Entrevista de Lula ao UOL

Considerações industriais

Por Miguel do Rosário

09 de janeiro de 2020 : 19h47

A última coluna do ex-prefeito Fernando Haddad na Folha, intitulada “Indústria”, gerou uma série de críticas, algumas das quais me pareceram um pouco exageradas.

Os protestos contra a citação de FHC ao final do artigo, por exemplo, foram injustos, pois foi um movimento sagaz. Ao colocar na boca do “príncipe” da elite paulista uma crítica severa aos órgãos de classe dos industriais, o petista evitou que a denúncia fosse vista como uma manifestação partidária.

A citação a FHC no artigo de Haddad é a seguinte:

(…) Nos anos 1960, a tese de FHC sobre o empresário industrial trazia duas reflexões atuais, a julgar pelo noticiário recente sobre as movimentações de Paulo Skaf: 1) os órgãos de classe dos industriais “só cuidam dos interesses particulares dos dirigentes quando falam em nome da classe”; 2) aos industriais, individualmente, “a ação política possível consiste na participação pessoal no jogo patrimonialista”.

Outro ponto que produziu um bocado de criticismo, especialmente num artigo de Gilberto Maringoni que circulou muito, foi a referência à maxidesvalorização cambial de 1999 como causa principal de um suposto “alento” da indústria nos dez anos seguintes.

Diz Maringoni que “o ex-prefeito de São Paulo, com a sutileza de um paralelepípedo, desconsidera toda a política fiscal expansiva, o aumento do crédito e a política de conteúdo nacional do segundo governo Lula e debita o crescimento do período a um feito – involuntário – do governo FHC!”

Os números mostram que Haddad tem razão: a produção industrial brasileira se expandiu a partir de 2002, ainda sob a administração tucana, até meados de 2008 (exatamente o período mencionado pelo petista em seu artigo); a partir daí a indústria enfrentará apenas estagnação e declínio.

A política fiscal de Lula em seu primeiro mandato, como todos sabem, foi marcadamente conservadora, com a perseguição de altíssimos superávits primários e imposição de juros estratosféricos. O tal “expansionismo fiscal” de que fala Maringoni, e a política de “conteúdo nacional”, no segundo mandato do ex-presidente, não tiveram efeito significativo na produção industrial brasileira, até por conta da modéstia de sua magnitude.

Ao mencionar a crise da indústria nacional, Haddad ressalva que “é preciso cautela quanto aos números”:

A participação da produção industrial mundial no PIB mundial vem perdendo importância, sobretudo em relação ao setor de serviços, que ganha terreno. Nada a ver, portanto, com desindustrialização.

Mas não resta dúvida que a participação da indústria brasileira na produção industrial mundial perdeu espaço, o que, no mínimo, significa menor dinamismo relativo.

Aqui entramos numa área em que parece haver muita confusão.

Nos últimos tempos, os gráficos que mostram o acelerado declínio da participação da indústria, especialmente a de transformação, no PIB brasileiro, tem produzido espanto e horror. Uso aqui a versão do economista Paulo Morceiro.

Esta é a realidade que Haddad procura rebater, com uma expressão meio blasé, dizendo que é um fenômeno global e “não tem nada a ver com a desindustrialização”.

Aqui sim cabe uma crítica a Haddad, embora também seja oportuno pontuar que ele está correto quando observa que o declínio da participação da indústria, em favor do setor de serviços, é um fenômeno global.

A participação da indústria de transformação nos Estados Unidos, por exemplo, caiu de 16% em 1997 para 11% em 2019.

No mundo, caiu de 17% para 15% no mesmo período.

Em alguns países, a indústria de transformação sempre foi baixa em relação ao PIB, menor inclusive que no Brasil, como na Austrália e na Noruega.

Entretanto, os números da Austrália e da Noruega dificilmente podem ser usados pelos críticos para desmerecer a relação entre indústria e desenvolvimento.

Austrália e Noruega, além de serem países ricos e com distribuição de renda equilibrada, tem populações relativamente pequenas. A Austrália tem 25 milhões de habitantes. A Noruega, 5 milhões.

O dado mais importante, todavia, é que o valor adicionado per capita da manufatura na Noruega e na Austrália, segundo dados do Banco Mundial, é de US$ 6,7 mil e US$ 3,86 mil (em dólares correntes), respectivamente, contra US$ 1,47 mil no Brasil.

Além disso, e isso é um ponto fundamental, o setor de serviços nestes dois países também tem alto valor agregado per capita, sugerindo o peso acentuado de pesquisa e tecnologia: ainda segundo o Banco Mundial, o setor de serviços tem valor adicionado per capita de US$ 126,7 mil na Noruega, e US$ 97,6 mil na Austrália, contra apenas US$ 21,0 mil no Brasil.

