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O Globo e os 50% que podem ser 2,5%

Por Miguel do Rosário

14 de abril de 2014 : 12h36

A capa do Globo não deixa dúvida. “Ex-diretor receberia até 50% em contratos fechados”.

Pena que manchetes tem de obedecer uma lógica mínima, pois a vontade do editor, certamente, seria dar uma manchete assim:

“Ex-Diretor de estatal da Dilma e que tinha negócios com doleiro amigo de Vargas receberia até 50% em contratos.”

Aí vamos ler a matéria e descobrimos que o percentual de 50% é apenas uma especulação. Segundo o advogado, na verdade seriam 50% de 5%, ou seja, 2,5%.

Os especialistas em consultorias entrevistados pelo jornal confirmam que comissões para intermediação de negócios costumam ser de 1% a, no máximo, 15%. Ninguém ouviu falar de 50%.

Na mesma planilha encontrada, a maioria das anotações sobre as comissões de Costa descreve 5%. Os tais 50% aparece apenas num ou dois itens, mas corresponderiam, segundo o advogado de Costa, a um percentual sobre o percentual.

Ou seja, a especulação em torno dos 50%, além de não ser conclusiva, é improvável. A explicação do advogado de Paulo Roberto Costa, até o momento, é a mais plausível. Não porque o advogado seja bonzinho, ou Costa seja “barateiro”, mas porque comissões de 50% contrariam a lógica, pois inviabilizariam qualquer negócio.

Não importa. Os 50% vão para o Fantástico e vão para a capa do Globo.

Escândalos referentes a questões federais, que podem envolver o governo ou alguma das estatais, não precisam seguir nem a lógica nem os princípios básicos do jornalismo.

O trensalão tucano trazia documentos (não “anotações”, mas documentos oficiais), número de contas, valor exato, amplos estudos de investigadores suíços, testemunhos, confissões, etc.

Mas no Brasil é assim: em primeiro lugar, escândalos tucanos começam a ser investigados, em geral, apenas 20 anos depois do crime. O trensalão só foi “achado” na gaveta do Ministério Público depois que a Suíça quase produziu uma crise diplomática com o Brasil. E a imprensa não move uma palha para ajudar nas investigações.

Já escândalos que a mídia considera que podem atingir o governo federal, esses aparecem no dia seguinte aos crimes, e a imprensa não apenas mobiliza todos seus exércitos, como tem acesso a tudo que a Polícia Federal descobre, na mesma hora, inclusive os documentos mais sigilosos. Não importam mais provas. Bilhetinhos encontrados, especulações em torno de percentuais, mesmo as mais esdúxulas, se tornam manchetes. Se achassem um bilhetinho na casa do Paulo Roberto Costa escrito algo como “Telefonar para Vilma amanhã”, alguém rasuraria o V, transformando em D, e seria manchete no dia seguinte: “Ex-diretor preso pela Polícia Federal mantinha contatos frequentes com Presidente Dilma”.

O doleiro Alberto Youssef agora não é mais chamado nunca pelo nome. É apenas “doleiro amigo de Vargas”. Podiam fazer isso também com o Cachoeira, não? Ao invés de chamá-lo pelo nome, podiam sempre repetir: “Bicheiro amigo da Veja”.

Na Folha, o título na capa é: “Governistas dominaram doações de firmas na lista”. A nota, ainda na capa, diz que “79% das doações em 2010 de empresas citadas na tabela apreendida pela Polícia Federal na casa do ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa” foram para partidos pró-governo Dilma. Genial! E os os 21%, foram para os partidos da oposição? Quais partidos? Quantos % dos partidos formam a base do governo Dilma? Seriam 79%? Esses mesmos partidos não são aliados da oposição nos estados?

Até outubro, esqueçam os escrúpulos jornalísticos. Agora vale tudo. A sorte dos brasileiros é que a mídia, em seu afã denuncista, fica tão confusa, que seu poder de manipulação declina. Ninguém consegue entender mais nada.

Lamentável é ver a própria Polícia Federal fazendo o jogo da mídia, vazando tudo para os órgãos de imprensa, que usam as informações de maneira seletiva, conforme seus interesses.

Charge-Manipulacao-da-Midia (1)

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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4 comentários

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Paulo Angelito

16 de abril de 2014 às 10h54

Não há absolutamente nada de estranho no percentual de 50%. Explico: é comum em contratos de prestação de serviços estabelecer um percentual de comissão para ganhos normais, e outro maior para ganhos extraordinários. Digamos que o afretamento de uma embarcação para a Petrobras tenha um custo de 70 milhões para a afretadora. Se ela receber da petroleira 100 milhões pelo afretamento, seria um contrato com valores normais de mercado, com margem de 30%. Por este contrato padrão, ela se disporia a pagar 5% de comissão.
Entretanto, se uma consultoria conseguir que a Petrobras pague um preço superfaturado, digamos 140 milhões, bem acima do usual do mercado, esta consultoria pode sim exigir que o adicional de superfaturamento, no caso 40 milhões, seja sim dividido entre ela e a empresa contratada. Afinal, o adicional foi conseguido exclusivamente através de sua influência na petroleira.
Este modelo de remuneração, onde se premia o ganho extrardinário, esta presente em outros tipos de contrato. Por exemplo, muitos Fundos de Investimento Financeiro cobram um percentual pequeno para os ganhos até um patamar (chamado de benchmarking), e um percentual bem maior sobre o que exceder o benchmarking.
Errado está em defender a tese do advogado. Se fosse para pagar 50% dos 5% pactuados, porque não escrever logo 7,5%? Economizaria tinta de impressora…

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Bruno Leite

14 de abril de 2014 às 21h46

Vi um dia desses pendurado na banca, “… amigo de Vargas” e pensei comigo, do Getúlio??

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Leonardo

14 de abril de 2014 às 15h17

Enquanto isso a vassala e covarde da nossa gestora (Presidenta é a Cristina), abre o bico em eventos da Petrobrás, que ela sabe que não sairá no PIG.

Nossa gestora se borra de medo da direita, do pig e fica falando p´ra galera. Não desmascara o pig; mantém o hibernardo nas comunicações para não comunicar; trauman (seria algum trauma?) na Secom e o golpista e vendilhão do zé cardoso comandado (não comandando) a PF.

Esse pulha está alí e nada fala sobre a procuradora que quebrou o sigilo do palácio do planalto. Aliás, nem nossa gestora falou qualquer coisa.

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Edna Miudin Guerreiro

14 de abril de 2014 às 18h06

Imprensa marron! Antes do golpe Amaral Neto, amigo e político influente do rançoso Lacerda( colaborador de primeira linha dos States no Brasil) tinha apoio explícito de uma revista tipo a Vejalixão( diziam que ele era um dos donos), cuja linha de conduta se denominava imprensa marron. Usavam de toda sorte de sofismas e de manchetes espetaculares contra o governo e escamoteavam o que pudesse ser tido como bom. Ali todos os contrários ao Lacerda e à antiga UDN eram os únicos alvos., Agora, estamos com todo o sistema Globo ( com jornal, TVs e Época ) e a vejalixão, numa vergonhosa caminhada , que confunde liberdade de imprensa com partidarismo explícito e perseguidor.

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