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PT e PSB decidirão se a esquerda sai unida no primeiro turno

Por Pedro Breier

23 de julho de 2018 : 11h39

O quadro eleitoral começa a se definir.

Alckmin amealhou o “centrão”, que está mais para “direitão” mesmo, e contará com a maior máquina eleitoral e o maior tempo de TV. Aumentou a probabilidade de que consiga sair do atoleiro nas intenções de voto, embora seu partido continue queimadaço e seu carisma permaneça o mesmo que lhe logrou o apelido autoexplicativo de picolé de chuchu.

Bolsonaro contará com… Janaína Paschoal e Alexandre Frota. Com parco tempo de TV e, até agora, sem alianças, o candidato do ódio deve ir solitário para o pleito. Lutará contra a própria inaptidão intelectual para chegar ao segundo turno.

A esquerda, por sua vez, revive o seu eterno drama de estar dividida em um momento que pede união absoluta.

Guilherme Boulos é o candidato do PSOL. A possibilidade dele abrir mão da candidatura em nome de uma união do campo antigolpe não chega nem a ser aventada, o que se entende pela posição do PSOL de não admitir qualquer suavização do seu programa na hora de fazer alianças. Por isso mesmo, vai junto com o PSOL apenas o PCB.

O PCdoB decidiu, em sua convenção nacional, conclamar pela união do campo popular já no primeiro turno. Considerando a quadra histórica em que nos encontramos – golpe, ataques cruéis à classe trabalhadora, ascensão do fascismo e possibilidade real da esquerda ficar fora do segundo turno – é, de longe, a postura mais sensata e que deveria ser imitada por todos os partidos que se pretendem de esquerda.

O PDT lançou Ciro Gomes à presidência. O partido vem construindo a candidatura há meses. Ciro, e isso é reconhecido até por seus adversários, é extremamente inteligente e preparado. Desfila seus conhecimentos de economia e deixa sempre claro que seu governo privilegiará os trabalhadores e os pobres. Critica acidamente o rentismo e a concentração de renda no Brasil. Não enxergo um bom argumento para que Ciro e o PDT abram mão da candidatura.

O PSB tenta construir uma mínima unidade entre seus quadros, sendo que as duas possibilidades mais fortes são o apoio a Ciro Gomes ou a neutralidade, para que os estados fiquem mais à vontade para apoiar quem melhor lhes convenha. Entre as picuinhas partidárias nos estados e a responsabilidade com o futuro do país, parece óbvio que o PSB deve descartar a possibilidade de ficar neutro nacionalmente e, assim como o PCdoB, conclamar a unidade da esquerda.

O plano do PT parece ser o de manter a candidatura de Lula até o limite e, quando esta for definitivamente indeferida, o que só não ocorrerá por um verdadeiro milagre, lançar um substituto – provavelmente Fernando Haddad.

A simples descrição da situação de cada um dos partidos deixa transparecer que a estratégia do PT é a mais arriscada.

O Judiciário está comprometido até a medula com o golpe e tudo indica que Lula não poderá sequer gravar vídeos de dentro da cadeia para fazer campanha. Esperar que os demais partidos do campo popular apoiem a candidatura Lula nessas condições e, depois, o “poste” escolhido para substituí-lo é exigir uma postura de certa forma submissa e, por isso mesmo, totalmente inviável. Tanto que o PT nem conclama os demais partidos para tal aventura.

Compreende-se que o partido não queira abrir mão da cabeça de chapa por ser a maior agremiação do campo democrático, por ter o político mais popular do país em suas fileiras e por medo de perder sua hegemonia na esquerda. Entretanto, estamos diante de uma eleição arriscadíssima.

Não é preciso falar sobre a importância da esquerda estar presente no segundo turno e, assim, ter a possibilidade de ganhar a eleição. Um segundo turno entre Alckmin e Bolsonaro, por exemplo, nos colocaria na posição surreal de defender o voto em um candidato tucano. A eleição de qualquer um dos dois, por sua vez, seria desastrosa para a classe trabalhadora.

