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Maringoni: Safatle e Lula juntos

Por Redação

11 de fevereiro de 2020 : 23h04

Sem querer, Safatle converge para o caminho de Lula

Por Gilberto Maringoni

Há um artigo de Vladimir Safatle circulando pela bolha progressista das redes sociais. Está colhendo variados elogios. Intitula-se “Como a esquerda brasileira morreu” e foi publicado pelo El País.

Safatle sempre merece ser lido, seja por sua inteligência e extensa cultura, seja por seu compromisso com a democracia e com as causas populares.

MAS ESSAS SUAS LINHAS não ajudam. Trata-se de um desabafo desanimado, mostrando a total incapacidade de a esquerda reagir à escalada fascista. Curioso é que o texto faz sucesso não apenas entre críticos do PT, mas entre apoiadores da agremiação do ex-presidente Lula.

Após valer-se da palavra “terminal” para classificar o atual estado das vertentes progressistas e falar de sua passividade diante da reforma previdenciária, o articulista escreve: “Isso é apenas um sintoma de que a esquerda brasileira não é mais capaz de impor outro horizonte econômico-político”.

Há trechos extremamente pertinentes, como este: “A esquerda governa estados, municípios grandes e pequenos, mas de nenhum deles saiu um conjunto de políticas que fosse capaz de indicar a viabilidade de rupturas estruturais com o modelo neoliberal que nos é imposto agora. Houve época que a esquerda, mesmo governando apenas municípios, conseguia obrigar o país a discutir pautas sobre políticas sociais inovadoras, partilha de poder e modificação de processos produtivos. Não há sequer sobra disto agora”.

SIM, É VERDADE A esquerda governa cinco estados da federação e neles mimetiza reformas pautadas pela extrema-direita no governo central. Destaque vai para Rui Costa, que fecha e privatiza escolas sem que seu partido emita uma vírgula sequer. Comportamentos como esses abrem espaço para que Bolsonaro governe praticamente sem oposição.

Além disso, o autor mostra a lassidão – quase beirando a cumplicidade – dos governos petistas diante dos crimes da ditadura, ao contrário do que ocorreu na Argentina, Chile e Uruguai. Isso contribuiu em muito para que a turma dos porões voltasse com energia redobrada ao Planalto.

O ARTIGO TERMINA com uma quase-sentença: “Numa situação como essa, a esquerda nacional ainda paga o preço de ter sido formada para a coalizão e para a negociação. Esse é seu DNA, desde a política de alinhamento do PCB aos ditames anti-revolucionários do Soviete Supremo. (…) Foi assim que ela morreu. Se ela quiser voltar a viver, toda essa história tem que chegar a um fim. Ela deverá tomar ciência de seu fim”.

A crítica ao PCB era usual nos primeiros anos do PT. Mas é algo genérico. Afirmar que um partido político foi formado “para a coalizão e negociação” não quer dizer muita coisa se não se detalhar a agenda e o programa que tal agrupamento persegue. Qual o programa do PT? Qual o programa da esquerda para o Brasil, além de austeridade fiscal e a esperança num novo boom das exportações? Fora do PT há algumas elaborações em curso.

AO NÃO PROPOR SAÍDAS ou esperanças, o artigo de Safatle se mostra reconfortante, no sentido do antigo ditado de mau gosto: “Se o estupro é inevitável, relaxe”.

Sim, Safatle nos convoca a relaxarmos, pois não há o que fazer. Qualquer inquietação, crítica ou tentativa de avaliar concretamente o que ocorreu nos 13 anos em que o PT governou o país não adianta de nada. “A esquerda morreu”, sentencia.

É curioso perceber que – de forma involuntária e com argumentos diversos – Vladimir Safatle nos leva ao mesmo beco sem saída proposto por Lula pós-prisão. Para o ex-presidente, seu partido não deve fazer autocrítica pelo desastre representado pelo governo Dilma II e pelo estelionato eleitoral. Em suas mais de trinta entrevistas ao longo do último ano, o ex-presidente nos incita a olhar para o passado, para como era boa a vida em seus governos (claramente ele exclui os de sua sucessora) e em como ele foi acusado e preso injustamente por querer apenas o bem do povo.

HÁ MUITO DE VERDADE no que Lula diz. Mas ao não apontar caminhos, ao não falar da vida concreta das pessoas e ao se dedicar essencialmente a montar chapas para prefeituras, Lula também convida todos à paralisia.

Ao não examinar criticamente o que foi feito num passado recente, quais as se torna impossível olhar para a frente. Ao dobrar a taxa de desemprego em dois anos (2015-16), o PT tem extremas dificuldades em sair ás ruas e divulgar seu excelente Programa Emergencial de Emprego e Renda. Sabe que será cobrado por suas ações que redundaram na tragédia no mercado de trabalho que vivemos hoje.

