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Graciela Borges em A GRANDE DAMA DO CINEMA

Era uma vez… o cineasta Juan José Campanella – Parte 4

Por Victor Lages

15 de maio de 2019 : 12h56

Victor Lages, pela Fênix Filmes

Era uma vez um futebol e um cinema e o final da saga de Campanella (pelo menos aqui no Cafezinho). Depois de vermos o cineasta largando o curso de engenharia para estudar audiovisual em Nova York após assistir clássicos de Frank Capra e Bob Fosse, lançar suas primeiras obras, voltar para a Argentina, juntar-se ao ator Ricardo Darín, ser indicado ao Oscar por O FILHO DA NOIVA e vencer na categoria de Melhor Filme Estrangeiro em 2010 por O SEGREDO DOS SEUS OLHOS, hoje, na última parte da série, acompanharemos sua empreitada no futebol e no cinema metalinguístico.

Campanella no lançamento de UM TIME SHOW DE BOLA

No dia seguinte em que venceu a estatueta dourada da Academia de artes e Ciências Cinematográficas, Juan José Campanella começou a trabalhar no seu próximo lançamento, enveredando por um caminho que não tinha explorado até então: UM TIME SHOW DE BOLA (METEGOL, no original), uma animação em 3D sobre Amadeo, jovem dono de um café que possui uma mesa de pebolim que logo será destruído e vê os jogadores de metal da mesa ganharem vida para salvarem seu empreendimento.

No entanto, o enfoque proposto pelo diretor é mais profundo do que o aparentado pela superfície. “Não acho que o filme seja sobre futebol. Dizer que UM TIME SHOW DE BOLA é um filme sobre futebol é a mesma coisa de dizer que CASABLANCA é sobre a guerra! Aliás, eu nem gosto de futebol e não torço para nenhum time. O futebol e o pebolim aqui são temas paralelos a questões maiores, porque, para mim, o que importa é tratar dos valores humanos. Questões como amizade, trabalho em equipe e a superação dos valores pessoais são o foco do filme”, afirmou em uma entrevista feita no Brasil no lançamento do desenho.

Cena de UM TIME SHOW DE BOLA

Não foi um sucesso absoluto, mas também passou longe de ser um fracasso. Mesmo com a produção custando 20 milhões de dólares, conseguiu bom retorno do público, alcançando em torno de 2 milhões de ingressos vendidos apenas na Argentina. Mas o bonito de ver nesse filme foi a parceria entre a nação portenha e a brasileira, já que um dos animadores é daqui (o Michel Alencar) e foi ideia sua de usar a camisa verde e amarela para o uniforme dos jogadores de totó. “Quando eu e os argentinos da equipe vimos pensamos “não!!!”. Mas ele disse que o padrão da camisa não lembrava a camisa da seleção brasileira. E não lembra mesmo, são só as cores”, afirmou na época.

E trabalhar com 3D não foi uma tarefa fácil também. Durando cinco anos para produzir tudo, em um desenho animado só é possível ver uma cena inteira e finalizado após dois anos de trabalho intensivo nessa cena específica. E o resultado é incrível, desde a sensacional abertura que remete à 2001: UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick, à sequência final de um jogo de futebol que traz a mesma fluidez e grandiosidade que àquela já clássico plano-sequência de O SEGREDO DOS SEUS OLHOS. O fato é que, depois de descansar um pouco, Campanella foi aos Estados Unidos gravar umas séries e se dedicar a um roteiro que vinha escrevendo e revisando e reescrevendo desde os anos 90.

Cena de A GRANDE DAMA DO CINEMA

Amanhã, dia 16 de maio, estreia A GRANDE DAMA DO CINEMA, nono longa-metragem que traz Graciela Borges (uma espécie de Fernanda Montenegro/Meryl Streep portenha) como uma diva da era de ouro cinematográfica que vive em uma mansão com seu marido (um ator fracassado), um diretor das antigas e um roteirista aposentado e pode ver seu mundo desmoronar com a chegada de dois jovens corretores de imóveis.

Graciela Borges em A GRANDE DAMA DO CINEMA

O filme é um remake de LOS MUCHACHOS DE ANTES NO USABAN ARSÉNICO, de José Martínez Suárez, lançado em 1976 e posteriormente virando cult para o público argentino. Mas o processo de preparar uma regravação foi tão trabalhosa quanto sua produção anterior: “O primeiro tratamento do roteiro é de 1997 e fui amadurecendo e mudando até chegar a esta forma em que os personagens recordam os anos 60, 70, algo que encaixou perfeitamente com agora”, afirmou sobre essa atualização e sobre o estudo nas comédias subversivas que remetem à filmografia de Frank Capra, seu ídolo.

Mas, para trazer a história de volta à vida, era preciso um elenco tão espetacular quanto o diretor, quanto a própria narrativa. Sua ideia era que os quatro atores principais (Graciela Borges, Oscar Martínez, Marcus Mundstock e Luis Brandoni) tenham sido, mesmo, glórias do cinema antigo e que trouxessem ao público reconhecimento imediato com aqueles personagens que retratavam.

Oscar Martínez, Luis Brandoni e Marcus Mudstock em A GRANDE DAMA DO CINEMA

Além do desejo de refazer um filme que admira, Campanella também acredita que existe em A GRANDE DAMA DO CINEMA certos elementos comuns com outros longas seus. “A velhice é um tema que está em todas as minhas películas: O FILHO DA NOIVA, CLUBE DA LUTA, O SEGREDO DOS SEUS OLHOS… Me interessa a redefinição da velhice como um estado da alma e do corpo. É possível ser velho aos 28 anos e jovem aos 80. O corpo vai por outro viés. Me refiro que o que se passa na cabeça é o que define a pessoa”, defende. E isso é fato, como vemos no filme, de que não podemos duvidar da capacidade dos mais velhos, pois eles sempre nos surpreenderão com sua experiência.

E é isto! Campanella nos traz sempre, em seus filmes, as fraquezas, dúvidas, alegrias e outros sentimentos de homens comuns confrontados com o drama, o suspense, o humor e o romantismo. Acontecendo sempre de forma cíclica, o cotidiano e situações corriqueiras se esbarrando com o passado são características típicas de suas obras, como ele próprio disse em entrevista: “Meus filmes têm isso, personagens que querem seguir adiante e precisam voltar ao passado para resolver algumas situações”. E pode ter certeza de que isso tudo está em A GRANDE DAMA DO CINEMA, o retorno triunfal de um dos maiores cineastas contemporâneos latinos, quiçá do mundo.

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2 comentários

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ZumbiLoad

15 de maio de 2019 às 16h44

Nova Vulnerabilidade em Processadores Intel chama-se MDS.
ZumbiLoad ,RIDL Fallout

Era uma vez…

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    VICTOR RIBEIRO LAGES

    16 de maio de 2019 às 16h06

    ok

    Responder

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