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Crise em Ormuz pode levar a escassez global de combustíveis

Volta das tensões entre EUA e Irã interrompe novamente o fluxo pelo Estreito de Ormuz e aumenta o risco de desabastecimento global.

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Alta do petróleo e do diesel reacende preocupações com inflação, cadeias de abastecimento e impactos sobre consumidores em diversos países.
Ataques a navios e novas ameaças no Mar Vermelho ampliam a instabilidade em uma das principais rotas energéticas do planeta / AP
Volta das tensões entre EUA e Irã interrompe novamente o fluxo pelo Estreito de Ormuz e aumenta o risco de desabastecimento global

O breve alívio durou pouco. Depois de semanas em que o petróleo voltou a circular pelo Estreito de Ormuz, a quebra do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã fechou outra vez essa rota estratégica, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. E, desta vez, o mundo chega ao aperto sem o colchão de segurança que evitou um colapso econômico maior nos primeiros meses do conflito.

Segundo operadores do mercado ouvidos pelo Financial Times, a diferença em relação à fase anterior da guerra é dramática. Enquanto no início do confronto entre Washington e Teerã havia estoques e reservas estratégicas suficientes para amortecer o choque, agora esses recursos já foram praticamente todos usados. Um operador resumiu a situação sem meias palavras: “Já esgotamos todas as nossas reservas. Tudo”. Em seguida, completou: “Tudo isso acabou”.

Reservas esvaziadas depois de meses de guerra

Para entender a gravidade do momento, é preciso olhar para trás. Durante os quatro meses em que o Estreito de Ormuz ficou fechado antes do acordo do mês passado entre americanos e iranianos, governos ocidentais e asiáticos recorreram a praticamente todas as ferramentas disponíveis para segurar os preços.

As potências ocidentais, por exemplo, liberaram volumes recordes das chamadas reservas estratégicas de petróleo — aquele estoque de emergência que os países guardam justamente para momentos como esse. Enquanto isso, a China reduziu pela metade suas importações e obrigou suas estatais a usarem o petróleo já estocado. Até a Casa Branca chegou a sinalizar que poderia, ao menos em tese, intervir diretamente nos mercados futuros caso os preços disparassem sem controle.

O resultado dessa mobilização conjunta foi que o petróleo Brent chegou a bater US$ 126 por barril em abril, um valor alto, mas ainda distante do recorde histórico, mesmo com a Agência Internacional de Energia (AIE) alertando, à época, que o mundo vivia a pior interrupção de fornecimento de petróleo já registrada.

Agora, esse colchão simplesmente não existe mais. A própria AIE informou, na sexta-feira, que os países membros já usaram quase três quartos dos 400 milhões de barris previstos para a reserva de emergência anunciada em março. Ou seja, restam apenas algumas semanas até que esse estoque também se esgote.

Preços disparam e mostram nervosismo dos investidores

O movimento dos preços do petróleo ao longo dessas últimas semanas conta, sozinho, boa parte dessa história. Assim que o cessar-fogo foi anunciado, os valores despencaram: de cerca de US$ 100 por barril para pouco mais de US$ 70. Foi um respiro rápido, mas que já não se sustenta.

Na terça-feira, contudo, o petróleo Brent voltou a subir com força e ultrapassou os US$ 87, o patamar mais alto em mais de um mês. Já na quarta-feira, era negociado a aproximadamente US$ 84,40, acumulando uma alta de 11% apenas nesta semana. Esse tipo de oscilação intensa costuma ser, antes de tudo, um termômetro do nervosismo dos grandes investidores.

Amrita Sen, diretora de inteligência de mercado da consultoria Energy Aspects, explica que, antes da guerra, o mercado global contava com cerca de 400 milhões de barris em estoques excedentes — e isso sem sequer contar as reservas estratégicas controladas pelos governos. Hoje, segundo ela, esse colchão simplesmente desapareceu: “Agora não temos praticamente nada”. Por isso, ela resume o momento de forma direta: “A complacência do mercado em relação aos fluxos de Ormuz está sendo severamente testada”.

Quem paga a conta primeiro é o consumidor

Enquanto analistas discutem projeções e barris, quem sente o golpe mais rápido, como sempre, é o motorista comum no posto de gasolina. Desde o início da guerra, os preços da gasolina e do diesel sobem mais depressa — e caem bem mais devagar — do que o próprio petróleo bruto. Essa assimetria costuma penalizar justamente quem tem menos margem no orçamento para absorver reajustes bruscos.

