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Paulo Leminski: Elogio ao zen inquieto

Por Jéferson Assumção

24 de outubro de 2016 : 16h17

Por Jéferson Assumção, colunista de Literatura do Cafezinho.

Ele era faixa preta de judô e escrevia poesia. O pai descendia de poloneses e a mãe era uma negra brasileira. Compôs versos em latim, mas foi um poeta vanguardista, filho de pai militar. Mesmo brasileiro e descendente de polacos, considerava-se nipônico de coração. Falava francês, inglês, japonês e era grande conhecedor de latim e grego. Dedicou-se ao haicai e às letras de rock, aos trocadilhos e à crítica literária. Por essas e muitas outras, o curitibano Paulo Leminski (1944-1989) é o poeta tão vivo que é nos dias de hoje. Em nossos tempos de dissolução tecnológica das fronteiras geográficas, históricas, culturais, linguísticas, formais, Leminski é cada vez mais lido e amado. E isso por uma obra que pareceu ser feita para a era da infinita reprodutibilidade técnica digital e da diversidade cultural em rede.
Ex-seminarista, curtia o zen e o contemporâneo e buscava pela forma uma informalidade e pela técnica a simplicidade. Não por acaso escreveu sobre a vida de Cruz e Souza (1861-1898), Jesus Cristo (1-33 d.C), León Trotski (1879-1940) e Matsuo Bashô (1644-1694). Para ele, essas eram quatro manifestações radicais da forma-vida, com as quais sentia uma profunda identificação e a ressonância de suas obras e biografias em seu íntimo inquieto. O primeiro, o poeta simbolista negro de Santa Catarina. O segundo, um profeta-santo rei dos judeus. Os dois últimos, o revolucionário russo e o poeta zen-budista japonês, que trocou a vida samurai pelo caminhar e fazer sua poesia. Não tinha nada a ver com cada um deles em particular, mas os amou e promoveu a vida toda.
Morou em uma comunidade hippie nos anos 70, mas era publicitário. Amou a vida e morreu jovem, aos 45 anos, de cirrose hepática. Era a mesma idade de outro samurai-escritor japonês a quem Leminski admirava e que cometeu suicídio num ritual de harakiri aos 45 anos: Yukio Mishima (1925-1970). Com Matsuo Bashô, que nascera exatos 300 anos antes de Leminski, e com o grande autor de “Confissões de uma máscara”, Leminski partilhava o projeto zen de transformar a vida em arte. E assim o fez. Ensinou, com seu ecletismo, um amor por viver tudo, todos, o todo, a centenas de milhares de leitores, nunca inertes ante tanta e transbordante vida, a dele e a de que seus poemas foram veículo.
Zen quase monge beneditino, Leminski foi um homem do século XXI, avançado no tempo, capaz de antecipar em vida e versos a informalidade da cultura contemporânea, a hipermoderna, a líquida vida contemporânea. Os anos 70 e 80 não se tratavam de uma época de tanta conexão tecnológica como a atual, mas a inquietude movia o olhar, a mão, a boca desejosos para o outro lado do mundo e da rua. Essa vontade transbordante realizava a presencialidade do outro como resultado da magia do arrebatamento, do amor e do elogio. Se presentifica na vivacidade do escrito, cheio de vida a nos puxar para dentro não de um mundo, mas do próprio mundo. A simplicidade da poesia mostra o afã de claridade e desvelamento, porque no fundo está impregnada da fé no mistério que faz tudo aparecer e ser. Incluindo o luminoso, a palavra concreta, com casca, com som, com a cara que a gente vê na rua.
Ele não era Cruz e Souza ou Bashô, não era Jesus nem Trotski, mas um caprichoso relaxado que ajudou a modernizar a poesia brasileira pela marginal, combatendo a careta formalidade da academia e abrindo registros de descolonizações. Redefiniu mapas afetivos, que iam do Japão do lago Biva, na Otsu, de Bashô, à Ilha de Santa Catarina, negra, simbolista e pulsantemente erótica da poética de Cruz. Este Cruz amado por Paulo, como um Jesus do Desterro, carregando seu sinal e o instrumento de seu suplício: poeta assinalado.
Já Paulo, poeta pop, ex-estranho, íntimo em seu exílio geográfico-metafísico, de pequenos e negros olhos arregalados dentro do freme dos óculos, abertos como máquinas de ver apontadas para tudo. Tudo mesmo, do corpo ao dentro dos órgãos dos sentidos, às palavras como elas andam em casa, como elas se mostram na janela, como elas tomam banho e fazem suas necessidades. Marginal, diziam. Preferível autêntico e anti-parnasiano, poeta de símbolos claros, diretos, sem sombras, som do pulo do sapo na água de alguma província como Nara ou Shiga, no silêncio de um mato do Japão feudal.
Esse nosso John Lennon, o de Curitiba, nipônico como o próprio, pop como o outro, amado igualmente pela cara que tinha, tão cheia de espírito e frontalidade, urgente em sua vida também curta de só 40 anos, pelo gesto que propunha, pela roupa e os bigodes que envergava, os cabelos desgrenhados de hippie com o poder da flor instalada no cabelo quase que contrastando com os bigodões.
