Ainda Messias, fogo amigo, o “esgotamento do Lulismo” e as eleições de 2026
Por Uirá Azevêdo* e Rogerio Dultra**
Passada mais de uma semana da votação no plenário do Senado que rejeitou o nome de Jorge Messias para o STF, é importante repassar algumas das percepções que circularam sobre esse episódio em termos de leitura e avaliação da conjuntura política atual, do exercício de projeção dela para as eleições deste ano e para o futuro do projeto social encarnado pelos governos Lula.
O evento da sabatina foi, desde o anúncio do nome ainda em novembro, um teste coletivo: cada lado esperava um resultado para cravar sua posição e confirmar o que já queria dizer. A votação em si foi o ponto culminante de uma tensão acumulada por cinco meses.
O contexto que girou em torno dela, entre o anúncio do nome, a espera da reação política até o efetivo envio da comunicação ao Senado, a marcação da data para sabatina e votação no pleno, transformou essa votação específica numa espécie de símbolo político, uma antecipação das urnas de outubro próximo que selaria o destino da reeleição de Lula.
Concretizada a derrota, o fato de que uma rejeição ao nome indicado pelo Presidente não acontecia desde 1894 pintou tudo com um verniz de tragédia histórica. Deu combustível para uma série de explicações e acusações no mínimo precipitadas.
Colocando isso por enquanto de lado, o que o episódio também fez sentir no campo das esquerdas foi que, em meados de 2026, ainda pairam sobre nós não só o espectro, mas também as consequências do golpe de 2016.
Ficou claro que a subsequente ascensão da extrema direita no Brasil em 2018 e a tentativa de golpe de 08 de janeiro de 2023 manifestam sua influência e herança no Congresso Nacional nos dias que correm.
Entretanto, a conjuntura atual traz uma novidade “sistêmica”: a desidratação da crença generalizada na capacidade política de reação do Poder Executivo em oposição direta à ampliação da força política e orçamentária do Congresso.
O cenário atual, reforçado pelos eventos da última semana no Senado e pelo inédito empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em diversos levantamentos no mês de abril do ano eleitoral, sugere um caminho desafiador para a reeleição do atual presidente e aponta para uma ameaça real às instituições da República de 1988.
Por outro lado, o projeto de oposição navega agora sem o trunfo da novidade do candidato “antissistema”, como foi Jair Bolsonaro. E, dadas as manifestas fragilidades do atual candidato do PL, perdura a ameaça de uma desconstrução sem precedentes de sua biografia durante a campanha.
Mas aqui, partimos da premissa de que o jogo da sucessão está submetido ao descomunal acúmulo de forças da extrema direita no Congresso – com a evidente aproximação do centrão às suas hostes. Consideramos também que, desde 2002 – ou seja, há um quarto de século -, o PT só perdeu uma eleição, em 2018, pelo “simples” fato de Lula ter sido retirado da campanha à força.
Vamos nos deter um pouco nestes movimentos da história política do país, a fim de construir um quadro que jogue luzes sobre os acontecimentos recentes e sobre as eleições vindouras.
O “esgotamento do Lulismo”
O “Lulismo”, categoria analítica criada pelo cientista político André Singer em artigos e livros importantes no debate da conjuntura brasileira, aponta características estruturais do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores, especialmente a partir de 2002.
Como se sabe, a primeira eleição de Lula operou uma alteração em sua postura histórica comparativamente à do PT (de enfrentamento ideológico esquerda x direita ou “reformismo forte”) na direção de um projeto de redução da pobreza sem enfrentamento da ordem econômica vigente (mudança social em conciliação com o capital ou “reformismo fraco”).
Estes movimentos – que para Singer não significam apenas uma estratégia pragmática, mas uma mudança ideológica – paradoxalmente afastaram as classes médias do projeto lulista a partir de 2006, mas promoveram um avizinhamento de Lula e do seu novo governo às classes populares.
