Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Caetano cita artigo do Cafezinho

Por Miguel do Rosário

16 de setembro de 2012 : 17h21

Eis que somos citados por ninguém menos que Caetano Veloso, em sua coluna do jornal O Globo. A citação não faz, aparentemente, nenhum elogio ao meu texto, mas também não faz nenhuma crítica, nem consegue rebater a contento, a meu ver.

Esta é a frase de Caetano sobre nosso post:

E acabo de ler um panfleto pró-Paes que cita Aristóteles e Kant e desqualifica os eleitores de Freixo como “playboys neofascistas da Zona Sul”.

Abaixo publico o artigo do nosso grande artista. Antes, algumas observações:

  • O Segundo Caderno do Globo publicou  há poucas semanas colunas do mesmo Caetano, e de Francisco Bosco (que aliás citou até meio que elogiosamente o meu post em seu Facebook, incitando seus amigos a lerem-no), defendendo Freixo como salvação do mundo. Estes sim eram “panfletos”. Mais que panfletos: louvaminhas descarados de um indivíduo. Eu não faço nenhum elogio ao Paes. Tenho críticas ao prefeito; não é meu líder político; e provavelmente temos ideias contrárias sobre muitas coisas. Dentro da conjuntura, Paes é melhor opção, só isso.
  • Freixo pode ser uma boa pessoa, com boas intenções; o inferno está cheio desse tipo.
  • Acho fundamental que haja oposição no Rio e no Brasil. Mas Freixo poderia muito bem ter se lançado a prefeito de Niterói. Teria chances reais de ganhar (era favorito em pré-pesquisas). Lá, teria chance de construir um conjunto mais sólido de alianças e fazer um governo estável, o qual seria um modelo do PSOL para uma futura eleição no Rio de Janeiro.
  • Não falei “playboys neofascistas da Zona Sul”. Mencionei um “neofascismo playboy”, o que é mais leve, porque não se refere à pessoas, e sim a uma atmosfera de voluntarismo e senso de superioridade moral que acho irritante e perigoso. Há um clima, inclusive, de “linchamento” de quem não vota em Freixo, como se observa nas redes sociais. No meu post sobre Freixo, tem uma desbocada que trabalha na Rede Globo que só sabe chamar os outros de “imbecil” e “ignorante”; não perdoa sequer uma senhora de 49 anos, costureira em Bangu, que é mãe de um amigo e uma pessoa maravilhosa.
  • Caetano acabou admitindo, em sua resposta, sua tendência pelas “modinhas” políticas da Zona Sul pós-moderna: Gabeira, um direitoso que apoiou Serra em 2010 e agora se tornou um colunista especializado em produzir textos odiosamente lacerdistas; e Marina Silva, aquela “progressista” que é contra pesquisa com células tronco e descriminalização do aborto, além de ser criacionista (acredita que o homem veio de Adão e Eva).
  • Não tenho preconceito contra Zona Sul. Ou antes, tenho sim. Mas não contra todo mundo na Zona Sul, e sim contra sua submissão voluntária, resignada e desinformada ao udenismo midiático.

Outro trecho de Caetano que merece um comentário:

Se Paes se elege sem contrapeso, contando com dezenas de legendas, dezenas de minutos na TV, poderosas corporações e a grande imprensa (no Rio isso se resume ao GLOBO), o Rio fica sem mostrar resistência aos abusos das empresas de transporte público, sem crítica ao desenho do metrô, sem exigência moral.

Ou seja, Caetano admitiu que não vota para eleger um prefeito, e sim para fazer um “contrapeso”. Isso para mim é o elogio da irresponsabilidade. Além disso, é realmente divertido que ele mencione o Globo…, jornal onde escreve. Não entendi o que ele quis dizer com isso, já que 90% dos globais, incluindo ele, vão votar em Freixo.

