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Como a Lava Jato foi pensada como uma operação de guerra

Por Redação

14 de outubro de 2015 : 17h28

O excelente jornalista Luís Nassif encontrou um artigo perdido de Sergio Moro publicado em 2004, no qual o juiz expõe, já naquela época, como seria uma operação sob seu comando.

Fã da operação “Mãos Limpas” — que destruiu os partidos italianos e abriu o caminho para sucessão de Silvio Berlusconi — Sergio Moro dá sinais de megalomania, ao concluir que os vícios do sistema político tradicional devem ser combatidos pelo judiciário, mesmo que para isso seja necessário quebrar as regras do estado de direito democrático. 

No artigo, Moro defende a prisão indiscriminada de suspeitos, o uso da delação premiada sob tortura psicológica dos acusados e diz com todas as letras que o apoio da mídia é fundamental para o sucesso da operação. Ou seja, tudo o que temos observado até agora na operação Lata Jato.

O texto é longo, mas vale a leitura.

***

Como a Lava Jato foi pensada como uma operação de guerra

Por Luís Nassif, no GGN

O vazamento torrencial de depoimentos, a marcação cerrada sobre Lula, o pacto incondicional com os grupos de mídia, a prisão de suspeitos até que aceitem a delação premiada, essas e demais práticas adotadas pela Operação Lava Jato estavam previstas em artigo de 2004 do juiz Sérgio Moro, analisando o sucesso da Operação Mãos Limpas (ou mani pulite) na Itália.

O paper “Considerações sobre a operação Mani Pulite“, de autoria de Moro é o melhor preâmbulo até agora escrito para a Operação Lava Jato. E serviu de base para a estratégia montada.

Em sete páginas, Moro analisa a operação Mãos Limpas na Itália e, a partir dai, escreve um verdadeiro manual de como montar operação similar no Brasil, valendo-se da experiência acumulada pelos juízes italianos.

Metas perseguidas

Na abertura, entusiasma-se com os números grandiosos da Mãos Limpas: “Dois anos após, 2.993 mandados de prisão haviam sido expedidos; 6.059 pessoas estavam sob investigação, incluindo 872 empresários, 1.978 administradores locais e 438 parlamentares, dos quais quatro haviam sido primeiros-ministros”.

Admite os efeitos colaterais, dez suicídios de suspeitos, vários assassinatos de reputação cometidos na pressa em divulgar as informações e, principalmente, a ascensão de Silvio Berlusconi ao poder.

Mas mostra as vantagens, no súbito barateamento das obras públicas italianas depois da Operação.  Principalmente, chama sua atenção as possibilidades e limites da ação judiciária frente à corrupção nas democracias contemporâneas.

A lógica política da Mãos Limpas

A lição extraída por Moro é que existe um sistema de poder a ser combatido, que é a política tradicional, com todos seus vícios e influências sobre o sistema judicial, especialmente sobre os tribunais superiores.

O sistema impede a punição dos políticos e dos agentes públicos corruptos, devido aos obstáculos políticos e “à carga de prova exigida para alcançar a condenação em processo criminal”.

O caminho então é o que ele chama de democracia – que ele entende como uma espécie de linha direta com a “opinião pública esclarecida”, ou seja, a opinião difundida pelos grandes veículos de imprensa, dando um by-pass nos sistemas formais.

“É a opinião pública esclarecida que pode, pelos meios institucionais próprios, atacar as causas estruturais da corrupção. Ademais, a punição judicial de agentes públicos corruptos é sempre difícil (…). Nessa perspectiva, a opinião pública pode constituir um salutar substitutivo, tendo condições melhores de impor alguma espécie de punição a agentes públicos corruptos, condenando-os ao ostracismo”.

O jogo consiste, então, em trazer a disputa judicial para o campo da mídia.

Análise da situação

Em sua opinião, os fatores que tornaram possível a Operação, alguns deles presentes no Brasil.