O Estado brasileiro, sob Lula, nas palavras de Luiz Werneck Vianna, operou uma revolução passiva: incorporou, sob seu guarda-chuva, diversos interesses sociais, promovendo mudança e inclusão, mas evitando o conflito.
Ainda seguindo as pistas de Singer, os pactos orquestrados pelo lulismo original entraram em crise com a tentativa de Dilma Rousseff de aprofundar o tal do “reformismo forte”.
Com um “ensaio desenvolvimentista”, o enfrentamento do capital financeiro (juros baixos e intervencionismo, especialmente no primeiro governo) e o rompimento com o PMDB, Dilma caminhou paulatinamente para o cadafalso.
Sem a base organizada de uma mobilização popular preparada para o conflito e em rota de colisão com o sistema político e econômico, a crise que levou ao seu impeachment foi praticamente inevitável.
A aparição da Lava-Jato – como uma nova manifestação de lawfare depois do insucesso político do golpe judicial do mensalão – foi a cereja do bolo que fez o bonde andar a partir dali.
O antipetismo e o antilulismo, amplificados pelos meios de comunicação de massa, pela oposição declarada de Eduardo Cunha – então Presidente da Câmara de Deputados – e pelas pautas-bomba, impediram a governabilidade de Dilma em seu segundo mandato e embalaram o nascimento do extremismo de cariz fascista.
Como se sabe, Lula não somente sobreviveu ao golpe de 2016, ao golpe de sua prisão por Sergio Moro e Deltan Dallagnol em 2018 (com o TRF4, “com o STF, com tudo”), mas voltou Presidente da República e encontrou um cenário menos propício para a sua política de conciliação de classes.
A estratégia geral de conciliação sofreu um deslocamento, visto que o congresso estava ainda mais fragmentado e à direita. A base social do lulismo, antes relativamente indisputada, tomou novo rumo com a simbiose entre setores do pentecostalismo religioso e a extrema-direita.
Sob novo contexto, Lula negociou com o Congresso, mas com a corda esticada, o que o tornou mais indisposto a grandes concessões.
A derrota na indicação de Jorge Messias para o STF e os sucessivos enfrentamentos sofridos pelo governo no Congresso Nacional não dizem respeito apenas ao quadro eleitoral inaugurado pela extrema-direita, mas à dúvida sobre se (e a defesa de que) o lulismo não teria mais lugar como cenário e aposta política para um projeto de poder da esquerda brasileira.
Lula 3 se apresentou, assim, mais calejado, menos beneplácito, tratou as emendas ao orçamento na ponta da faca (com uma ajuda ambivalente de Dino e do STF), demitiu indicados e trocou ministérios do centro quando as votações não seguiram os acordos. Também não indicou ministros do STF palatáveis e voltou a fortalecer a autonomia da PF para operações politicamente incômodas, por exemplo.
Nesse sentido, por suas premissas analíticas, talvez o próprio André Singer teria dificuldade de qualificar Lula 3 exatamente como “lulista”, pelo menos não com a mesma régua de Lula 1 e Lula 2.
Messias, Jaques Wagner e a política de conciliação
Uma das críticas mais recorrentes na última semana foi dirigida ao Senador Jaques Wagner, líder do governo do Senado. Wagner foi acusado de ser o epítome, a síntese e o símbolo do esgotamento da política de conciliação, especialmente quando diante de uma enxurrada acachapante de “traições” e de sucessivas derrotas no Senado.
Parte dessa crítica, aliás, veio de dentro do próprio campo progressista. Pouca gente chamou a atenção para o fato de que setores da esquerda também torceram os narizes para o nome de Messias quando escolhido por Lula em novembro passado.
Muitos movimentos queriam poder reivindicar para si a prerrogativa de indicar um nome, cobrar de Lula esse direito quase natural, de ter uma ministra do Supremo para chamar de sua. Os movimentos feminista e racial, especialmente, tinham expectativas (legítimas) que foram frustradas.
