Bahia: Refinaria privatizada provoca desabastecimento de Gás de Cozinha

“Você sabe que eu te vi no Gero”

Por Miguel do Rosário

06 de junho de 2018 : 15h06

O depoimento de Rodrigo Tacla Duran, ex-advogado da Petrobras, cuja íntegra você pode assistir aqui, pode ter sido escondido pela grande mídia, pode ter tido repercussão apenas entre os blogs antihegemônicos. Mas existiu. Alguém viu. É mais uma sementinha plantada na consciência da opinião pública sobre o que é, de verdade, a Lava Jato.

A Lava Jato foi inteiramente montada em chantagens, tortura psicológica, delações forjadas e combinadas, em grandes esquemas que envolviam propinas milionárias para procuradores, advogados, juízes e para os próprios delatores.

Os dados da Odebrecht, que serviram para a Lava Jato alimentar a mídia, em todo o período que antecedeu o golpe (e que o preparou), com uma narrativa terrorista contra a classe política, com valores, apelidos, mensagens cifradas, foram sistematicamente fraudados e alterados por executivos da própria empresa, e com a cumplicidade do Ministério Público, sempre com objetivo de emparedar essa mesma classe política, empurrando-a fatalmente para a decisão que os grandes meios de comunicação apontavam: o golpe contra a presidenta Dilma.

Ainda não sabemos o grau de organização de todo o esquema golpista, mas já é possível ver com clareza  – e provas – a função da Lava Jato no processo.

Em algum momento da nossa história, e espero que não demore muito, a Lava Jato será vista como ela realmente é: a mais destrutiva, corrupta e antijurídica operação já vista no mundo.

Ao mesmo tempo, quanto mais fica evidente o caráter golpista, corrupto e imperialista da Lava Jato, mais dura deve ser a crítica que devemos fazer às escolhas do PT para o STF, para a PGR, à sua inadmissível omissão, ou mesmo cumplicidade, durante todo o tempo em que ocupou a presidência da república, em relação à degeneração política da burocracia dos aparelhos repressivos do Estado. A aprovação irresponsável de normas de exceção, antijurídicas,  estranhas a nossa própria Constituição, como a lei da Ficha Limpa, lei da Organização Criminosa e lei da Delação Premiada, revelou-se um erro trágico que se voltou contra toda a esquerda, contra o país e contra o próprio PT. A prisão ilegal do ex-presidente Lula, e a provável cassação de sua candidatura, são as  provas mais melancólicas de quão alto tem sido o preço desse erro. Não se trata apenas de uma autocrítica de ordem política, e sim de uma constatação que nos dê ferramentas analíticas para oferecer uma narrativa coerente, franca, que nos permita derrotar a monstruosa estrutura semiótica que serviu de esteio ao golpe.

Vale fazer um grande elogio aos deputados Wadih Damous (PT-RJ) e Paulo Pimenta (PT-RS), que trouxeram, pela segunda vez, o ex-advogado da Odebrecht, o terror de Sergio Moro, para depor no Congresso, e fizeram as intervenções mais responsáveis e inteligentes.

Coube à história, sempre ela!, produzir esta maravilhosa ironia: enquanto Sergio Moro participava de regabofes nababescos, plutocráticos, ao lado do príncipe de Mônaco, Tacla Duran depunha no Congresso Nacional do Brasil, expondo, mais uma vez, as entranhas podres, corruptas, da operação liderada pelo mesmo magistrado.

Os outros parlamentares petistas usaram mal o tempo de suas falas, desviaram do tema central, fizeram perguntas descabidas ao advogado e mais atrapalharam do que ajudaram.

Apesar do elogio a Wadih e Pimenta, vale também uma pequena crítica. Ambos repetiram, inacreditavelmente, o “hoax” de que Sergio Moro havia negado ouvir o advogado alegando desconhecer seu endereço. Moro nunca disse isso. Nos despachos em que nega à defesa de Lula o pedido para ouvir Tacla Duran, o juiz afirma, textualmente, que conhece sim, o endereço, mas que cabia à defesa o ônus de informá-lo. Era uma desculpa esfarrapada, naturalmente, assim como todas as outras justificativas que inventou para não ouvir o advogado, na contramão de todos os outros países onde a Lava Jato se infiltrou, que sentiram necessidade de ouvir a versão dele.

É certo que, mais tarde, um encaminhamento da justiça brasileira destinado a Tacla Duran não foi entregue porque, segundo alegou o servidor do governo espanhol encarregado de entregá-lo, o endereço estaria “incompleto”. Mas aí é um erro que não veio de Sergio Moro e, ademais, não foi sequer erro. O endereço estava completo sim. Por alguma razão, o tal servidor espanhol não se esforçou muito, neste caso e apenas neste caso, para encontrar Tacla Duran.

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O Atlas da Violência 2018, divulgado ontem pelo Ipea, revela que 910 mil pessoas foram assassinadas com armas de fogo de 1980 a 2016… É um número aproximado da quantidade de mortos na guerra do Vietnam, somando militares e civis, vietnamitas e americanos. Durante a II Guerra, a França, um dos países que mais sofreu no conflito, perdeu 600 mil cidadãos, somando civis e militares…

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O blog Poder 360, cuja pesquisa de intenção de voto que circulou muito ontem, divulgou hoje um gráfico sobre o candidato preferido, por todos os entrevistados (eleitores ou não de Lula), para herdar seus votos. Ciro Gomes vem em primeiro lugar, com 16%, seguido de Haddad, com 12%.

O gráfico estratificado traz algumas informações que merecem uma análise.