  1. Uma conjuntura econômica difícil, aliada aos custos crescentes com a corrupção.
  2. A abertura da economia italiana, com a integração europeia, que abriu o mercado a empresas estrangeiras.
  3. A perda de legitimidade da classe política com o início das prisões e a divulgação dos casos de corrupção. Antes disso, a queda do “socialismo real”, “que levou à deslegitimação de um sistema político corrupto, fundado na oposição entre regimes democráticos e comunistas”.
  4. A maior legitimação da magistratura graças a um tipo diferente de juiz que entrou nas décadas de 70 e 80, os “juízes de ataque”, nascido dos ciclos de protesto.

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O uso da mídia

Um dos pontos centrais da estratégia, segundo Moro, consiste em tirar a legitimidade e a autoridade dos chefes políticos – no caso da “Mãos Limpas”, Arnaldo Forlani e Bettino Craxi, líderes do DC e do PSI – e dos centros de poder, “cortando sua capacidade de punir aqueles que quebravam o pacto do silêncio”. Segundo Moro, o processo de deslegitimação foi essencial para a própria continuidade da operação mani pulite

A arma para tal é o uso da mídia, através da ampla publicidade das ações. Segundo Moro, na Itália teve “o efeito salutar de alertar os investigados em potencial sobre o aumento da massa de informações nas mãos dos magistrados, favorecendo novas confissões e colaborações. Mais importante: garantiu o apoio da opinião pública às ações judiciais, impedindo que as figuras públicas investigadas obstruíssem o trabalho dos magistrados”.

Moro admite que a divulgação indiscriminada de fatos traz o risco de “lesão indevida à honra do investigado ou acusado”. Mas é apenas um dano colateral menor.

Recomenda cuidado na divulgação dos fatos, mas “não a proibição abstrata de divulgação, pois a publicidade tem objetivos legítimos e que não podem ser alcançados por outros meios”.

Segundo Moro, “para o desgosto dos líderes do PSI, que, por certo, nunca pararam de manipular a imprensa, a investigação da “mani pulite” vazava como uma peneira. Tão logo alguém era preso, detalhes de sua confissão eram veiculados no “L’Expresso”, no “La Republica” e outros jornais e revistas simpatizantes”.

Para ele, apesar da Mãos Limpas não sugerir aos procuradores que deliberadamente alimentassem a imprensa, “os vazamentos serviram a um propósito útil. O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva. Craxi, especialmente, não estava acostumado a ficar na posição humilhante de ter constantemente de responder às acusações e de ter sua agenda política definida por outros”.

Delação premiada

Segundo Moro, a estratégia consiste em manter o suspeito na prisão, espalhar a suspeita de que outros já confessaram e “levantar a perspectiva de permanência na prisão pelo menos pelo período da custódia preventiva no caso da manutenção do silêncio ou, vice-versa, de soltura imediata no caso de uma confissão (uma situação análoga do arquétipo do famoso “dilema do prisioneiro”)”.

Ou seja, a prisão – e a perspectiva de liberdade – é peça central para induzir os prisioneiros à delação. Mas há que se revestir a estratégia de todos os requisitos legais, para “tentar-se obter do investigado ou do acusado uma confissão ou delação premiada, evidentemente sem a utilização de qualquer método interrogatório repudiado pelo Direito. O próprio isolamento do investigado faz-se apenas na medida em que permitido pela lei”.

Moro deixa claro que o isolamento na prisão “era necessário para prevenir que suspeitos soubessem da confissão de outros: dessa forma, acordos da espécie “eu não vou falar se você também não”, não eram mais uma possibilidade.

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O caso Lava Jato

Assim como nas Mãos Limpas, a Lava Jato procura definir a montagem de um novo centro de poder.

Em sua opinião, o inimigo a ser combatido é o sistema político tradicional, composto por partidos que estão no poder, o esquema empresarial que os suporta e o sistema jurídico convencional, suscetível de pressões.