Com a derrota de Messias, parte da esquerda sentiu meio que um alívio. “Eu te disse”, “eu avisei”, “você não me obedeceu”. A derrota foi quase celebrada como confirmação, com muita gente querendo se vingar um pouco de Lula pelo pecado de não ter obedecido às listas de nomes que surgem nas colunas, nos grupos de whatsapp, nas redes sociais, nas vozes dos movimentos populares.
Mas há algo mais aí do que erro de análise. Responsabilizar o governo pela derrota que eles mesmos sofreram, tem nome: transferência de culpa, projeção ou proteção de autoestima. A angústia de ter perdido precisa de um culpado imediato, e o culpado mais cômodo é sempre aquele que estava mais à vista.
Essa leitura, porém, ofusca o verdadeiro alvo. Invisibiliza a direita como agente real da derrota e distribui culpa onde não há causa. É uma análise que, no limite, faz pela oposição um trabalho que é melhor deixar apenas com ela.
A impressão que temos é que este ataque parte de uma avaliação superficial e até perversa do personagem e do ocorrido. Não só porque Wagner sempre se caracterizou pela postura conciliadora, não sendo nenhuma surpresa seu entendimento de que derrotas devem ser encaradas de forma pragmática. Mas porque o Senador baiano teve uma atitude explícita de promover constrangimento a Alcolumbre, ficando na sua frente como que a cobrar um compromisso rompido e forçando um abraço, mal interpretado depois.
Na nossa perspectiva, o “problema” de Jaques Wagner não deriva dele representar a política de conciliação do lulismo – visto que o governo tem feito enfrentamentos no processo legislativo quando necessário e inclusive sofrendo derrotas (a base do governo no Senado, ao não “conciliar” na votação da anistia aos golpistas, é o exemplo cabal de que o enfrentamento é a opção tática em relação à extrema-direita).
Assim, esta superexposição da figura do líder do Senado à execração pública pode ser explicada de forma muito mais consistente pelo fato dele ser um “anteparo” político de Lula, ou pela simples hipótese de “fogo amigo”. Parta-se do fato, por exemplo, de que Wagner não está sob a zona de influência do PT de São Paulo e que este – e sua fome de influência política e de controle do processo – já fez anteriormente movimentos semelhantes.
A alternativa a Wagner na liderança do governo no Senado seria alguém para fazer enfrentamento direto a Alcolumbre? É essa a tática de superação da política de conciliação? No momento em que estamos, a cinco meses das eleições, não parece fazer sentido algum.
Ou até faz sentido: o requentar da velha estória da “necessidade de autocrítica do PT”. Aparentemente setores progressistas não somente internalizaram como gostaram desta narrativa “Globonews”. Passamos a fazer o trabalho deles.
A crítica a Wagner é sintomática, mas a explicação da derrota de Messias está em outro lugar.
O caso Messias e o STF
É preciso lembrar que a vaga em questão não estava prevista. Barroso antecipou sua aposentadoria; algo que não era esperado. Algumas análises apontam que para Alcolumbre, o bônus que caiu no colo de Lula era, na sua leitura, uma vaga “do Congresso”, como as do TCU, onde o legislativo tem “quota”. Como queria Rodrigo Pacheco, nome que Lula defendia e defende para ser candidato ao governo em MG, Alcolumbre se vingou ao se considerar preterido.
Esse jogo de vaidades institucionais, porém, foi frequentemente apagado pela crítica de que Messias teria caído por ser ‘mais uma’ indicação pessoal de Lula.
Diga-se, para efeitos de registro, que historicamente as indicações do PT ao STF em geral não se caracterizaram pela questão pessoal (Carmen Lúcia, Edson Fachin, Luiz Fux, Joaquim Barbosa, Luís Roberto Barroso e Ricardo Lewandowski e, mais recentemente, Flávio Dino).
As exceções seriam Dias Toffoli (ex-advogado do PT), Christiano Zanin (ex-advogado de Lula) e o próprio Messias (AGU durante os governos do PT). A questão, apesar das exceções, nos parece ser de outro jaez e é mais grave e profunda.
