passando por processos de industrialização não muito grandes, mas tinha a construção da refinaria, a construção da indústria siderúrgica, esse tipo de processos, e tudo acabou. De repente o Rio de Janeiro sofreu um processo brutal, que a gente viu inclusive a Paraíba, que era um dos estados mais pobres, nos ultrapassar. Agora a gente vê talvez uma janela, a gente possa se desenvolver, a gente tem petróleo. Como é que você vê um debate sobre o desenvolvimento no Rio de Janeiro?

Elias: Eu acho que já temos que assumir no Rio de Janeiro que o Rio passou por uma guerra econômica nos últimos 20 anos. A gente não assumir isso, ficar achando que o Rio é só as belezas naturais, que o Rio é os megaeventos, a gente não está sendo fiel à verdade. O Rio passou por uma guerra econômica.

Os dados sobre a queda do emprego industrial no Rio de Janeiro são assustadores. É típico de uma região que passou por uma sanção econômica, foi expulsa do SWIFT. É o Rio de Janeiro hoje. Eu acho que com a possibilidade de alguém que não seja um Bolsonaro ser eleito, e com o apoio do Lula, aqui no Rio de Janeiro ser eleito alguém alinhado, abre possibilidades para a retomada da discussão de um projeto para o Rio de Janeiro.

Eu falo isso: o Rio tem que ter um ramo ferroviário, Rio, Niterói, Baixada. Tem que ter dois centros industriais, no Norte Fluminense e no Sul Fluminense, com munições de defesa, com petróleo e gás. Existem soluções para o Rio de Janeiro. O Rio é a nossa grife, igual o Pelé, igual o futebol. O Rio é uma grife para o Brasil.

Inclusive, tenho dito também que uma das soluções para o Rio de Janeiro é elevar o nível de discussão. O que interessa para o Rio de Janeiro hoje é rediscutir o Pacto Federativo, discutir a dívida do Estado. Eu acho que o próximo governador vai ter que discutir com o Lula, que vai ser reeleito presidente, um novo Pacto Federativo. Essa é uma demanda de interesse de outros estados, inclusive.

A partir de um outro Pacto Federativo, nós podemos entregar uma solução para o Rio de Janeiro que passe pelo quê? Pelo Plano Marshall para o Rio de Janeiro. Um novo Plano Marshall para o Rio de Janeiro. Algo do tipo, porque não vejo solução para os problemas do Rio fora de investimentos de 1 trilhão de reais, 2 trilhões de reais. Sem isso não tem solução. Esse é o grau de contradição a que nós chegamos, e o grau de síntese para sair daí é um outro pacto, um pacto federativo, e o Plano Marshall para o Rio de Janeiro.

Eu fui conversar com o Marcelo Caetano e com a equipe dele, fui trabalhar lá no IPEA. Tem um complexo, porque tem a Angra 1, tem a Angra 2, a Angra 3, que já deveria ter sido terminada, tem petróleo, 80% do petróleo é produzido aqui no Rio de Janeiro, é um dos estados com as maiores universidades do país, e mesmo assim é tão atrasado.

Miguel: Última pergunta. Se você conseguir se eleger, quais são os seus primeiros projetos que você iria protocolar?

Elias: O primeiro projeto é a diferenciação entre capital nacional e capital estrangeiro. Os que falam em reindustrialização muitas vezes não tocam nesse ponto, que é fundamental. Tem que começar pelo bê-á-bá. Qualquer país que se industrializa tem que diferenciar capital nacional e capital estrangeiro. E na Constituição de 1988 existia essa diferenciação. O começo da nossa desindustrialização, ou seja, o aprofundamento dela, começa quando o Fernando Henrique acaba com essa diferenciação.

A primeira proposta vai ser mobilizar pessoas, cabeças, corações, mentes, para o projeto de lei que retome o texto original da Constituição de 1988 em relação ao papel do capital nacional e do capital estrangeiro. Acho que essa é uma das batalhas do primeiro mandato. É um mandato, não é uma subversão republicana.