O novo poder será decorrente da parceria entre jovens juízes, procuradores, delegados – ou seja, eles próprios – com o que Moro define como “opinião pública esclarecida” – que vem a ser os grupos tradicionais de mídia.

Nesse jogo, assim como no xadrez, a figura a ser tombada é a do Rei adversário. Enquanto o Rei estiver de pé será difícil romper a coesão do seu grupo, os laços de lealdade, ampliando as delações premiadas.

Fica claro, para o Grupo de Trabalho da Lava Jato, que o Bettino Craxi a se mirar, o Rei a ser derrubado, é o ex-presidente Lula. O vazamento sistemático de informações, sem nenhum filtro, é peça central dessa estratégia.

Para a operação de guerra da Lava Jato funcionar, sem nenhum deslize legal – que possa servir de pretexto para sua anulação – há a necessidade da adesão total do grupo de trabalho e dos aliados da mídia às teses de Moro.

A homogeneidade do GT só foi possível graças à atuação do Procurador Geral da República Rodrigo Janot, que selecionou um a um os procuradores da força tarefa; e da liberdade conferida à Polícia Federal do Paraná para constituir seu grupo. O fato de procuradores paranaenses e delegados já orbitarem em torno do ex-senador Flávio Arns certamente favoreceu a homogeneização. E, obviamente, a ausencia de José Eduardo Cardozo no Ministério da Justiça.

Para ganhar a adesão dos grupos de mídia, o pacto tácito incluiu a blindagem dos políticos aliados. Explica-se por aí a decisão de Janot de isentar Aécio Neves das denúncias do doleiro Alberto Yousseff, sem que houvesse reclamações do Grupo de Trabalho.

A falta de cuidados com o desmonte da cadeia do petróleo também se explica por aí. Na opinião de Moro e da Lava Jato a corrupção nas obras públicas decorre de uma economia fechada, preocupada em privilegiar as empresas nacionais. É o que está por trás  das constantes tentativas de avançar sobre o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) – o similar italiano do BNDES foi um dos alvos preferenciais da Mãos Limpas.

No fundo, o arcabouço institucional brasileiro está sendo redesenhado por um autêntico Tratado de Yalta, em torno do novo poder que se apresenta: juízes, procuradores da República e delegados federais associados aos grupos de mídia.

A grande contribuição à força Lava Jato foi certamente a enorme extensão da corrupção desvendada. sem paralelo na história recente do país e sem a sutileza dos movimentos de privatização e dos mercados de juros e câmbio.

A única coisa que Moro não entendeu – ou talvez tenha entendido – é que a ascensão de Silvio Berlusconi não foi um acidente de percurso. Foi o rei posto – a mídia nada virtuosa – sobre os escombros do rei morto – um sistema político corrupto.

A ideia de que a mídia é um território neutro, onde se disputam espaços e ideias é pensamento muito ingênuo para estrategistas tão refinados.

 

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6 comentários

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marilamar

15 de outubro de 2015 às 00h46

O moro (minusculo mesmo) tem que explicar para sociedade o que ele fez na CPMI DO BANESTADO, onde havia maioria de politicos do PSDB e ninguem foi preso, e o dinheiro que é o maior já roubado no Brasil, aonde foi para??? Realmente ele o moro(minusculo mesmo), fez um bom trabalho para o PSDB, DEM, PPS e REDE GLOBO…..protegeu todos os amigos dos amigos, e perseguiu cruelmente o PT e admiradores, foi uma DITADURA, igualzinha o JB fez no MENTIRAO AP470, …, Nem o NERO de Roma conseguiria prejudicar a PETROBRAS igual o moro??? tudo farinha do Aecio…..tudo???

