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Ipanema votou em Crivella

Por Miguel do Rosário

31 de outubro de 2016 : 17h47

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Arpeggio – coluna política diária

Por Miguel do Rosário

Não é mais tão linda, nem mais cheia de graça, ao menos para o campo mais progressista. Há tempos que Ipanema, assim como as áreas mais ricas da zona sul do Rio (o extremo sul da zona sul), tem se deslocado para a direita. Mas não deve ter sido fácil para as madames católicas da Vieira Souto optarem pelo mesmo candidato que venceu de maneira esmagadora na zona oeste e nas regiões mais pobres da cidade.

No entanto, para analisar o resultado do segundo turno das eleições no Rio de Janeiro, assim como das eleições em todo país, é preciso se despir de preconceitos.

As zonas ricas da cidade registraram o maior índice de abstenção. Na zona 165, que corresponde ao bairro de Ipanema, o número de abstenções, mais votos nulos e brancos, totalizou 14.568, mais do que a soma de votos em Crivella e Freixo.

Ou seja, quem fala em “desilusão” com a política deve especificar de quem está falando.

Por outro lado, o mapa eleitoral do Rio mostra um nítido corte de classe. Freixo ganhou nos bairros mais ricos, com exceção de alguns mais radicalmente ideológicos à direita, como Ipanema, Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes. Esses bairros tem votado, nas últimas eleições presidenciais, no PSDB, de maneira esmagadora.

A partir sobretudo de 2006, o eleitorado do PT migrou para as periferias e bairros pobres, mas com presença importante ainda nos bairros nobres mais ideológicos à esquerda, como Lapa, Catete, Flamengo, algumas áreas de Copacabana, Laranjeiras.

Entretanto, a inexplicável ausência do PT e de seus governos no campo da comunicação política criou um processo que já deveria ter sido detectado pelos analistas. A migração do voto petista do centro na direção das periferias não era um fenômeno de consolidação de um voto ideológico à esquerda nessas regiões, e sim um sinal de fim de ciclo. O fenômeno da pedra no lago serve aqui como ótima metáfora.

A pedra caiu no centro do lago. Era o voto petista ideológico no centro das cidades. Quando as ondas vão se afastando do centro, não o fazem para se fixarem nas periferias, mas como um movimento na direção para fora do círculo. É o fim da onda.

Não é possível responsabilizar apenas a mídia e a direita pelo fenômeno, porque isso é óbvio demais. É claro que a culpa da tomada de Troia se deve ao assédio dos gregos. No entanto, é preciso fazer a autocrítica: não fosse a estupidez de levar aquele bizarro presente grego, um gigantesco cavalo de madeira, para dentro da cidadela, não haveria a derrota.

Onde o PT errou?

Nesse ponto, eu gostaria de pedir desculpas aos assinantes por ter começado a publicar trechos do meu romance Vana aqui na coluna e depois ter interrompido, sem explicações. Explico agora. O romance tomou vida própria e ganhou partes não propriamente políticas. Apareceram cenas de sexo, uso de drogas, que me deixaram um pouco constrangido de trazer para cá. É melhor aguardar o romance ficar pronto e se materializar. Eu farei promoções atraentes do romante impresso para os assinantes, e possivelmente liberarei para o consumo virtual.

O romance é composto, em boa parte, por longos diálogos sobre política entre os personagens. Alguns desses diálogos, que eu escrevi hoje mais cedo, abordam justamente essas críticas que fazemos aos erros de política dos governos petistas, erros que explicam a derrota nas eleições municipais deste ano. Transcrevo abaixo, com exclusividade para os assinantes, trechos desses diálogos.

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Vitor

(…) Uma moça, que havia se identificado como do PSTU, perguntou-lhe o que achava do resultado das eleições municipais no Rio de Janeiro, em que o PT tinha sofrido um recuo de 60% em número de votos.

“Olha”, começou Carlos, que teve a sensação curiosa de estar diante de um dos públicos mais exigentes e importantes de sua vida, apesar da inexperiência, dos vícios e da notória irresponsabilidade daquelas moças e rapazes.

“Vou dizer uma coisa cruel. É algo que choca um pouco meus amigos petistas. Foi uma derrota merecida, talvez necessária. “

A afirmação não teve grande impacto, conforme Carlos pode verificar após a pausa que fez. Aquela geração era muito crítica ao PT, sobretudo por suas concessões à direita. Mesmo os jovens mais simpáticos a Lula e Dilma, admiravam-nos com aquela ressalva.

Entretanto, não era exatamente essa a crítica que ele queria fazer.

“Vocês devem estar pensando que eu me refiro às alianças que o PT fez com a direita e às concessões que fez em vários aspectos, em especial na política econômica. Pois eu não estou falando de nada disso. Nessas coisas eu acho até que o PT acertou. Ele acertou em fazer aliança com o PMDB e com a centro-direita e acertou em levar adiante uma política econômica relativamente conservadora”.

