Haddad e Dilma em Belo Horizonte

Haddad no Canal Livre e os desdobramentos da estratégia do PT

Por Pedro Breier

20 de agosto de 2018 : 19h59

Haddad reiterou diversas vezes, em entrevista concedida na última madrugada ao Canal Livre, da Band, que não trabalha com a hipótese de a condenação de Lula ser mantida nos tribunais superiores.

A argumentação jurídica é cristalina, já que Lula foi condenado sem provas e por um esdrúxulo “ato indeterminado” de corrupção.

No campo da realidade política, no qual o Judiciário vem atuando parcial e desavergonhadamente, Haddad, o PT, eu, você e até aquele seu tio reaça que se informa politicamente por páginas obscuras do Facebook e correntes do WhatsApp sabemos que é quase impossível uma reversão da sentença de Moro, assim como que Lula possa ser candidato.

Diante dessa realidade inescapável, a estratégia petista – seguir com o discurso de que confia na absolvição e, portanto, na manutenção da candidatura Lula – tem o claro objetivo de constranger o Judiciário e deixar o mais evidente possível o caráter político da condenação, prisão e impedimento eleitoral do líder das pesquisas.

A partir disso, desenham-se três cenários possíveis (com informações da BBC Brasil):

1) Lula considerado inelegível antes de 17 de setembro:

Nesse caso, o PT deverá simplesmente substituir Lula por Fernando Haddad, com Manuela d’Ávila na vice, já que 17 de setembro é o prazo final para que os partidos troquem seus candidatos. Trata-se do melhor – ou menos pior – cenário para o PT, que terá levado até o limite a candidatura de Lula e ainda terá algum tempo para divulgar o nome de Haddad como o candidato oficial do partido e representante de Lula. Hadadd perderia, em tese, apenas um dos seis debates televisivos restantes.

2) Lula considerado inelegível após 17 de setembro mas antes da eleição:

Poderá acontecer se o TSE não conseguir – ou não quiser – colher as provas e julgar as impugnações à candidatura Lula até 17/09. Nessa hipótese, o nome e a foto de Lula aparecerão na urna, mas seus votos serão considerados nulos e irão para o segundo turno o segundo e terceiro colocados nas eleições, já que só uma hecatombe impede Lula de ficar em primeiro se puder ser candidato. Os votos também serão anulados caso Lula seja declarado inelegível entre o primeiro e o segundo turno, substituindo-se Lula pelo terceiro colocado. É, paradoxalmente, a maneira mais segura e mais perigosa de o Judiciário impedir a volta do PT ao poder central. Segura porque jogaria no lixo os votos de Lula enquanto ao mesmo tempo em que mataria a hipótese de o PT ganhar a eleição com um substituto de Lula; perigosa porque escancararia ainda mais – sim, isso é possível – que estamos sob um golpe e que a prisão de Lula faz parte dele. Se o dia 17/09 se aproximar sem que o TSE tenha decidido a questão, o PT terá que pensar seriamente em substituir Lula antes do prazo final para tal ou correr o risco de ficar sem candidato na urna.

3)  Lula considerado inelegível depois da eleição:

Nesse caso serão convocadas novas eleições diretas. Ou seja, caos.

***

Além da afirmação da estratégia do PT em relação à candidatura Lula, Haddad mostrou, na entrevista ao Canal Livre, que é um “poste” muito mais qualificado, politicamente, que Dilma Rousseff.

Respondeu às questões com desenvoltura e segurança, fugindo bem das cascas de banana dos entrevistadores. É um bom orador, fala calmamente e com fluidez. Rebateu bem, inclusive, quando perguntado sobre a possibilidade de ser chamado de “poste do Lula”: “Eu acho que eu tenho um currículo que não sei se eles estão à altura de criticar.”

 

Pedro Breier

Pedro Breier, colunista d'O Cafezinho, é formado em direito mas gosta mesmo é de jornalismo. Nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo.

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10 comentários

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Luiz Carlos Sodré

21 de agosto de 2018 às 13h25

Eu fico impressionado com a quantidade de agressões que a Dilma sofre. É chamada de incompetente por Ciro, é chamada de poste inábil politicamente pelo blogueiro. É muito interessante que todos os seus agressores são homens como eu. Temos que deixar de lado essa cultura machista e nos esforçarmos pra sermos homens decentes todos os dias. Porque poste de verdade são esses políticos do centrão que não pensam com as próprias cabeças. E a maioria deles são homens. Dilma por ter sido honesta e não ter feito acordos comuns na política brasileira, e não ter feito essa política suja que os analistas se acostumaram é vista dessa forma.