Por um lado, a indicação de perfis capazes de garantir em abstrato as políticas de governo, é uma recorrência para qualquer Presidente. A Constituição assim autoriza e foi assim concebida. Não à toa, André Mendonça e Nunes Marques estão aí para provar que cada mandatário, com os votos que tem, indica como acha mais aderente ao momento político do país.
De outro lado, o escândalo do Banco Master, que reverbera não somente em figuras políticas da extrema-direita, mas em Ministros do STF (especialmente em Dias Toffoli e Alexandre de Moraes), trouxe farto combustível para as críticas ao próprio Supremo enquanto instituição.
Criticado pelo excesso de ativismo judicial – leia-se: o caráter político de sua operação -, o Supremo Tribunal Federal lida agora com acusações de proximidade indevida com o poder econômico e suas implicações e influências nas decisões jurídicas de determinados Ministros.
O projeto político autoritário, encampado como horizonte de sentido da extrema-direita e seus representantes, como é o caso do pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, não convive com a possibilidade de controle institucional organizado.
O próprio governo Bolsonaro escancarou seus alvos de forma expressa: os diferentes (negros, pobres, quilombolas, indígenas, população LGBTQIAP+, as esquerdas etc) como inimigos sociais e as instituições, em especial o STF (que foi corporificado retoricamente na pessoa de Moraes), como inimigos políticos.
Este projeto continua ativo e, a partir de uma articulação global, tem se institucionalizado como plataforma absorvida e encampada pela direita tradicional.
Portanto, a reprovação de Messias para o STF diz mais sobre as estratégias corporativas do congresso e do seu envolvimento com o escândalo do Banco Master do que propriamente das escolhas “pessoais” do Presidente da República.
Caminhos para 2026: o “lulismo” precisa de outro nome?
É preciso construir uma postura de enfrentamento ideológico de fundo à extrema-direita. Não somente no congresso e na construção de um verdadeiro projeto alternativo, que recupere a compreensão de que o capital precisa ser institucionalizado e subordinado ao povo (como é o caso da proposta da derrota da escala 6×1 no Congresso, por exemplo).
Esse projeto alternativo precisa enfrentar o que a narrativa da falsa simetria esconde: a luta não é entre sistema e antissistema, mas pela cultura política de enfrentamento à falta de projeto da extrema-direita.
Escala 5×2, justiça tributária, enfrentamento à plataformização do trabalho, regulação e taxação de bigtechs e fintechs, soberania, enfrentamento ao desenvolvimento predatório, criação do sistema nacional de segurança pública para enfrentamento ao crime organizado, aumento real do salário mínimo, moradia, fortalecimento do SUS, luta contra evasão escolar e universitária. Nenhuma dessas pautas cabe na moldura ‘todos são iguais’. São elas, e não só a disputa por cargos, o verdadeiro campo da luta por uma cultura política igualitária e inclusiva.
Um projeto de aprofundamento dos princípios, com estratégia e tática, superando não só o “reformismo fraco” do Lulismo, mas o “reformismo forte” do antigo PT nos parece o caminho.
O enfrentamento ideológico deve ser construído também nas ruas, onde o PT e Lula têm espaço para crescer.
Este itinerário deve, em 2026, ser feito com Lula.
Não há espaço nem tempo para Lula construir sucessor neste momento já para 2026.
Para bem dizer, Lula já vem fazendo isto desde o sucesso de Fernando Haddad no Ministério da Educação, antes, e no Ministério da Fazenda, agora. Há também outras boas lideranças no mesmo espectro político, como Guilherme Boulos e o próprio Flávio Dino (não seria a primeira vez que ele trocaria a toga por mandato eleitoral).
Mas Haddad, apesar de suas qualidades, ainda não rompeu definitivamente com a representação imagética de um quadro técnico, acadêmico e elitista, uma espécie de “FHC do PT”.
Hoje, é Lula quem o Brasil profundo identifica como seu representante, como representante de uma esperança sem romantismo. É Lula que se comunica com o povo como ninguém. E é apoiando ele que devemos fazer esta nova e turbulenta travessia.