Tudo isso para complexificar, simplificando, retirando as máscaras ao colocá-las, ao assumi-las enquanto um Yukio Mishima sem a loucura ultradireitista do japonês halterofilista, faixa preta em Kendô, espécie de São Sebastião trespassado pela própria espada. Samurai, também, Mishima, como Paulo e John e Bashô e Cruz e por que não Jesus. Viu a vida em close, venceu com a distração do perplexo ante o que não conhecia mas amava e assim se filiou à mais brasileira tradição dos antropófagos, dos tropicalistas, mesmo que desde a gelada Curitiba, da terra dos muitos pinhões, centro de uma das literaturas mais diversas e interessantes do Brasil. Leminski assim como Trotski, sabia por os pingos nos is também no que se referia ao mundo da exploração à brasileira, dos negros pobres e indigentes, dos polacos e imigrantes que ele tematizou e pincelou com o riso melopeico que tanto também fez rir e ver.
Assim como os delicados, Leminski era um homem que sabia elogiar, praticamente só o tipo de pessoa capaz de chegar ao outro, de estar aberto para a beleza da alma e da carne do outro, tanto dos referidos e preferidos Cruz e os santos de sua mitologia pessoal, mas também Gilberto Gil, o “mimo de todos os orixás”, o Torquato e o Trotski, a Alice, Moraes, Caetano, Borges, Bandeira, Pound, Oswald, Haroldo, Poe, Bob Marley, Lennon. Um homem que sabe elogiar é um homem com uma flor no cabelo, um homem que come tudo ao redor, Abaporu polaco, abaporu negro de bigodes, como Cruz, nome que ele preferia em relação ao completo, o nome Souza do dono branco.
Quando escreveu sobre Cruz e Sousa, em Blues & Souza, explicitou-se nos sentimentos da Sabishisa, do Spleen, do Banzo e do Blues. A melancolia que é ao mesmo tempo condição para a poesia (e para a filosofia): seja ela o blues que vai dentro do rock, o baço amargo do romantismo, o banzo de Cruz, a Sabishisa do caminhante Bashô e seus haicais a buscar a simplicidade complexa da lágrima do peixe, da lua na neve. Leminski teve a acuidade necessária para enxergar a poesia disso e daquilo e por isso é o poeta, o prosador, o homem do elogio.
Caetano também gosta de enaltecer e o gabou algumas vezes. Numa delas, disse que ele tem uma mistura de concretismo com beatnik, que seus poemas eram concisos, rápidos e inspirados, “um barato muito único na curtição da literatura no Brasil”. A professora Leyla Perrone-Moysés o chamou de Samurai-malandro, que bastava olhar nos olhos dos poemas de Leminski para ver que o poeta estava dentro deles, que o que não interessava não ia junto para dentro da poesia. Era uma forma de escrever só como essencial. Haveria um “olho do furacão imóvel”, enquanto o poeta administra o que escreve jogando com isso e para dentro dele. “Do rio de palavras, Leminski se ri, e à verborragia desatada ele pede, exigente, um momento de silêncio. Para bom entende-dor, meia palavra raspa; e para bom gozador, uma piscada basta. Leminski já foi e já voltou, e quem não percebe a inteireza de suas meias-palavras ainda nem saiu de casa”, disse em comentário publicado em Toda a Poesia, de 2013.
Este samurai malandro, segundo a comentadora, ganha a partida seja com a lâmina da malandragem ou um jogo de cintura que, em sua velocidade, nos surpreende, golpe e ginga tão simples que soam a um desaforo. É o que preconiza Leila. De tal forma este efeito de simplicidade na poesia de Leminski se dá que, diz Leila, qualquer “metagesticulçaão crítica ficaria ridícula, contraposta ao gesto exato do poeta”. A crítica literária lhe faz também fez o encômio de o chamar de beatnik caboclo com filosofia de malandro zen.
Haroldo de Campos resolveu apelidá-lo de um “Rimbaud curitibano com físico de judoca”. Outros elogios atravessados: Caipira cabotino, polilingue paroquiano cósmico!, para o concretista. Era em si um oxímoro, uma contradição em termos ao mesmo tempo que a dubiedade irônica de um dioscuro. Foi chamado de punk parnasiano, dadaísta clássico, a aliança da concentração com a descontração, conforme José Miguel Visnik, para quem Leminski era uma espécie de lugar entre o erudito e o desbundado.
Assim mesmo, se percebe a cada tentativa de uma definição de Leminski uma espécie de língua bífida, antagônica, contrastante, a ter que fazer uma coisa outra que não os elementos de que dispõe. É que falar de Leminski instaura uma espécie de fala, pois afim de captar a poesia do que se equilibra em opostos e gera um outro sempre arejador e adâmico, mesmo que em sua impossibilidade de ser qualquer coisa pela primeira vez. A poesia de Leminki, uma espécie de lisa prosa, concisa e prometeica. A prosa, poética e catártica, entranha do antropófago, barriga cheia de ideias, formas, cores e carnes. Ele escancara a erudição provinciana dos nossos, aplaude Visnik, mas não pelo flanco e sim por dentro. Chamou a prosa da torrente do Catatau de “enxame de consciência”, em que o pai do racionalismo, René Descartes se viu nos trópicos como que o próprio ocidente dentro do olho do furacão vital-natural-mítico de uma realidade plena de razões sempre além das que se conhece.

