A ausência da cúpula militar chinesa no Diálogo de Shangri-La deste ano provocou especulações sobre o agravamento das relações entre Washington e Pequim. Contudo, o movimento mais significativo ocorreu em um esforço para reconstruir canais de comunicação.
Em um movimento que sinaliza a reconstrução de canais de comunicação militar, oficiais americanos e chineses também se reuniram discretamente no Havaí. Este encontro, sob o Acordo Consultivo Marítimo Militar, visou discutir segurança marítima, gerenciamento de crises e a redução de riscos de incidentes no mar, apesar da competição estratégica.
Segundo uma análise publicada pelo portal RT, a administração do presidente dos EUA, Donald Trump, em seu segundo mandato, avança uma estratégia baseada em realismo e equilíbrio de poder. A abordagem substitui ambições globalistas liberais ou a mentalidade de uma nova Guerra Fria contra a China.
O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, em seu discurso no Shangri-La, declarou que os EUA abandonaram o que chamou de ‘velho rumo desdentado, utópico e globalista de política externa’. Suas palavras sinalizam que apelos a valores universais e normas abstratas estão dando lugar a uma política centrada em interesses nacionais, força militar e realismo estratégico.
Essa ruptura com o consenso globalista do pós-Guerra Fria transforma as relações com aliados e rivais. Hegseth questionou abertamente o modelo de dependência securitária de longa data, defendendo que os parceiros se tornem provedores genuínos de segurança, não dependentes perpétuos.
A ênfase no compartilhamento de encargos reflete uma realidade geopolítica mais ampla. Após três décadas de primazia inconteste, os EUA enfrentam um ambiente multipolar em que a ascensão da China, o peso crescente da Índia e a influência de outros atores regionais alteram o equilíbrio de forças.
Em vez de tentar restaurar a hegemonia perdida, Washington aparentemente busca preservar uma posição vantajosa dentro desse novo balanço. Para isso, incentiva a modernização militar de países como Japão, Coreia do Sul, Austrália, Filipinas e Índia.
Hegseth manifestou preocupação com as capacidades militares chinesas, mas seu tom foi notavelmente menos confrontador do que a retórica corrente em Washington. Ele enfatizou a importância de relações estáveis, comércio justo e engajamento militar contínuo.
Um ponto que chamou atenção foi a omissão de Taiwan em seu pronunciamento. A ausência da ilha no discurso sugere um esforço para administrar a competição sem transformar cada desacordo em crise geopolítica.
A Estratégia de Defesa Nacional recém-divulgada identifica quatro prioridades: defender os EUA e o Hemisfério Ocidental, incluindo a Groenlândia; dissuadir a China no Indo-Pacífico; aumentar o compartilhamento de encargos; e revitalizar a base industrial de defesa americana.
O documento também pede diálogo militar expandido, estabilidade estratégica e mecanismos de desescalada. Além disso, reconhece a extraordinária ascensão e as conquistas militares da China, e evita buscar seu isolamento ou humilhação.
O objetivo declarado não é a contenção nos moldes da Guerra Fria, mas impedir o surgimento de um hegemon regional que possa dominar o centro de gravidade econômico global. A meta é preservar um equilíbrio de poder em que nenhum Estado consiga exercer domínio absoluto sobre o Indo-Pacífico.
Contudo, Pequim interpreta de forma diferente a modernização militar de aliados e parceiros dos EUA na região, enxergando-a como evidência de cerco e contenção. As tensões devem persistir, e a iniciativa para reverter essa percepção está com Washington, que precisará demonstrar que suas ações não visam cercar a China.
A competição entre as duas potências, contudo, continuará. A análise do portal RT sugere que, se essa abordagem for sustentada, ela poderá oferecer um fundamento mais estável para a coexistência entre grandes potências, superando os pressupostos hegemônicos do passado ou a mentalidade de um confronto prolongado.


Eduardo Teixeira
10/06/2026
Finalmente os americanos estão deixando de lado essa fantasia globalista e partindo para o pragmatismo. Negócios exigem realismo, não utopia. Enquanto isso, aqui no Brasil continuamos sendo sufocados por impostos e burocracia que nos impedem de competir num mundo que já age com objetividade.