* Uirá é professor de Teoria e Filosofia do Direito na Universidade do Estado da Bahia – UNEB.
** Rogerio é professor de Teoria do Estado e História Constitucional Brasileira da Universidade Federal Fluminense – UFF.


João Carvalho
10/05/2026
A rejeição de Messias ao STF escancara mais uma fissura na já desgastada coalizão lulista. O “fogo amigo” não é um acidente de percurso, mas sintoma do esgotamento de um modelo político que tentou conciliar o inconciliável: o desenvolvimentismo com a ortodoxia fiscal. Sem uma refundação programática e uma base social renovada, 2026 será o velório desse ciclo, não sua ressurreição.
Cecília Torres
10/05/2026
João, sua análise é precisa, mas falta um dado: o “fogo amigo” sempre existiu na política brasileira, o que muda é que agora a direita aprendeu a capitalizar essas fissuras com uma eficiência narrativa que a esquerda ainda não alcançou. O esgotamento não é do lulismo em si, mas da incapacidade de renovar o discurso sem abandonar a base.
Célia Carmo
10/05/2026
Cecília, #menas, falou bonito mas esqueceu que a esquerda não precisa de “narrativa” precisa de pão e terra, tchau!
Caio Vieira
10/05/2026
Caro Uirá e Rogério, permitam-me saudá-los pela arguta análise que nos oferecem, ainda que eu discorde de alguns pressupostos que, a meu ver, padecem de um certo economicismo de curto prazo. A rejeição do nome de Jorge Messias ao STF, longe de ser um mero “fogo amigo” ou um sintoma de esgotamento do lulismo, parece-me um capítulo da luta de classes no campo jurídico, onde a hegemonia burguesa busca cerrar fileiras contra qualquer tentativa de oxigenação do direito com perspectivas populares. O lulismo, enquanto fenômeno de conciliação de classes, sempre operou na tensão entre a incorporação subalterna das demandas populares e a manutenção dos pilares do capitalismo dependente. O que vemos agora não é o seu esgotamento, mas a exacerbação das contradições que lhe são imanentes, num cenário de crise orgânica do Estado brasileiro.
A noção de “esgotamento do lulismo” me soa, com a devida vênia, como uma categoria apressada, típica de análises que confundem a tática com a estratégia. O lulismo, como nos ensina a melhor tradição gramsciana, é um bloco histórico em disputa, não uma fórmula estática. Se a burguesia interna e o capital financeiro, através de seus representantes no Senado, rejeitam um nome indicado por Lula, isso não significa que a hegemonia popular esteja em colapso, mas sim que a correlação de forças no aparelho de Estado se reconfigura. O “fogo amigo” que mencionam é, na verdade, a manifestação de setores da própria esquerda que, imersos numa lógica de competição eleitoral e de micropoderes, perdem de vista a totalidade do processo revolucionário. É a velha e conhecida disputa entre a social-democracia de fachada e a práxis transformadora, que exige paciência histórica e construção de hegemonia nas trincheiras da sociedade civil.
No que tange às eleições de 2026, acredito que a análise deve transcender o imediato da sucessão presidencial e mirar a recomposição das forças populares. O lulismo, como expressão de um pacto populista, pode até estar em crise de representação, mas a chama da luta de classes, a consciência de classe dos trabalhadores, não se esgota na persona de um líder. O que está em jogo é a capacidade de a esquerda brasileira, em sua diversidade, construir um novo programa de transição que articule as lutas dos movimentos sociais, dos sindicatos e das periferias urbanas, superando a mera gestão do capitalismo dependente. A rejeição a Messias é um alerta: o establishment não tolerará nem mesmo as reformas mais tímidas. A saída, portanto, não é o abandono do projeto, mas o seu aprofundamento radical, com a construção de uma hegemonia alternativa que se forje na luta concreta, e não nos gabinetes do Palácio do Planalto.
