A pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência encontra em Minas Gerais um retrato das dificuldades que o cercam após o escândalo Vorcaro. Nesta semana, o presidenciável e o comando do PL no estado se reúnem para bater o martelo sobre quem será o candidato a governador apoiado pela legenda, mas o cenário é de divisão e incerteza entre as forças conservadoras.
Segundo apuração do G1, a ideia é fechar a escolha antes da próxima visita de Flávio a Belo Horizonte, prevista para o início de junho. O presidente do PL mineiro, deputado federal Domingos Sávio, confirmou que se encontrará com Flávio e com o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) entre segunda e terça-feira.
O segundo maior colégio eleitoral do país é peça central nas pretensões de Flávio Bolsonaro, especialmente após a pesquisa Datafolha de 22 de maio mostrar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliando a vantagem para nove pontos no primeiro turno — 40% contra 31%. O levantamento, o primeiro realizado integralmente depois que vieram a público os contatos do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, cristalizou o impacto do episódio sobre a candidatura do PL.
Além da erosão nas pesquisas, o caso Vorcaro azedou a relação com potenciais aliados. O governador Romeu Zema (Novo), pré-candidato à Presidência, intensificou críticas a Flávio e descartou qualquer palanque conjunto, enquanto a possibilidade de apoio ao atual governador de Minas, Mateus Simões (PSD), foi abandonada pelo PL por conta das ligações do pessedista com Zema e com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (UB).
Na prática, o partido de Flávio trabalha com duas opções: apoiar Cleitinho, que lidera as pesquisas para o governo mineiro, ou lançar nome próprio — como o ex-presidente da FIEMG Flávio Roscoe ou o ex-prefeito de Betim Vittorio Medioli. A indefinição, porém, ocorre exatamente quando o relógio eleitoral aperta, a menos de dois meses das convenções partidárias.
O complicador maior é que o próprio Cleitinho ainda não decidiu se vai disputar o Palácio Tiradentes. O senador, que se apresenta como independente mas tem laços de gratidão com Jair Bolsonaro, passou a ser cotado internamente pelo Republicanos até para a corrida presidencial, uma manobra que nos bastidores é lida como tentativa de afastá-lo da sombra de Flávio.
O presidente do Republicanos em Minas, deputado federal Euclydes Pettersen, negou que a articulação tenha relação com o desgaste de Flávio e afirmou que a legenda sempre teve Cleitinho como uma das opções para o Planalto ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Independentemente da motivação, a hipótese de uma candidatura própria do senador mineiro embaralha ainda mais o tabuleiro da direita e retira força do palanque que Flávio precisa construir no estado.
Enquanto a direita patina, o presidente Lula — que nem sequer definiu seu candidato em Minas — vê o adversário consumir energia para montar uma base que já nasce frágil. A vantagem de nove pontos no Datafolha, fora da margem de erro, sinaliza que o escândalo Vorcaro não foi um mero ruído, mas um divisor de águas na disputa.
Domingos Sávio tenta minimizar as fissuras e diz que ‘a direita precisa estar unida para tirar o PT do governo’. Mas as palavras não escondem o contraste: de um lado, um campo fragmentado entre Zema, Caiado, Cleitinho e um Flávio ferido; do outro, uma base que se recompõe em torno da candidatura presidencial com a máquina governista e sem pressa para fechar alianças.
Minas Gerais, que em 2022 foi palco de uma disputa acirrada e decisiva, repete em 2026 o papel de termômetro da real força dos projetos presidenciais. E, neste momento, o termômetro indica que o bolsonarismo chega ao estado mais preocupado em administrar divisões internas do que em enfrentar o adversário.
Leia também: Crise no Banco Master fragiliza Flávio Bolsonaro e acelera migração da direita para Caiado
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Lucas Pinto
25/05/2026
A disputa pelo palanque mineiro expõe o que Gramsci chamaria de crise de autoridade do bloco histórico dominante. A direita racha não por acidente, mas porque o bolsonarismo, enquanto fenômeno político, nunca conseguiu consolidar uma hegemonia orgânica — baseou-se no personalismo, no antipetismo reativo e na capilaridade miliciana, incapaz de articular um projeto coeso de Estado para além do saque. O escândalo Vorcaro não é um desvio de percurso; é a manifestação estrutural de uma fração da classe que trata a máquina pública como espólio familiar. Flávio tenta costurar alianças em Minas com o discurso da “união”, mas a união sem programa de classe é mero rearranjo de cadeiras na sala de jantar do capital.
O Sgt Bruno fala em “imprensa comunista” — ótimo exemplo do que Foucault descreveria como poder pastoral invertido: o líder político assume a figura de guia que protege o rebanho contra inimigos invisíveis, enquanto o Sgt Bruno repete o mantra sem questionar por que a “direita rachada” é sempre culpa do outro e nunca das contradições internas entre o agroexportador que quer liberalismo econômico e a milícia que quer controle territorial. Já o Capitão Tavares, com sua retórica de “bandido solto” e “juiz fraco”, reduz a complexidade da segurança pública a uma guerra santa — não precisa ler Foucault, basta ver que o encarceramento em massa nunca desmontou o crime organizado, apenas o reconfigurou como braço armado do Estado paralelo.
Carlos Oliveira acertou ao lembrar dos 40% em insegurança alimentar, mas parou na denúncia moral. A fome em Minas não é fruto de “falta de união”, mas da reprodução ampliada do capital que transforma comida em mercadoria e terra em ativo financeiro. Enquanto a esquerda liberal como a Marina Silva apela para a Constituição como se ela fosse um talismã, a direita briga para ver quem controla o orçamento da educação e da saúde — ambos os campos operam dentro da mesma institucionalidade burguesa que naturaliza a exploração. O debate sobre o palanque é sintoma, não causa. A verdadeira rachadura não é entre bolsonaristas e liberais, mas entre os que ainda acreditam que a política institucional vai redistribuir poder e os que entendem que só a luta de classes, organizada nos sindicatos, nos movimentos de moradia e nas ocupações, pode romper esse ciclo de decadência.
Capitão Tavares 🇧🇷
25/05/2026
Se a direita tá rachada é porque sobrou muito infiltrado e oportunista no meio, Carlos Oliveira. Enquanto isso o Brasil sangra com bandido solto e juiz fraco. Flávio tem que chamar os verdadeiros patriotas pra conversa, não ficar fazendo média com esses políticos de botequim. Se continuar nessa lenga-lenga, o povo vai ter que resolver na marra.
Marina Silva
25/05/2026
Resolver na marra, hein, Capitão? Que discursinho corajoso de quem nunca leu um artigo da Constituição na vida.
Sgt Bruno 🇧🇷
25/05/2026
Selva! Mais uma tentativa da imprensa comunista de criar briga onde não existe. O Flávio é guerreiro e vai unir Minas sim, enquanto a esquerda chora. Direita rachada? Isso é invenção de melancia querendo atrapalhar. Brasil acima de tudo, e os patriotas de verdade estão com ele até o fim.
Carlos Oliveira
25/05/2026
Sgt Bruno, com todo respeito, mas a história nos ensina que união forçada sem debate de projetos costuma rachar com mais força ainda. Enquanto isso, Minas tem 40% da população em insegurança alimentar — cadê a união pra resolver isso?