Em artigo para a edição de dezembro da revista Economistas, César Roberto Leite da Silva explica essa confusão que se faz entre a desindustrialização em curso no Brasil e o que ocorre nos países desenvolvidos:

Mas surgiram algumas críticas a essa espécie de modelo econômico: a ênfase na produção de commodities, agrícolas e minerais, associada ao Real apreciado, produziram uma forte desindustrialização. Os críticos desta abordagem costumam lembrar que é natural que, ao longo do processo de desenvolvimento, a participação da indústria no produto tenda a diminuir, enquanto a de serviços aumenta. Isto é verdade, mas o que se observa nos países desenvolvidos é uma mudança na qualidade da produção industrial, privilegiando bens mais complexos e que demandam alto conteúdo de pesquisa e desenvolvimento.

Voltemos a Haddad, figura relevante e lúcida do cenário político, que figurou como candidato à presidência da república em 2018 e pode voltar a sê-lo em 2022. Gilberto Maringoni está certo quando afirma que seu artigo merece uma “leitura atenta”: nas entrelinhas do texto podemos ler o projeto nacional por trás seu eventual governo, caso tivesse vencido as eleições, e não parece que seria muito diferente do que foram os governos Lula e Dilma, pelo menos no que se refere a uma política industrial.

Esse “algo que grita no texto”, para usar a expressão de Maringoni, é a tentativa de olhar a questão industrial com uma espécie de fatalismo liberal, ou ultraliberal, visto que o próprio liberalismo real (aquele que é praticado pelos governos dito liberais, também conhecido como o liberalismo do “meu pirão primeiro”) sempre usou políticas públicas para corrigir as imperfeições do mercado, especialmente nos setores de ponta na escala tecnológica de cada época.

Entretanto, todos os que pensam a questão industrial no Brasil devem tomar cuidado com uma armadilha: se não resta dúvida que o desenvolvimento e a riqueza de todo o país está atrelado a um nível adequado de industrialização, igualmente se torna cada vez mais relevante que essas indústrias possuam alto nível de tecnologia agregada.

As lideranças políticas do campo progressista e da oposição ao governo Bolsonaro devem olhar a questão da indústria como um dos capítulos mais importantes de um projeto nacional de desenvolvimento; este é um ponto com potencial de reunir diferentes atores sociais, oriundos dos mais variados setores ideológicos. Com uma população de 210 milhões, reindustrializar o Brasil não apenas é um imperativo para que sejamos uma nação forte, soberana, respeitada no mundo, mas sobretudo para oferecer aos brasileiros um lugar mais digno na divisão internacional do trabalho.

Afinal, não haverá vagas de agrônomo, engenheiro de minas e executivo de banco para todo mundo…

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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16 comentários

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Rubens

12 de janeiro de 2020 às 10h48

PLUTOCRACIA

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Luiz

11 de janeiro de 2020 às 22h56

Como se sabe, estrategia política de exportação dá cadeia no Brasil. Mas não consegui deixar passar, seria o decréscimo na indústria de transformação dos EUA uma aposta na globalização?

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jose carlos rodrigues arana

11 de janeiro de 2020 às 21h51

A política fiscal de Lula em seu primeiro mandato, como todos sabem, ….. e imposição de juros estratosféricos.
Verdade, atingiu 45% a.a. em 05/03/1999 …. opa, pera.
Parei de ler.

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Luiz

11 de janeiro de 2020 às 06h05

É quando utiliza o verbo “reindustrializar” que o texto todo deixa de ser neoliberal. Só porque faz supor razões sociológicas para a ação do Estado.

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Sidnei Soares da Rosa

10 de janeiro de 2020 às 18h08

Creio que a era capitalista cujo objetivo principal é gerar riquezas para poucos, pode estar com os dias contados. Devemos nos enveredar para uma sociedade mais igualitaria em termos de distribuição de renda.Recentemente li o caso da Finlandia com redução da jornada de trabalho. Outros paises do norte europeu talvez tenham a solução.

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dcruz

10 de janeiro de 2020 às 13h21

Esse post está tão esquisito como aquele estado da ponta feia da Dutra.

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Wilton Cardoso

10 de janeiro de 2020 às 12h16

Nem haverá vagas na indústria, meu caro Miguel do Rosário, a não ser que a roubemos de outros países, coo China e Alemanha. Se nos tornarmos um país industrial e termos a América do Sul e parte da Africa como mercado cativos (o que poderia ter acontecido nos governos do PT ou caso a esquerda continuasse no poder com uma política undustrial mais agressiva) vai acontecer duas coisas:
– Alemanha e principalmente China perderiam mercado no sul global, o que custaria empregos a eles;
– nossos clientes cativos latino americanos não iriam se industrializar, como acontece na Europa em relação à Alemanha.

Isso acontece porque, hoje, a industrilização é um jogo de soma zero e não mais de ganha-ganha como na era fordista. Como a produtividade da indústria está muito alta, ela é altamente concentrada e poupadora de mão de obra, desde a automatização da década de 1970. Com a indústria 4.0 (robôs, IA, nanotecnologia, big data etc) esta tendência tende a se aprofundar e a indústria será cada vez mais produtiva e demandará menos mão de obra. Não há como repetir os 30 anos dourados do fordismo (1945-75) em que todos ganhavam e cresciam, inclusive na manufatura.

