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As muitas vozes de “Voicing”: entrecrítica com Isabel Nogueira

Por Bernardo Oliveira

25 de agosto de 2016 : 10h59

Por Bernardo Oliveira*, editor de música do Cafezinho.

A entrecrítica é uma crítica baseada em um diálogo entre o artista e o crítico. A entrecrítica é escrita a quatro mãos, crítico e artista experimentando a obra e criando algo entre a escrita jornalística e o ensaio. Neste caso, eu, Bernardo Oliveira, encontro Isabel Nogueira para pensar e experimentar seu terceiro trabalho, Voicing, lançando em junho de 2016 pelo selo Seminal Records. Musicóloga, performer, compositora e pesquisadora, Isabel Nogueira também ocupa o cargo de professora do Instituto de Artes da UFRGS, além de outras atividades acadêmicas e artísticas. Lançou discos como Vestígios Violeta (2014) e Impermanente movimento (2016; Plataforma Records), este ultimo com Luciano Zanatta. Atualmente se dedica a desenvolver uma “Cartografia das compositoras na música experimental da América Latina” e prepara o lançamento de Lusque-fusque, um disco de canções a ser lançado em 10 de setembro pelo selo italiano Electronic Girls.

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Voicing é um disco sobre voz e escuta, mas também sobre os modos de desconectar representação e expressão no que diz respeito às muitas direções possíveis da “voz”. Trabalha com ruídos, sonificação e possibilidades da voz transformada por equipamentos, entonações, modos de articulação corporal, fluxos de ar, canais, ventiladores. Voz no espaço-tempo, voz-ruído, voz-fala, voz-som, cunhadas pela confluência de vozes transformadas em ondas eletromagnéticas e bits por segundo. Tempo estendido, subjetivo, desacoplado da métrica, das melodias fáceis, do tempo do trabalho, dos exércitos, dos meios de comunicação dominados pelas modulações do capital. Um esforço por sondar a voz e a escuta desterritorializadas: e fazer dessa viagem uma obra experiência.

O corpo é como que objeto deste percurso, sussurrando, manipulando, apertando botões e sobressaltando-se, articulando gestos com um olhar no peixe e outro no gato — afinal, o exercício criativo repousa sobre uma série de procedimentos e disposições que nem sempre são convocados a pôr a cabeça de fora. Os processos utilizados em Voicing lidam com estes limites, remodelando e deslocando as vozes a partir de processos eletrônicos, criação de loops e demais artifícios técnicos. A semanticidade da palavra deixa de exprimir seu sentido corrente: Voicing estuda a possibilidade de tornar imperceptível a univocidade orgânica da voz e suas associações com gêneros ou contextos sociais.

Voicing tem também outra qualidade particular (e ambígua) que chama a atenção: instala um espaço de peregrinação por técnicas e maneiras de compor que expõem a materialidade do som — os substratos materiais das sonoridades — operando a partir de justaposições de experiências com a voz: artifícios que permitam desacoplá-la de suas representações técnicas, sociais, identitárias, culturais. A voz como elemento significante, “assemantizado”, expressão limítrofe, fronteiriça.

“memórias, sonhos, colagens, tempo estendido
escutas nômades em territórios híbridos
camadas, loops, limites
voz-som, voz-ruído, voz-sentido
drusas
voicing”

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DRUSAS::: contaminação, infecção, inoculação:: PERCURSO::: Ruídos, instrumentos eletrônicos e gravações de campo, permitem trabalhar com o conceito de “escuta nômade” de que fala Fatima Carneiro dos Santos. Ela propõe uma relação “rizomática” com a escuta: conectando um ponto a outro, sem trajetórias fixas::: o cenário por onde a pessoa transita e os modos do corpo que percorre este lugar.

PROCEDIMENTOS: O primeiro passo foi a performance, a partir da voz improvisada. Depois, seu registro, e, posteriormente, manipulação digital. A partir da criação das texturas e das camadas, cada uma das partes de Voicing foi fixada em uma forma final — “‘forma como ação’ em oposição à ‘forma como objeto’” [1]. Após esta etapa, as gravações formam a base das performances públicas, que irão agregar ao vivo novas camadas de sentido ao material gravado.

O disco abre com “Dreams”, construída a partir de sonificação de dados, e segue com “Nothing but stars”, que utiliza a voz e o wave drum de Luciano Zanatta. “Al final, el comienzo” trabalha com sintetizadores e traz um texto que será repetido ao longo do disco com variação de entonação e sonoridade. Diferentes níveis de gravação aparecem aqui: gravação direta com o microfone próximo para captar a voz sussurrada; captação direta do looper em cinco canais; gravações feitas ao vivo no looper durante os shows com sobras da ambiência. A “Feira da Vasco” trabalha com gravações de campo, enquanto “Voicing herstories: Alice” lida com sobreposições de poemas de Daniela Delias em uma canção desconstruída com piano. Neste final, a voz se apresenta de forma mais literal: vem como fala, canto, se alonga em outros tempos, se retorce e desintegra.

O trabalho dialoga com a polissemia da noção de “ruído”, trazendo à tona uma ideia de Lílian Campesato: a “música de ruídos” trabalha com e no limite, na tentativa persistente de lidar com extremos: de dor, do corpo, dos equipamentos, dos experimentalismos e da própria arte. Da mesma forma, observa-se sua proximidade com as epistemologias feministas, destacando os conceitos de mestiçagem e hibridismo trabalhados por Gloria Anzaldúa [2], a ideia de interrelação entre teoria e prática abordada por Bell Hooks a partir do feminismo da diferença e a concepção de Judith Butler sobre as molduras que configuram o corpo e o gênero como construções sociais. Traz ainda a contribuição da leitura de Margareth Rago, que considera as epistemologias feministas como uma lente para ver o mundo, destacando que estas pretendem não apenas a desconstrução dos temas e a inclusão dos sujeitos femininos, mas o questionamento do modo como a produção de “conhecimento” ocidental se constrói a partir de relações de poder.

Subjetividades e escutas incluídas no espaço:::
Lugar de fala pensado também como lugar de escuta:::

Da mesma forma como o enfoque pós-colonial nos leva a pensar de forma crítica sobre as molduras que demarcam posições identitárias, entendendo nossos marcadores sociais e de gênero como primeiro posicionamento político, aqui a reflexão busca estender-se para as molduras que demarcam as estruturas musicais que se limitam ao admissível.

Este trabalho pode não levar a experiência a um limite, como se espera no âmbito canônico da arte ocidental, mas opera sobre a ideia de limite como um objeto material: entre performance, criação e registro, nas articulações do corpo como nômade no espaço urbano e profundamente vinculado com a escuta, a voz que é mais do que som e sentido. Volta-se também à ideia de uma sorte de conhecimento que se articula através de redes, observando suas vinculações com as epistemologias feministas e com a possibilidade de projetarmos a forma como uma ação.

Notas
[1] Keller Easterling, Extrastatecraft (Verso, 2014) citada por Elvia Wilk em “Slime Intelligence”: http://rhizome.org/editorial/2016/aug/16/slime-intelligence/
[2] “indígena como o milho, a mestiça é um produto híbrido, desenhado para sobreviver nas mais variadas condições”; Anzaldúa, 2005.

*Professor da Faculdade de Educação/UFRJ, autor de “Tom Zé — Estudando o Samba” (Editora Cobogó, 2014).

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