Boulos no programa de Maurício Meirelles

Estamos rindo dos alvos certos?

Por Pedro Breier

21 de março de 2019 : 15h15

(Na imagem, Marcelo Bretas e Sergio Moro curtindo um cineminha)

A previsível chuva de piadas e memes sobre a prisão de Michel Temer inunda, neste momento, as redes sociais.

Mas será que há motivo para risadas? Na minha visão, somente em um nível bastante superficial – e ingênuo – de análise.

Uma análise um pouco mais profunda não pode prescindir da constatação de que trata-se de mais uma prisão antes da condenação do réu, como costumam ser as prisões ordenadas pelos todo poderosos juízes da Lava Jato. Parece ser mais um ato autoritário do juiz Marcelo Bretas, parceiro de primeira hora de Sergio Moro na aplicação de métodos medievais de condução do processo penal.

Há consideráveis evidências do envolvimento de Temer em esquemas de corrupção, não há dúvida. É certo também que estamos tratando de um inimigo político do campo popular e dos trabalhadores brasileiros que, na vice-presidência da República, articulou um odiento golpe na democracia para assumir o poder.

São motivos para esquecermos que a Lava Jato é uma operação truculenta que costuma passar por cima da lei para atingir fins políticos? Se entendemos a esquerda como o campo que luta pela liberdade humana, em todos os seus sentidos, é evidente que não.

O poder de arbítrio do qual figuras como Bretas encontram-se investidas – graças à propaganda midiática e ao acovardamento dos tribunais superiores – é incomparavelmente mais danoso à democracia brasileira do que qualquer esquema de corrupção do qual Temer faça parte.

Aprofundando ainda mais o debate, adentramos na seara do timing político. Dois fatos merecem nossa atenção.

O primeiro são as importantes derrotas recém sofridas pela Lava Jato no STF, como na questão da competência da Justiça Eleitoral para julgamento de crimes comuns quando associados a crimes eleitorais e do veto à criação da esdrúxula fundação que o MPF tentou emplacar para abocanhar uma bolada de 2,5 bilhões de reais a serem usados nebulosamente.

O segundo é o sangrento conflito que Moro, líder inconteste do Lava Jato F.C., que inusitadamente virou um time permanente do campeonato político nacional, acaba de protagonizar com Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados. Moro pressionou Maia para que este acelerasse a tramitação do seu “inovador” projeto “anticrime”. A resposta de Maia foi chamar Moro publicamente de “funcionário do Bolsonaro” e dizer que o herói de Curitiba está “confundindo as bolas” ao passar por cima do presidente da República nas tratativas institucionais com a Câmara. Moreira Franco, aliado de Temer que também foi preso hoje, é sogro de Rodrigo Maia.

As prisões de Temer e Franco têm todo o cheiro de serem estratégia da Lava Jato para emparedar tanto o STF, caso este venha a julgar os inevitáveis pedidos de habeas corpus, quanto Rodrigo Maia.

Estamos nos acostumando com isso, mas é sempre bom lembrar o quão absurdamente ditatorial é o uso de prisões com vistas à luta política. Colocar um ser humano em uma jaula deveria ser o último recurso de uma sociedade minimamente civilizada diante de um criminoso. Usar o encarceramento para fins políticos, como se faz abertamente e sob aplausos generalizados desde que Moro foi alçado a super-herói, é apenas repugnante.

Tudo leva a crer, portanto, que a Lava Jato está usando sua musculatura para voltar aos holofotes e angariar o apoio da opinião pública. Esse apoio é importante para garantir o sucesso de seu macabro projeto político: ainda mais poder para o inchado, truculento e autoritário sistema de justiça brasileiro – composto por Judiciário e Ministério Público.

Sendo assim, dar risada da prisão de Temer e Moreira é, de certa forma, fazer o jogo dos meganhas da Lava Jato. É juntar-se, ingenuamente, ao senso comum que aplaudirá mais uma demonstração do poderio ditatorial que reles juízes de primeiro grau acumularam ao arrepio da Constituição e das leis.

Evidentemente, não é fácil remar contra o maré. Uma discussão mais profunda é a deixa para um idiotizado qualquer bradar “defensor de bandido” e etc. Entretanto, se a esquerda não tiver capacidade para refletir sobre os acontecimentos políticos com um mínimo de pensamento crítico, quem o fará? Aproveitemos que os tempos áureos da popularidade da Lava Jato ficaram para trás.

O problema não é fazer piada. O humor é, afinal, uma afiada arma na luta política.

A questão é sabermos identificar quem merece, de fato, ser alvo de chacota. Se falharmos nessa tarefa, a piada somos nós.

Pedro Breier

Pedro Breier é graduado em direito pela UFRGS e colunista do blog O Cafezinho.

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