Análise da reunião ministerial de Bolsonaro

No Roda Viva, Atila Iamarino explica porque o mundo não será o mesmo

Por Redação

31 de março de 2020 : 10h12

A entrevista do biólogo e youtuber científico Atila Iamarino ao programa Roda Viva, fez história.

Com muitos títulos acadêmicos e especialização no estudo de vírus, apesar de jovem (36 anos), o biólogo foi um dos primeiros a divulgar no Brasil, as projeções do Imperial College of London, de que poderiam morrer mais de 1 milhão de pessoas no Brasil, caso não fossem tomadas medidas urgentes para impedir a disseminação do vírus.

Iamarino hoje parece relativamente satisfeito com as medidas de contenção impostas por governadores e prefeitos, e afirma que o país já salvou centenas de milhares de vidas com essas ações.

Sobre a postura do presidente Jair Bolsonaro, o biólogo procurou, com muita astúcia, fugir da armadilha política de aparecer como um “militante político de oposição”, o que lhe traria enormes dores de cabeça. Sempre que perguntado sobre a postura do presidente, que vai exatamente contra tudo que Átila diz e representa, ele procurou sair pela tangente. Reiteradamente, por exemplo, lembrou que o menosprezo e a falta de investimento em ciência ocorre há muitos anos no país, e que o ministério da Saúde tem feito um trabalho exemplar.

A moderação apolítica de Átila, no entanto, é mais um fator a posicioná-lo como um antípoda, um oposto, do presidente. Ao contrário do núcleo ideológico do presidente, que parece preocupado unicamente em evitar ser responsabilizado pela crise econômica que, fatalmente, advirá, o biólogo não está preocupado em culpar ninguém. Sua obsessão é promover, da melhor maneira possível, verdades científicas e ajudar as autoridades a tomarem as melhores decisões possíveis, dentro de nossa realidade, para salvar o máximo possível de vidas.

Mesmo evitando, a todo custo, marchar nas perigosas trincheiras da polarização política, o biólogo se manteve suficientemente assertivo, direto e transparente para todo mundo entender o que ele e suas ideias significam: o respeito pela informação correta, pelo jornalismo profissional, pelo uso responsável das redes sociais e, sobretudo, pela ciência!

E são essas ideias e valores que, hoje, mais do que qualquer ação dos partidos de oposição ou qualquer postura editorial dos grandes meios de comunicação, tornaram-se o flagelo do governo Bolsonaro.

Entretanto, Átila mostrou que não é apenas um biólogo. É também um cidadão pensante, preocupado com todos os aspectos da vida brasileira, e tem defendido uma coisa que, se olharmos bem, é bastante evidente: a nossa vida e, portanto, a nossa economia, nunca mais será a mesma. Pelo menos não antes de desenvolvermos uma vacina contra o Covid-19, o que deverá demorar mais de um ano. Seria mais inteligente, para governos preocupados com a economia e com o emprego, que pensassem em políticas públicas já pensando nessa nova realidade.

O biólogo advertiu que há vírus muito piores que o Covid-19, e a humanidade até que deu sorte de que sua primeira grande pandemia tenha se dado com esse vírus. E observou que a razão do sucesso da Coreia do Sul no controle da epidemia dentro do país se deu através do grande número de testes e disponibilidade de máscaras.

Essa é a fórmula principal para combater a epidemia ao longo dos próximos meses: uso intensivo de testes.

Para isso, lembrou Atila, o país deverá voltar a investir pesado em pesquisa.

Um dos poucos momentos em que Atila não conseguiu conter sua indignação política foi quando lembrou o caso de um amigo cientista, que havia largado um projeto para trabalhar na pesquisa da vacina contra o Covid-19, e descobriu, em cima da hora, que sua bolsa havia sido cortada por uma portaria do governo federal.

Outro momento antológico da entrevista é quando lhe perguntam sobre o “isolamento vertical”, expressão que tem sido usada por Jair Bolsonaro para defender o fim das medidas de contenção, com isolamento exclusivo dos “grupos de risco”.

Iamarino respondeu que não poderia responder a uma proposta que não havia sido sequer formalizada. Não há nenhum estudo sobre o tal isolamento vertical, nem o governo apresentou nada neste sentido.

A mesma coisa se deu quando se discutiu a eficácia de remédios a base de cloroaquina e hidroxicloroaquina. Iamarino voltou a lembrar que a ciência exige uma postura sempre cética e cuidadosa em relação a esses remédios “milagrosos”, e que apenas após a publicação de estudos exaustivos, com base em testes e experiências, será possível discorrer sobre as qualidades reais desses produtos no tratamento das doenças geradas pelo novo coronavírus. Mais uma vez, Iamarino, com toda elegãncia, fez um contraponto muito claro à postura imensamente irresponsável do presidente Jair Bolsonaro, que tem vendido a cloroaquina com a desenvoltura de um charlatão, causando inclusive desabastecimento desse remédio, para enorme prejuízo das pessoas que efetivamente precisam dele. Bolsonaro forçou o Exército a aumentar a produção de cloroaquina antes mesmo que houvesse estudos que comprovem sua eficácia, ao invés de acelerar a produção de ventiladores, respiradores, e material de proteção, cuja falta poderá, aí sim, gerar morte e caos no sistema nacional de saúde.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

2 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Alan C

31 de março de 2020 às 11h52

“Outro momento antológico da entrevista é quando lhe perguntam sobre o “isolamento vertical”, expressão que tem sido usada por Jair Bolsonaro para defender o fim das medidas de contenção, com isolamento exclusivo dos “grupos de risco”.
Iamarino respondeu que não poderia responder a uma proposta que não havia sido sequer formalizada. Não há nenhum estudo sobre o tal isolamento vertical, nem o governo apresentou nada neste sentido.”

“Bolsonaro forçou o Exército a aumentar a produção de cloroaquina antes mesmo que houvesse estudos que comprovem sua eficácia, ao invés de acelerar a produção de ventiladores, respiradores, e material de proteção, cuja falta poderá, aí sim, gerar morte e caos no sistema nacional de saúde.”

É SÓ UM IDIOTA SENTADO NA CADEIRA DA PRESIDÊNCIA, JÁ, JÁ ELE SERÁ CHUTADO DE LÁ COMO UM SACO DE BATATA INÚTIL.

Responder

augusto

31 de março de 2020 às 10h33

Bom, qualquer um pode sentir agora que o mundo nao vai ser o mesmo depois… e por razoes bem simples.
Na economia, o povo e uma parte ponderável dos próprios nossos (e alheios) representantes, vá lá, vai ver claro que o thatcherismo,o privatismo e neolibelismo NUNCA vai dar conta de reconstruir o arrasado da terra ao redor. Precisará do Estado em boa escala. Na área da saude, quero ver o que será do ”sistema” norte americano de saude depois dessa. E como o big Pharma vai fazer, o quanto vai gastar para se defender.
Na exemplaridade e no soft power dos paises lideres do mundo, os reis e os soberanos que ate aqui admiramos, estarão de oram em diante nus com a mão no bolso. A UE vai ter que responder a esta pergunta: “Ué, pra que serve essa sigla entao”?

Responder

Deixe uma resposta