Por fim, reitero que acho ótimo que haja contrapeso ao Paes. Mas esse contrapeso deve ser construído ao longo dos anos, através da formação de alianças com forças partidárias, sociais e econômicas, e não através da criação às pressas de um messias salvador.

Enfim, o artigo:

Eleições

Por Caetano Veloso, no Globo

Estou correndo para conseguir terminar a gravação de voz para meu novo disco e viajar para a Bahia sem mais preocupações quanto a isso. Vou para o aniversário de minha mãe. Ela faz 105 anos, e eu não deixaria de ir mesmo que fossem 53. A questão de concluir as vozes para o disco não se restringe aos três dias que são o mínimo requerido para eu ir do Rio a Santo Amaro e voltar: um adiamento desse tamanho se multiplica por pelo menos dez. Se você tem tudo pronto para mixagem e masterização num determinado dia, tudo pode correr de modo a termos o CD pronto para lançamento em X de novembro. Inclusive (muito importante) minha disponibilidade para realizar ou acompanhar os trabalhos de feitura de capa e encarte. Levando em conta tudo isso, três dias de adiamento podem significar mais de um mês de atraso para a entrega do disco. Não tenho muito tempo para pensar. Pelo menos para pensar em outras coisas.

As eleições se aproximam. Minha decisão por Freixo foi tomada, sem hesitação, logo que soube que ele era candidato. Ter confiança política em alguém por conhecer seu modo de agir no passado não significa abandonar a pesagem das circunstâncias e adotar um critério messiânico. Entro assim nesse assunto porque ele me veio à cabeça. Ouvi de amigos e conhecidos ponderações sobre os ganhos do Rio devidos à parceria de Paes-Cabral com Dilma-Lula, ou seja, com o governo central. E acabo de ler um panfleto pró-Paes que cita Aristóteles e Kant e desqualifica os eleitores de Freixo como “playboys neofascistas da Zona Sul”. Uma amiga já tinha me escrito em e-mail que é eleitora de Aspásia (trata-se de uma moça que mantém um blog ecológico) e que não votaria em Freixo porque ele não atinge sua “sensibilidade Zona Norte”. Percebi nessa sua observação o efeito de definições, nascidas de resultados de pesquisas eleitorais, da candidatura de Freixo como um fenômeno “Zona Sul”. Mesmo porque as candidaturas verdes têm sido, até aqui, consideradas de modo semelhante. Vide Gabeira e Marina.

Bem, eu moro na Zona Sul do Rio. Mas não fui formado nesse ambiente. Minhas escolhas respondem mais a Santo Amaro e a Guadalupe do que ao Leblon. Mas a Zona Sul é Antonio Carlos Jobim fazendo “A felicidade”. É Carlos Lyra escrevendo “Você e eu”. Vinicius achando as rimas de “Maria Moita”. É sobretudo o ambiente que acolheu a batucada embutida no violão de João Gilberto — e que mudou a medula do samba, de Lúcio Alves aos mestres de bateria de escola de samba, passando por Beth Carvalho — tendo sido concebida em Juazeiro e desenvolvida em Diamantina. A bossa nova é fogo. Então, vamos deixar de crer que podemos desvalorizar o que brota ou viceja na Zona Sul. Mas, se eu quisesse continuar usando a metáfora da bossa nova, o caso Freixo está mais para a batida de João Gilberto do que para as composições e arranjos de Tom. O mesmo para minha adesão à sua candidatura. Algo que vem se formando desde Santo Amaro e Niterói encontra primeiro receptividade entre alunos da PUC-Rio. O que não quer dizer que pare por aí.

