Canal Revolução Industrial entrevista Luis Felipe Giesteira

- Vamos ter que vender alguns móveis do Planalto também. - Talkey. Foto: Dida Sampaio / Estadão

Os homens que (achavam que) não tinham ideologia

Por Pedro Breier

13 de dezembro de 2019 : 08h34

Duas coisas me saltaram aos olhos durante a leitura deste interessante perfil do ministro Paulo Guedes publicado na revista Piauí em setembro de 2018.
A primeira é o mundo estranho à maioria dos brasileiros no qual Guedes vive: negócios envolvendo centenas de milhões de reais, sociedades com magnatas do mundo das finanças, aventuras na bolsa de valores. Em uma destas, na qual Guedes passou um tempo em uma modalidade arriscada de negociação, dois de seus ex-sócios estimam seu prejuízo em R$ 20 milhões.
Tendo em vista este histórico, não surpreendem declarações como a de que “Os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo”. Se um cidadão que ganha um salário mínimo desse um jeito de guardar todo o seu salário e ainda sobreviver, demoraria mais de mil anos para juntar R$ 20 milhões, valor aproximado que Guedes perdeu em um período infeliz de negócios na bolsa.
O segundo elemento que me surpreendeu foi outra faceta de Guedes, o primarismo, revelado por uma frase proferida em sua primeira conversa com Jair Bolsonaro, conforme a reportagem da Malu Gaspar : “Olha o custo, olha como a ideologia é cara. É burrice ter ideologia”. O ministro se referia à ideia de vender a Petrobras: “Lá atrás, se a Petrobras tivesse sido vendida, a dívida pública teria sido paga. Hoje, paga quarenta bolsas-família! Dava dinheiro de graça para o povo”.
Guedes havia sugerido a Bolsonaro privatizar todas as estatais brasileiras. O então candidato teria ficado chocado, assim como ficaria qualquer interlocutor com o mínimo de bom senso — e olha que bom senso não é exatamente o forte do ex-capitão.
Em uma matéria da BBC sobre empresas estatais e privatizações é citado o seguinte levantamento de um think thank baseado na Holanda: entre 2000 e 2017 houve, no mundo, pelo menos 835 casos de “remunicipalização” de empresas privatizadas. Alguns dos problemas observados durante as gestões privadas foram o não cumprimento de investimentos previstos em contrato, a queda na qualidade do serviço, a falta de transparência e o aumento de preços.
Esse tipo de problema está, me parece, umbilicalmente ligado à lógica que prevalece em qualquer empresa privada: a do lucro. Se for necessário prestar um serviço de má qualidade e ainda aumentar os preços para manter a rentabilidade da empresa, que seja.
Ocorre que há áreas de tal maneira essenciais para a sobrevivência de um ser humano que, penso eu, não podem estar submetidas à lógica do lucro. Saneamento, saúde e educação, por exemplo, devem ser garantidos pelo poder público a todos, sem distinção. É evidente que esta visão é condicionada por minha ideologia de esquerda, a qual tem como uma de suas premissas, grosso modo, a de que todas as pessoas têm o direito de viver com dignidade.
É importante ter clareza sobre as premissas ideológicas que norteiam nossas opiniões. Cada um de nós é um universo único. Somos influenciados inicialmente por nossa criação, depois pelos amigos, mais tarde pelas mídias por meio das quais nos informamos. Nossa herança genética também tem seu papel e até, para quem acredita em reencarnação, insondáveis experiências de vida anteriores a esta.
Pretender flanar acima das ideologias, como se fosse possível um raciocínio totalmente neutro sobre a realidade, sem a influência de quaisquer ideias pré-concebidas, é positivamente estúpido. Todo pensamento é ideológico. A diferença é se você está consciente da ideologia que impregna sua visão de mundo ou não. O louvado ministro Paulo Guedes veste a camisa do segundo time. Para ele, é burrice ter ideologia. Ou seja, o ministro está completamente cego por sua própria ideologia, a ponto de nem percebê-la. A influência do liberalismo econômico sobre a mente de Guedes é tão grande que Guedes não o percebe como uma teoria, baseada em premissas ideológicas, mas como A Verdade Inquestionável.
Daí se compreende sua ideia de que basta vender todas as estatais — todas! — e os problemas do país se resolverão. A fé cega no dogma do “livre mercado” leva o ministro a propor uma medida simplória para dar conta de problemas extremamente complexos. Não há receita pronta. Há países com muitas estatais, há países com poucas estatais. O bom senso indica que devemos analisar as peculiaridades brasileiras e buscar um modelo equilibrado, de acordo com os objetivos da nossa sociedade inscritos na Constituição. Propor que nos desfaçamos de todas as empresas estatais, sem qualquer critério, e esperemos que o mercado resolva tudo é, como costuma definir o Ciro Gomes, maluquice ideológica vendida como ciência.
Para sermos justos, não é só o ministro Guedes que apresenta esta dificuldade de perceber sua própria ideologia no atual governo. Basta relembrarmos das promessas de uma política externa “sem ideologia” e verificarmos que, na prática, em diversas ocasiões, colocou-se a ideologia de extrema-lunática-direita à frente dos interesses estratégicos do Brasil e da mínima razoabilidade. Ou, mais recentemente, de Olavo de Carvalho, o ideólogo máximo da turma do poder, figurando como estrela de um programa da TV Escola, vinculada ao MEC, sobre a história do Brasil. É, suponho, a “Escola sem Partido” em ação.
Talvez esta cegueira ideológica generalizada seja consequência do re-empoderamento da visão de mundo conservadora, cujo objetivo mal disfarçado é que continue mandando quem sempre mandou no mundo — os homens ricos e brancos. Sob essa maravilhosa lógica, o que os Senhores do Planeta pensam é a Verdade. O resto é ideologia.
De qualquer forma, para debater com um destes homens convictos de sua “não ideologia” é necessário um certo treinamento na arte da paciência. Do contrário, ao topar com um desses ceguetas ideológicos, talvez seja melhor sair correndo. Vai que pega.

