Em uma floresta de pinheiros e eucaliptos no centro de Portugal, motosserras e escavadeiras trabalham sem descanso para limpar trilhas bloqueadas por árvores arrancadas durante as tempestades do inverno. A ameaça agora mudou de natureza, com o alto risco de incêndios florestais devastadores durante o verão.
Equipes de bombeiros florestais, agentes de proteção civil e militares estão mobilizadas para remover os troncos espalhados pelas vias florestais, rotas vitais de acesso para o combate a futuros incêndios. O esforço se concentra na Mata Nacional de Leiria, plantada a partir do século XIII por ordem do rei D. Dinis e que ao longo dos séculos forneceu madeira para a construção naval portuguesa.
‘Esta área é uma zona de altíssimo risco’, alertou Paulo Vicente, presidente da Câmara de Marinha Grande, cidade costeira que abriga a floresta histórica. Os ventos ferozes da tempestade Kristin atingiram a região em janeiro, causando cerca de 140 milhões de euros em prejuízos, segundo autoridades locais.
A tempestade deixou para trás quantidades enormes de madeira morta espalhadas pela floresta, material altamente combustível que pode deflagrar incêndios em ‘escala massiva’, conforme explicou Vasco Fernandes, oficial municipal de proteção civil. De acordo com o portal phys.org, entre 22 de janeiro e 15 de fevereiro, sete tempestades, incluindo a Kristin, atingiram Portugal com ventos fortes e chuvas intensas, causando pelo menos sete mortes e prejuízos estimados em 5,3 bilhões de euros.
‘Nosso compromisso é claro: defender a área e, acima de tudo, proteger as pessoas que vivem nas proximidades’, enfatizou Vicente. O município trabalha na limpeza de cerca de 178 quilômetros de trilhas florestais, ainda traumatizado pelos grandes incêndios de outubro de 2017, que mataram mais de cem pessoas no país.
Manuel Calhanas, aposentado de 79 anos cuja casa é cercada por um pomar, expressou o sentimento ambíguo dos moradores da região. ‘Claro que tenho medo, mas se limparem tudo isso, vou me sentir muito mais tranquilo’, confessou o pensionista, refletindo a angústia de quem convive diariamente com o risco de tragédia.
Em escala nacional, 12 mil quilômetros de trilhas e estradas florestais devem ser limpos ao longo deste ano, conforme dados da proteção civil portuguesa. O primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, exigiu ‘esforços redobrados’ nas operações de limpeza florestal, enquanto autoridades do Ministério da Administração Interna advertiram que a temporada de incêndios será ‘muito dura’.
Entre 1º de julho e 30 de setembro, Portugal, que registrou no ano passado seu verão mais quente desde 1931, gastará cerca de 50 milhões de euros para mobilizar aproximadamente 15 mil profissionais e 80 aeronaves, entre aviões e helicópteros. A península Ibérica enfrenta os efeitos cada vez mais agressivos das mudanças climáticas, com ondas de calor frequentes e secas prolongadas que ressecam a vegetação.
Apesar do investimento dez vezes maior em prevenção após a tragédia de 2017, Portugal viu 270 mil hectares de vegetação destruídos no ano passado, o pior balanço da década. Os números expõem o desafio enfrentado por países do sul da Europa, particularmente vulneráveis ao aquecimento global impulsionado pela queima de combustíveis fósseis pelas economias industrializadas.
O cenário português ilustra como a crise climática deixou de ser previsão distante para se tornar emergência cotidiana nas comunidades rurais do Mediterrâneo. Moradores de Marinha Grande e de outras regiões florestais aguardam o avanço dos trabalhos preventivos antes da chegada dos meses mais críticos do ano.
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João Santos
13/05/2026
Ô, Portugal dando aula de novo. Lá os caras limpam a floresta antes do incêndio chegar, aqui no Brasil é só conversa e culpar o tempo seco. Depois fica todo mundo chorando quando o morro pega fogo. Prevenção é o básico, mas nesse país parece que tudo tem que acabar em tragédia pra alguém fazer alguma coisa.
Caio Vieira
13/05/2026
Caro João, sua comparação carrega aquele tom de autoflagelação tão tipicamente brasileiro que acaba por escamotear a potência tática das nossas comunidades periféricas — sugiro refletir sobre como a “cultura da tragédia” que você critica não é mera inércia, mas sintoma de uma hegemonia que, como nos lembrava Florestan Fernandes, sistematicamente desaparelha o Estado preventivo enquanto terceiriza o heroísmo para o povo que, todo ano, sobe o morro com enxada e balde muito antes de qualquer brigada chegar. O problema não é só a prevenção que falta, é o sequestro da memória coletiva das lutas populares — porque enquanto aplaudimos Portugal como se fosse novidade, apagamos que aqui o saber-fazer contra o fogo sempre existiu, só nunca foi tratado como política pública, e sim como “gambiarra” de quem sempre teve que se virar.
João Carvalho
13/05/2026
João, o paralelo com Portugal é sedutor, mas escamoteia uma diferença estrutural: lá a gestão florestal opera sobre um território onde a propriedade da terra é formalizada e há décadas de ordenamento rural consolidado, enquanto aqui a prevenção esbarra num emaranhado fundiário de grilagens, ocupações informais e ausência histórica do Estado nas periferias florestais — o que transforma a limpeza num gesto técnico simples em crise de justiça territorial.