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    Miguel do Rosário

    21 de agosto de 2018 às 13h29

    Luiz, isso não é agressão. É crítica política. Necessária e saudável. Conversa com qualquer petista, e ele fará as críticas mais duras à presidenta.

    Responder

Tomas

21 de agosto de 2018 às 11h35

Se vcs tivessem um mínimo de vergonha na cara estariam clamando pela punição a todos desse partido que quebraram o País!!!
Vejam a pesquisa de ontem e verifiquem que as pessoas mais esclarecidas, com maior grau de conhecimento e informação rejeitam o Lula e o PT!
Me respondam: Por que eu tenho de pagar pelo mal feito de uma corja colocada por vocês no poder?
Vocês fazem tão mal ao País como esses bandidos, ladrões e corruptos que defendem!

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vicente

21 de agosto de 2018 às 08h12

Para os golpistas, o melhor é impugnar a candidatura depois do dia 17/09, mas antes da eleição.
Então, como apesar de não terem caráter, eles são muito espertos, eu apostaria nessa tendência.
Vamos ter que aguardar para saber o que Lula vai definir, pois ele deve estar ciente disso tudo.

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antipaneleiro

21 de agosto de 2018 às 01h07

O artigo publica uma informação errada ao afirmar que Haddad é um “poste mais qualificado, politicamente” do que Dilma. Objetivamente, Haddad já perdeu uma eleição, Dilma nunca; ela ganhou todas de que participou, aproveitamento 100%. Haddad foi inegavelmente um dos mais importantes ministros da educação da história do Brasil. Dilma simplesmente foi a arquiteta do modelo de exploração do pré-sal (algo que o golpe enterrou) e depois, como presidenta, deu direitos trabalhistas aos empregados domésticos (na minha opinião abolicionista, a lei mais importante desde a CLT de Vargas). Tentar debitar a desgraça que se abateu sobre o Brasil a uma suposta incapacidade política de Dilma é (1) desconhecer a geopolítica mundial e o destino das demais nações latinoamericanas e (2) confundir política com fotogenia à la Globo. Haddad tem inteligência e habilidade como entrevistado, mas creio que o jeito desajeitado de Dilma com as câmeras e em pronunciamentos tem sido um importante “capital político” da nossa presidenta constitucional, eleita e reeleita (coisa que o “qualificado” não conseguiu).

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Katia Moises

20 de agosto de 2018 às 23h15

Eleição sem Lula é fraude, é uma farsa! Assinado: Organizações das Nações Unidas

Lula até o fim! Se plano B!

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Carlos Almeida

20 de agosto de 2018 às 22h00

Concordo contigo Alan. A estratégia que você exemplificou me parece muito mais plausível. Não dá pra inverter tudo que já foi feito contra a candidatura de Lula, mas é possível angariar os votos que seriam dados ao ex-presidente em favor de um bom candidato (elegível) do PT..rs. E eu particularmente gosto muito do Haddad.

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Alan Cepile

20 de agosto de 2018 às 20h47

O PT está perdendo tempo, deveria colocar logo Haddad e faze-lo participar de tudo que não está participando, o foco sairia de Lula e o PT se concentraria em angariar votos para um candidato verdadeiro.
PT e Haddad usariam a figura de Lula para ganhar votos, e penso que assim a transferência seria mais maciça.
Se esta troca for no dia 17 de setembro poderá ser muito tarde.

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    Alexandre Neres

    20 de agosto de 2018 às 21h41

    Prezado Alan, nós eleitores de Lula, não estamos preocupados com estrategias eleitorais para ganhar uma eleiçao. Nossa preocupacao é de fundo, é com o estado democratico de direito, com as instituiçoes pretensamente democraticas em um estado de exceçao. Nossa luta é para que não aconteça o mesmo que aconteceu com Getulio Vargas em agosto de 1954 mais uma vez. Aquele abraço.

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      Alan Cepile

      21 de agosto de 2018 às 01h32

      Pensamos diferente, só vejo o PT se preocupando com a “hegemonia”, nada mais.

      Outro abraço.

      Responder

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