Apoio Freixo como apoiei Brizola, Mangabeira, Gabeira e Marina. E também como apoiei Lula contra Collor. Na eleição Lula versus Serra, votei — e declarei voto — em Lula. Mas não com a mesma decisão interna com que apoiei os outros citados. Uma adesão semelhante a essas muito definidas se deu quando da candidatura de Ciro Gomes à presidência. Mas tal adesão não resistiu ao comportamento a um tempo afoito e desmotivado do candidato. No caso de Freixo, estou seguro de que se o Rio der estatura à sua personalidade política demonstrará maturidade e saúde social. E sempre terminará obtendo ganhos. A começar pela situação imediata. Se Paes se elege sem contrapeso, contando com dezenas de legendas, dezenas de minutos na TV, poderosas corporações e a grande imprensa (no Rio isso se resume ao GLOBO), o Rio fica sem mostrar resistência aos abusos das empresas de transporte público, sem crítica ao desenho do metrô, sem exigência moral. Nada disso significa que Paes tenha sido ruim para a cidade. Mas é preciso ser menos vulnerável aos epítetos “udenista”, “lacerdista” etc. que se aplicam a todo e qualquer esboço de critério ético para a atividade política. O PT, quando na oposição, foi o mais udenista de todos, exigindo ações ilibadas e coerência nas definições entre amigos e inimigos. FH nunca encontrou entre os que agora elogiam a aproximação entre Lula e Sarney, Lula e Delfim, Lula e Maluf quem quisesse justificar seu diálogo com Sarney ou ACM.

Minhas escolhas são públicas. Não é do meu feitio escondê-las. Escolhendo Freixo, estou sendo fiel ao que aprendi com meu pai, minha mãe, meu povo.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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18 comentários

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christian

19 de setembro de 2012 às 11h46

Seja honesto, Miguel. Dizer que o Francisco Bosco elogiou seu texto é muito exercício de interpretação. Vejamos o que ele colocou ao final do debate:

“caros, reli ontem o texto e realmente discordo da imensa maioria dos argumentos do autor, alguns francamente despropositados (a começar por chamar o freixo de fascista). o que deve ter me tocado é ele ter ativado meu eterno receio de estar falando coisas sem base na realidade concreta. é uma questão difícil pra mim: em tudo o que penso, a realidade é sempre a prova dos nove. meu método é sempre o de submeter as teorias ao teste da realidade, nunca o contrário (isso até pode parecer, mas não é um truísmo). e para isso tento sempre expandir meus conhecimento reais, minha experiência direta dos assuntos sobre os quais escrevo. mas em política eu perco justamente essa experiência da realidade (que se mostra ampla demais, inverificável demais) e isso me aflige ao ponto de às vezes perder as referências, como foi o caso. ainda assim, foi proveitoso pra mim ter compartilhado esse texto e lido os comentários de todos. não vou responder um a um, mas li praticamente tudo. abraços gerais.”

Em suma, apesar das cretinices à lá Diogo Mainardi, Bosco consegue encontrar algo bom no “debate” e não no texto.

e completo com um comentário meu na postagem do Francisco sobre o problema do seu artigo servir ao verdadeiro “fascismo”: o discurso único.

“De qualquer forma, há um ponto básico a ser levantado nesse debate: Sem Freixo, teríamos um discurso único ainda mais evidenciado. Discurso esse construído através do apoio de toda a estrutura de poder dominante – magnatas do capital privado, caciques políticos de legendas de aluguel, etc – Combater a candidatura Freixo na atual conjuntura é, não apenas combater a única voz dissonante, como ainda defender um projeto de cidade excludente e elitista. Existe algo mais fascista que o discurso único?”

Um abraço afetuoso. #vaitersegundoturno

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    Miguel do Rosário

    19 de setembro de 2012 às 14h20

    Eu nem vi o post dele, pra falar a verdade. Agora, pelo que você postou aqui, vejo que foi um elogio além do que eu mereço.

