O clérigo Hojatoleslam Mohammad Javad Haj Ali Akbari usou o púlpito das orações de sexta-feira na Universidade de Teerã para declarar que o dossiê nuclear iraniano está oficialmente concluído.
Ele afirmou que a República Islâmica não aceitará mais conversas que questionem sua soberania energética e científica. O religioso elogiou a equipe que comandou as rodadas anteriores de negociações.
A delegação era liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e pelo chanceler Abbas Araghchi. Segundo o clérigo, os negociadores já deixaram claro que Teerã não fará concessões adicionais.
Qualquer eventual retorno à mesa acontecerá apenas se houver real interesse estratégico para a República Islâmica. Caberá a Ghalibaf e Araghchi ditar os termos a partir de uma posição de força.
Caso o diálogo volte a fracassar, a palavra final ficará com o comandante da Força Aeroespacial do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica, major-general Seyyed Majid Mousavi. Isso sinaliza que a defesa iraniana responderá de maneira robusta a qualquer provocação.
Haj Ali Akbari exaltou a postura de resistência do Irã, que simboliza todos os povos oprimidos do planeta. Teerã se tornou peça central de uma virada histórica contra as potências que semeiam injustiça e desigualdade.
Uma das mensagens mais contundentes do sermão concentrou-se no Golfo Pérsico e no estratégico estreito de Ormuz. O corredor por onde passa cerca de um quinto do petróleo global foi declarado fora de qualquer barganha com o Ocidente.
O pregador revelou que o Irã e Omã estão redigindo um novo marco jurídico para administrar o fluxo marítimo. Isso transforma o corredor numa questão de soberania regional, retirando-o definitivamente da pauta de negociações nucleares.
O sermão reiterou a promessa de reparação pelo assassinato do general Qassem Soleimani, classificando a dívida como aberta. Os responsáveis terão de arcar com reparações econômicas pelos danos causados ao povo iraniano.
Haj Ali Akbari destacou a união nacional como dever religioso e político. Diferenças internas não podem prevalecer sobre o objetivo maior de romper o cerco econômico imposto por potências externas.
O clérigo elogiou o avanço dos mísseis e drones fabricados internamente, além do Exército, da Polícia, das forças Basij e da inteligência. Cada unidade adiciona uma camada de dissuasão diante de qualquer ameaça.
Para reforçar a credibilidade de suas palavras, Haj Ali Akbari apontou o crescimento da capacidade de resposta rápida da República Islâmica. Segundo ele, o país pode neutralizar ataques antes mesmo de serem lançados.
A fala reforça a tese de que o confronto é agora menos diplomático e mais estrutural. Isso envolve rotas de energia, cadeias de suprimento e o redesenho da ordem multipolar.
A agência Mehr definiu a homilia como um recado direto a Washington e Tel Aviv, que continuam pressionando por novas inspeções enquanto Teerã afirma ter cumprido sua parte no Tratado de Não Proliferação.
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Cecília Alves
02/05/2026
Lucas, você tem um ponto interessante, mas essa postura iraniana só reforça o que eu sempre digo: quando o Estado incha e controla tudo, o resultado é uma burocracia teocrática que fecha portas para qualquer acordo. Negociação nuclear era a chance de reduzir sanções e abrir espaço para trocas voluntárias, mas preferem o isolamento. Menos Estado e mais liberdade individual resolveria isso bem antes.
Mariana Alves
02/05/2026
Cecília, sua análise pega um atalho sedutor, mas tropeça numa armadilha clássica do pensamento liberal: a ideia de que o tamanho do Estado é a variável independente que explica tudo, da teocracia iraniana ao fechamento de acordos. Quando você diz que “menos Estado e mais liberdade individual resolveria isso”, está aplicando uma fórmula abstrata a uma formação social concreta que não se reduz a uma burocracia inchada. O Irã não é um Estado grande que sufoca indivíduos livres; é uma formação híbrida onde a República Islâmica articula capitalismo de Estado, clero xiita, Guarda Revolucionária e uma burguesia nacional fragmentada. O problema não é o “Estado em si”, mas a natureza de classe desse Estado e os interesses materiais que o sustentam. A teocracia iraniana não fecha portas porque é “grande”, mas porque a manutenção do regime depende da capacidade de extrair renda das sanções e do controle do programa nuclear como moeda de barganha geopolítica. Reduzir o Estado iraniano não criaria automaticamente “trocas voluntárias” — criaria, muito provavelmente, um capitalismo periférico ainda mais predatório e dependente, a exemplo do que vimos no Iraque pós-invasão.