A hora, portanto, é de pensar grande, de pensar diferente. É hora de o PT abrir mão da disputa pela hegemonia e tomar a decisão mais racional e sensata. Se o PT decidir apoiar Ciro Gomes, a tendência é o PSB ir junto. A vaga de Ciro no segundo turno estaria garantida e teríamos uma chance concreta de frear a avalanche neoliberal.

A bola está com o PSB e, principalmente, com o PT.

 

 

Pedro Breier

Pedro Breier nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo. É formado em direito e escreve n'O Cafezinho desde 2016, sendo atualmente um dos editores do blog.

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25 comentários

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Alan Cepile

24 de julho de 2018 às 13h39

O PT precisa entender a sua posição atual no jogo político visando a eleição.
Ideologicamente não acho errado insistir com Lula, afinal, ele foi condenado sem provas por um tribunal inquisitório, mas para a eleição especificamente essa insistência se torna um grande risco de deixar o PT isolado e, por isso, enfraquecido. Nenhum partido dará um cheque em branco ao PT, sem chances.
Outra coisa que o PT precisa entender (se é que já não entendeu, não querendo admitir publicamente) é que não encabeçar uma possível chapa não é nenhum demérito, PT e Ciro estariam juntos como quase sempre estiveram, em prol do país, do povo e da democracia.

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almir

24 de julho de 2018 às 09h47

Melhor texto que li nos ultimos 30 dias sobre a politica e as eleições, lúcido, objetivo e sem mimimi, o que está em jogo (e PT faz q não ve) é a sobrevivencia da propria esquerda brasileira

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BERNARDO FERREIRA DOMENICI

23 de julho de 2018 às 19h52

Se o PT for sensato, ira apoiar o Ciro fazendo uma chapa Ciro-Haddad para garantir a vitória.

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Diego Baptista

23 de julho de 2018 às 16h25

“É hora de o PT abrir mão da disputa pela hegemonia e tomar a decisão mais racional e sensata.”
É hora não, já passou da hora. Mas qual sinalização você tem de que isso possa de fato ocorrer? Ao que parece, o PT já decidiu pelo seu próprio umbigo politicista, com sua postura isolacionista e irresponsável; não quer largar o osso da hegemonia que esquizofrenicamente ainda acha que possui. Do ponto de vista revolucionário, o PT sempre foi um lixo. Lula é um traidor que distribuiu migalhas para os pobres, baseou a ascensão social em consumo, sem sustentação estrutural, sem qualquer reforna de base. Apesar de todo apoio popular que teve, Lula e o PT favoreceram o grande capital financeiro como nunca, aliaram-se com o que há de pior na política, etc. etc. etc. Agora querer posar de salvador da pátria é ridículo. Nada disso significa que sua atual prisão não seja injusta e casuística; mas não adianta espernear. Ainda bem que tem o Ciro – tomara que o PSB feche logo com ele. E torçamos que não ocorra o mesmo que ocorreu em 89 por culpa do PT não ter apoiado a candidatura Brizola.

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Ultra Mario

23 de julho de 2018 às 15h29

Opa, outro poste igual a Dilma. Dessa vez vai dar certo sim, pode confiar!

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Aliança Nacional Libertadora

23 de julho de 2018 às 14h53

Se o Testosterona tivesse aceitado ser vice do Lula desde o começo estaria melhor na foto com a esquerda….afinal seria certo que se elegeria e se prepararia melhor para a próxima eleição….Mas correu pra direita e falou o que queria….ouviu o que não queria….sofreu do mesmo mal de Eduardo Campos…..