    Responder

Pedro Cruz

17 de setembro de 2012 às 14h51

Isso aqui tá parecendo o STF, teu artigo tá legal, dá licença de eu discordar, por favor olha concordo com voce, mas…..Não é nada disso não. A alinça necessária para ganhar a presidencia teve que ser essa. Precisamos dessa aliança para governar e conquistar o que conquistamos e vamos precisar dela por um bom tempo. Quem quizer acompanhe, quem não quizer procure outro caminho. Estamos vivendo um processo muito dificil para avançar. Quem não enxerga essas dificuldades é porque joga no outro time. Quando estourar o rojão esses babacas fogem, todos. Ou, assumem seu lado verdadeiro.

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@fehpiana

17 de setembro de 2012 às 10h00

Coerência, se vê por aqui –> RT @migueldorosario Caetano cita artigo do Cafezinho – http://t.co/P3s5ENaO

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Thalita

17 de setembro de 2012 às 03h53

Caetano sempre foi da turma da modinha. não vejo surpresa, com sua trajetória de vida, que ele esteja escrevendo para O globo e falando um monte de asneiras pra essa garotada que acha ele um coroa modernoso.

é como dizia o Chico: “Nem toda loucura é genial, nem toda lucidez é velha.”

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Francine Machado

17 de setembro de 2012 às 02h42

O que acho de mais valioso nessa campanha eleitoral carioca é o debate a que somos presenteados. Há tempos não via uma campanha assim. Mas o que acho mais preocupante é o avanço de uma mentalidade conservadora de setores antes posicionados como esquerda, sobretudo o PT e oPC do B, que encampam uma luta “revolucionária” para reeleger Eduardo Paes, como se ele fosse a garantia de uma governabilidade municipal progressista, de esquerda.
Na verdade, o que está em jogo para esses partidos é o terror da projeção que um partido – antes visto como radical e, até, medíocre – como o PSOL possa ter como a alternativa de esquerda que melhor atende aos anseios da população carioca – quiçá brasileira em um futuro próximo – através da campanha já vitoriosa de Marcelo Freixo. Sim, digo vitoriosa pq nem PT e nem PC do B, seja com Bené, Bittar ou Jandira, jamais conseguiram a projeção de seus candidatos em eleições anteriores como o pequeno PSOL o tem feito. Projeção política, e não somente eleitoral.
O que está dado é que o problema desses partidos passou a ser o fato de que quando uma parcela da população carioca finalmente volta a dar uma guinada à esquerda num processo eleitoral, eles estão fora do jogo, pois são vistos em uma aliança “revolucionária”com o PMDB de Eduardo Paes (ex-PSDB), parceiro da Delta-Cabral, e com a preocupação “revolucionária” de manter as regras do jogo para a Copa do Mundo e Olimpíadas – além de não quererem perder toda a estrutura que ambos, PT-PC do B, montaram no sonho da máquina administrativa municipal-estadual-federal – que já está em xeque com o crescimento de um novo nome para os cariocas, e que não é Gabeira ou afins. Dessa vez é um um cara de um partido mais à esquerda que eles, que se opõe à política institucionalizada – por razões de governabilidade, que fique claro – por Lula, seguido por Dilma, e que hoje, é o sangue-suga do qual o Lulo-petismo não consegue mais se livrar.
Esse medo fica muito evidente quando vimos nas redes sociais e nas ruas a preocupação de PT-PC do B (excluo PDT, PSB dessa lista de esquerda porque sabemos que há tempos eles já pularam fora do barco) em desqualificar Freixo e defender Paes, o que anteriormente era inviável, pois a militância de ambos eram mais preocupados em fazer campanha para seus candidatos do que para os seus aliados majoritários, quando estes não eram de seus partidos.
O que leva os militantes desses partidos defenderem tanto Paes e atacarem, com mais fervor ainda, Marcelo Freixo, senão esse medo ?
O problema da esquerda – além da paixão pelo autoritarismo justificado pela defesa da igualdade social na qual, se vc não concorda, tem que ser punido ou excluído (e nisso incluo o PSOL, mais que os de mais) – é que ser mais esquerda que o outro é o que interessa, não importando a luta maior. Hoje, a parcela da população carioca que escolheu como o candidato da mudança um cara de um partido de esquerda menor, recém criado, nascido de uma turbulência dentro do partido dos 2 últimos presidentes da República , acha que Freixo é mais esquerda que o PT nacional e que os partidos que apóiam Paes. Aí é que está o problema de PT-PC do B. O discurso de Freixo da ética soa mais revolucionário, ou seja, mais à esquerda. Os primeiros sinais de que “do jeito que tá, não dá mais” começam a brotar. E dessa vez não vem pela direita ou pelos conservadores. Talvez os “playboyzinhos” comecem a virar moda.