Segundo é fazer uma discussão profunda sobre a meta de inflação no Brasil. Não somente pelo tamanho da meta, se é de 3, 4 ou 5%, mas sobre a sua temporalidade. É possível o Brasil ter metas de inflação não anualizadas. Subir a taxa de juros o tempo inteiro, porque existem preços que sobem e descem de forma muito imediata, e somente a taxa de juros poderia combater essa subida de preço. Se a temporalidade fosse de três anos, o próprio ciclo econômico pode absorver esse preço. A taxa de juros é algo necessário para combater uma alta de preços imediata. Nós temos que discutir essa questão das metas de inflação e da sua temporalidade.

Esse é o projeto que eu vou defender. Como deputado, você é o porta-voz, eu vou vocalizar esse tipo de desejo, esse tipo de anseio. Praticamente, eu vou ter sido escolhido pela militância, e essa é a minha missão.

Miguel: Ótimo. Obrigado, Elias.

Elias: Obrigado, querido.

Clique aqui para ler a transcrição integral da entrevista.

, ,
Apoie o Cafezinho

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

Mais matérias deste colunista
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário

Escreva seu comentário

Tadeu

29/04/2026

Tá, mas o que isso muda pra quem tá acompanhando o dólar todo dia? O mercado não liga pra discurso, liga pra taxa de juros lá fora. Essa discussão de alinhamento geopolítico é só ruído, o que importa é se o próximo governo vai segurar o fiscal ou não.

    Ana Rodrigues

    29/04/2026

    Tadeu, cê tem razão que o fiscal segura o dólar, mas quando o presidente fica de graça com os EUA, isso mexe com sanção, comércio e o preço da gasolina – e aí o ruído vira barulho no meu tanque e no meu bolso.

      Maria Antonia

      29/04/2026

      O barulho no seu tanque não vem da diplomacia, Ana – vem da mania estatal de intervir artificialmente no mercado de combustível. Deixe o livre mercado agir que o preço se ajusta sem bajular ninguém.

        João Martins

        29/04/2026

        Maria Antonia, poderia citar um exemplo concreto de país com dimensões continentais e monopólio de facto da Petrobras onde o “livre mercado” de combustíveis funcionou sem choques cambiais repassados ao consumidor? Os dados da ANP mostram que o preço na bomba acompanha o Brent e o dólar desde 2016, não a vontade de “bajular” governos.

Ana Paula Conserva

29/04/2026

Até parece que alinhamento com os EUA é o grande problema do Brasil. O que destrói a nação é a esquerda que ataca a família, quer liberar aborto e impor ideologia de gênero nas escolas. Antes um candidato que respeite valores cristãos do que esses que vivem lambendo bota de ditadura comunista.

    Diego Fernández

    29/04/2026

    Que papo é esse de “valores cristãos” pra esconder que tão abrindo as pernas pro mesmo império que afogou a Argentina com o FMI, bancou ditadura no Chile e até hoje suga a gente via dívida? O moralismo de boutique só serve pra disfarçar o velho entreguismo de sempre.

    João Carvalho

    29/04/2026

    Isso aí, Ana Paula. A esquerda quer ditar como a gente cria os filhos, mas os dois lados lambem bota de alguém, só muda o patrão. O que me quebra mesmo é a corrupção comendo meu salário enquanto esses políticos trocam de discurso conforme a conveniência.

Maria Silva

29/04/2026

Sinceramente, essa declaração me preocupa. O Brasil precisa de relações equilibradas com todos, não de um alinhamento automático que pode comprometer nossa soberania. Mais uma vez, parece que estamos indo de um extremo ao outro, sem pensar no que é melhor para a nossa gente.

    Mariana Ambiental

    29/04/2026

    Maria, esse papo de “relações equilibradas” é a senha pra manter o Brasil como quintal dos EUA e celeiro do agronegócio predatório. Soberania não se constrói com equidistância de boutique, se constrói rompendo com o imperialismo e com o latifúndio exportador.

    Ronaldo Pereira

    29/04/2026

    Maria, equilíbrio com os Estados Unidos, na prática, significa entregar nosso pré-sal, nossas estatais e os empregos da nossa gente para os patrões de sempre. Isso não é extremo, é traição de classe pura e simples.

Carlos Mendes

29/04/2026

Jabbour e sua turma adoram rotular os outros, mas se esquecem de que foi sob a batuta do PCdoB e aliados que o Brasil atingiu recordes de corrupção e ineficiência estatal. O problema nunca foi ter boa relação com os EUA; o problema é um governo que sangra o contribuinte e se ajoelha a qualquer potência, seja Washington ou Pequim, enquanto a economia afunda. Menos ideologia e mais respeito ao livre mercado, que é o único capaz de gerar riqueza sem aparelhamento político.

