Câmara discute privatização da Eletrobras

Comentários ao editorial da Folha contra Bolsonaro

Por Miguel do Rosário

31 de julho de 2019 : 09h39

A Folha publicou hoje um editorial contra Jair Bolsonaro, intitulado “Espiral de infâmias”, que eu gostaria de chamar de “contundente”, porém é mais uma mordida banguela que a imprensa aplica no presidente. Explico adiante.

O jornal menciona a possibilidade de impeachment, mas a coluna Painel, da mesma edição, traz afirmações lúcidas de membros do centro e da oposição, de que tal iniciativa seria um “tiro no pé e um presente para Bolsonaro”, porque o presidente está hoje justamente em busca de um “inimigo real” e não mais os moinhos de vento (comunismo, revisão da história, foro de São Paulo) com os quais ele vem lutando ultimamente.

A estratégia de parte da oposição, ainda segundo o Painel, é “estimular o isolamento do governo dando força a vozes dissonantes do PSDB”; o PT, por sua vez, continua a coluna, fará uma série de caravanas no Nordeste a partir de agosto, torcendo para que as mobilizações funcionem como “rastilho de pólvora, unindo grupos de instituições atingidas pelas falas de Bolsonaro”.

O Globo também tenta uma mordida sem dentes no governo, com um editorial mais ou menos crítico a Jair Bolsonaro. Intitulado “Bolsonaro ainda não assumiu a presidência”, o texto relembra as suas recentes violências verbais, e observa, com alguma precisão, que o presidente teve “sorte” em disputar o segundo turno com o representante do PT.

Bolsonaro ganhou uma eleição plebiscitária, atraindo muito eleitor mais pela rejeição à esquerda do que por apoio à sua agenda na totalidade.

O editorial conclui que Bolsonaro deveria estar focado na retomada do debate sobre a reforma da Previdência, que será votada em segundo turno na Câmara, antes de ir para o Senado, e nas “demais reformas”.

Algum desses ataques surtirá algum efeito no governo?

Provavelmente não. E a explicação está em duas notícias também veiculadas hoje.

  1. Hoje a Lava Jato lançou a sua 62ª fase, envolvendo a cervejaria Petropolis e a Odebrecht. Trata-se de uma operação requentada, porque a a Petropolis já foi investigada em 2016. A nova etapa da operação pode gerar ataques e intimidações à classe política, incluindo aí o PT e o ex-presidente Lula, beneficiando Sergio Moro e Bolsonaro. Enquanto o sistema jurídico do país (Justiça, MP, PF, etc) estiver aliado, como instituição, a este projeto, Bolsonaro terá força. Mesmo que Moro seja indicado suspeito no processo do triplex, o sistema já prepara outras condenações de Lula. Como parte importante da oposição, em especial o PT, centraliza sua luta política em torno do ex-presidente, essas novas condenações servirão para neutralizá-la por um bom tempo.
  2. O presidente do Banco Itaú, Candido Bracher, em teleconferência realizada ontem, para apresentar a investidores e jornalistas o último balanço financeiro do banco, destacou que o “nível elevado de desemprego, hoje na casa de 12%, permite o crescimento sem impacto sobre a inflação”. Depois dessa bizarra comemoração da tragédia social representada pelo desemprego, que joga milhões de famílias na mais abjeta miséria e empurra milhares de jovens para o mundo do crime, Bracher, empolgado pelo lucro líquido de R$ 7 bilhões do Itaú no segundo trimestre do ano,  afirmou que “isso [a vantagem que o alto desemprego proporciona ao país, de crescer sem inflação] deixa a situação macroeconômica do Brasil tão boa quanto nunca vi na minha carreira”. Ele conclui: “tudo isso que me faz ser otimista no curto e médio prazo”.

Todos esses elementos deixam claro que há um movimento ambíguo na alta sociedade. A grande imprensa faz críticas a Bolsonaro, mas está completamente escravizada à sua agenda econômica. O próprio desemprego é visto com entusiasmo por setores do capital, por permitir baixar o custo da mão-de-obra. A queda na demanda é compensada por lucros crescentes de um sistema financeiro baseado em especulação irresponsável, juros altos e spreads extorsivos.

A vitória de Bolsonaro reflete, ainda, uma tendência de setores do Estado e da elite econômica a se resignar com o papel subalterno do país, no grande jogo global, de mero e passivo fornecedor de commodites brutas a baixo preço.

