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Ziraldo e os céus devastados de Brasília

Por Miguel do Rosário

19 de abril de 2014 : 18h19

Brasília, sexta-feira santa, quatro horas da tarde. Entro no carro oferecido pela Bienal do Livro. Cheguei um dia antes do debate para o qual fui convidado, que se dará neste sábado, intitulado “No olho do furacão: a rede e a revolução na mídia e na informação”, junto com Renato Rovai e Antônio Lassance, editor da Revista Forum e colunista da Carta Maior, respectivamente.

Nesta sexta, porém, meu destino é assistir a um debate com Ziraldo, que irá falar da resistência à ditadura através da arte e do jornalismo. Chegando à Esplanada dos Ministérios, onde foram montadas as estruturas do evento, eu olho à direita e vejo, pela janela do carro, a gloriosa paisagem celeste de Brasília. As nuvens assumem formas de batalhas épicas, ou de campos devastados por lutas que duraram milênios. Mais tarde, eu pensaria em John Milton, nas magníficas guerras descritas em Paraíso Perdido. De um lado, Deus e seus exércitos, comandados por Jesus Cristo; de outro, Lúcifer e mais de um terço dos anjos do Paraíso, rebelados contra o absolutismo supostamente esclarecido do Todo-Poderoso!

No dia seguinte, eu falaria com Stanley, um amigo do Rio, hospedado também no vetusto Hotel Nacional: “Se um dia houve tal batalha descrita por Milton, Brasília seria um melhor palco para assisti-la!”

Chega Ziraldo. A tenda lotada com mais de 300 pessoas. Ele inicia a palestra com modéstia: “sempre me surpreendo ao ver que há gente interessada em ouvir o que eu falo! Quis o destino que, nos últimos anos, eu estivesse aqui, sempre desse lado, e vocês aí.”

Em seguida, Ziraldo provoca a plateia, com um de seus temas preferidos. Esculhambar, esculachar ou, para usar uma expressão mais delicada, “falar mal” de Fernando Henrique Cardoso. Palavras dele.

Acho melhor não usar aspas porque transcrevo a palestra de memória, mas tentarei ser fiel aos vocábulos e conceitos usados por Ziraldo. Como tenho o privilégio de ser seu amigo: viemos no mesmo avião, conversamos antes e depois do evento, jantamos e bebemos juntos no Bar Brasília (e falo isso com ego transtornado pela vaidade, porque posso dizer a mim mesmo: O Globo não gosta de mim, mas o Ziraldo gosta), creio que posso discorrer sobre suas ideias sem distorcê-las muito. Aliás, vale uma rápida digressão: há uma visão meio doentia do jornalismo, de que devemos ser hostis, ou negativamente indiferentes, ao entrevistado ou indivíduo sobre o qual escrevemos. Acho que é o contrário. Seremos mais fieis à verdade sobre a pessoa se lhe somos simpáticos. Isso vale para um livro, e vale para um indivíduo. Compreendemos mais um objeto quando o olhamos com tolerância, afeto, compreensão.

Ziraldo denuncia a farsa do mensalão, convertido em “maior escândalo da história”, quando, na verdade, a aprovação da emenda para reeleição de FHC foi o grande crime político da história recente. Por razões simples: foi aprovado em causa própria, não houve consulta ao povo, via plebiscito, e há relatos documentados de compra maciça de votos.

Após mais algumas frases gentis endereçadas a Fernando Henrique, o escritor começa a exaltar o presidente Lula. Grande viajante, Ziraldo afirma que Lula é visto em quase todos os países que visitou como o maior líder mundial depois de Mandela.

“Lula é um milagre!”

O escritor esclarece, todavia, que jamais podemos usar o Lula como exemplo. Casos como o de Lula, diz Ziraldo, de genialidade política mesmo sem o domínio de vasta cultura literária, são a mais absoluta exceção.

“Acontecem uma vez só numa geração. Ele é um só em 200 milhões!”

Daí ele reitera a importância da leitura para o desenvolvimento mental de crianças e jovens.

Ziraldo pergunta à plateia se acompanhavam os artigos de Arnaldo Jabor. E descreve como Jabor produz uma campanha sistemática para desacreditar o povo brasileiro, detonar a nossa história e nos mostrar como eternamente fracassados.

“Não dá mais para ler o Globo, nem a Veja, nem a Folha”.

Mais um pouco e Ziraldo vira um blogueiro sujo!

“O Brasil foi o país que mais evoluiu desde o início do século XX!”, assevera.

Ele menciona um dos episódios mais desagradáveis que viveu recentemente. A Feira do Livro de Frankfurt, Alemanha, decidiu homenagear o Brasil. O Ministério da Cultura levou dezenas de escritores para o evento, um dos maiores do mundo, e organizou uma série de atividades. Havia exposição de obras brasileiras e menções ao Brasil na cidade inteira.