    Cecília Ramos

    29/04/2026

    O livre mercado que você exalta sangra muito mais o povo pobre, Carlos. Minha fé me ensina que justiça social não é ideologia, é mandamento — e o Estado tem o dever de proteger os vulneráveis, não servir a potências ou ao deus mercado.

      João Pereira

      29/04/2026

      Cecília, concordo que o fundamentalismo de mercado sangra os pobres, mas o Estado que às vezes se apresenta como salvador também sangra quando serve a corporações ou a projetos de poder que se alimentam da miséria. Talvez o verdadeiro mandamento seja manter o senso crítico diante de qualquer altar, seja o do deus mercado ou o do deus Estado.

        Sandra Martins

        29/04/2026

        João, faz sentido esse cuidado com qualquer altar terreno, porque o poder, seja do mercado ou do Estado, costuma se absolutizar e esquecer quem está embaixo. Mas é aí que minha fé me lembra que lugar de absoluto é só de Deus mesmo — todo o resto, por mais que prometa salvação, precisa ser olhado com desconfiança e coração quebrantado.

Renata Oliveira

29/04/2026

É preocupante quando candidatos se alinham automaticamente a qualquer potência estrangeira, seja ela qual for. O Brasil precisa de líderes que priorizem os interesses nacionais com base em valores cristãos, como honestidade e respeito ao próximo, sem se vender a ninguém. Critico tanto quem demoniza os EUA quanto quem os trata como salvadores da pátria, pois ambos erram ao colocar ideologia acima do diálogo e do bom senso.

    Eduardo Teixeira

    29/04/2026

    Renata, o verdadeiro interesse nacional se mede em menos impostos, menos burocracia e mais liberdade para empreender. Esse debate sobre alinhamento automático é cortina de fumaça enquanto o Estado segue pesando no bolso de quem produz.

    Carlos Rocha

    29/04/2026

    Renata, sua equidistância moral é um luxo que o investidor não tem: alinhamento com os EUA não é ideologia, é pragmatismo econômico que gera empregos, enquanto se manter “neutro” só alimenta a máquina estatal e a carga tributária.

Luciana Costa

29/04/2026

O problema não é ter relação com os EUA, é abrir mão da autonomia estratégica. Já vimos governos de esquerda e de direita errarem ao achar que alinhamento automático resolve alguma coisa. Falta um projeto nacional que equilibre interesses externos com desenvolvimento interno, sem subserviência nem isolamento ideológico.

    Evelyn Olavo

    29/04/2026

    Interessante sua defesa de autonomia, mas parece não entender que, como avisou Olavo, sem alinhamento total aos EUA seremos um protetorado chinês. Além disso, ignorar que os ciclos geopolíticos são ditados por conjunções planetárias é ingenuidade estratégica.

    Beatriz Lima

    29/04/2026

    Luciana, seu comentário tem a elegância de um consenso de mesa de bar bem iluminada: difícil discordar no atacado, mas quando a gente começa a esmiuçar os termos, tudo se desmancha em platitudes. Você fala em “autonomia estratégica” como se fosse um conceito claro, um ponto de chegada óbvio que todos, menos os tolos ideológicos, conseguem enxergar. Mas eu pergunto, com toda a sinceridade de quem já leu muito plano de governo que prometia “soberania nacional” e terminou em desastre cambial: o que exatamente significa autonomia estratégica em um país cuja elite econômica chora sangue toda vez que o spread bancário é mencionado e cuja inserção internacional sempre dependeu, historicamente, de exportar commodities para quem paga em moeda forte? A gente adora jogar essa expressão na arena como se fosse um fetiche retórico, mas raramente vem acompanhada de métricas concretas. Autonomia para fazer o quê, exatamente? Para financiar desenvolvimento com taxa de juros de agiota? Para sustentar uma política externa independente enquanto metade do Congresso barganha cargos com a embaixada americana? Me dê exemplos operacionais, não desejos abstratos.