De forma inusitada, Safatle e Lula – involuntariamente, repito – confluem no niilismo e no desânimo que acomete grande parte dos setores progressistas hoje. Esse não é um bom caminho.

Por Gilberto Maringoni
Publicado no Portal Disparada

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14 comentários

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Clever Mendes de Oliveira

12 de fevereiro de 2020 às 16h08

Gilberto Maringoni,
Ontem em um grupo de WhatsApp, um colega da direita, no sentido de ser crítico da esquerda, mas em um estilo de quem já foi de esquerda, e que hoje, como alguém já mais rico, considera que ser de esquerda é ridículo, mandou o link do artigo e, como não há assinantes no grupo, copiou-o também.
Não gostei do artigo e comentei o seguinte com o colega, sendo que desta vez não fui crítico a ele como costumeiramente sou nas minhas respostas às postagens dele:
“Como assinante da Folha de S. Paulo, você pode comentar junto ao artigo de Safatle.
Então diz a ele para dar uma leitura no post “O Grande Mal Estar, por Diogo Costa” no blog de Luis Nassif e de autoria de Diogo Costa e que pode ser visto no seguinte endereço:
https://jornalggn.com.br/opiniao/o-grande-mal-estar/
E diga a ele para ler também os links que indiquei em dois comentários que deixei lá.
Lendo o post e as minhas indicações ele vai perceber que essa é uma realidade mundial. No mundo todo, em que quase todo o mundo cresce em sociedades religiosas e, portanto, conservadoras, e em sociedades capitalistas e, portanto, individualistas, a esquerda é minoria.
É preciso deixar de ver o Brasil como centro do mundo. Em todo período de crise econômica, como mostram dois estudos que eu indiquei em meus comentários, a direita radical cresce.
Com essa evidente falta de leitura, o Vladimir Safatle tem a petulância de se inserir entre os intelectuais. A ser generoso para com ele, eu diria que ele mais se aproxima da práxis, assim mesmo lutando contra moinhos de vento que existem apenas na imaginação dele.
A esquerda não morreu. Para que isso acontecesse seria necessário que já fôssemos um mundo civilizado onde não haveria mais necessidade dela.
Até lá, entretanto, há muita tarefa para a esquerda.”
Bem, realmente o artigo de Vladimir Safatle chamou a atenção e parece estar circulando bem pela rede. Aqui mesmo neste blog O Cafezinho há texto de Theófilo Rodrigues comentando também o artigo de Vladimir Safatle. O texto dele pode ser visto no post “Theófilo Rodrigues: “A esquerda brasileira não morreu” de quarta-feira, 12/02/2020, no seguinte endereço:
https://www.ocafezinho.com/2020/02/12/theofilo-rodrigues-a-esquerda-brasileira-nao-morreu/
O texto de Theófilo Rodrigues é um tanto otimista e ufanista do poder da esquerda, mas evidente que está certo em dizer que a esquerda não morreu. Uma análise mais aprofundada pode mostrar que ele não avalia que há realmente uma redução do papel da esquerda na condução política do país. E que há mesmo menor aceitação das ideias da esquerda na população.
Vou levar esse comentário com as devidas modificações para junto do post “Theófilo Rodrigues: “A esquerda brasileira não morreu”.
Agora o seu texto parece-me pior do que o do Vladimir Safatle. Seu texto é para culpar o PT pelo fracasso da esquerda no Brasil. Dizer isso é ignorar que na Inglaterra, na Polônia, nas Filipinas, nos Estados Unidos, na Hungria não existe um PT para permitir que a direita radical assumisse o poder.
Abraços,
Clever Mendes de Oliveira
BH, 12/02/2020

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    Artur Rodrigues Neto

    13 de fevereiro de 2020 às 19h19

    Eita! Que sapatada. Belo comentário.

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    Wellington

    12 de fevereiro de 2020 às 16h56

    Vai ter que ser o Huck/Frota mesmo, o Cirolipa nem nas pesquisas o colocam mais !! Kkkkkkkkkkkkkkkk

    Responder

Alexandre Neres

12 de fevereiro de 2020 às 13h43

Quando se vê que a esperança do PT é com governadores do naipe de Camilo Santana (CE) e Rui Costa (BA), que por último tá dando guarida à queima de arquivo ocorrida por lá na esplanada, comprova-se que é caótica a situação. Só sobra meia dúzia de gatos pingados do PSOL, os outros todos vão votar pelo Consenso de Washington sob a batuta do tigrão. Quem mandou ser parasita?

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    12 de fevereiro de 2020 às 13h55

    Realmente não consigo entender como o PT não cobrou explicações do Rui Costa sobre o crime mais escandaloso da republica, junto com PC Farias e o ministro do STF, Teori.
    Vão deixar tudo na conta do Lula? Só o Lula, com 75 anos é quem consegue apontar caminhos e aglutinar forças políticas?
    Triste sina de um país de merda!