Agora sim ele tinha obtido o efeito que queria: os jovens todos se remexiam na cadeira, atentos ao que ele ia dizer para que pudessem contestar imediatamente. Carlos prosseguiu:

“Quer dizer, na política econômica, acho que a Dilma errou em 2015, ao nomear Levy. Aquilo não era mais uma política econômica relativamente conservadora, e sim uma política neoliberal burra, que produziu crise fiscal e política. Ela foi empurrada ao abismo pelas forças que a pressionavam. Mas até isso é resultado do principal erro do PT no governo. “

A ressalva reduziu um pouco a desconfiança da plateia, e lhes aguçou ainda mais curiosidade.

“O maior erro do PT foi o desrespeito à questão política. Isso foi fatal! O governo não fez política e isso foi o equivalente a vender não apenas a sua alma, a alma do partido, mas a alma do próprio Brasil, em troca de um bem estar de alguns anos. O diabo está cobrando a sua conta, e agora a gente sabe o valor da nossa alma. Estamos desamparados, desarmados. A mídia, principal partido político da direita, lavou a cabeça do povo, que agora defende medidas que prejudicam a si mesmo.”

Um rapaz, que Carlos sabia pertencer ao PCdoB, tinha levantado a mão como se estivesse em sala de aula. Carlos parou de falar e olhou para ele. O jovem era um pouco gago, mas ao fim conseguiu se expressar muito bem.

“Con-concordo. Mas a-acho que você está esquecendo um ponto. Esse ‘be-bem estar de alguns anos’ re-re-presentou uma transformação do ser, que hoje está mais forte. Hoje temos milhões de jovens dispostos a lutar por um país melhor. Antes desse ‘bem estar’ não tinha tanta gente”…

Era uma asserção inteligente, útil para Carlos se lembrar que estava lidando com estudantes de filosofia. Mas também era um sofismo, uma refutação puramente retórica”.

“Amigo, qual é seu nome mesmo? Jorge? Então, Jorge, tudo bem. A expressão ‘bem estar’ soa como um eufemismo para descrever o que aconteceu no Brasil na era Lula. Mas isso não muda nada do que eu quero dizer. Até porque poderíamos afirmar o contrário, se fôssemos esquerdistas cínicos, como nossos amigos do PSTU ali: que a melhora das condições sociais, desde que não fundadas em mudanças estruturais, serviu aos interesses dos que não queriam maiores transformações. Não vou entrar nessas questões, que são misteriosas demais. Estou falando que o PT, em algum momento, passou a entender política como uma técnica voltada para os bastidores, costurando alianças mais ou menos transparentes, mais ou menos republicanas, com forças políticas e com a mídia, exercendo um rígido controle sobre a própria militância, mas esquecendo de fazer política com a única força a quem ele devia, de fato, o poder: a população. O PT parou de se relacionar politicamente com a população. Essa relação passou a ser puramente eleitoral, que é uma relação quase sempre falsa, hipócrita, artificial. “

Os jovens mexiam a cabeça para cima e para baixo, interessados. Um novo baseado passava de mão em mão. Alguém o ofereceu a Carlos, que recusou. Aceitou, porém, a cerveja que alguém serviu em seu copo. Bebeu um longo gole, saboreando o silêncio atento da juventude.