    E veja, não estou defendendo alinhamento automático com os Estados Unidos — longe de mim, que considero Washington tão confiável quanto uma promessa de campanha. Mas me divirta: quando você diz que “já vimos governos de esquerda e de direita errarem”, parece sugerir que há um ponto de equilíbrio óbvio que ninguém, por incompetência ou malandragem, conseguiu alcançar. Isso soa como o mito do “bom governante” que nunca existiu. Talvez o problema não seja falta de projeto nacional, mas o fato de que qualquer projeto nacional minimamente sério esbarra em constrangimentos estruturais que nem a esquerda mais aguerrida nem a direita mais entreguista conseguiram superar: dependência tecnológica, fragilidade fiscal, desigualdade profunda e uma burguesia interna que prefere arbitrar no mercado financeiro a investir em indústria. Você cita “desenvolvimento interno”, mas isso exige capital, e capital, no Brasil, tem pavor de risco e adora um título público. Então como equilibrar interesses externos sem, em algum momento, fazer concessões que o discurso purista chamaria de subserviência?

    Sua formulação também tem um quê de nostalgia de um projeto nacional que talvez nunca tenha existido senão como retórica. O desenvolvimentismo da era Vargas e JK, frequentemente romantizado, dependeu de alinhamentos geopolíticos muito concretos — no caso, oscilações pragmáticas entre Washington e Berlim/Roma no pré-guerra, e depois um alinhamento inequívoco com os EUA na Guerra Fria que nos rendeu investimentos em siderurgia e infraestrutura. A “autonomia” era relativa, negociada, e frequentemente comprada com apoio a intervenções americanas na OEA. Não existiu nunca pureza. Então quando você critica o “alinhamento automático”, eu concordo em tese, mas pergunto: qual o limiar entre pragmatismo e subserviência? Se o candidato em questão negocia tarifas, tecnologia ou investimentos em troca de apoio em fóruns multilaterais, isso automaticamente liquida a autonomia? Ou a gente só chama de subserviência quando o sujeito que faz a negociação não é do nosso clube ideológico?

    Por fim, acho curioso como a palavra “isolamento ideológico” aparece no seu comentário quase como um espantalho equivalente à subserviência, como se fossem dois extremos igualmente danosos. Mas me diga, Luciana: quando foi que o Brasil esteve realmente isolado ideologicamente? Nem o governo Lula mais ativista em política externa, com suas alianças sul-sul e tentativas de mediação em conflitos, se isolou — pelo contrário, ampliou relações comerciais com dezenas de países enquanto mantinha diálogo com Washington. O isolamento é um bicho-papão usado para deslegitimar qualquer ensaio de política externa não alinhada automaticamente ao Ocidente. Seu argumento termina num apelo à moderação que soa sofisticado, mas carece de conteúdo operacional: quer um projeto nacional que equilibre tudo, mas não define o que sacrificar quando os interesses internos colidirem frontalmente com os externos — e essa colisão é a regra, não a exceção. Enquanto seguirmos debatendo em termos de “equilíbrio” sem enfrentar as escolhas trágicas que a política externa real impõe, o tal projeto nacional continuará sendo uma miragem confortável para discursos de quem não precisa decidir coisa alguma.

      Gabriel Teen

      29/04/2026

      Caralho Beatriz, textão da porra, nem li e já tô com sono, vai militar na fila do INSS.

Mateus Silva

29/04/2026

O diagnóstico de Jabbour é preciso mas incompleto. A subordinação voluntária aos EUA não é novidade histórica — é a atualização da velha dependência que Florestan já denunciava, agora sem disfarce de soberania. Como Gramsci nos lembra, hegemonia se constrói com consentimento, e esse candidato apenas escancara o que as classes dominantes brasileiras sempre desejaram.

    Cecília Silva

    29/04/2026

    Você falou tudo, Mateus. Mas para nós, na favela, essa entrega ao Império não é só teoria — é mais dia de vala, mais placa de caveirão, mais bala perdida com selo made in USA.

      Jeferson da Silva

      29/04/2026

      Cecília, essa bala com selo made in USA que cai na favela é a mesma política que arromba a porta da fábrica e rasga a CLT. O sangue que escorre no asfalto e a dignidade que escorre na linha de produção vêm do mesmo projeto de entregar o trabalhador de joelhos ao capital deles.


Leia mais

Recentes

Recentes