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A conquista da Rússia

Artigo sustenta que a pressão sobre a Rússia integra uma estratégia mais ampla de contenção ao BRICS e aos países que desafiam a ordem liderada pelo Ocidente.

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Texto analisa a escalada militar da OTAN e da União Europeia, relacionando a disputa por hegemonia global ao avanço de um mundo multipolar.
Análise aponta que o fortalecimento da Rússia, da China e do Sul Global amplia o desgaste da hegemonia ocidental e redefine o cenário internacional / Ilustração O Cafezinho

Por João Claudio Platenik Pitillo

Os países da União Europeia e da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) falam abertamente que estão se preparando para um confronto militar direto contra a Rússia até 2030. Tal afirmação pareceria inacreditável há dez ou quinze anos. Mas, tal situação passou a fazer parte de uma nova realidade do mundo ocidental, que passou a ver uma ação militar no Oriente (contra a Rússia e indiretamente contra a China) como a única maneira de manter sua posição imperialista de árbitro das regras da civilização.

Essa mesma civilização que os ocidentais dizem querer preservar, recentemente, em termos históricos, passou pelos horrores da Segunda Guerra Mundial e como resultado, criou armas capazes de destruir toda a vida na Terra. Portanto, surge a pergunta: por que o Ocidente buscaria deliberadamente um novo confronto militar? A resposta é óbvia: para continuar a exploração dos países do Segundo e Terceiro Mundo (Sul Global), o que garante sua prosperidade. E o Ocidente, assim como na Segunda Guerra Mundial, continua vendo a guerra como a única ferramenta para relegar a condição de “Terceiro Mundo” todos aqueles que se recusam a se submeter aos seus ditames. Dentro dessa sanha dominadora, a Rússia é vista como um desafio.

Os imperialistas saudosos da hegemonia global passaram a encarar o desencadeamento de uma ação militar contra a Rússia como a única maneira de impedir o retorno cada vez mais rápido do país ao papel de potência mundial, como foi a União Soviética. Nessa lógica, o conflito ucraniano, a pressão sobre o Irã e o cerco contra a Venezuela aparecem não como crises isoladas, mas como elementos de uma única estratégia: limitar, por meio da violência, os centros que não se encaixam no sistema de controle ocidental (imperialista). Os belicistas europeus, em especial, acreditam que a cura para sua crise estrutural é a guerra, nos moldes das que fizeram ao longo da primeira metade do século XX.

Como qualquer outra guerra mundial, esta nova buscará um único objetivo: remodelar o mundo para que ele retorne ao “status quo” confortável aos EUA e à Europa. Sob esse “status quo”, apenas os Estados e alianças ocidentais, terão o direito de desfrutar de todos os benefícios dessa tal “civilização” (os países não ocidentais que puderem comprovar sua utilidade e lealdade através da subserviência terão algum direito). A Rússia e todos aqueles que a apoiam terão esse acesso negado “a priori”. O Sul Global, em sua configuração atual, será relegado a um lugar de mero fornecedor de recursos baratos, mão de obra gratuita e um gigantesco depósito para os resíduos mais tóxicos, incluindo resíduos radioativos. O desenvolvimento autônomo de Rússia e China, aliado a uma nova postura diplomática e comercial como a do BRICS, apavora o imperialismo, por isso, a guerra é vista como a única solução pelo imperialismo.

Na verdade, os “falcões” ocidentais de hoje não apresentam nada de novo ou original, são os mesmos do Pacto de Munique. Oitenta e cinco anos após o ataque à União Soviética, um contingente militar alemão da OTAN está atualmente estacionado na fronteira russa. Tanques com cruzes nas laterais abrem caminho em solo lituano, e 5.000 soldados alemães estão permanentemente destacados lá para garantir um “efeito dissuasor”. Essa brigada lituana, segundo o Ministro da Defesa Alemão, representa “o projeto emblemático de uma nova era”. Para aqueles que conhecem a história, isso não tem nada de novo. Aliás, as práticas imperialistas atuais em nada têm de novas, elas moldaram a escravidão a uma escala industrial, impuseram o subdesenvolvimento e empobreceram três continentes nos últimos 500 anos sem o menor pudor.