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    André Romero Henrique da Costa

    23 de julho de 2018 às 16h12

    Você não poderia estar mais errado, meu camarada.
    O mal dos petistas é se dizerem de esquerda e governarem para a direita, com alguns Band-Aids de programas sociais. E depois acionam a velha máquina de propaganda e de moer reputações para destruir concorrentes do mesmo campo, como se ele fosse o único partido ungido que fala por toda uma corrente de pensamento. Nesse ponto, o PT age exatamente da mesma forma que a Globo e a Igreja Universal.
    Ciro vem se preparando e está com a candidatura posta há meses. Para não perder a hegemonia, o PT quer tirar alguém da cartola no último momento, sabendo que Lula está desde há muito fora do páreo. Prefere forçar uma divisão do campo mesmo sabendo que sua rejeição é altíssima ao invés de compor democraticamente com forças que já o apoiaram no passado. Assim, prefere compor e perder em nível nacional com o PR (a quem tenta desesperadamente um novo acordo) e o tal Solidariedade, se aliar com o mesmo MDB que o derrubou (em alguns Estados) do que dividir o poder com o Ciro e o PDT, a quem poderia lhe fazer sombra. E levar todo o Brasil para mais 4 anos de terror, desde que seus interesses sejam mantidos.
    Essa é a medida da democracia do PT.

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      Alan Cepile

      24 de julho de 2018 às 13h53

      André,

      Parabéns pelo seu comentário, objetivo, lúcido e certeiro.

      Responder

Jeferson

23 de julho de 2018 às 13h41

Sugiro o nome da Dilma para presidente…

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Jonas

23 de julho de 2018 às 13h25

O artigo está ótimo e só discordo em um ponto:
“deixa transparecer que a estratégia do PT é a mais arriscada.”
Estamos em um golpe.
Qualquer candidatura de esquerda é arriscada. Corremos o risco até de ter as urnas fraudadas. E aí só poderemos nos defender com apoio popular. E o pt, queiram ou não, é o mais forte nesse quesito. E não é transferível.

O articulista está de parabéns ao descrever o passado e o presente, porém tem pecado ao tentar prever o futuro. E é justamente por subestimação, tanto da força do golpe, quanto a do povo. É o embate dessas duas forças que vai definir a eleição, e isso não deve ser subestimado.

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Alberto Claudio Salgado

23 de julho de 2018 às 13h20

Muitos “analistas” esquecem que o PT continua sendo o maior partido de esquerda do Brasil, não dá para colocar os demais partidos no mesmo patamar! Se querem se igualar ao PT então que trabalhem duro no campo social e na sua militância. O PT continua sendo o partido mais querido do povo brasileiro! A partir daí o choro é livre!

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Alberto Claudio Salgado

23 de julho de 2018 às 13h14

Colocar o PSB no cambo das esquerdas é um tremendo engodo! O PSB partido golpista e oportunista é irmão gêmeo do PPS.

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    Glauber Tocha

    23 de julho de 2018 às 14h37

    Aqui em SC quem está no PSB é nada menos que o Bornhausen pai e filho. Pensavam que aquele outro iria ser presidente. Lembram da Novembrada ? Florianópolis.

    Responder

Henrique

23 de julho de 2018 às 12h55

A chapa que a direita mais tem medo é: Ciro Presidente, Lula vice.
Desta forma o PT continuaria sua luta pelos direitos políticos de Lula e o discurso de Lula Livre. Ciro sairia pelo país denunciando a prisão de seu vice.
Seria imbatível.

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    Pedro

    23 de julho de 2018 às 14h06

    Apesar de não acreditar que aconteça, essa seria a solução ideal, de fato. Vivemos um momento perigosíssimo para o arremedo de democracia que nos resta. É totalmente lógica a união total da esquerda em prol de um projeto forte o bastante para conter a onda neoliberal que vai se abater com força total sobre o país. Que o Lula reconheça isso – saber disso, ele já sabe – e tome a decisão mais sensata.

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      Glauber Tocha

      23 de julho de 2018 às 14h39

      Falaram com o Povo ?