Reitero que não gosto do método da pesquisa do Poder 360. São telefonemas feitos por robôs, e as respostas me parecem, muitas vezes, incoerentes. Dados estratificados de pesquisas anteriores não tinham pé nem cabeça e eu já fiz críticas duras. Mas aparentemente eles melhoraram a ponderação, embora permaneçam muitas coisas estranhas.

A ausência de um cenário com Lula, por sua vez, é uma decisão que introduziu uma polêmica desgastante, e desnecessária, no debate político.

De qualquer forma, é uma pesquisa que está circulando muito por aí, então gostando ou não ela tem impacto na opinião pública.

O gráfico acima, sobre qual candidato deve ser o herdeiro de Lula, segundo o eleitor, deve ser cotejado com outro dado da mesma pesquisa, com a intenção de votos de cada candidato por região.

Na região nordeste, núcleo eleitoral de Lula, o líder da pesquisa já é Ciro Gomes, com 19% dos votos.

 

A última pesquisa Datafolha, feita entre os dias 11 a 13 de abril, ou seja, já depois da prisão do ex-presidente, trazia alguns números que ajudavam a visualizar ao potencial de transferência de votos de Lula para outros candidatos.

O cenário A do Datafolha, que não traz o nome de Lula, mostrava Marina Silva e Ciro Gomes liderando os votos no Nordeste, com 16% e 15%, respectivamente. A pesquisa ainda trazia o nome de Joaquim Barbosa, o que distorce os números. Haddad pontuava apenas 1% no Nordeste e 2% no cenário nacional.

A mesma pesquisa Datafolha trazia também uma tabela com a intenção de votos de cada candidato, num cenário sem Lula (situação A), segundo a preferência partidária. Os partidários do PT (quase todos eleitores de Lula) se dividiam, em sua maioria, entre Marina e Ciro Gomes.  Mas outros candidatos, mesmo os mais surpreendentes, também herdam votos do eleitor lulista. Até Bolsonaro, por exemplo, herda um pouquinho dos órfãos do PT.

A situação mais complicada para Lula é a sua alta rejeição em algumas categorias sociais e regiões, o que pode dificultar a vida de Fernando Haddad (provável escolha petista para substituir Lula) no Sudeste e entre eleitores de maior renda.

Segundo o mesmo Datafolha de 13 de abril de 2018, 30% dos entrevistados afirmaram que o apoio de Lula a um candidato o fariam apoiar esse candidato. Isso indica um excelente potencial de transferência de Lula. Mas, por outro lado, 52% afirmaram que “não votariam” num candidato apoiado por Lula. Na região Sudeste, o percentual dos que disseram que “não votariam” num candidato apoiado por Lula sobe para 62%. Entre eleitores que ganham de 2 a 5 salários, 23% afirmam que votariam “com certeza” no candidato apoiado por Lula, contra 58% que não votariam num candidato apoiado por ele.

Em faixas de renda superiores, a situação de Lula se deteriora ainda mais.

Essas características atrapalharão um pouco a desenvoltura comunicacional e a mobilidade social da campanha lulista: seu eleitorado está demasiadamente concentrado entre pessoas que ganham renda familiar inferior a 2 salários, que é um segmento da população que participa menos dos debates nas redes.

Entre pessoas com ensino superior, 65% responderam que não votariam num candidato apoiado por Lula. Isso significa que o “escolhido” por Lula deverá herdar muitos votos do ex-presidente, mas sofrerá igualmente o peso de sua rejeição, sobretudo no Sudeste e Sul.

Esses cálculos valem com mais força para o segundo turno, e poderão ser considerados, instintivamente pelos eleitores, e mais objetivamente pelos estrategistas eleitorais dos partidos, na hora de avaliar qual o candidato que melhor pode aproveitar a herança eleitoral de Lula, a saber, herdar com mais facilidade seus votos no nordeste, e ao mesmo tempo descolar de sua rejeição no Sudeste e no eleitorado que ganha mais de 2 salários (que formam um todo numérico maior que o eleitorado que ganha menos).

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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6 comentários

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Curió

06 de junho de 2018 às 18h16

O meu comentário…
o gato comeu
o gato comeu
o gato comeu
Crendo em cruz, esconjuro!

    Miguel do Rosário

    06 de junho de 2018 às 18h23

    Você tá me jogando contra os internautas, Curió. E dizendo que o PT é “neoinimigo”. O que é completamente falso. Não aguentei e moderei. Desculpe.

Alexandre

06 de junho de 2018 às 16h55

Essa pesquisa do Poder360 é muito ruim, os procedimentos por meio de ligação telefônica aleatória por robôs, ninguém merece. Fernando Rodrigues? Bleargh! Porém, o nome que esta pesquisa está incensando é o do Haddad, sabe-se lá o porquê. Sem nem fazer campanha, tá bem na fita. Li hoje também num jornalão, não lembro se Globo ou Folha, que, em uma sondagem feita pelo DEM, o candidato que revelou um potencial enorme, tanto em Sampa quanto no Nordeste, foi novamente o Haddad, bem maior do que Ciro, Marina etc.

    Mandarim

    06 de junho de 2018 às 18h14

    Onde tem fumaca…

sergio sala

06 de junho de 2018 às 16h23

o data poder falhou feio na pesquisa no Centro Oeste …
la é onde Bolsonaro mais tem eleitores… e na pesquisa ai diz so 15%.. o do data folha ja diz 26% me parece mais coerente o do data folha..
o centro oeste vai eleger bolsonaro maciçamente.

concerte ai o centro oeste e veras que ele esta muito mais a frente do que se imagina

    ari

    06 de junho de 2018 às 16h58

    A força do latifúndio é muito grande nos dois Mato Grosso e em Goiás. Neste último, parece que o Caiado está disparado na liderança pelo governo. Como diz a tal lei de Murphy, nada está tão ruim que não possa piorar.