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REPRODUÇÃO TV GLOBO

Morreram na contramão atrapalhando o Sábado

Por Tadeu Porto

09 de fevereiro de 2019 : 17h51

Quero deixar claro que minha crítica não é ao Flamengo enquanto patrimônio cultural (Alô alô Realengo, aquele abraço). Um fenômeno popular como o futebol precisa ser discutido com carinho, afinal algo que mobilize tanto a maioria do povo no tempo presente tem sempre relevância para a construção cultural de um país. E destruir patrimônio histórico é loucura.

Agora, a gestão do Clube de Regatas Flamengo precisa responder, urgentemente, pelas mortes que ocorreram no Centro de Treinamento do Clube. Não se pode ter no local de trabalho o sangue de 10 crianças e tratar como mera fatalidade.

Primeiramente, preciso fazer justiça aqui e deixar o tweet da Luara Ramos, assessora de comunicação do movimento sindical dos correios. Ela atentou para a necessidade de lembrarmos que a tragédia é, além de tudo, um acidente do trabalho. Só depois de lê-la, reconheci que realmente era mais um crime do trabalho. Até então, estava um pouco cego pela comoção que o futebol causa.

Destaque para: “[Essa tragédia] é o retrato de um país que trata a classe trabalhadora como inimiga.” Essa é uma das grandes verdade que vamos ler por muito e muito tempo, até resolvermos isso.

O Brasil precisa, urgentemente, conversar sobre sobre a maneira que tem tratado os trabalhadores e trabalhadoras nos últimos anos.

Imaginem, por exemplo, se numa plataforma de petróleo – tipo aquelas que o Cauã Reymond anda trabalhando – alguns quartos pegassem fogo e,com isso, 10 trabalhadores viessem a óbito. A empresa responsável pelo local de trabalho seria imediatamente responsabilizada: tanto pelos órgãos públicos, quanto pela própria sociedade. Guardada as devidas proporções, é o que ocorreu com a Vale em Brumadinho.

A realidade é que temos que debater muito seriamente as relações de trabalho no país. Há anos que a conversa pra cima do proletariado é somente corte, corte e mais corte, enquanto empresas de diversas áreas ganham isenções fiscais num momento delicadíssimo de déficit nas contas públicas, por exemplo.

Infelizmente, nos acostumamos a escutar que o trabalhador ou a trabalhadora irão precisar se acostumar com perda de direitos para ter mais emprego. Contudo, quem conhece o mundo do trabalho sabe que esses direitos envolvem diretamente, na maioria esmagadora dos casos, a saúde e segurança dos trabalhadores e trabalhadoras.

A CLT não se resume somente a 13º salário, férias ou FGTS. O direito do trabalho não se resume só a entrar na justiça para ganhar horas extras trabalhadas e não pagas. Há diversas proteções ao trabalhador, desde Normas Regulamentadoras de segurança, passando por órgãos de fiscalização no local de trabalho e direito a liberdade de organização, ou seja, liberdade sindical.

As crianças não estavam em casa. Estavam fazendo o que muitos garotos sonham, obviamente, mas isso não pode ser desculpa para mascarar a falha da gestão flamenguista. Vale lembrar, ainda, que um clube que tem força e grana para tirar na marra jogador do time adversário, precisa obrigatoriamente investir num alojamento que não ofereça perigo as vidas que ali habitam.

Não consigo deixar de imaginar se a diretoria do Flamengo não deveria ter focado seu esforços  para dar melhor condições a seus atletas futuros, seus empregados, ao invés de gastar tanta energia para contratar um meio campo destaque de outro clube brasileiro.

Rodolpho Landim, presidente atual do Flamengo, também é acionista controlador de uma empresa de óleo e gás que está se apresentando para produzir petróleo na Bacia de Campos, substituindo a Petrobrás, líder mundial nesse tipo de trabalho.

Sendo assim, o mínimo de questionamento que se deve fazer é se, por um acaso, os trabalhadores ou trabalhadoras da Ouro Preto Óleo e Gás vão dormir, no meio do mar, em locais susceptíveis a incêndios fatais como era o Ninho do Urubu.

Afinal, estamos falando de vidas. De sonhos de crianças e de famílias que, certamente, nunca mais viverão do mesmo jeito. Se isso não for capaz de nos indignar a ponto de aprender com essa fatalidade, aí banalizamos a própria morte e voltamos à idade média.

E as mortes futuras (Brumadinho não foi apenas um Dejá Vu de Mariana)  vão continuar, apenas, atrapalhado o tráfego, o público ou o sábado de futebol.

Tadeu Porto

Colunista do Cafezinho e diretor da Federação Única dos Petroleiros e do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense.