      Responder

André Romero Henrique da Costa

23 de julho de 2018 às 12h20

Esse articulista está de parabéns. O texto é um manifesto lúcido e que expressa o sentimento de muita gente.
Se o PT – que tomou uma grande porrada nas eleições passadas e encolheu em 40% sua base parlamentar – insistir com essa loucura de lançar um candidato de última hora alternativo ao Lula será entregar o Poder para essa mesmíssima turma que está nos destruindo a todos. E que, lembrar não ofende, o PT ajudou a colocar lá em cima.
Está na hora desse partido parar com a propaganda e a mesquinharia partidária e assumir uma postura democrática de vez, aprendendo a compartilhar o Poder e não só pedir união em torno dele.
Se isso não acontecer, não votarei nunca mais nesse partido nem para síndico.

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    Alberto Claudio Salgado

    23 de julho de 2018 às 13h17

    Muitos “analistas” esquecem que o PT continua sendo o maior partido de esquerda do Brasil, não dá para colocar os demais partidos no mesmo patamar! Se querem se igualar ao PT então que trabalhem duro no campo social e na sua militância. O PT continua sendo o partido mais querido do povo brasileiro! A partir daí o choro é livre!

    Responder

    Glauber Tocha

    23 de julho de 2018 às 14h41

    Esse o que você quer acontecer o povo não vai votar querido. O povo quer Lula ou. Temos 54 milhões de votos entalados na garganta e nos punhos!!!

    Responder

Marcelo

23 de julho de 2018 às 12h19

Não se desespere, Miguel, o chuchu não tem salvação. A imagem do PSDB está suja, colada a de Temer. Segundo turno será entre a toupeira do Bolsonaro e o candidato do PT. Ciro só tem chance de for apoiado pelo PT, portanto é um candidato dependente e inconfiavel.

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    André Romero Henrique da Costa

    23 de julho de 2018 às 12h28

    Não conte com isso, Marcelo. A máquina da mídia já está funcionando a todo vapor para o cara.
    Você diz que Ciro não é confiável mas quem inventou o Temer na linha de sucessão foi o PT, meu camarada. Fale o que quiser, mas sozinho o PT não irá longe nessas eleições. E eles sabem disso: se eles continuarem com essa ideia de preferir perder a ceder a sua suposta hegemonia será um tiro no pé enorme que muita gente, inclusive apoiadores do partido, não perdoarão.

    Responder

      Zé dos Bagos

      23 de julho de 2018 às 14h48

      Lula livre!
      Lula ou nada!
      Lula presidente!
      Lula ou o poste!
      Lula ou o Bode!
      Lula Lula Lula Lula Lula ( vozes das ruas )
      Voto em Lula pois ele poderá sair da prisão, para Deus nada impossível!
      Voto em Lula ou no candidato indicado por ele pois o velhinho preso é mais sábios do que eles todos soltos… Vai Lula!

      Responder

        André Romero Henrique da Costa

        23 de julho de 2018 às 19h15

        Essa é a única forma de argumentar que os fanáticos conhecem: berrar palavras de ordem e bloquear o debate. Exatamente como os carneiros no “Revolução dos Bichos” do George Orwell.
        Vida que segue.

        Responder

          Zé dos Bagos

          23 de julho de 2018 às 20h42

          Tu queres que eu argumente do teu jeito e tudo mais ?… Que debate asno ? Carneirinho dá chifradas também, cuidado! Fanático, berrar é ?… Que nada abobado… Lula está levitando… 35% 40% 50% 60%
          Te debate… é inútil!

          Alan Cepile

          24 de julho de 2018 às 13h57

          Argumentos com base em frases feitas, me lembrou um certo candidato da extrema direita, então vejo que não é por acaso que as pesquisas apontam que 4% dos lulistas (quase 6 milhões de votos) serão transferidos sim, mas não pro poste, uma Dilma da vida, mas pra um certo capitão da reserva.

          Agora as coisas começam a fazer sentido…


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