Ainda ontem, ao defender a abertura de novos campos de garimpo na Amazônia, o próprio presidente admite essa visão:

“O Brasil vive de commodities, daqui a pouco o homem do campo vai perder a paciência e vai cuidar da vida dele. Vai vender a terra, aplicar aqui ou lá fora, e cuidar da vida dele. A gente vai viver do quê? O que nós temos aqui além de commodities?”

Pois é.

O que nós temos aqui além de commodities?

Até pouco tempo tínhamos o sonho de nos tornarmos grandes exportadores de derivados de petróleo (e não apenas de óleo bruto, como hoje), além de garantirmos a nossa autossuficiência no consumo de gasolina e diesel; continuar ampliando nossas exportações de serviços avançados de engenharia; produzir plataformas de petróleo e exportar tecnologia de exploração em águas profundas para o mundo inteiro; tornarmo-nos uma potência em matéria de geração de energia nuclear; construir submarinos nucleares; expandirmos nosso potencial cultural, exportando filmes, séries, livros e turismo de qualidade.

Todos esses sonhos foram destruídos, enterrados e a terra foi salgada, para que não possam nascer de novo.

Hoje o presidente da República, segundo a entrevista que ocupa a capa do Globo de hoje, quer criar “pequenas serras peladas Brasil a fora”.

Para mudar isso, será necessário pôr muita gente na rua, transformações profundas na opinião pública, algumas vitórias eleitorais em 2020, e, por fim, uma grande vitória política e eleitoral em 2022.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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7 comentários

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Paulo

31 de julho de 2019 às 23h09

Bolsonaro é de fato um “fora de estrada”. Como nunca antes na história (recente) deste país, um governante ousou desconsiderar a Rede Globo em sua conjeturas políticas. Ao contrário, eram pautados por ela (até governantes de esquerda hesitavam em enfrentá-la). A direita ilustrada é atualmente refém da agenda econômica neoliberal que o Capitão vai implementando. Mas, suspeito, mesmo depois dele implementá-la continuará sendo (não há alternativa pra 2022, à direita, Dória é um fanfarrão, não tem carisma)…

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Raja Natureza

31 de julho de 2019 às 16h59

Miguel do Rosário, quer dizer que você descobriu que desemprego é anti-inflacionário e pleno emprego é inflacionário? Você faltou nessas aulas básicas de economia. Ou talvez nem as tenha tido, como a maior parte das pessoas. O mais engraçado é você atribuindo um grande segredo desvelado, uma insider information o fato de o presidente do Banco Itau dizer isso em um evento especializado. Fala sério, Miguel!

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    Redação

    01 de agosto de 2019 às 12h19

    Ué, os EUA estão com desemprego de 3,6%, não tem inflação nenhuma e ainda baixaram o juros ontem? Essa teoria está ultrapassada. Próximaquestão.

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    J Fernando

    01 de agosto de 2019 às 13h57

    A crítica do Miguel foi além desta questão (desemprego x inflação).
    A visão do banqueiro COMEMORANDO desemprego é surreal. Ainda que esteja com os olhos voltados apenas para o lucro, comemorar desgraça alheia não deveria ser considerado algo normal.

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NeoTupi

31 de julho de 2019 às 12h46

Editorial de jornal não derruba nem vereador, mas indica a linha editorial do poder econômico, e essa linha levada a todo o noticiário e as chamadas diárias derruba com o tempo.
É óbvio que existe uma articulação pelo impeachment nas elites, porque Mourão é muito mais disciplinado e confiável do que Bozo.
Mesmo o Itaú tem medo do Bozo assinar abertura do mercado bancário brasileiro se o Trump mandar. Lembre-se que Guedes já falou em vender o Banco do Brasil para o Bank of América.

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Marcio

31 de julho de 2019 às 12h38

“além de garantirmos a nossa autossuficiência no consumo de gasolina e diesel; continuar ampliando nossas exportações de serviços avançados de engenharia; produzir plataformas de petróleo e exportar tecnologia de exploração em águas profundas para o mundo inteiro; tornarmo-nos uma potência em matéria de geração de energia nuclear; construir submarinos nucleares; expandirmos nosso potencial cultural, exportando filmes, séries, livros e turismo de qualidade.”

Isso tudo para um Pais de analfabetos com 60.000 homicidios por ano e onde nem esgotos tem…?

Em momento algum, nem sonhando ou tomando LSD o Brasil foi minimamente perto d’isso, por contra foi sò piorando de 30 anos pra cà.

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Justiceiro

31 de julho de 2019 às 10h45

Está de volta, Miguel?

Pensei que você tinha sido sequestrado ou estivesse de férias.

De um tempo pra cá, seu blog publicou alguns artigos parecidos com o 247, DCM….

Que bom que você voltou com a lucidez de costume

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