Responder

    Miguel do Rosário

    17 de setembro de 2012 às 02h53

    Francine, legal o seu comentário, mas o que está em jogo não é exatamente a questão de esquerda e direita, e sim de quem tem condição de proporcionar uma administração mais responsável, mais estável e mais efetiva à população pobre do Rio de Janeiro. Além disso, está em discussão também uma tese fundamental para a esquerda: é possível governar sem aliados, sem base legislativa. Eu sou contra essa tese. Acho-a perigosa, porque nos dará governos instáveis, vulneráveis, e a experiência na América Latina já nos deu, há poucos meses, um exemplo traumático, terrível, que foi a deposição de Lugo num golpe branco relâmpago. Foi um golpe terrível, chocante, porque foi legal. Lugo não tinha base legislativa e os senadores e deputados simplesmente em 48 horas criaram uma nova lei e o derrubaram. Um prefeito também pode ser derrubado pela câmara de vereadores. Acho fantástico que a cidade do Rio se incline à esquerda, e se isso não é modinha, então essas pessoas irão participar da vida política e tentarem se organizar de alguma forma, seja através de partidos seja através de movimentos sociais. Vamos ver. Com Gabeira foi modinha. Acabou a eleição, acabou o movimento. Com Marina, a mesma coisa. Enfim, não estamos falando de uma disputa entre centro acadêmicos, para ver quem é mais esquerda, estamos falando de vidas humanas e de uma cidade que está bem no olho do furacão. Não merece um governo experimental e instável, que irá governar com base em “conselhos de bairro”, e cuja preocupação parece ser mais o dinheiro da Liesa do que a construção de creches na periferia.