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Alan C

12 de fevereiro de 2020 às 11h33

Há uma clara confusão entre PT e esquerda, dá mesma forma como há uma clara confusão entre liberais e a bozolândia.

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helio dias horvath

12 de fevereiro de 2020 às 10h46

O comentário do leitor Paulo, fazendo uma citação de Hobsbawn sem indicar a fonte de onde a bebeu, serve mais como um prólogo ao artigo de Maringoni do que propriamente de uma apreciação do artigo deste último. A questão do que precisa ser criticado no PT tem passado ao largo das vistas daqueles que tem pontificado em análises carentes de objetividade e de conclusões úteis. Em vista desse colossal silêncio, circunspecto e cheio de não-me-toques, tomo a liberdade de lembrar a essa gente que o nosso maior problema, o mais essencial de todos, o verdadeiro mata-burros de nossa agremiação, enfim, aquele que escapa à visão próxima de nossa envelhecida grei (Ao menos em São Paulo…) é o apodrecido basismo que segue corrompendo suas caquéticas fantasias políticas.
Já o silêncio de Lula e dos dirigentes é pura tática, meus caros…

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    Cristina Capistrano

    13 de fevereiro de 2020 às 11h57

    Ainda bem que alguém lembra que tatica faz parte da política.

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Carlos Oliveira

12 de fevereiro de 2020 às 08h41

Não tenho a mínima intenção de defender o PT, cometeram muitos erros, de fato. E aquele Governador da Bahia, que excrescência é aquela? o Governador do Ceará não fica muito atrás dele. Agora, só não me diga que a saída está com o PDT. E a Tabata Amaral? Que excrescência é essa? E o Ciro? Quando entrei na Universidade, o Ciro já tinha saído, mas a fama dele era conhecida. Ninguém muda da água para o vinho.

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Francisco

12 de fevereiro de 2020 às 02h32

Fazem parte da paisagem, passam a vida ciscando á política com um olho na genialidade consagradora e o máximo que conseguem é repetirem o mais de menos, bisando outros tantos que à vida passam criticando quem ousa organizar alguma coisa de fato concreta, em país que o analfabetismo político é diplomado e a apátrida classe dominante existente, com seus braços, impede que surja a elite enraizada que possa transforma-lo de quase colônia do atraso, em uma nação, moderna, justa e soberana.

Estúpidos, não conseguem enxergar o simples fato que é a dicotomia, Patrimonialismo e Desigualdade, o único problema a ser enfrentado e resolvido, antes de querer-se resolver qualquer outro problema, por inútil, e que para tanto, é necessário criar e consolidar uma força política para extinguir a anacrônica Casa Grande e assim possibilitar que finalmente tenhamos de fato uma elite e consequentemente uma nação de nome Brasil.

Essa força política existe e goste-se ou não, foi criada, construída e solidificada ao correr de décadas, apesar de ferozmente combatida desde sempre pela Classe Dominante, por motivos óbvios, e não só resistiu, como sobreviveu a maior operação organizada para destruição de uma organização política e suas lideranças, via criminalização, encetada por essa Classe Dominante, através dos seus braços, jurídicos, midiáticos, políticos, eclesiásticos e armados, de nome Lava-Jato.

Os, ao menos teoricamente, de mesmo objetivo e inimigo, não entenderem por que foram poupados e insistirem em combater o PT para destruí-lo, o que o inimigo com todos os recursos não conseguiu, é estultice em estado bruto.
Adensa-lo através de uma frente de esquerda, fortalece-lo unificando os objetivos e ações e modifica-lo juntos e não separados, seria um enorme avanço no efetivo e concreto combate ao inimigo, visando a extinção da Casa Grande.
O resto é personalismo, falta de inteligência, egos exacerbados e protagonismo político infantil.

Afinal, ‘quantos votos tem Maringoni’?

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    Cristina Capistrano

    13 de fevereiro de 2020 às 12h00

    Concordo em genero, número e grau.

    Responder

Paulo

11 de fevereiro de 2020 às 23h36

Não sou esquerdista (quase me tornei, mas consegui fugir dessa armadilha estudantil, especialmente, ainda que pareça paradoxal, no curso de Ciências Sociais que fiz na Fefeleche, que, apesar de tudo, mudou minha concepção do mundo e da política, pelo que sou grato). Porém, considero a existência da esquerda fundamental, no Parlamento, para amenizar os excessos da direita – e vice-versa. Mais ou menos como disse o célebre pensador e historiador marxista Eric Hobsbawm: “Stálin fez mais pelos trabalhadores da América Latina que pelos soviéticos”…

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