Por fim, manifesto minha solidariedade à luta empreendedora do povo brasileiro, que, apesar dos reveses e das traições da elite, não cessa de resistir e de reinventar suas formas de organização. Que a derrota de Messias não nos leve ao desânimo, mas à compreensão de que a batalha é longa e exige paciência estratégica. Como diria o velho Marx, a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Cabe a nós, intelectuais orgânicos e militantes, garantir que a próxima repetição seja, enfim, a da vitória popular. Um abraço fraterno e que venham os debates.
Luiz Carlos
10/05/2026
Caio, com todo respeito, seu texto é bonito, mas parece escrito em outro planeta. Aqui na rua, o que a gente vê é imposto nas alturas, segurança pública virando piada e esse tal de lulismo já deu o que tinha que dar. Essa história de luta de classes não põe comida na mesa de ninguém.
Padre Antônio Rocha
10/05/2026
Luiz Carlos, você tem toda razão: enquanto esses articulistas perdem tempo com teorias vazias, o povo sofre com o descaso com a segurança e o bolso. Lulismo já deu o que tinha que dar mesmo, é fruto podre dessa esquerda que esqueceu Deus e a família.
Marcos Andrade Niterói
10/05/2026
Luiz Carlos, você está certo sobre os impostos e a segurança, mas aí que entra o mérito de gestão: enquanto o estado afunda, Niterói fez o túnel Charitas-Cafubá e briga pelo metrô subaquático. Lulismo não é discurso, é obra — e aqui na cidade a gente vê a diferença entre quem administra e quem só reclama.
João Pereira
10/05/2026
O episódio da rejeição de Messias no Senado escancara algo que muitos preferem ignorar: o lulismo já não tem mais o controle total do próprio campo. Se o governo não consegue aprovar um nome para o STF, como vai articular uma sucessão em 2026 sem rachar de vez a base? Fogo amigo nunca foi acidental, é sintoma de esgotamento.
Carlos A. Mendes
10/05/2026
Pois é, João, e é justamente por isso que acho que o tal “esgotamento” é mais um sintoma de cansaço do eleitor do que de estratégia política. Se o governo não consegue articular nem uma indicação pro STF, imagina segurar a bronca de uma sucessão sem deixar todo mundo se engalfinhando.
Diego Fernández
10/05/2026
Pois é, Carlos, mas aí que tá: esse “cansaço do eleitor” é fabricado pela própria falta de projeto. Enquanto ficam nesse jogo de articulaçãozinha de gabinete, o povo vê o custo de vida subindo e o discurso desidratado. Não é cansaço, é desesperança mesmo — e olha o que fizeram com a Dilma quando o sistema se engalfinhou.
Fernando O.
10/05/2026
Diego, concordo que o discurso perdeu densidade, mas discordo que seja só articulaçãozinha de gabinete. O custo de vida subiu globalmente, e a Dilma caiu porque o Congresso e o mercado resolveram derrubá-la, não por desesperança popular.
Bia Carioca
10/05/2026
Diego, concordo que o discurso desidratado afasta o povo, mas não joga fora a Dilma com a água do banho: ela foi derrubada por um golpe, não por falta de projeto. O que falta é ousadia pra enfrentar o sistema de frente, e não só articulação de gabinete.
Carlos Mendes
10/05/2026
Mais um capítulo da novela do “fogo amigo” que só expõe a fragilidade desse projeto de poder. Enquanto a esquerda se despedaça em brigas de ego e cargos, o Brasil real paga a conta com impostos e insegurança jurídica. O tal “esgotamento do Lulismo” é só a cereja no bolo de um sistema corrupto que troca o país por migalhas de poder.
Roberto Lima
10/05/2026
Concordo plenamente, Carlos. Enquanto essa turma fica se engalfinhando em briga de ego e disputa por cargo, o agro e o empreendedor brasileiro é que pagam a conta com imposto alto e insegurança jurídica. Esse tal de “Lulismo” já deu o que tinha que dar, é o fim da linha para um projeto que só enriqueceu a própria panelinha.
