A pequena cidade de Jay, no estado do Maine, virou o mais novo símbolo de um fenômeno que avança sobre o interior dos Estados Unidos. A antiga fábrica de papel Androscoggin, que chegou a empregar 1.500 pessoas antes de encerrar suas atividades em 2020, será transformada em um data center de 550 milhões de dólares.
O projeto é tocado pelo desenvolvedor Tony McDonald, em parceria com a Sentinel Data Centers, empresa de Nova York especializada em instalações para os setores de saúde, finanças e hiperescala. McDonald e sua equipe passaram três anos desmontando o maquinário da antiga fábrica e preparando o terreno industrial para revenda, conforme reportagem do The Verge.
O Maine atrai investidores pelas temperaturas amenas durante todo o ano e por uma legislação fundiária permissiva. Diante da multiplicação de projetos, a Assembleia Legislativa estadual aprovou uma moratória de 18 meses sobre permissões para data centers de grande consumo energético.
Veto da governadora em nome dos empregos
A medida, que seria a primeira do tipo nos Estados Unidos, foi vetada pela governadora democrata do Maine, Janet Mills, sob o argumento central de geração de empregos. Mills sustentou que o empreendimento em Jay criaria entre 125 e 150 postos permanentes de alta remuneração em uma cidade que perdeu seu maior empregador.
De fábricas de papel no Maine a condados agrícolas de Indiana e terrenos desérticos nos arredores de Abilene, no Texas, os desenvolvedores repetem a mesma cantilena às prefeituras locais. Mais de 35 estados americanos já oferecem isenções fiscais e incentivos para atrair a indústria, segundo levantamento citado pela reportagem.
A matemática real do emprego
Levantamentos recentes apontam que a maioria esmagadora dos data centers planejados nos Estados Unidos será erguida em áreas rurais, muitas vezes em condados que hoje não possuem nenhuma instalação do tipo. O que essas comunidades efetivamente recebem, porém, não são empregos, mas instalações industriais sedentas de energia e água que mantêm um quadro fixo comparável ao de um restaurante de porte médio.
Michael Hicks, diretor do Centro de Pesquisa em Negócios e Economia da Ball State University, publicou uma das primeiras análises causais sobre o efeito desses empreendimentos no emprego americano. Ao estudar centenas de condados do Texas, ele constatou que a criação líquida de postos foi praticamente zero, com as vagas dos data centers sendo compensadas por perdas em outras áreas do mesmo setor.
‘Ao passar de carro diante de um data center, você vê pessoas trabalhando, vê operários da construção, os hotéis locais ficam lotados. Mas não há pulso permanente nisso’, afirmou Hicks. Segundo o pesquisador, muitos trabalhadores ficam apenas três semanas no local antes de partir, sem deixar legado econômico duradouro.
Subsídios bilionários e desigualdade na negociação
Reportagens do setor revelaram que o subsídio nacional para data centers ultrapassa 2 milhões de dólares por emprego permanente criado. Em um caso emblemático em Nova York, uma empresa recebeu cerca de 77 milhões de dólares em isenções fiscais para uma instalação que gerou exatamente um posto fixo.
A unidade da Microsoft em Quincy, no estado de Washington, ilustra a desproporção típica do setor. Durante a construção, chegou a empregar 500 trabalhadores, mas hoje opera com apenas 50 funcionários em tempo integral.
Pesquisadores da organização Good Jobs First, que monitora subsídios corporativos nos Estados Unidos, observam que cidades pequenas estão em desvantagem absoluta ao negociar com gigantes do setor. Elas não dispõem de recursos, expertise jurídica nem poder de barganha para enfrentar conglomerados tecnológicos avaliados em centenas de bilhões de dólares.
O ouroboros tecnológico
A parlamentar estadual do Maine Melanie Sachs, ligada à tramitação da moratória, sustenta que McDonald só informou o conselho municipal de Jay sobre o novo projeto dias antes da votação em plenário. ‘Mesmo que sejam 30 empregos, isso significa muito para Jay, mas você varreu proteções de 1,4 milhão de habitantes do Maine em troca de 30 vagas’, criticou.
