Uma nova análise de microfósseis encontrados no estado de Mato Grosso do Sul trouxe uma reviravolta na interpretação dos registros paleontológicos do período Ediacarano.
A pesquisa concluiu que as estruturas antes interpretadas como vestígios de pequenos animais marinhos correspondem a comunidades fossilizadas de bactérias e algas microscópicas. O estudo foi publicado na revista SCIENCEDIRECT.
O trabalho indica que as condições de oxigenação dos oceanos da época não eram suficientes para sustentar invertebrados. O pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Harvard Bruno Becker-Kerber utilizou microtomografia computada e espectroscopia para identificar estruturas celulares e materiais orgânicos preservados.
Os microfósseis foram coletados em rochas das cidades de Corumbá e Bonito, na Serra da Bodoquena, onde se localiza a formação Tamengo. Essas rochas se formaram em um ambiente marinho raso durante os estágios finais da formação do supercontinente Gondwana.
A pesquisa integra o projeto Rio de la Plata Craton and Western Gondwana, coordenado pelo professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo Miguel Angelo Stipp Basei. Becker-Kerber destacou que uma origem animal implicaria a existência de meiofauna com menos de um milímetro já no período Ediacarano.
A nova interpretação aponta para algas verdes ou vermelhas e bactérias oxidantes de enxofre, que dependem desse elemento em seu metabolismo. Os pesquisadores utilizaram o acelerador de partículas Sirius, em Campinas, na linha de luz MOGNO, para realizar microtomografias de alta resolução.
Essa abordagem permitiu visualizar detalhes internos dos fósseis sem destruí-los, ao contrário dos métodos anteriores. Técnicas de espectroscopia Raman permitiram ainda determinar a composição orgânica das paredes celulares dos espécimes.
Os especialistas identificaram divisões celulares, filamentos enrolados e remanescentes orgânicos em amostras de diferentes sítios de coleta. A variação em três faixas de tamanho sugere a presença de espécies distintas vivendo em consórcios microbianos.
As populações de maior porte apresentam características semelhantes às de algas, enquanto as menores podem ser formadas por cianobactérias ou bactérias oxidantes de enxofre. A detecção de pirita em algumas amostras corrobora a participação de organismos que oxidam enxofre.
Essas bactérias podem superar o tamanho de um fio de cabelo humano e ser visíveis a olho nu. A ausência de estruturas reprodutivas preservadas impede, no entanto, uma classificação mais precisa das espécies.
Os achados revisam as interpretações anteriores sobre os fósseis e aprimoram o conhecimento das condições ambientais do Ediacarano. A pesquisa contribui para compreender o cenário que antecedeu a explosão cambriana, com sua diversificação de vida complexa no planeta.
Com informações de PHYS.
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