Paulo Ribeiro
10/05/2026
Caro Carlos, seu comentário revela uma leitura que, embora crítica, acaba por reproduzir o mesmo moralismo abstrato que a direita utiliza para desqualificar a política como campo de disputa de hegemonia. Quando você fala em “sistema corrupto que troca o país por migalhas de poder”, parece ignorar que o lulismo, em sua essência, não foi um projeto de poder pessoal, mas uma tentativa concreta de conciliação de classes dentro dos marcos da democracia burguesa brasileira. Gramsci já nos alertava que a hegemonia não se constrói sem contradições, sem o que ele chamava de “guerra de posições”. O chamado “fogo amigo” entre Uirá Azevêdo e Rogério Dultra não é um sintoma de fragilidade, mas sim o debate necessário sobre os rumos táticos e estratégicos de um campo que precisa, urgentemente, superar o reformismo fraco sem cair no sectarismo autofágico.
O “esgotamento do Lulismo” que você trata como “cereja do bolo” é, na verdade, um diagnóstico que vem sendo amadurecido por intelectuais orgânicos como nós, há anos. Não se trata de negar os avanços sociais dos governos Lula e Dilma — o Bolsa Família, o Prouni, a valorização do salário mínimo —, mas de reconhecer que o pacto neodesenvolvimentista se mostrou insustentável diante da ofensiva do capital financeiro e do rentismo. Althusser nos ensina que os aparelhos ideológicos de Estado não se desmontam com políticas compensatórias; eles exigem uma disputa frontal pela própria estrutura do Estado. O que você chama de “brigas de ego e cargos” é, para quem está imerso na luta de classes real, o tensionamento entre uma ala que quer aprofundar a democracia participativa e outra que ainda aposta no presidencialismo de coalizão como única via possível.
E quanto ao “Brasil real pagando a conta com impostos e insegurança jurídica”, permita-me discordar com veemência. O Brasil real que paga a conta não é o empresário que reclama da carga tributária, mas sim a classe trabalhadora que, desde o golpe de 2016, viu seus direitos serem desmontados pela PEC do Teto de Gastos e pela reforma trabalhista. Insegurança jurídica é o que vivem os movimentos sociais criminalizados, as lideranças sem-terra e os quilombolas ameaçados pelo agronegócio. A esquerda não se despedaça por vaidade; ela se despedaça porque tenta, em meio à tempestade perfeita do capitalismo periférico, construir uma saída que não seja nem a rendição ao mercado nem o voluntarismo aventureiro. Mariátegui dizia que o socialismo não é uma doutrina para ser aplicada mecanicamente, mas uma criação heroica. É nessa criação que estamos, com erros e acertos, enquanto você prefere o conforto da crítica cínica que não propõe alternativa concreta.
Mariana Costa
10/05/2026
Paulo, seu comentário é erudito, mas tropeça no mesmo vício que critica: transformar política em liturgia teórica enquanto o Brasil real sangra. Concordo que o lulismo teve acertos, mas chamar de “conciliação de classes” o que virou toma-lá-dá-cá fisiológico é maquiar a realidade com jargão gramsciano.
Marina Silva
10/05/2026
Ah, Paulo, mais um discurso bonito pra justificar o mesmo reformismo de sempre — enquanto vocês fazem guerra de posições no Twitter, o Brasil real continua sendo esmagado pelo capital.
Lucas Gomes
10/05/2026
É no mínimo curioso observar como o establishment político e midiático insiste em tratar o episódio da rejeição de Jorge Messias ao STF como mais um mero “fogo amigo” ou um sintoma do tal “esgotamento do Lulismo”. Essa leitura, além de reducionista, escamoteia o verdadeiro cerne da disputa: a correlação de forças entre um projeto de desenvolvimento predatório, capitaneado pelo agronegócio e suas bancadas, e qualquer tentativa, por mais tímida que seja, de oxigenar o judiciário com figuras minimamente comprometidas com a pauta socioambiental. Messias, independentemente de suas limitações, representava um nome que, ao menos em tese, não se curvaria de forma tão servil aos interesses da mineração ilegal e do desmatamento criminoso. Sua rejeição não é um acidente de percurso; é a demonstração explícita de que o parlamento, cada vez mais refém do capital extrativista, não tolera nem mesmo gestos simbólicos de contenção à barbárie ecológica.