Entretanto, Marta Suplicy cometeu um erro crasso: chamou Luiz Ruffato para fazer o discurso de abertura do evento. Ruffato faz o discurso mais coxinha da história das feiras internacionais de cultura. Só fala mal do Brasil. Descreve o povo brasileiro como o pior do mundo. Chega ao ponto de quase nos chamar de assassinos por natureza.

“Eu devia ter avisado àqueles alemães que, se tínhamos tantos assassinos, para eles tomarem cuidado com nossa delegação, porque iríamos matar uns dois alemães até o final do evento”, ironiza.

No meio do discurso de Ruffato, quando este começa a dizer que os brasileiros eram “filhos do estupro”, Ziraldo não se contém diante de tanto babaquismo vira-lata e grita:

“Cala a boca!”

No dia seguinte, Ziraldo tem um infarte em Frankfurt, e hoje ele desconfia que a razão foi o nervosismo gerado pelo discurso antibrasileiro de Luiz Ruffato, que doravante poderia entrar para a história não como um escritor prestigiado em vários países, mas como “O coxinha que quase matou Ziraldo”.

(Uma vez eu dei carona para Ziraldo desde Petrópolis, onde ele tem uma casa com uma linda vista para o Rio de Janeiro, até seu apartamento na Lagoa. Como meu carro, um Renault Clio 2001 é um tanto desengonçado, e sou um motorista meia boca, durante toda a viagem sofri horrorosamente com a paranoia de fazer uma barbeiragem e ficar mundialmente conhecido como o “blogueiro que matou Ziraldo”. Felizmente, deixei nosso desenhista são e salvo em casa).

O criador do Pasquim e do Menino Maluquinho vem de uma geração que acreditava (e ainda acredita, no caso de Ziraldo) no Brasil.

Nosso país tem milhões de problemas e deve continuar sofrendo com eles por muito tempo, mas se não tivermos fé em nosso futuro jamais nos sentiremos estimulados a resolvê-los. Pessoas como Ziraldo, assim como Darcy Ribeiro, Brizola, Paulo Freire, Oscar Niemayer, acreditavam no Brasil e isso numa época em que essa fé foi muitas vezes criminalizada. É um tanto absurdo que hoje, no apogeu da nossa democracia, a gente veja tanta gente apostando no discurso do fracasso, do caos, da depressão política.

Ziraldo, por fim, falou de um projeto que está desenvolvendo junto à prefeitura de Caxias, dirigida por Alexandre Cardoso, do PSB, para instituir professoras únicas durante os três ou quatro anos do primário.

“A criança vai para a escola com uma sensação de desamparo, porque se separa da mãe. Por isso ela chama a professora de tia, para estabelecer um vínculo de afeto que a faça se sentir protegida. Tem professora que não gosta de ser chamada de tia, mas isso é errado. A criança precisa desse afeto, dessa sensação de proteção. Por isso, é muito melhor que a criança tenha o mesmo professor ou professora durante todo o período primário. É assim que fazem na Coréia do Sul, campeã mundial em educação pública.”

ziraldo

Eu e Ziraldo no Bar Brasília

*

Vladimir Safatle participou de um debate ontem. Eu não estive presente, mas ouvi o relato de dois amigos que lá estiveram. Eles ficaram horrorizados com o baixo nível político do filósofo.

Depoimento de um amigo: “Achei que ele fosse fazer um debate tratando de filosofia, ideologia, ciência política, discutindo os grandes temas que afligem o homem contemporâneo, e ele vem com um discurso eleitoral rasteiro, defendendo a violência nas manifestações, o quebra-quebra, o desencanto total com o sistema democrático. Para cúmulo do absurdo, ele diz que o Brasil deveria seguir o modelo da Islândia, mandando uma carta para cada cidadão. Ora, comparar um país minúsculo como a Islândia, com 300 mil habitantes e renda per capita de mais de 30 mil dólares, com outro de 200 milhões de habitantes e renda per capita de 11 mil dólares, é um disparate só desculpável num louco. Esse cara não está batendo bem. Acho que o fato dele ter virado candidato ao governo pelo PSOL o deixou meio desequilibrado”.

Mais tarde, outro amigo me contou que Safatle ficou extremamente magoado com Fernando Haddad, e por extensão com o PT, e com razão. Haddad chamou Safatle para escrever o programa de governo dele, missão que o filósofo desempenhou com o maior prazer e empenho, e, depois da vitória, o prefeito lhe virou as costas.

