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‘Escola de Luta’ abre II Salão do Livro Político, em São Paulo

Por Redação

02 de junho de 2016 : 13h44

Pesquisadores lançam livro sobre a experiência política dos estudantes secundaristas iniciada em 2015; ex-alunas relembram que diretoras usavam unidades escolares para práticas evangélicas

por Enio Lourenço, exclusivo para o blog O Cafezinho

O II Salão do Livro Político, evento organizado pela Boitempo Editorial em conjunto com mais de outras 30 editoras vinculadas às questões sociais e políticas, começou nesta quarta-feira (1°), no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista.

A primeira mesa de debates fez o pré-lançamento do livro “Escola de Luta”, pela Editora Veneta, dos autores Marcio Moretto, Antonia Junqueira e Jonas Medeiros, com previsão de chegar ao mercado em julho.

“O trabalho surgiu das visitas de professores e pesquisadores às escolas ocupadas contra a reorganização escolar no final do ano passado. Queríamos dar voz aos estudantes, principalmente àqueles das escolas afastadas do centro”, explica Moretto, professor de sistemas da informação da Universidade de São Paulo (USP).

Livro ‘Escola de Luta’, da Editora Veneta

Os autores contam que parte da pesquisa do trabalho nasceu de uma base de dados composta por publicações das páginas do movimento no Facebook, como é o caso do coletivo O Mal Educado, uma das referências para os manifestantes.

Segundo Antonia, o livro é composto por três partes, que narra o momento de pré-ocupação, com atos de rua; a escalada relâmpago de ocupações; e o momento final dos trancamentos de vias públicas até a suspensão do projeto do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB).

“Também retratamos a repressão ‘subterrânea’ dos burocratas do governo, que pretendiam fechar escolas e instalar ciclos únicos, com superlotação de salas”, complementou a cientista social.

Secundaristas 

Duas estudantes, que participaram do movimento secundarista paulista de 2015, também estiveram presentes no debate. Aniely Silva, de 18 anos, e Stephane Salim, de 17 anos, recém egressas do ensino médio.

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Da esq. à dir.: estudantes Stephane Salim, de 17 anos, e Aniely Silva, de 18 anos

“A minha antiga escola fica em Sapopemba, no extremo leste de São Paulo. É a menos pior do bairro. Lá tínhamos pouco acesso à informação. Antes os alunos não se importavam com a escola, mas quando falaram que ela iria fechar, e que teríamos de nos mudar para outra ainda mais longe, decidimos não sair de lá”, disse Aniely, ex-aluna da E.E. Prof. Arthur Chagas Júnior.

A jovem, agora estudante de marketing na ETEC Sapopemba, relembra que a diretora inventava histórias para iludir os estudantes. “Ela dizia que se acontecesse a ocupação e o boicote ao Saresp (avaliação do Estado de São Paulo), afetaria o resultado do Enem de cada um, o que era mentira. Mas muitos acreditavam nela. E também por medo da PM invadir a escola”, comentou Aniely.

“Quando falaram da reorganização escolar, os professores diziam para nós: ‘senta e chora’. Apenas dois, de 12 professores, estavam ao nosso lado na luta. A escola era precária, cheia de problemas estruturais. Depois das ocupações, descobrimos livros escondidos que não foram distribuídos, comida escondida”, contou Stephane, ex-aluna do Colégio Estadual Doutor Otávio Mendes (Cedom), na zona norte de São Paulo.

Ambas as alunas relataram que as diretoras de suas respectivas unidades pregavam religiões evangélicas no ambiente escolar, chegando a ceder o espaço para grupos religiosos. “No Cedom tem um teatro que é alugado para a realização de cultos. Os alunos quase nunca podiam usar o local, só quando o professor de arte solicitava”, denunciou Stephane.

“A diretora punia os alunos por indisciplina com a leitura ou cópia manual dos versículos da bíblia. O Estado é laico, mas os alunos de outras religiões eram desrespeitados. Depois que pedimos uma investigação criminal na pauta de reivindicações, ela pediu exoneração ”, aponta Anielly.

As duas também entraram em consenso sobre a surpresa da dimensão que tomaram os movimentos de ocupação de escolas públicas por todo o país. “Primeiro era algo local, do bairro, da própria escola. Eu não imaginava que fosse crescer tanto”, diz Stephane. A força dos estudantes é uma das coisas mais lindas que já vi”, complementa Aniely.

Novos movimentos sociais

Pablo Ortellado, professor de gestão de políticas públicas da USP e mediador do debate, lembrou que existe uma renovação dos movimentos sociais desde a década de 1990, e que os partidos tradicionais, as universidades e os veículos de imprensa não estavam prestando atenção.

“Era um fenômeno oculto. O Brasil se surpreende a partir de 2013. São os casos dos movimentos contra o genocídio da população negra, que alcançaram a resolução do fim dos ‘autos de resistência’, ou da ‘bicicletada’, que tem conquistado políticas de mobilidade urbana”, destacou.

O docente ainda ressalta que esse o momento de debater sobre “os caminhos do Brasil, para onde vamos”. “O movimento dos estudantes secundaristas impôs a primeira grande derrota do PSDB em muitos anos, o que ainda está repercutindo”, concluiu.

Cobertura

Fique atento na cobertura do II Salão do Livro Político pelo blog O Cafezinho, que vai acompanhar os três dias de evento até sexta-feira, 3 de junho.

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1 comentário

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Avelino Oliveira

02 de junho de 2016 às 15h26

Caro Miguel

Nas décadas de 70 e 80, tínhamos os livrinhos do Que é Democracia, Capitalismo, e mais uma grande quantidade de temas diferenciados, entre outros livretos, além do Pasquim, e com isso íamos nos informando e construindo uma determinada base de conhecimento, sem falar das músicas, teatros etc etc Sinto falta disso, junto a essa juventude.
De onde eles tiram as bases de seu conhecimento? Só nos confrontos?Nos blogues sujos?
Onde conseguimos esses livros?
Saudações

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