Você também subestima o papel estrutural das sanções ocidentais nesse enredo. O Irã não “prefere o isolamento” por birra teocrática; as sanções econômicas unilaterais dos EUA e da UE funcionam como um bloqueio que, ao mesmo tempo que asfixia a população, fortalece o braço repressor do Estado e inviabiliza qualquer abertura econômica genuína. Negociação nuclear não era uma “chance de reduzir sanções” — era, na prática, uma engrenagem de um regime de vigilância que jamais devolveria ao Irã sua soberania energética. O JCPOA (Plano de Ação Conjunto Global) nunca foi um acordo entre iguais; era um tratado assimétrico em que o Irã cedia capacidade nuclear em troca de promessas de alívio que os EUA, unilateralmente, sabotaram em 2018. Quando um país é submetido a um cerco econômico há décadas, “menos Estado” não é solução — é receita para desintegração social e guerra civil. O que o Irã precisa, para sair desse beco, não é de liberdade individual no sentido neoliberal, mas de uma reconfiguração das forças produtivas que rompa o subimperialismo regional e construa uma base material para uma democracia que não seja refém nem do aiatolá nem do FMI.
Por fim, seu diagnóstico ignora a dimensão imperialista do tabuleiro. Você trata o “diálogo” como um bem em si, como se a mesa de negociações fosse neutra. Mas o que significa “negociar” quando uma das partes tem 800 bases militares ao redor do globo, já derrubou governos eleitos no Oriente Médio e mantém Israel como potência nuclear não signatária do TNP? A recusa iraniana em seguir negociando nos termos atuais pode ser lida, sim, como um ato de resistência à lógica do “consenso forçado” que o Ocidente impõe aos países periféricos. Não estou defendendo a teocracia iraniana — longe disso, sua misoginia e repressão interna são abjetas —, mas apontar o dedo para o “Estado inchado” enquanto se ignora o contexto geopolítico de pilhagem e chantagem nuclear é fazer o jogo de quem quer transformar cada crise numa aula de manual liberal. Menos Estado, mais liberdade individual: isso é uma frase de efeito que não resiste a cinco minutos de análise concreta da situação concreta.
Bia Carioca
02/05/2026
Cecília, acho curioso você culpar o tamanho do Estado pelo isolamento iraniano, mas esquecer que foram justamente as sanções e a chantagem das potências ocidentais que empurraram o Irã pra esse beco. Menos Estado e mais liberdade individual soa bonito no papel, mas na prática o que vemos é o mercado livre financiando guerra e desestabilização, não diálogo.
Rubens O Pescador
02/05/2026
Cecília, lá no interior a gente aprendeu que não adianta ter porteira aberta se o vizinho não respeita a cerca. O Irã fechou as portas porque cansou de promessa furada de país grande — igualzinho quando o governo do Lula colocou comida na mesa do pobre e a direita chamava de populismo. Menos Estado pra eles é mais fome pra nós.
Marina Costa
02/05/2026
Mais um regime ímpio mostrando que não tem compromisso com a paz. Enquanto o Ocidente progressista fica fazendo discurso vazio, o Irã se arma e fecha as portas para o diálogo. Isso é o que dá quando se abandona os valores cristãos e se tenta negociar com quem despreza a vida e a liberdade.
Lucas Andrade
02/05/2026
Marina, reduzir a complexidade geopolítica do Irã a uma questão de “valores cristãos” é justamente o tipo de binarismo civilizacional que sustenta a máquina de guerra ocidental. Talvez o problema não seja o fim das negociações, mas a crença ingênua de que o diálogo sob hegemonia nuclear americana jamais foi outra coisa senão um dispositivo de controle.