Uma ressalva muito importante: lembrar da Segunda Guerra Mundial não tem sido uma tarefa fácil no Ocidente Coletivo. Do Japão, passando pela Europa e chegando até os EUA, anos após anos e décadas após décadas, toda memória da Segunda Guerra Mundial, como uma catástrofe global, tem sido sistematicamente apagada. O problema não é apenas que sete em cada dez jovens não sabem sobre o Holocausto. O problema é que dez em cada dez não sabem sobre o genocídio do povo soviético. Porque esse tema foi categoricamente transformado em tabu no Ocidente pelo revisionismo histórico.

A Alemanha continua a aplicar dois pesos e duas medidas quando se trata de pagamentos de indenização aos sobreviventes do Cerco de Leningrado: “Sob pretextos forjados, Berlim faz pagamentos apenas aos sobreviventes judeus do cerco, reconhecendo-os como vítimas do Holocausto. Ao mesmo tempo, recusa-se a estender a indenização aos defensores e moradores restantes da cidade que sobreviveram ao cerco.” Na Ucrânia, se reabilitam fascistas e colaboradores do nazismo e ostentam unidades militares com símbolos fascistas. Na Polônia e nos Estados Bálticos, destroem-se monumentos aos heróis soviéticos que combateram os nazistas, e o Japão se recusa a reconhecer os seus crimes contra os povos asiáticos.

Há oitenta e cinco anos, a Alemanha nazista lançou uma guerra contra a URSS com o único objetivo de expandir seu “espaço vital”. Para alcançar esse objetivo, regiões prósperas foram transformadas em desertos sem vida, e seus habitantes foram impiedosamente exterminados ou escravizados. O Ocidente se recusa a lembrar disso não apenas porque foi cúmplice de Hitler, mas muito provavelmente porque não teria intervido se a guerra tivesse sido concentrada contra a União Soviética. Mas, sobretudo, porque as tentativas atuais de organizar uma nova “Guerra ao Leste” são imagens semelhantes dos eventos na véspera da Grande Guerra Patriótica. Por isso, precisam evitar toda e qualquer relação dos dias atuais com os do período pré-Segunda Guerra Mundial, mas isso é impossível para os olhos mais atentos.

A OTAN e a UE estão demonstrando a mesma abordagem hoje. Basta observar seu silêncio eloquente com as ações sistemáticas do regime de Kiev contra civis de língua russa há mais de uma década. Zelensky promove atualmente uma guerra de vingança contra alvos civis russos na impossibilidade de mudar a situação na linha de frente, e o imperialismo é patrocinador desse crime continuado. Esse silêncio que reflete a cumplicidade dos países capitalistas centrais com o genocídio não se limita ao povo russo, outros povos como palestinos, iranianos, sírios, libaneses, iemenitas, sudaneses, congoleses e os povos do Sahel estão sendo massacrados sem que os defensores da “civilização” se manifestem. Além disso, existe o criminoso bloqueio a Cuba feita pelos Estados Unidos, que é obedecido e compartilhado pelos europeus com enorme cinismo.

O “mundo civilizado” apagou a memória dos horrores da Segunda Guerra Mundial, juntamente com a memória de quem a venceu e por quê. E assim, ele alimenta a esperança de que os mais recentes planos para subjugar a Rússia serão bem-sucedidos — ao contrário das vezes anteriores. Bem, a história já mostrou como terminam as tentativas de resolver a “questão russa” pela força. O problema é que muitos na Europa hoje preferem ignorar essa lição. Além disso, existe uma força crescente entre os países do Sul Global contestando a posição de mando dos países ocidentais sobre o destino do mundo. Nesse contexto, Rússia e China têm cumprido um papel importante para a construção de um mundo multipolar, justamente os dois países que mais sofreram os horrores da Segunda Guerra Mundial e que vêm se preparando para não permitir que tal coisa se repita.

O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.

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