Responder

Euler

14 de outubro de 2015 às 20h36

O Jornalista Nassif apresenta elementos consistentes na sua análise. Mas, parte de uma premissa equivocada, de que o juiz Moro e sua turma estariam agindo com um certo espírito de justiça ou de justiceiros. Para mim não passam de agentes da CIA com objetivos muito definidos, contando com o claro respaldo da mídia igualmente serviçal dos piores interesses contra o povo brasileiro e dos caciques tucanos, que são, da mesma forma, agentes do imperialismo.
A Lava Jato teve e tem os seguintes objetivos: 1) impedir a reeleição da presidenta Dilma (em 2014), no que quase conseguiu; 2) quebrar a Petrobras e a indústria naval e da construção civil, que representam 20% do PIB brasileiro. Com isso a Petrobras seria vendida na bacia das almas e o pré-sal apropriado por grupos estrangeiros. Quase conseguiram; 3) destruir a imagem de Lula e do PT, para enterrar a possibilidade de uma possível volta do ex-presidente e facilitar a vitória do PSDB em aliança com o PMDB em 2018; 4) como não conseguiram impedir a vitória de Dilma, a etapa seguinte era desgastar ao máximo o governo, criar um clima infernal no congresso e desestabilizar a economia do país, com queda de arrecadação, possibilitando o clima para o Impeachment ou pelo menos sangrando o governo infinitamente. Este objetivo foi alcançado em grande parte.
O principal mesmo, que em tese era o combate à corrupção, no fundo não passa de pretexto para os objetivos políticos da operação Lava Jato. Tanto que eles desprezaram TODAS as denúncias envolvendo os tucanos, como a delação contra Aécio de Furnas, e o saco de dinheiro que Anastasia teria recebido, além da oportunidade que deixaram escapar de estender a operação às obras regionais em SP e Minas feitas pelas mesmas empresas da Lava Jato. Quando interessou, o complô do Paraná avançou muito além da Petrobras, e teve que ser barrado pelo ministro Teori – um dos melhores do STF – que enxergou longe e percebeu que a operação queria se transformar numa espécie de estado paralelo, policialesco e golpista, além de seletivo, já que nunca atinge nenhum cacique tucano.
Portanto, teremos que esperar algumas décadas para que o Pentágono, ou a CIA, ou o FBI liberem os documentos revelando as ligações perigosas desse grupo, no todo ou em parte, com interesses escusos e alheios aos do povo brasileiro. A menos que bem antes disso o WikiLeaks consiga novas revelações sobre o caso.
Mas, valeu o esforço do Nassif para tentar entender pelo menos teoricamente os fundamentos aparentes – aparentes, repito – da operação Lava Jato.

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Roberto Locatelli

14 de outubro de 2015 às 18h15

Ou seja, não é um juiz, mas um personagem do filme Tropa de Elite. Para começar, delação sob tortura é absurda, primeiro porque a ditadura acabou e, segundo, porque sob tortura o réu confessa qualquer coisa.

Assisti a um documentário sobre fatos ocorridos nos EUA. Diversos acusados de pedofilia eram torturados e confessavam ser pedófilos. Um deles chegou a dizer que começou a ACREDITAR que era pedófilo, tal a violência dos interrogatórios policiais. Só que um juiz começou a perceber que os dados não batiam. Havia contradições nas “confissões”. Aí ele pegou os policiais torturadores no flagra.

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    Asdrubal Caldas

    14 de outubro de 2015 às 18h39

    Conta outra que esta foi muito boa

    Responder

      Luís CPPrudente

      14 de outubro de 2015 às 20h15

      Você ouviu aquela piada dizendo que o Cunha, o senador Playboy do Leblon e o Picolé de Chuchu são pessoas honestíssimas?

      Agora conta outra.

      Responder

        Luís CPPrudente

        14 de outubro de 2015 às 20h18

        Eles são tão honestos quanto é democrática a delação premiada sob tortura psicológica feita pelo Sergio Tucano Moro.

        Responder

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