“Não sei até onde essa ausência de relação com a população foi consciente. Tenho para mim que foi metade consciente, metade intuitiva. Minha teoria é que o vício do segredo, típico de uma geração que fez política em tempos não-democráticos, em que era preciso esconder suas intenções, em que era preciso se esconder!, teve uma influência perniciosa na postura do governo. É uma atitude de guerrilha, em que você se disfarça, como fez Che para entrar na Bolívia. Veste um terno, põe uma gravata, usa uma falsa careca, carrega uma pastinha de vendedor de auto-peças e sai por aí. Mas você ainda é um guerrilheiro, esperando chegar na floresta, num lugar seguro, para se livrar de toda aquela roupa. Isso não é maneira de fazer política numa democracia! Sobretudo numa democracia com 200 milhões de pessoas, como temos no Brasil. E aí a minha crítica converge com a crítica às alianças do PT com a direita. Por que a ausência de comunicação direta com a população, que expressa a ausência de relação política direta com a população, obriga cada vez mais o partido a buscar força na relação política de bastidores. É assim que Dilma vai enfrentar o golpismo, que mostra suas garras no dia seguinte à sua eleição, em outubro de 2014, com as velhas técnicas de se relacionar apenas para dentro, com as forças políticas tradicionais, esquecendo a população. Como a gente gritava! Dilma, olhe para nós! Estamos falando com você! Olhe os movimentos sociais, olhe seus eleitores! Estamos todos querendo lhe ajudar! E Dilma, nada. Fechou-se completamente. Não recebia mais ninguém. Tinha relação política apenas com as forças que, mais tarde, lhe dariam o golpe. As reformas ministeriais que fazia raramente contemplavam a necessidade de ampliar a relação com a população. Se fosse mais esperta, Dilma poderia sim ter feito um enxugamento profundo do ministério. Poderia ter cortado vários, desde que viesse à público e explicasse a seus eleitores que estava fazendo aquilo por esse e aquele motivos. Ela tinha legimitidade! Ela fora eleita. Ela tinha que falar diariamente com a população! A mesma coisa vale para o PT. O PT parou de falar com a população. Em 2014 e 2015, o partido realizou festas incrivelmente esquizofrênicas. Torrou uma grana preta em hoteis de luxo, em bandeiras e super produção, para quê? Para impressionar alguns milhares de militontos deslumbrados? Não tinha que ter feito festa nenhuma, e sim realizado um encontro aberto, do PT com a população, para ouvir a sociedade, para demonstrar abertura, humildade e, com isso, inteligência e capacidade de adaptação. Convidasse empresários, intelectuais, militantes de movimentos sociais, gente de outro partido, estrangeiros, para ouvir, para dar sugestões sobre políticas econômicas, para discutir o problema da mídia! Ora, fazer alianças com a centro-direita não é o maior problema, desde que as políticas implementadas sejam positivas, mas é preciso manter um diálogo aberto e constante com a população”.

Carlos fez uma pausa para beber mais um pouco de cerveja.

Um rapaz (…) aproveitou para fazer um pedido:

“Fale um pouco das manifestações de 2013. Onde elas se encaixam em suas críticas?”

Carlos pousou o copo cuidadosamente sobre a mesa, acariciou o queixo com uma das mãos, no gesto clássico de quem tenta fazer a cachola funcionar.

“Cara, eu já pensei muito sobre isso e tem a ver com o que eu falava. Falta de política com a população. A impressão que eu tive é que o silêncio do governo exasperou as pessoas a tal ponto que elas saíram às ruas, desesperadas por informação. Repare que não havia gritos contra Dilma, e sim contra a Globo. E que houve uma espécie de alívio nacional enorme quando Dilma faz um pronunciamento nacional. Mesmo assim, Dilma, quando vem à público, semanas depois daquilo tudo começar, não dá uma palavra sobre a mídia. Ela não escutava a população, nunca! Por isso houve o golpe! As pessoas queriam Dilma e ela sumiu. Só falava à Globo! Depois de um tempo, essa exasperação com o silêncio de Dilma se converteu em irritação, e a irritação em ódio. A mídia, claro, fez de tudo para catalisar estes sentimentos. A Globo mantinha uma editoria em seus portais apenas para falar das gafes da presidenta, e não numa linha exatamente humorística, mas com objetivo de criar antagonismo da população contra ela”.

(…)

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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4 comentários

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rogeriobezerra

31 de outubro de 2016 às 20h07

Escrever em culpa do PT é bestagem. Este Brizolista não concorda. A sociedade, sim, errou, pois esperou e espera que os governos façam tudo. Enquanto ficarmos com a bunda no sofá a ricaiada traidora nos matará de ódio e fome.
O PT e os Progressistas fizeram muito mais, muito mais, mesmo, do que sonhávamos. Tanto assim que venceram 4 eleições.
Então, parecem com essa mania de culpar quem nos tirou nas merda.

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    Eder Barbosa de Sousa

    01 de novembro de 2016 às 09h56

    Concordo contigo. A direita não ganhou, o PSDB não ganhou. No cômputo geral teve apenas 34,5% dos votos. Aécio obteve 33,45% em 2014 no primeiro turno. Logo a direita não ganhou. A esquerda é que se assustou e não foi votar. Em 2018, as coisas serão diferentes, a desgraceira vai ser tanta, que me faz lembrar o PMDB do Cruzado, que ganhou de ponta a ponta e depois veio a desgraceira e não conseguiu ser mais que coadjuvante, do PSDB e do PT.

    Responder

      rogeriobezerra

      02 de novembro de 2016 às 15h24

      Perfeito, disse tudo!
      Se nossa elite é medíocre e traíra, sejamos nós, então, sermos a elite do país. e veja que não precisamos ser milionários. Precisamos ser informados, cultos e defensores da nossa pátria, ou seja, nacionalistas .
      Ficar milionário é a única razão “existencial” dos ouvintes do “Congresso do Sucesso da tv record”. Esses CapEtalistas”…

      Responder

17Abril2016

31 de outubro de 2016 às 18h45

Niteroi maior que o Rio.

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