Mapeamento detalhado das estratificações do Datafolha revela que a rejeição moral de Flávio Bolsonaro feriu sua aprovação entre jovens, sulistas e independentes, enquanto o atual presidente consolida ampla vantagem no eleitorado moderado de centro.
A mais recente pesquisa nacional do instituto Datafolha, realizada entre os dias 20 e 21 de maio de 2026, consolidou um ponto de virada estrutural na corrida presidencial. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliou sua liderança no primeiro turno para confortáveis nove pontos (40% contra 31% de Flávio Bolsonaro) e, de forma ainda mais significativa, quebrou o empate numérico no segundo turno, abrindo uma vantagem de 47% a 43% sobre o senador do PL.
Mais do que meras oscilações estatísticas, o detalhamento das estratificações do levantamento revela um fenômeno profundo de micro-sociologia eleitoral: a desidratação sistemática das candidaturas de extrema-direita em suas franjas moderadas e independentes, impulsionada pelo escândalo que vincula Flávio Bolsonaro ao Banco Master do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e a sutil, porém decisiva, migração do eleitorado de centro em direção à estabilidade governamental.
A perda de tração de Flávio Bolsonaro, que recuou quatro pontos na média geral do primeiro turno em apenas uma semana, não ocorreu de forma homogênea. O senador fluminense sofreu uma sangria localizada, porém letal, exatamente nos segmentos que deveriam sustentar sua estratégia de se apresentar como uma face ‘moderada’ e tolerável da dinastia de extrema-direita.
Os estragos foram brutais entre os jovens de 25 a 34 anos (onde o senador desabou de 40% para 29%), na região Sul do país (recuo de 48% para 35%) e, crucialmente, no eleitorado de centro-direita moderado.
Para compreender a anatomia dessa queda, é preciso analisar o mapeamento ideológico exclusivo do Datafolha, que utiliza uma escala de alinhamento político de 1 a 5, em que o degrau 1 representa o bolsonarismo puro, o degrau 3 os independentes e o degrau 5, o petismo convicto. O cruzamento revela que o estrago na candidatura de Flávio Bolsonaro concentrou-se no degrau 2, correspondente aos ‘bolsonaristas moderados’ ou eleitores inclinados à direita, mas que não compartilham do radicalismo militante.
Nesse grupo, que representa 5% do total do eleitorado nacional, o apoio a Flávio Bolsonaro despencou de impressionantes 53% para 40% em poucos dias. Esse estrangulamento da candidatura oposicionista dá-se, em grande medida, pela fuga coordenada desses bolsonaristas moderados e do eleitorado independente de centro.
Repelidos pelas denúncias que envolvem o Banco Master e as visitas de Flávio a lobistas libertos da prisão, esses eleitores retiram de forma decidida o apoio à oposição, deixando a extrema-direita sitiada em seu núcleo ideológico mais radical.
Essa dinâmica de refluxo é explicada pelas primeiras fissuras e dúvidas no eleitorado considerado ultra-fiel. No degrau 1 do Datafolha (os bolsonaristas convictos, que representam 34% do eleitorado), as intenções de voto no senador também oscilaram negativamente de 82% para 77%.
O escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, coroado pela confissão pública do presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, que admitiu que o parlamentar visitou pessoalmente o lobista no dia em que este foi solto da prisão, cobrou um preço político devastador. Para uma classe média conservadora e um empresariado sulista que buscam estabilidade econômica e moralidade administrativa, o retorno das suspeitas de corrupção e tráfico de influência em favor de banqueiros sob investigação atuou como um forte repelente.
Ao mesmo tempo em que a direita extremista perde base em suas próprias franjas, o grande centro político e o eleitorado independente de centro iniciam um movimento gravitacional em direção ao governo federal. No Datafolha, a parcela de eleitores classificada como ‘não alinhados’ (degrau 3 da escala, representando 26% da amostra) abandonou Flávio Bolsonaro de forma contundente: a intenção de voto dele nesse estrato de independentes caiu de 24% para 19% no primeiro turno.
No cenário de segundo turno direto, há um empate técnico entre Lula (34%) e Flávio (38%) nesse grupo, revelando que a maioria dos independentes prefere anular ou está indecisa a se engajar na candidatura da oposição.
Essa massa cinzenta de independentes e moderados se inclina de forma muito mais nítida a favor de Lula quando observamos a estratificação por avaliação de governo. Entre os eleitores que avaliam o governo Lula como ‘regular’, que representa a definição clássica e sociológica do eleitor de centro flutuante, nada menos que 51% declaram voto no atual presidente em um eventual segundo turno, contra apenas 34% em Flávio Bolsonaro.
Lula também assumiu a liderança numérica entre os eleitores com Ensino Superior completo (47% a 40%), quebrando uma barreira histórica de antipetismo nessa classe instruída.