    Responder

      Francine Machado

      17 de setembro de 2012 às 13h36

      Obrigada pela resposta ao comentário, Miguel. Concordo com vc quanto a questão da falta de base parlamentar e sobre os problemas que isso vai acarretar caso Freixo seja eleito, sem base alguma, contando, provavelmente, apenas com Eliomar (quiçá, Paulo Pinheiro)como vereadores.
      É evidente que se Freixo for eleito e conseguir apoio parlamentar numa Câmara composta por DEM´s e PMDB´s da vida, ele terá traído os seus eleitores, pois os tenta convencer ao longo de sua campanha que não vai abrir esse tipo de concessão. Se for eleito e não abrir concessões, não vai governar, mas vai honrar o seu compromisso de campanha. É uma encruzilhada, na qual a parcela que o apóia – tendo Caetano Veloso como o seu principal cabo eleitoral – vai ter que refletir e se posicionar sobre os acertos e erros dessa possível vitória sem base parlamentar. Resta saber como a base popular que o apoiou vai se mobilizar para ajudá-lo a vencer estas barreiras – pra mim, e pra vc, quase intransponíveis. Nisso, concordamos.
      O que não concordo é achar que essa é a razão para acreditar que Paes é a melhor opção por ter governabilidade viável, apoio Federal, ser o cara que está fazendo um governo de “profundas mudanças” na cidade do Rio. Nada tão difícil pós-Cesar Maia, ou perante as exigências de Fifa-COI para que tudo dê certo nos grandiosos eventos que teremos nos Anos de Ouro Carioca. Acho, inclusive, que boa parte dessas mudanças no transporte, na estética, na revitalização de áreas da cidade (super positivas) venham mais das exigências da Fifa-COI, do que propriamente do projeto de governo. A agenda nos próximos anos é essa, mas e coisas básicas como educação e saúde ?
      Entendo que não houve mudanças profundas em elementos básicos da vida dos cariocas mais pobres, como saúde e educação. Se apegar ao fato de freiar a aprovação automática criada por Maia, não é avanço na educação, é combater o retrocesso criado pelo ex-prefeito insano e só. Ornamentar UPA´s com ar-condicionado e afins, aumenta a auto-estima dos mais pobres, mas essa volta a cair quando o médico não está presente, o atendimento é mal feito, e o medicamento não consta na enfermaria.
      Sou professora do município e sei dos problemas profundos da educação que não podem ser resolvidos por uma administradora (e não uma educadora) como a Secretária de Educação Claudia Costin, e que são ditos na campanha do Paes como vitória. Ele apenas retirou os entraves que Cesar Maia criou, mais nada. Não sou usuária de UPA, pq tenho o plano que o município me dá (reconhecendo que usar o serviço público de saúde é uma furada) , e meu salário não me permite pagar um por conta própria, mas minha família usa os postos de atendimento e é revoltante.
      Mas tirando esse relatos, o que vejo é que a população do Rio que apóia Freixo, quer mudanças no trato político entre políticos. Aí é que tá.
      Por isso digo que isso é uma sinalização para o futuro. Eles procuram em Freixo alguém que prega a ética política, coisa que hoje não atribuem a PT e seu aliados. O discurso da governabilidade, da base parlamentar, não cola com eles. Eles buscam uma possível ética (que era certo para nós que não encontrariam em Gabeira e nem na Marina perdida em um PV conservador), mas encontram no discurso – repito, discurso – do Freixo. Eles querem dar uma resposta ao acordo a qualquer custo em nome da governabilidade. Eles querem dar uma resposta ao governo federal, e não acharam essa na direita, então, rumam para a esquerda que se posiciona – no discurso – como mais ética.
      E é isso que pode afundar a esquerda aliada do Lulo-petismo, pois eles passaram a acreditar que a governabilidade é tudo, independente de quais sejam os seus aliados (Sarney, Collor, Maluf, Cabral etc.). Essa modinha pode colar sim. E, apesar de eu não ter decidido se voto no Freixo (mas nos outros é certo que não, pois minha ideologia é de esquerda – e acho que isso é importante sim, mais que qualquer capacidade administrativa), acredito que dessa vez não é uma modinha Gabeira sem sustentação.
      Acho que isso pode evitar a ascensão conservadora de candidatos conservadores que crescem na rebarba do Lulo-petismo (vide Paes, Cabral e Russomano), e torço para que traga o governo federal mais para a esquerda (no sentido ético e da prática política). Creio que PT-PC do B precisam reavaliar essa política de alianças, porque uma parcela da população do Rio já esboça esse movimento, para não serem confundidos com o bolo quando o senso comum seguir essa moda.

      Responder

        Miguel do Rosário

        17 de setembro de 2012 às 13h50

        Concordo contigo, Francine. Mas política é uma coisa que não depende só da vontade nossa, mas de uma conjuntura, de um jogo de forças, muitas delas extremamente poderosas e reacionárias, ancoradas no capital, de um lado, e também no voto popular de outro. A democracia é um sistema que dificilmente permite mudanças bruscas. A democracia brasileira tem dispositivos conservadores, para o bem e para o mal. É preciso muita inteligência política, um tanto de flexibilidade, e sobretudo fé e otimismo na democracia para fazer as coisas avançar. Esse pessimismo antipolítica, que está no fundo de boa parte do voto em Freixo, não leva a nada. Há um eleitorado genuinamente de esquerda como você, mas há também um bolo aí meio confuso, que mistura esse voto despolitizado, que vota por modinha; o voto udenista conservador (de direita mesmo, todas as pessoas de direita que eu conheço vão votar em Freixo); e o voto ideológico de esquerda, como o seu.