Paulo Leminski, além do poeta

Homem-antena poundiano, liquidificador subtropical de frutos do pensamento artístico de todo o mundo, estava vivo o tempo todo, a ponto de quase explodir. Os concretistas o acolheram, mas ele andava de lado, com uma forma inquieta e desajustada de estar no mundo, como se num exílio. Em 1964, foram publicados seus primeiros poemas, na revista dos paulistanistas da poesia concreta: Invenção, que tinha Décio Pignatari no comando. Deu aulas de História e de Redação a partir de então. Casou-se com a poeta Alice Ruiz ainda em 1968, com quem teve Áurea e Estrela, além de Miguel ângelo, que morreu com dez anos.
Leminski era também tradutor de John Lennon (Um atrapalho no trabalho), John Fante (Pergunte ao Pó), Yukio Mishima (Sol e Aço), Petronio (Satyricon), Samuel Beckett (Malone morre), James Joyce (Giacomo Joyce), entre outros. Compôs diversas músicas. Uma delas, Verdura, gravada em 1981, tornou o escritor-poeta curitibano conhecido em todo o País. Paulinho Boca de Cantor gravou-o também (Valeu, 1981) e Ney Matogrosso (Promessas demais, com Moraes Moreira e Zeca Baleiro, 1982), Moraes Moreira (Desejos manifestos, com Moraes Moreira e Zeca Baleiro, 1986), Arnaldo Antunes (Luzes, 1994), Itamar Assumpção (Dor elegante, 1998) e outros. A partir da década de 1970, publicou poemas em diversas revistas. Paralelamente, o trabalho, belíssimo, em prosa. Foi em 1975 que saiu Catatau, livro em “prosa experimental”. A dor elegante o matou no dia 7 de junho de 1989.

* Escritor, autor de mais de 20 livros, entre eles Notas sobre “Turibio Núñez, escritor caído” (BesouroBox, 2016), “Cabeça de mulher olhando a neve” (BesouroBox, 2015) e A vaca azul é ninja em Uma vida entre aspas (Libretos, 2014). Pós-doutorando em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB), doutor em Filosofia pela Universidade de León, Espanha. É professor de Escrita Criativa em Brasília.
Contato: jassumcao@gmail.com

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