É o próprio capitalismo que está crise estrutural, graças às suas contradições. Os economistas keynesianos que são sua leitura estão errados: os marxistas é que estão certos e a realidade está mostrndo: a injeção keynesiana de dinheiro pelos BCs em 2008 não resultou em cescimento nem reindustrialização nem em novos empregos qualificados em lugar nenhum do mundo. Produzir não dá mais lucro como antes, pois a produtividade é grande mas as margens de lucro são próximas de zero. Além do mais o desempregos estrutural joga a ioria na precariedade, o que diminui a demanda, inclusive nos países ricos.
O neoliberalismo falhou e o keynesianismo também, porque o capitalismo não tem mais concerto: essa é a reaidade que ninguém quer ver.
Quando China, a última fagulha de crescimento e industrialização do mundo, desabar, talvez as pessoas comecem a ver. E ela vai desabar.

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    Rodrigo Silva

    10 de janeiro de 2020 às 14h40

    Vc pode ter razão em uma certa perspectiva da realidade. Talvez um capitalismo super regulado pelo Estado resolva o problema. Talvez um socialismo democrático … o difícil vai ser o povo aceitar o fim da propriedade privada.

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      Rodrigo Silva

      10 de janeiro de 2020 às 14h49

      Sempre pensei isso: os liberais idealizaram o sistema e falharam; os socialistas idealizaram a humanidade e falharam. A credito que Marx falava de ciclos muito mais amplos do que se pode entender ainda. Mas o que vai ser o “comunismo concreto”, ninguém sabe. Talvez antes da revolução, a automatização e sustentabilidade completa dos meios de produção chegue antes e liberte a humanidade da exploração da sua força de trabalho…

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        Alan C

        10 de janeiro de 2020 às 17h21

        O problema não é direita ou esquerda, socialismo ou capitalismo, o problema são as pessoas, a ganância dos tomadores de decisão.

        Um governo pode ser bom seja de qual espectro político for, por exemplo, Portugal está muito bem com o Partido Socialista liderando o bloco de partidos de esquerda que governam em coalizão, o bloco chamado de Geringonça.

        Na Espanha o primeiro ministro do Partido Socialista Operário se reelegeu e o país vem se recuperando de péssimos governos de direita que levaram a Espanha à recessão com quase 25% de desemprego.

        Já na Venezuela, Maduro é péssimo, só o PT pra gostar daquilo… Embora a oposição pareça ser ainda pior, esse Guidó é só um farsante de quinta.

        Por outro lado o governo de direita da Angela Merckel é considerado muito bom, já o Erdogan, na Turquia, faz um governo desastrado.

        No Brasil, por incrível que pareça, houve um bom governo de direita, do presidente Itamar Franco, coisa rara e única, nunca mais…

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          Wellington

          13 de janeiro de 2020 às 12h57

          Os paises da europa ocidental possuem um nivèl cultural e civilizatorio que independentemente de quem governe faz nenhuma minima diferença; as pessoas votam uma vèz aqui e outra alì somente para refrescar a democracia periodicamente.

          E’ a grande diferença com quem foi doutrinado na Patria Educadora de Paulo Freire e Lula, onde conseguiram colocar o poder nas màos de uma pessoa por 20 anos e apòs o mesalao e o petrolao ainda se enchem a boca com a palavra “democracia” ou dando a culpa aos EUA pelas imundices que produzem…vai ser imbecil pra là.

          O unico problema da Europa è a imigraçào descontrolada promovida pela esquerda burguesa radical chique em busca de vaidade e mào de obra barata, isso faz sim diferença na hora do eleitor votar.

Robert

10 de janeiro de 2020 às 06h42

Enquanto isso, as acalentadas reformas trabalhistas, regressivas em direitos, seguem destruindo a produtividade do trabalhador brasileiro.

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    Gilmar Tranquilão

    10 de janeiro de 2020 às 10h53

    Como a mula do waintraub diz, é IMPRECIONANTE!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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Alan C

09 de janeiro de 2020 às 20h46

O Brasil não faz o dever de casa enquanto os demais países, ricos ou em desenvolvimento, agregam valor a diversificam sua economia de acordo com as demandas que vão surgindo ao longo do tempo e assim aumentam o PIB nominal. A prova disso é que o Brasil é um dos que menos crescem entre esses países já a alguns anos.

Nosso PIB diminuiu de quase 30% para 11%. Na década de 60 a economia brasileira era maior que a chinesa, em 1980 os PIBs de Brasil e China eram praticamente iguais, hoje o PIB brasileiro são ridículos 2 trilhões e o chinês 12 a 13 trilhões.

Aí vem esse poste petista com cara de pau de falar em projeto de desenvolvimento. A única coisa que esse cara e qualquer outro petista irá desenvolver é o que o Lula mandar.

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    Evandro Garcia

    10 de janeiro de 2020 às 10h47

    Fàz todo sentido mas pegar como exemplo uma ditadura que alèm disso è a patria mundial do trabalho escravo fora e dentro do proprio territorio nao faz muito sentido a meu ver…acredito que seja mais serio considerar outro pais democratico mais similar ao Brasil…qual nao sei.

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    Batista

    10 de janeiro de 2020 às 14h19

    E cá só entre nosotros, comprovadamente, esse Lula manda bem, enquanto Ciro, se manda bem, né, não?

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