O cenário expõe uma contradição estrutural do capitalismo tecnológico contemporâneo, em que a mesma infraestrutura subsidiada como programa de empregos foi concebida para reduzir trabalho humano. A inteligência artificial alimentada por essas instalações é explicitamente projetada para automatizar postos de trabalho.
O movimento beneficia gigantes como Meta, Amazon, OpenAI e Oracle, que demitem em massa enquanto investem bilhões em estruturas que aceleram a substituição de trabalhadores em outras empresas.
Leia também: Estudo expõe como a IA aprofunda a desigualdade digital nos EUA
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Karina Libertária
13/05/2026
Gente, pelo amor de Deus, mais um mimimi de quem acha que empresa privada tem obrigação de gerar emprego pra sempre. Data center não é fábrica de papel, é infraestrutura de tecnologia. Se a cidade não se qualifica pra atrair negócio melhor, o problema é dela, não das big techs. Aqui em Miami a gente sabe que quem não se atualiza fica pra trás mesmo.
Ana Karine Xavante
13/05/2026
Karina, sua lógica meritocrática é exatamente o discurso que as big techs pagam milhões em marketing pra propagar. Você reduz a questão a “se a cidade não se qualifica, o problema é dela”, como se comunidades rurais tivessem as mesmas oportunidades que Miami pra se requalificar da noite pro dia. Isso ignora que essas empresas escolhem zonas rurais justamente porque sabem que ali a mão de obra é barata, a terra é desvalorizada e os incentivos fiscais são generosos — não porque a população local seja “atrasada”. É um cálculo colonial clássico: extrair o máximo de recurso com o mínimo de retorno, deixando o passivo ambiental e social pra comunidade limpar depois.
Você fala de “infraestrutura de tecnologia” como se data center fosse neutro, mas cada um desses galpões consome água potável equivalente a uma cidade pequena pra resfriamento, enquanto comunidades vizinhas racionam abastecimento. Aqui no Mato Grosso a gente vê esse mesmo padrão: mineradoras e agronegócio chegam com promessa de desenvolvimento, sugam aquíferos, contaminam solo e vão embora quando o incentivo acaba. Data center não é diferente — é um poço sem fundo de energia e água, empregando meia dúzia de técnicos terceirizados enquanto desvia recursos públicos que poderiam financiar escolas técnicas, transporte coletivo e moradia popular.
O “fica pra trás” que você menciona é uma construção política, não uma lei natural. Quem define quais regiões “se atualizam” são décadas de investimento público concentrado em polos como Miami, enquanto o interior é tratado como zona de sacrifício. Se a cidade não se qualifica, é porque o Estado e o capital privado nunca priorizaram qualificá-la — e quando aparece um “investimento”, é justamente pra manter ela dependente, não pra emancipar. A verdadeira atualização que precisamos não é técnica, é política: parar de tratar território e água como mercadoria descartável no altar do lucro de acionista.
Mateus Silva
13/05/2026
Karina, seu argumento de “se atualizar ou ficar pra trás” é a mesma cantilena neoliberal que ignora que infraestrutura tecnológica não se sustenta sem energia barata, terra desregulamentada e incentivos fiscais pagos por quem não tem acesso a ela. Você reduz a questão a mérito individual enquanto as big techs extraem valor público sem contrapartida estrutural — isso não é competição de mercado, é captura de renda.
João Carvalho
13/05/2026
Pois é, mais uma promessa furada de emprego que some quando a obra acaba. Essas empresas de tecnologia chegam fazendo propaganda enganosa, mas no fim só querem terra barata e isenção fiscal. O trabalhador americano, assim como o brasileiro, fica com o prejuízo.
Bia Carioca
13/05/2026
Exato, João. E o pior é que esses mesmos grupos que sugam os recursos públicos depois financiam campanhas de políticos que cortam investimento em transporte coletivo, que é o que realmente gera emprego decente e mobilidade pra maioria.
Marina Silva
13/05/2026
Pois então, João, bora chamar essas big techs de pelo nome: parasitas com sede de isenção fiscal e terra grátis, enquanto vendem migalha de emprego temporário.