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A secretaria de Educação do Distrito Federal tomou uma iniciativa interessante na Bienal do Livro. Distribuiu cupons de compra de livro para todos os estudantes da rede pública, num valor total de R$ 4 milhões. Com esses cupons, as crianças e adolescentes podem comprar livros nos estandes da Bienal. Depois de lerem os livros, eles assumiram o compromisso de doar os livros para as bibliotecas das escolas.

*

Um tal de James Houston, escritor conhecido na área de urbanismo e arquitetura, deu uma entrevista na qual desafiou o bom senso sobre uma questão essencial para Brasília. Ele disse que a pior coisa que fizeram à Brasília foi o tombamento. Hoje Brasília tem quatro níveis de tombamento. Houston explicou que Brasília ficou famosa no mundo por ser a primeira cidade nascida sob a égide da experimentação, da inovação. As pessoas discutiam as mudanças na cidade. O tombamento, que é uma medida que se toma apenas para cidades milenares, acabou por bloquear qualquer melhoria efetiva na estrutura da cidade. O argumento de conter a especulação não é válido, segundo ele, porque a especulação burla as leis e há anos Brasília tem visto a criação de brechas para beneficiar grandes empresas de construção civil. A especulação, disse ele, se combate com regulamentação rígida, mas não se pode coibir o poder público e a sociedade de fazerem mudanças estruturais numa cidade viva e em crescimento como Brasília.

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Os números para esse ano ainda não estão fechados, mas a Bienal de Brasília deve fechar com um público de quase 300 mil pessoas, que assistiram palestras de escritores, jornalistas, intelectuais do mundo inteiro. Ao mesmo tempo em que Ziraldo falava para mais de 300 pesoas, Mia Couto, o principal escritor africano em língua portuguesa falava em outra tenda, também lotada. E Mino Carta falava em outra, igualmente cheia. A palestra de Mino Carta começou meio depressiva, com o jornalista praguejando contra a Copa do Mundo, mas cresceu sensivelmente após o início das intervenções das pessoas.

*

Hoje pela manhã eu fiz 4 posts para o Tijolaço. Depois vão lá dar uma olhada.

http://tijolaco.com.br/blog/

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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10 comentários

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mineiro

20 de abril de 2014 às 18h12

é isso ai.

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Rubens A. Ferreira

20 de abril de 2014 às 16h48

Ziraldo, mais um q recebeu uma bolada por ser ‘perseguido’ na ditadura…Cara d pau eh pouco p essa gentalha!

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Robson Carlos

20 de abril de 2014 às 16h00

representa ai cunhado!

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Miguel do Rosário

20 de abril de 2014 às 12h39

Ruffato não é membro da casa grande, pelo contrário. Mas é sem noção e aderiu ao viralatismo vulgar que a casa grande adora ouvir.

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Jose Medeiros

20 de abril de 2014 às 12h25

Dona Marta Suplicy, hein…? A cidadã está no meu caderno de anotações. Deu nome de um “Muito Além do Cidadão Kane” a uma das mais importantes avenidas de Sampa. Vai dar muito trabalho mudar, no futuro, o nome de uma das mais importantes avenidas batizada com o nome de um Golpista (apoiador da tortura) e principal beneficiário de uma ditadura sanguinária a serviço da perversa Casa Grande e de um império estrangeiro que saliva pelas nossas riquezas.
Quer dizer que o discurso na Alemanha foi feito por um membro da Casa Grande a convite da dona Marta? Ora, Suplicy deste tipo nunca mais!!!

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Gilse Guedes

20 de abril de 2014 às 15h25

Miguel Do Rosario, saudades docê! Amei saber que vc foi um dos blogueiros que entrevistou o Lula. Parabéns! Fiquei orgulhosa, bjs

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Luiz M Barros

20 de abril de 2014 às 09h33

Vejamos simpatizo com Ziraldo e quero colocar FHC como exemplo de falsa elite. Elite deve e precisa existir para liderar os mais frágeis econômica e culturalmente mas liderar pela prestação de serviço.

Se e porque a elite usar da academia dos conhecimentos(mais medicos por exemplo)para priorizar seus interesses cometem crime de lesa humanidade.

Por isso chamem como quiserem:Deus ou correlação de forças naturais, intuirá pessoas para o opobrio das falsas elites de um chão de fabrica, considerado culturalmente ingenuo: (não acadêmico) Lula e no caso do PIG, os blogs progressistas aos quais aplico a parábola de Davis versus Golias

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Diego Rafael

20 de abril de 2014 às 03h51

Ziraldo me encanta desde criança até os meus quase 34 anos… Ao contrário do Lobão, que vem amargando com os anos e virando tudo aquilo que ele, aparentemente, lutava contra.

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Maria Celia Ferrarez Bouzada

19 de abril de 2014 às 23h07

Paulo Coelho está fazendo escola.

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Jose Francisco Oliveira

19 de abril de 2014 às 21h50

Muito sucesso!

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