Pedro Breier

Pedro Breier é graduado em direito pela UFRGS e colunista do blog O Cafezinho.

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33 comentários

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Matheus

16 de dezembro de 2019 às 17h30

O que tenho observado na minha vida é que todos aqueles que se dizem puramente empiristas e pragmáticos, que dizem falar apenas dos fatos objetivos e desprovidos de viés, são exatamente os mais fanáticos ideólogos de todos.
É gente que tem uma crença são cega em seus próprios pressupostos que sequer os reconhece como tais, acham que realmente alcançam a verdade pura, objetiva e universal das coisas em si, sem qualquer mediação.

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Clayton André

13 de dezembro de 2019 às 21h10

Pelo que entendi o texto diz que privatizar não é bom porque há serviços essenciais que não podem se submeter à lógica do lucro. Piada. Eu só estou teclando do meu celular porque houve privatização da telefonia, para mim comunicar-se é essencial. A lógica do lucro das grandes empresas, e não o estatismo paternalista, é que me permitiram ter acesso a um celular e internet mesmo eu não sendo rico. Ademais, é uma sugestão patética dizer que o Estado garante qualidade de serviços essenciais, basta olhar a qualidade do nosso sistema público estatal nas áreas de educação e saúde, ou averiguar a porcentagem de habitantes com acesso ao saneamento básico. Pura balela de quem implica com as privatizações apenas porque tem taras ideológicas.

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    Andressa

    13 de dezembro de 2019 às 22h03

    “O trem bala ficará pronto até a copa de 2014” (Dilma).

    O estado brasileiro é esse, nada mais.

    Responder

    Paulo

    13 de dezembro de 2019 às 23h29

    “Taras ideológicas” há de ambos os lados…trocar monopólio estatal por monopólio privado não faz sentido…principalmente com essas Agências Reguladoras que nada regulam…

    Responder

      Andressa

      14 de dezembro de 2019 às 13h07

      É só continuar do jeito que tá eternamente então pois não há absolutamente nada que sinalize mudanças, por contra só piorar… paciência.

      Responder

        Paulo

        14 de dezembro de 2019 às 21h30

        Como disse o filósofo clássico Heráclito, na vida, nada é permanente exceto a mudança. Também acho que não pode – nem vai – continuar do jeito que está. Mas é preciso ser seletivo na mudança. Ao menos tentar controlar o processo, do contrário quem precisa de Governo?

        Responder

      Andressa

      14 de dezembro de 2019 às 13h11

      Também não está escrito em lugar nenhum que tudo tem que ser privatizado, quem decide é o congresso, mas tem coisas que o Brasil não poderá alcançar nunca na vida sem invéstimento privado, privatizar onde convém e não privatizar onde não convém, não vejo onde está o problema…?
      Os brasileiros votar para esse governo ou não…? Eu não

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        Paulo

        14 de dezembro de 2019 às 21h26

        Mas PG falou que ia privatizar tudo. Esse é o mote. Quem segura a tara ideológica do Chicago Boy?

        Responder

    Francisco

    16 de dezembro de 2019 às 17h05

    Privatização é a forma de transferir lucros de um país para outro sem impostos. O celular de hoje não é fruto da privatização é do avanço das tecnologias.