A quebra sociodemográfica detalhada pelo Datafolha elucida com precisão cirúrgica os pontos de força e fraqueza de cada projeto. Lula tem suas maiores vantagens consolidadas entre as mulheres (51% a 37% de Flávio no segundo turno), nas faixas etárias maduras de 45 a 59 anos (49% a 39%) e acima de 60 anos (51% a 42%), entre os eleitores que estudaram até o ensino fundamental (60% a 34%), na parcela com renda familiar de até dois salários mínimos (55% a 35%), na Região Nordeste (63% a 28%) e entre os católicos (51% a 38%).
Por outro lado, os redutos de resistência de Flávio Bolsonaro concentram-se nas faixas de renda familiar de 2 a 5 salários (50% a 40% de Lula), de 5 a 10 salários (56% a 33%) e acima de 10 salários mínimos, onde atinge sua maior vantagem (61% a 35%). O senador do PL também mantém a dianteira nas regiões Sul (50% a 36%), Norte/Centro-Oeste (50% a 40%) e entre os eleitores evangélicos, onde vence por 56% a 33%.
Contudo, por se tratar de nichos geograficamente e demograficamente limitados, essas vantagens não compensam a perda generalizada de apoio no eleitorado de massa feminino e de baixa renda.
Os cenários alternativos testados pelo Datafolha sepultam ainda mais as esperanças de uma ‘terceira via’ ou de uma recuperação fácil da oposição. Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) figuram como meros figurantes, oscilando entre 3% e 4% no primeiro turno e perdendo por margens de nove pontos para Lula nas simulações diretas de segundo turno (48% a 39% em ambos os casos).
Nem mesmo a substituição de Flávio por Michelle Bolsonaro surte efeito: a ex-primeira-dama pontua apenas 22% no primeiro turno estimulado contra 41% de Lula e, no confronto direto de segundo turno, perde por 48% a 43%, com uma rejeição de 31% que a impede de herdar integralmente o capital político do bolsonarismo original.
O diagnóstico final oferecido pelas estratificações do Datafolha em maio de 2026 é inequívoco. Diante de denúncias graves envolvendo o submundo do lobismo bancário e a incapacidade da oposição de oferecer uma alternativa viável e moderada, o eleitorado independente de centro e as franjas liberais da direita brasileira começaram a realizar uma migração pragmática de retorno à normalidade democrática.
Ao buscar a reeleição sustentado em uma economia controlada e no diálogo amplo, Lula não apenas mantém a resiliência de sua base histórica, mas expande sua influência sobre a zona cinzenta do eleitorado, deixando a extrema-direita sitiada em seu próprio radicalismo e isolada por seus próprios escândalos.






Elena
28/05/2026
Concordo com o senhor, Renato Professor, caiu a máscara dos Bozós que viviam alardeando um falso moralismo que atraia o eleitor moderado. E, sim, Lula consegue atrair esses eleitores moderados ao entregar melhoria na vida dessas pessoas, com sua política de distribuição de renda, geração de emprego, e agora ainda mais atendendo um antigo anseio da classe trabalhadora com o fim da escala 6×1. Agora é Lula!!!!
Renato Professor
27/05/2026
O Datafolha apenas confirma o que a sociologia eleitoral já previa: a rejeição moral a Flávio Bolsonaro afastou justamente o eleitor moderado que antes dava sustentação ao bolsonarismo. Jovens, sulistas e independentes, mais expostos a informação qualificada, naturalmente se distanciam de um projeto que insiste em negar a ciência e a ética republicana. Lula colhe os frutos de uma política econômica que, apesar das turbulências globais, entrega crescimento com distribuição de renda – algo que a extrema-direita jamais conseguirá digerir.
Ricardo Menezes
27/05/2026
Crescimento com distribuição de renda financiado com imposto recorde e gastança, professor? Só se for renda distribuída do meu bolso para o cabide de emprego do PT. Esse “projeto que nega ciência” que o senhor critica pelo menos não quebrou o Brasil duas vezes.
João Santos
27/05/2026
Renato, professorzinho, com todo respeito: essa sua “sociologia eleitoral” deve ser a mesma que ensina que bandido é vítima e que corrupção do PT é “distribuição de renda”. O Datafolha que você acredita é o mesmo que errou todas as eleições. Lula só tá na frente porque o povo tem memória curta, mas na hora do vamos ver, a direita conservadora e de bem vai mostrar que bandido bom é bandido preso.
Adalberto Livre
27/05/2026
ESSA PESQUIZA É TUDO FAKE NEWS! LULA É UM COMUNISTA CORRUPTO E ESSES DADOS SÃO MENTIRA PURA!
Marta Souza
27/05/2026
Adalberto, pare de mimimi e encare os fatos: enquanto a esquerda domina as pesquisas, vocês continuam perdendo votos por falta de propostas sérias de livre mercado. Se o Datafolha fosse tão manipulado assim, o Brasil já teria baixado impostos e aberto a economia, coisa que esse governo estatizante nunca fará.
Maria Clara Lopes
27/05/2026
Marta, acho que você toca num ponto válido sobre a falta de propostas concretas de ambos os lados, mas reduzir a disputa a “esquerda estatizante vs livre mercado” também ignora que o eleitor médio busca equilíbrio entre crescimento e proteção social.