Além disso, o mercado de combustíveis refinados enfrenta um aperto adicional. A Rússia, segunda maior exportadora de diesel do mundo, também tem sofrido interrupções na produção depois de uma sequência de ataques bem-sucedidos de drones ucranianos de longo alcance contra seu sistema de refino. Diante desse cenário, a AIE já alertou, na sexta-feira, para uma possível crise no abastecimento de gasolina e diesel, enquanto os contratos futuros de diesel no mercado atacadista europeu subiram 14% somente nesta semana.

Há ainda um efeito colateral pouco discutido: mesmo os países ocidentais que passaram anos evitando o petróleo russo por causa da guerra na Ucrânia agora precisam disputar diesel com nações como Turquia e Brasil, que nunca deixaram de comprar da Rússia e agora também correm atrás de alternativas. É um lembrete de como as sanções e os boicotes energéticos, decididos em gabinetes distantes, acabam reorganizando o mapa global do comércio de combustíveis — quase sempre com efeitos imprevistos.

Por outro lado, o temor generalizado de que as companhias aéreas ficariam sem combustível de aviação — já que países como o Kuwait são fornecedores importantes — não se concretizou até agora. As refinarias conseguiram otimizar a produção, e as próprias companhias aéreas cortaram voos considerados pouco rentáveis. Ainda assim, a expectativa é de que os estoques caiam durante o pico de demanda do verão, e repor esse volume antes das férias de inverno deve ser um desafio e tanto.

De acordo com a AIE, os estoques globais de petróleo até subiram, ainda que discretamente, em junho. Só que esse ganho é pequeno demais perto das quedas acumuladas nos três meses anteriores — um detalhe que reforça como a folga do sistema ficou mínima.

Ataques no Golfo elevam a tensão geopolítica

A queda dos preços logo depois do cessar-fogo também teve outra explicação, mais imediata: um excesso temporário de oferta. Isso porque os países do Golfo se apressaram em esvaziar tanques de armazenamento que estavam lotados, escoando milhões de barris pelo Estreito de Ormuz justamente para abrir espaço e retomar a produção.

A companhia estatal Adnoc, dos Emirados Árabes Unidos, chegou a vender 84 milhões de barris por meio de licitação, segundo a publicação especializada Argus, e ainda operava um sistema de transporte pelo Canal de Ormuz para localizar superpetroleiros que aguardavam no entorno, ainda receosos de entrar no Golfo.

Só que essa aparente normalização foi interrompida de forma violenta. O braço de transporte marítimo da Adnoc confirmou que dois desses superpetroleiros — cada um capaz de carregar cerca de 2 milhões de barris — foram atacados pelo Irã na manhã de terça-feira, enquanto cruzavam o estreito. Pelo menos um marinheiro morreu no episódio, o que escancara o risco humano por trás de cada estatística de mercado.

Alguns fornecedores do Golfo até conseguiram redirecionar parte de suas exportações. A Arábia Saudita, por exemplo, elevou seus embarques pelos portos do Mar Vermelho para cerca de 5 milhões de barris por dia, ante os 7 milhões de barris diários que enviava pelo Estreito de Ormuz antes da guerra. Já outros países, como Iraque e Kuwait, seguem praticamente isolados, sem rotas alternativas viáveis.

Joel Hancock, analista sênior de commodities do Natixis Bank, resume bem o momento atual dos negociadores: “Em última análise, o mercado estava precificando uma trajetória de fluxo otimista que agora está claramente fora de questão, pelo menos… não até que tenhamos outra rodada de negociações”.

Mar Vermelho pode agravar ainda mais o cenário

Por fim, a tensão não se limita ao Golfo Pérsico. Operadores também acompanham de perto a situação no Mar Vermelho, depois de ataques dos rebeldes houthis do Iêmen contra a Arábia Saudita, incluindo um ataque ao aeroporto internacional de Sana’a.

Vale lembrar que esse grupo apoiado pelo Irã já paralisou quase por completo a navegação no Mar Vermelho por mais de um ano, a partir do final de 2023. Se a campanha dos houthis for retomada com a mesma intensidade, o bloqueio pode atingir o acesso ao sul de Yanbu — a única rota de exportação de petróleo saudita que não depende do Estreito de Ormuz. Nesse caso, os mercados globais de energia perderiam uma de suas últimas válvulas de escape, e o custo dessa disputa geopolítica, mais uma vez, tende a recair sobre quem menos decide sobre guerras: o cidadão comum, no posto de gasolina ou na conta de luz no fim do mês.

Com informações de Financial Times*

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Rhyan de Meira

Rhyan de Meira é jornalista pela Universidade Federal Fluminense, escreve sobre política, economia e carnaval. É repórter, redator e editor dos site O Cafezinho e Rio Carta. / Contato: Redes: @rhyandemeira / Email: rhyandemeira@hotmail.com

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