O tal “esgotamento do Lulismo” que os colunistas Uirá Azevêdo e Rogerio Dultra mencionam é, na verdade, o esgotamento da capacidade do campo progressista de articular uma frente ampla sem abrir mão de sua espinha dorsal programática. Lula, em sua terceira passagem, parece ter aprendido a lição errada dos governos anteriores: a de que a governabilidade se conquista com a distribuição de cargos e a anuência ao rentismo, em vez de se forjar a partir de uma mobilização popular radical e de um enfrentamento direto à estrutura fundiária concentrada e ao modelo agroexportador. Enquanto o governo achar que pode contemporizar com o Centrão e com a bancada da bala, fingindo que a crise climática é um tema secundário, cada “fogo amigo” será na verdade um tiro certeiro no coração de qualquer possibilidade de transição ecológica justa.
A discussão sobre 2026, nesse contexto, é quase obscena se não vier acompanhada de uma autocrítica profunda sobre o que significa fazer política na era do Antropoceno. Não se trata apenas de vencer a extrema-direita nas urnas, mas de oferecer um projeto que desmonte, na prática, as engrenagens que alimentam o genocídio dos povos indígenas e a destruição dos biomas. A rejeição a Messias é um recado claro: o sistema não aceitará nem mesmo uma maquiagem verde no judiciário. Se o lulismo não entender que precisa romper com a lógica do desenvolvimento a qualquer custo e abraçar uma agenda de descrescimento seletivo, de reforma agrária popular e de soberania alimentar, as eleições de 2026 serão apenas mais um capítulo de uma tragédia anunciada, onde o “mal menor” continuará a pavimentar o caminho para o colapso ecológico.
Portanto, ao invés de lamentar o “fogo amigo”, deveríamos celebrar a clareza que ele traz. A máscara caiu: o parlamento brasileiro, em sua maioria, não quer um Estado que regule o capital, que proteja a floresta ou que garanta os direitos territoriais dos povos originários. O que está em jogo é a própria noção de futuro. E, para quem ainda acredita que é possível conciliar o capitalismo verde com a justiça climática, o recado de Brasília é inequívoco: a boiada vai passar, e o que sobrar será apenas cinza e desespero.
Luciana Costa
10/05/2026
Lucas, sua análise é afiada e levanta pontos legítimos sobre a captura do estado pelo capital extrativista, mas ao celebrar o fogo amigo como clareza, você corre o risco de transformar a crítica em purismo que isola justamente quem poderia avançar contra a boiada. O problema real não é Messias ou o lulismo, mas a ausência de uma coalizão viável que consiga, dentro das regras do jogo, frear o desmatamento sem abrir mão da governabilidade — e jogar fora a chance de 2026 por uma utopia de ruptura imediata pode deixar o caminho livre para quem realmente quer queimar tudo.
Rodrigo Meireles
10/05/2026
Luciana, coalizão viável sem programa é só caravana de interesses. Se o fogo amigo expõe que o tal “freio no desmatamento” virou cortina de fumaça para captura de renda, melhor perder 2026 com clareza do que ganhar para continuar vendo a boiada passar.
João da Silva
10/05/2026
Rodrigo, é isso mesmo. Prefiro perder com transparência do que ganhar com promessa furada. O povo já tá cansado de ver boi passando enquanto o freio só existe no discurso.
Eduardo Nogueira
10/05/2026
João, falou tudo. Prefiro um governo que erra na cara dura do que essa turma que promete mundos e fundos e entrega só migalha e doutrinação. O brasileiro já aprendeu na marra que discurso bonito é o que menos põe comida na mesa.