Jeferson da Silva
27/05/2026
Isso aí é a prova de que o povo trabalhador não engole mais discurso vazio. Quem vive no chão da fábrica sabe que CLT não é privilégio, é dignidade. Enquanto a direita tenta vender peça de empreendedorismo sem direitos, Lula mostra que a proteção do trabalhador é o que realmente importa.
Carmem Souza
27/05/2026
De fato, Jeferson, a dignidade do trabalhador é um valor bíblico que não pode ser negociado. Mas acho que o debate precisa ir além da polarização: a proteção social é importante, sim, e o empreendedorismo também pode ser uma ferramenta de liberdade, desde que não vire exploração. O meio-termo com justiça é o que Deus espera de nós.
Vanessa Silva
27/05/2026
Discordo da simplificação. CLT é sim importante, mas proteger o trabalhador de verdade exige mais que discurso: educação de qualidade, transporte público decente e política fiscal que não quebre as contas da cidade.
Mariana Alves
27/05/2026
A pesquisa Datafolha recentemente divulgada nos oferece um retrato nítido das contradições internas do bolsonarismo enquanto fenômeno político. A retração dos chamados “bolsonaristas moderados” não é um acaso de conjuntura, mas sim a manifestação de um desgaste estrutural que a análise marxista sempre apontou: movimentos de ultradireita que se sustentam na disseminação do ódio como mercadoria política tendem a canibalizar suas próprias bases quando expostos às contradições morais de suas lideranças. O caso Flávio Bolsonaro é exemplar. A exposição pública de seus esquemas de rachadinha, somada à sua atuação errática e aos privilégios de casta que o clã Bolsonaro sempre reivindicou, rompeu o frágil véu de “homem comum” que a família tentava projetar. Para o eleitor de centro, especialmente os jovens e sulistas que buscavam no bolsonarismo uma promessa de combate à corrupção e à velha política, tornou-se insustentável defender um projeto cujo herdeiro direto encarna exatamente aquilo que dizia combater.
Essa “rejeição moral” que o Datafolha captura precisa ser lida com lentes de classe e de hegemonia, conforme Gramsci nos ensinou. O bolsonarismo nunca foi um movimento homogêneo; ele se sustentava em uma frente ampla que unia desde setores do agronegócio exportador até a pequena burguesia rural e urbana, passando por trabalhadores informais atraídos pelo discurso antissistema e pela guerra cultural. O que vemos agora é o esgarçamento dessa colagem precária. A fração moderada, que tinha expectativas de governabilidade e inserção no mercado formal, percebe que o custo de manter o clã no poder é alto demais para a própria reputação e para a estabilidade econômica que o capital sempre exige. Não se trata de uma conversão súbita a pautas progressistas, mas de um cálculo racional dentro da lógica do capital: o bolsonarismo deixou de ser um bom negócio para certos setores.
No entanto, é preciso cautela para não cairmos em um otimismo fetichista dos números eleitorais. A consolidação de Lula no centro não representa, por si só, uma vitória das pautas transformadoras. O centro político no Brasil é historicamente volátil e refratário a rupturas estruturais. O que a pesquisa indica é que a crise de representação da direita radical abriu espaço para uma reedição do lulismo como “mal menor”, mas isso não significa uma adesão a um projeto de superação do neoliberalismo ou de reorganização do Estado em favor das maiorias trabalhadoras. Pelo contrário: há o risco de que essa vantagem nas pesquisas crie uma zona de conforto que adie o enfrentamento das questões de fundo, como a reforma tributária progressiva, o combate aos monopólios da comunicação e a reversão das contrarreformas trabalhistas.
Sejamos sinceros: a direita não está derrotada, está apenas se recompondo. A saída de cena dos moderados pode, paradoxalmente, fortalecer a ala mais radical e sectária do bolsonarismo, aquela que não negocia com a institucionalidade e que aposta no caos como método. O Datafolha nos mostra que Lula tem vantagem, mas não nos garante que o país esteja imune a novos surtos autoritários. A esquerda organizada, os movimentos sociais e as forças progressistas precisam usar esse momento não para comemorar antecipadamente, mas para aprofundar a disputa de hegemonia nas ruas, nos sindicatos, nas universidades e nos territórios periféricos. Sem isso, a liderança nas pesquisas pode ser apenas o prenúncio de mais um governo de conciliação de classes que, no fim do dia, manterá intactas as estruturas de exploração que alimentam o próprio solo fértil do fascismo à brasileira.
Fernando O.
27/05/2026
Bonita análise, Mariana, mas podia ter trocado 40% do Gramsci por uns números concretos de fluxo de rejeição cruzada que o Datafolha divulga no detalhe – aí a gente debatia sem apelar para o manual do partido.
Ronaldo Silva
27/05/2026
Mariana, você escreveu um textão bonito, mas na prática, o brasileiro médio já sabia disso: o filho do Bolsonaro tava metido em rachadinha, aí fica difícil defender. O que me preocupa é que essa ala radical que fica não vai pra centro nenhum, vai é virar bagunça. No fim, o povo é quem paga o pato com imposto alto e gasolina cara, e essa briga de ideologia não enche o tanque de ninguém.