    Responder

    Matheus

    16 de dezembro de 2019 às 17h26

    Errou feio, errou rude. As operadoras de telefonia “privadas”, algumas estatais e mistas estrangeiras, beneficiaram-se de políticas de investimento de longo prazo do Estado brasileiro, começando pela NACIONALIZAÇÃO (que vocês gostam de chamar de “estatização”) da telecomunicação . Isso porque antes disso, veja só, nenhuma grande empresa privada se interessou em investir no setor. Depois disso o Estado brasileiro fez enormes investimentos em infraestrutura e tecnologia, ao longo de décadas, o que criou as condições para a expansão e acesso, também propiciadas pela inundação do mercado interno por importados da China (aquele país muito “liberal” onde 60% da economia está nas mãos do Estado). Bom, daí as empresas privadas/estrangeiras abocanharam a preço de banana e ainda ganharam de brinde um subsídio. Isso para nos vender serviços muito caros e ruins, que só são possíveis graças ao investimento público na infraestrutura de telefonia.
    E claro, tudo isso porque militares e burocratas norte-americanos decidiram, lá nos anos 40 e 50, que tecnologia de informação e telecomunicações era muito estratégico para ser apenas mais um mercado, a fizeram uma parceria de longa duração com universidades para desenvolver os produtos, até que fosse possível “incubar” empresas que comercializassem os produtos desse esforço coletivo.
    Ou você acha que a estrutura técnica e tecnológica que torna possível “teclar no celular” surgiu do nada, só por pressão dos acionistas por lucro?

    Responder

putin

13 de dezembro de 2019 às 17h37

“Saneamento, saúde e educação, por exemplo, devem ser garantidos pelo poder público a todos, sem distinção”… isto nao é só da esquerda, nos 95% dos paises do mundo é assim.
para pensar assim é suficiente ter um minimo de inteligencia e nao ser um doente mental sadico.

Responder

    Andressa

    13 de dezembro de 2019 às 18h30

    Concordo,

    podemos usar o dinheiro que deixaram nos cofres os que ficaram em Brasilia por 30 anos ou podemos usar o que levaram pra casa…?

    Responder

    Wellington

    13 de dezembro de 2019 às 18h41

    Ninguem descorda disso, mas com qual dinheiro…?
    Municipios, Estados e Uniao sao completamente quebrados, sem um centavo, nao hà outro opçao ao investimento privado ou deixar do jeito que tà para sempre, è so escolher.

    O bla bla bla è infinito mas chega a um ponto que acaba diante da realidade.

    Responder

      Alan C

      14 de dezembro de 2019 às 06h16

      Com o dinheiro, por exemplo, que o estado remunera os bancos diariamente na sobra de caixa via Banco Central, a instituição mais nojenta e criminosa e anti-povo do país, numa operação totalmente ilegal que toma quase metade dos recursos da união.

      Responder

        Andressa

        14 de dezembro de 2019 às 13h22

        Claro,

        porque não comprar umas 10 toneladas de papel um balde de tinta e imprimir dinheiro…?…um mínimo de seriedade.

        Responder

          Alan C

          14 de dezembro de 2019 às 17h20

          Dá tempo de apagar ainda, corre!

      putin

      14 de dezembro de 2019 às 06h24

      nao é verdade, estao quebrados só os estados do sul (aqueles dos brancos supostamente eficientes e nao preguiçosos).
      quanto á divida publica, compare internacionalmente para ver que nao é um escandalo:
      https://tradingeconomics.com/country-list/government-debt-to-gdp

      Responder

Andressa

13 de dezembro de 2019 às 13h14

Bom ou ruim que seja é outro assunto, mas dizer que os ricos capitalizam seus recursos e os pobres consomem tudo é um dado de fato.

Responder

maria do carmo

13 de dezembro de 2019 às 11h41

O Brasil esta esperando o bolsonaro desvairado e xucro entender sua funcao de presidente da republica chega de bla, bla, bla , nao se meter nos outros paises, chega de chantagem, pare de pisar nas calcinhas, de ofender jornalistas e lives com mentiras, diz e desdiz, esta na hora de parar com gracinhas sem graca, ninguem suporta mais a destruiccao das instituicoes, bolsonaro e o pior presidente que o Brasil ja teve completamente despreparado assim como deputado por 28 anos so teve dois projetos irrelevantes aprovados sendo que um nao foi regulamentado, como militar tenente queria aumento ameacou jogar bombas nos quarteis do rio de janeiro, general Geisel disse entre outras coisas que bolsonaro era um mau militar acabou aposentado como capitao aos 30 anos sempre mamando nos estado, passou da hora de assumir RESPONSABILIDADE!