        Responder

Pedro Cruz

16 de setembro de 2012 às 21h45

…”aprendi com meu pai, minha mãe, meu povo”.

A MARAVILHOSA DONA CANÔ pediu desculpas a LULA (se eu não me engano isso foi na campanha da DILMA) pelas grosserias de seu filho. Com DONA CANÔ esse cara não aprendeu essas coisas feias, não!!

Responder

    deAcari

    17 de setembro de 2012 às 01h00

    isso aí, Pedro!!

    Responder

Mauro

16 de setembro de 2012 às 20h51

Miguel, veja só, no texto do Igor Bruno fiquei sabendo que o Edmilson, em Belém, é apoiado pelo PC do B. Ótima surpresa. Edmilson, que foi o maior Prefeito que Belém teve nos últimos, pelo menos, 50 anos. Talvez seja dos quadros que mais respeito no PSOL e governou Belém com grande minoria parlamentar. Fora a forte oposição dos meios de comunicação, que lá têm tanta força quanto a Globo aqui. Depois, apesar do enorme êxito de sua gestão, foi preterido pelo PT nacional, que preferiu apostar em suspeitos como Paulo Rocha e porras-loucas como a Carepa. Deu no que deu a gestão da Ana julia, matando o PT por anos lá, ao menos em eleições majoritárias. Tudo porque o Edmilson e seus apoiadores não engoliam Jader Barbalho.
Política é algo complexo, como obviamete concorda. Eu e você, hoje, não condenamos Lula e Dirceu pelas tratoradas que deram a partir de 1998, forçando o Partido em muitos locais a fazer alianças incômodas. Por outro lado, não podemos condenar os políticos locais que não aceitaram isso. Essa política foi boa para o Brasil, mas gerou o enfraquecimento do PT em muitos locais, como o Pará e o Rio. E hoje, em Belém, a esquerda é Edmilson. No Rio, o esfacelamento do PT, que não conseguiu se tornar herdeiro das bases brizolistas (especialmente por causa daquela intervenção em 98, que matou o Partido aqui, isso é fato), acarretarão 20 anos de governos suspeitíssimos (4 de Marcelo Alencar, 8 de Garotinho/Rosinha e 8 de Cabral), que ajudou a consolidar um poder hegemônico no Estado, que surgiu na Assembleia, se fortalece durante as gestões Garotinho, ganha o Executivo e hoje domina completamente o Estado, incluindo TCE, TRE e todo o judiciário. Tudo boa gente. E isso sem interferir em nada com o Titã fluminense, essa verdadeira praga que nos assola, a Globo, que continua mandando e desmandando. Esse poder que domina o Estado tem brechas, interesses conflitantes, mas que se rearruma sempre após alguns conflitos porque navega sem ser incomodado e tem a esperteza de não brigar, no Plano Federal, com os bons fluídos que NÓS lutamos décadas para viabilizar. Mas, reconheço, além desse, Cabral teve outro mérito: enxergar o óbvio. Governar o Rio, que virou túmulo de políticos, era resolver a segurança pública, mas não podia ser do modo tradicional, na base da porrada, da violência assassina da mais corrupta polícia do Brasil. Nisso, aceitou a indicação/intervenção da esfera federal, que se deu com o dedaço do Paulo Lacerda pelo Beltrame, avalizado por Lula. Cabral sabia que se aliar às bandas corruptas e assassinas da polícia fluminense, como fizeram todos antes dele (resguardada a tentativa sem efeito do Hélio Luz), era estar morto politicamente em dois anos.
No resto da administração, entretanto, consolidou o nefasto poder que se iniciou na Assembleia na década de 90, pós derrocada do Nader, com ele mesmo Cabral, Picciani e Paulo Mello à frente, poder este que hoje que se assemelha, sem exagero, ao exercido pelo PRI no México.
A candidatura Freixo tem problemas, tem eleitores “emprestados” de Gabeira e Marina, com baixíssima politização e forte conotação moralista/direitista, mas está muito mais próximo do Edmilson que da Heloisa Helena, a louca, maior responsável pelo PSOL ter votado contra a CPMF (sob ameaça da histérica de rachar,covardemente Chico Alencar e Ivan Valente, deste gosto muito, aceitaram a chantagem). Não sou e nem vou ser psolista (Deus me livre militar com Babá, Janira e Luciana Genro), mas sou de esquerda, sou governista (mas do federal) e não esqueci a dialética. Se ninguém puxa pro lado de cá, se a esquerda aceita como carneirinho o que a direita está fazendo no Rio, criaremos um monstro que depois nos engolirá, por dentro. E pior, essa turma também poderá se dizer herdeira de Lula.
Então, Miguel, desculpe-me de novo o longo texto. Não voltarei a escrever. Não quero mudar o que pensas, quem sou eu. Só não acho que seja o momento de a esquerda no Rio continuar a se ofender, enquanto nossos inimigos riem nos salões, vendo que tá tudo dominado.
Mas não resisto a uma última patacoada: você critica a ideia do Freixo para os desfiles, tem sido um mote constante seu. E da Globo também, que acusou Freixo de intervencionista. Mas já leu o documento com as propostas para o carnaval no site da campanha, assinado por bambas de primeira mesmo? Lá está escrito que é preciso acabar com o monopólio nas transmissões. Repito, acabar com o monopólio… da Globo. Gabeira e Marina não assinariam isso. Nem o Paes.