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9 comentários

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CARPOA

11 de fevereiro de 2019 às 11h56

ESTE É O PAÍS DO FAZ DE CONTA.
NADA ACONTECERÁ,OS MORTOS SÃO DESTE LADO DO MURO.
FOSSEM DO LADO DOS PODEROSOS ,NEM PRECISAVAM SER MUITOS O PAU IA COMER.
QUANTOS PRODUTORES RURAIS SÃO MORTOS NA BATALHA PELA TERRA ?????…
QUANTOS LÍDERES CAMPONESES MORRERAM E CONTINUAM MORRENDO???
E QUE ACONTECE??

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Renato

11 de fevereiro de 2019 às 08h54

“enquanto empresas de diversas áreas ganham isenções fiscais num momento delicadíssimo de déficit nas contas públicas,” . Engraçado que depois de treze anos de generosas e milionárias isenções fiscais promovidas pelo Petê, o tal Tadeu Porto só agora passou a achá-las ruins !

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    CARPOA

    11 de fevereiro de 2019 às 11h51

    Os pts cometeram muitos erros e enormes acertos,mas ,sua canalhice é fantástica.
    As contas públicas ao menos durnate os governos do Lula estiveram no melhor patamar das últimas décadas.Se a Dilma ingenuamente acreditou na corja empresarial deste país,isentando-a de encargos na sua folha salarial sem nada en troca apesar de prometido ,isso não pode se dizer de TODOS OS GOVERNOSque vc apoia.
    Eles só beneficiaram,com isenções e subsídios aos empresários,bancos,e grandes produtores rurais.
    Então meu caro,fosse vc arrancava os dentes,se vc morder a sua lingua,morre.
    È muito veneno e pouco cérebro,eleitor de um ASNO.

    Responder

Eloiza Rocha Pereira

10 de fevereiro de 2019 às 23h36

Além da exploração do trabalho infantil, o descaso com a vida dos jovens mortos no alijamento do clube de futebol Flamengo leva a outro questionamento: as suspeitas de lavagem de dinheiro do crime organizado pelo esporte de alto rendimento, a corrupção na CBF e na FIFA, como vem sendo investigado internacionalmente!
Se
Os quase 200 milhões de reais que o clube Flamengo declara ter, não combina com à pobreza deste alojamento! Só mostra ao povo brasileiro como tudo que se vincula ao crime despreza a vida das pessoas! Assim como o descaso com a segurança dos trabalhadores nas minas de Brumadinho, as vidas de garotos que no futuro poderiam render milhões ao clube não vale nada pros cartolas e dirigentes! Onde estão esses milhões aí? Será que a milícia do Rio de Janeiro também lavam dinheiro do crime aí no Flamengo?Porque a obra do alojamento novo que ia ser inaugurado em 2012 (segundo reportagem da tá Globo mostrou hoje) ainda não foi concluída? Ou será que foi mas não inaugurou pra ter uma desculpa pra desviar verba de corrupção com o dinheiro do time?
Quem são os responsáveis por esta obra? Quem não deixou inaugurar? Porque os meninos nao dormiam lá mesmo sem inaugurar?

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    Renato

    11 de fevereiro de 2019 às 08h48

    “Exploração do trabalho infantil” com a conivência dos pais né !

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      Rodrigo

      11 de fevereiro de 2019 às 20h15

      Sim, consequências de um país miserável.

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Ivo

09 de fevereiro de 2019 às 19h55

Por mim clube de futebol e demais clubes sociais esportivos poderiam fechar todos.
Seria um grande serviço prestado ao pais se fechassem todos eles.

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    Elton

    09 de fevereiro de 2019 às 20h16

    Não fale assim, o futebol é paixão nacional. A pátria de chuteiras.
    Não fale assim, pois mexe com a emoção dos que tem apenas um time para descarregar suas frustações, Eles não sabem que clubes esportivos tem regime tributário diferenciado e muitos clubes são grandes sonegadores. Mesmo assim muita gente ao redor dos eventos esportivos ficam milionárias.
    Gente sem nenhun valor para a sociedade, obviamente, mas tem o papel de manter as massas totalmente aliendas enquanto os barões enchem o bolso com muita grana, Mesmo que isso tenha custado inúmeras vidas humanas ao longo dos anos. Toda esta barbarie é patrocinada ou pelo estado
    atraves de incentivos fiscais ou pelas grandes empresas do livre mercado. Intrigante não é mesmo?

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    Paulo

    09 de fevereiro de 2019 às 22h46

    Não vamos jogar o bebê fora juntamente com a água suja da bacia. Futebol é patrimônio cultural do povo brasileiro. Provavelmente, a única área de atuação em que, historicamente, o país se destacou acima de qualquer outro…o futebol está na memória afetiva da minha geração e de muitas anteriores (atualmente, parece que a coisa está mudando).

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