O cenário geopolítico no Oriente Médio permanece carregado de contradições e riscos, segundo avaliação do professor Steve Hanke, da Johns Hopkins University. Em entrevista ao podcast Dialogue Works, o economista apontou que as negociações entre Irã e Estados Unidos na Suíça são cercadas por narrativas conflitantes, com Washington promovendo um discurso de abertura de mercados que, na prática, não se sustenta.
Hanke criticou as declarações de Donald Trump sobre a suposta abertura de mercados, argumentando que o ex-presidente age na verdade para fechar o comércio internacional. Como evidência desse fechamento, o professor citou a recente proibição de veículos elétricos chineses nos Estados Unidos e as barreiras crescentes impostas à exportação de soja.
Para o economista, a retórica sobre as exportações agrícolas americanas para o Irã é puro giro político voltado para apaziguar os agricultores do Meio-Oeste. Essa base eleitoral tradicional tem se afastado do trumpismo devido às sanções comerciais severas que reduziram drasticamente as vendas para a China.
No Estreito de Ormuz, o professor vê uma mudança de poder definitiva baseada no controle geográfico exercido pelas forças iranianas. Ele destacou que os iranianos mostraram ser uma ameaça crível e podem fechar a passagem estratégica no momento em que decidirem.
Atualmente, o tráfego de embarcações pela região está reduzido a apenas cinquenta e três por cento do volume registrado no período pré-guerra. Hanke apontou que essa redução acentuada evidencia os riscos contínuos e os impactos profundos para o comércio marítimo internacional.
A respeito do ataque com drones contra um navio comercial na rota, o economista criticou a reação de Donald Trump na rede social Truth Social. Enquanto o ex-presidente classificou o incidente como um movimento tolo, ele permaneceu em silêncio diante das constantes violações israelenses ao cessar-fogo no Líbano.
O professor alertou que essa diplomacia caótica e desinformada faz com que os tomadores de decisão dos Estados Unidos operem sem clareza estratégica. Ele traçou um paralelo histórico com mil novecentos e setenta e nove, quando Jimmy Carter proibiu exportações agrícolas para a União Soviética e prejudicou gravemente os produtores de Iowa.
Aquele embargo histórico acabou por beneficiar a produção da Argentina e contribuiu diretamente para a derrota eleitoral do presidente Carter. Hoje, a mesma insatisfação se repete entre fazendeiros americanos que sofrem com as perdas financeiras causadas pelas sanções contra a China.
Sobre o cessar-fogo no sul do Líbano, Hanke afirmou que o memorando de entendimento é claro ao exigir que Israel interrompa os bombardeios e retire suas tropas. No entanto, o economista prevê que essa desocupação não ocorrerá devido à aceitação ampla da doutrina de um Grande Israel no espectro político do país.
A única alternativa viável para alterar essa postura expansionista seria a suspensão do financiamento militar concedido por Washington. Hanke prevê que a resistência do Hezbollah sairá fortalecida da crise, repetindo o padrão de oposição popular observado na Faixa de Gaza.
No cenário político interno dos Estados Unidos, o professor classificou o senador J.D. Vance como uma figura sem influência real nas decisões de política externa. Ele denunciou que o Congresso americano desvia o olhar dos conflitos devido à atuação de lobbies financeiros que compram a vontade dos parlamentares.
O economista mencionou que as ambições militares israelenses podem avançar para além das fronteiras atuais, com a Turquia sendo apontada por analistas como um alvo futuro. No âmbito econômico do Irã, ele estimou a inflação anual em cem por cento, o que ainda não caracteriza um quadro de hiperinflação.
Ao ser consultado por membros do parlamento iraniano, Hanke recomendou a criação de um conselho monetário lastreado em ouro para estabilizar o câmbio local. O ouro representa um ativo neutro e soberano, sendo altamente valorizado pela população iraniana como reserva de valor segura contra a desvalorização cambial.
Enquanto o governo dos Estados Unidos falha em estabelecer uma política de dolarização coerente, o Irã adota alternativas práticas para contornar o bloqueio. O país asiático utiliza o yuan chinês e as criptomoedas como instrumentos eficazes para manter suas transações internacionais ativas.


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