Responder

    Miguel do Rosário

    16 de setembro de 2012 às 20h55

    Mauro, é um prazer ler seu comentário. O fato de não concordarmos não quer dizer que não possamos discutir política. Ao contrário. Acho que o PSOL vai amadurecer muito com o governo do Edmilson, em Belém. Torço por ele. Torço pelo amadurecimento do PSOL. Uma pena que Freixo não se lançou candidato por Niterói, onde poderia ganhar e fazer um bom governo de esquerda, abrindo espaço para vir para o Rio num outro contexto, apoiado por mais partidos e com uma história para contar.

    Responder

      Mauro

      16 de setembro de 2012 às 22h47

      Mas que mania de Niterói. E eu falando sério, mas… deixa para lá. Política agora virou academia? Com graduação, mestrado e doutorado? Diziam o mesmo de Lula, que deveria ser prefeito, governador, antes de ser presidente. Provável que se lembre. Não estou comparando Freixo com Lula, claro. Longe disso. Só seus argumentos com os da direita de então. Espero que não se acostume e goste deles.

      Responder

        Miguel do Rosário

        17 de setembro de 2012 às 00h44

        Comparou sim Freixo com Lula. Lula se elegeu presidente com um amplo leque de alianças partidárias, que lhe garantiram estabilidade necessária para governar e fazer as reformas que o Brasil precisava. E O PT era um partido real, com experiência administrativa em prefeituras e governos estaduais, e já um dos maiores partidos do país. Não pode comparar com o PSOL, uma legenda palaciana, que surgiu a partir de um braço do PT, e hoje se notabiliza por ser a legenda mais antipetista de todas.

        Responder

          Mauro

          17 de setembro de 2012 às 13h46

          Então ficamos assim: eu comparei Lula com freixo e você repete argumentos da direita. Vamos todos pro inferno.

          Miguel do Rosário

          17 de setembro de 2012 às 13h52

          Que argumentos da direita, meu Deus?!

migueldorosario (@migueldorosario)

16 de setembro de 2012 às 17h21

Caetano cita artigo do Cafezinho http://t.co/dJunZF6C

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