Responder

Paulo

13 de dezembro de 2019 às 10h21

Concordo, em geral, com o texto. Só acrescentando que PG é um homem sem moral, também, pois prega contra o Estado de que já se nutriu, via BNDES e Previ, no passado. Um hipócrita, na verdade, assim como seu chefe, que nunca trabalhou e mamou no Estado brasileiro durante 40 anos, obtendo duas aposentadorias e várias rachadinhas (estimo que, se levou a metade pra casa, embolsou ilicitamente cerca de R$ 50 mil por mês, o que daria a dinheiro de hoje algo em torno de R$ 650 mil/ano, somando o 13º salário, ou quase R$ 20 milhões, em 28 anos como parlamentar). Quanto à “ideologia” de que fala o Chicago Boy, ele se refere ao esquerdismo, como se ele não representasse exatamente o contraponto ideológico a essa esquerda, e, portanto, fosse ele também um ser ideológico. Além de hipócrita, é raivoso – basta ver seus pronunciamentos sobre o funcionalismo público, o qual tratou de escorchar, na Reforma da Previdência. No mais, não se iluda quanto ao veto de Bolsonaro à privatizações, como as do BB, CEF e Petrobrás. Ele só recuou estrategicamente dessa ideia. Voltarão à carga no futuro, possivelmente num segundo mandato do Capitão, como Guedes deixou claro em citação feita na Revista Piauí deste mês (artigo de Marcos Nobre, que, aliás, recomendo por elucidativo acerca dos objetivos finais de Bolsonaro em minar as instituições democráticas do país, que o articulista denuncia).

Responder

Andressa

13 de dezembro de 2019 às 09h39

E’ certamente possível sim um raciocínio totalmente incontaminado por ideologias cancerigenas, basta sair um pouco desse ambiente podre e usar a que chamam “inteligencia”, verà que è tranquilamente possivèl raciocinar na absoluta normalidade.

Responder

    Pedro Breier

    13 de dezembro de 2019 às 10h03

    Vixe Andressa, acho que vc contraiu o mesmo vírus…

    Responder

      Andressa

      13 de dezembro de 2019 às 10h58

      Tô longe disso felizmente, o problema é todo seu.

      Responder

    Gilmar Tranquilão

    13 de dezembro de 2019 às 11h47

    kc alguem aperta a tecla SAP e aproveita chama o SAMU pra essa mina ae…kkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Responder

Robert

13 de dezembro de 2019 às 09h24

Caro Pedro, o Guedes, como o presidente e todo seu séquito de pelintras fascistas, apenas confunde a expressão ideologia com o termo escrúpulo. Tadinhos.

Responder

    Pedro Breier

    13 de dezembro de 2019 às 10h03

    Heheheh

    Responder

Alan C

13 de dezembro de 2019 às 09h18

Texto muito bom.

Se uma pessoa está viva, tem ideologia, seja ela qual for, ponto!

Lembrando que a Financial Times, a publicação nº 1 do liberalismo mundial, sequer reconhece a bozolândia como algo parecido com liberalismo, apenas como uma aberração que só existe em um lugar do planeta Terra, no Brasil pós golpe.

Dizer que “Os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo”, ainda mais no Brasil, é de uma canalhice egocêntrica doente sem precedentes.

É fácil notar a canalhice dessa gente, a estado é ruim, mas eles próprios parasitam o estado a décadas, vide o presidente palhaço, deputado por quase 30 anos sem produzir praticamente nada, sugando aquilo que ele diz ser ruim, mentindo como sempre.

A restatização é um processo mundial, o Brasil do #ForaTemer e da bozolândia se especializou em remar contra a maré mundial, faz sempre tudo ao contrário para beneficiar a elite.

Esse paulo posto ipiranga guedes vive num outro planeta.

Responder

    Wellington

    13 de dezembro de 2019 às 11h23

    “…sem o Chavismo a situação na Venezuela seria ainda pior”. Alan C.

    Responder

    Wellington

    13 de dezembro de 2019 às 11h26

    “…cada um ganha conforme o próprio valor”. Alan C.

    Responder

      Alan C

      13 de dezembro de 2019 às 11h41

      “A China não parou de comprar soja do Brasil” (Wellington e seus outros 57 nomes, 2019)

      Responder

        Wellington

        13 de dezembro de 2019 às 13h12

        A China parou de comprar a soja brasileira ? Tá chapado…?

        Responder

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