Análise da reunião ministerial de Bolsonaro

Análise exclusiva: nas capitais, Bolsonaro é rejeitado por 62%

Por Miguel do Rosário

04 de maio de 2020 : 12h15

As pesquisas XP/Ipespe são muito úteis para nossas análises por sua regularidade, frequência e abrangência.

Hoje começou a circular o relatório completo da nova pesquisa XP, feita no último dia 30, ou seja, já detectando os efeitos da saída do ministro Sérgio Moro.

A avaliação de Bolsonaro experimentou forte deterioração, confirmando outras pesquisas recentes, inclusive uma publicada na Piauí, que ainda não comentamos aqui no Cafezinho, da Ideia Big Data.

Com diz o jornalista José Roberto de Toledo, na Piauí, comentando a pesquisa da Ideia Big Data: a conta chegou para Bolsonaro.

Ele vem gastando seu capital político sem nenhum economia, e agora a conjuntura lhe apresentou o recibo de suas despesas, e são altíssimas.

Voltando a pesquisa XP/Ipespe, a rejeição (ruim e péssimo) a Bolsonaro subiu 7 pontos em uma semana e batem em 49%, ao passo que a avaliação positiva (ótimo e bom) cai para seu menor patamar, 27%.

Tudo indica que essa rejeição a Bolsonaro vai crescer, na medida em que uma maioria ainda mais sólida, de 54%, qualifica como ruim ou péssimo o desempenho de Bolsonaro no combate ao coronavírus. Ou seja, conforme a crise de saúde se agravar, o que Bolsonaro mais temia vai acontecer: a população vai culpá-lo, e todas as suas declarações desastradas, minimizando a crise, tentando sabotar os esforços de médicos e autoridades em prol de medidas de isolamento social, se voltarão contra o presidente.

Os números são todos muito consistentes e coesos. A avaliação negativa condiz com a deterioração das expectativas: hoje 46%  dos entrevistados entendem que o restante do mandato será “ruim e péssimo”.

Bolsonaro está tentando jogar a responsabilidade pela crise nas costas dos governadores. Isso não está pegando bem: os entrevistados da pesquisa vem avaliando bem os governadores, ao contrário do que fazem com Bolsonaro.

O mau humor com a crise e a insatisfação com a demissão de Moro fez a população mudar seu entendimento em relação à corrupção no governo Bolsonaro. Logo após sua vitória eleitoral, em novembro de 2018, 56% acreditavam que a corrupção iria diminuir no país, e apenas 17% que iria aumentar. Esses números se inverteram: hoje uma maioria de 45% acha que a corrupção acha que a corrupção vai aumentar, e apenas 18%, que vai diminuir.

O mau humor também já começou a mudar a percepção popular sobre as políticas econômicas do governo: agora 52% acham que a economia está no caminho errado, contra apenas 32% que estão no caminho certo, e a boca do jacará está se abrindo, sinalizando que esse quadro pode piorar.

Outro ponto importante para analisar os efeitos da crise sobre a conjuntura é olhar como o aumento da rejeição a Bolsonaro impacta na avaliação de outras personalidades.

Um fator que chama atenção é o aumento da rejeição a Lula, que ainda hoje é a liderança política mais rejeitada do país, com 44% de notas negativas. A rejeição a Bolsonaro tem crescido muito nos últimos meses, e agora é de 40%. Haddad perdeu um pouco de rejeição, mas ainda tem 40% de nota negativa.

A rejeição a Moro, por sua vez, caiu bastante. Depois de chegar a 31% em meados do ano passado, por ocasião das reportagens da Vaza Jato, hoje Moro tem apenas 18% de notas negativas.

É importante observar que notas negativas muito baixas não são propriamente boas para um político. Como ilustra bem os casos de Lula e Bolsonaro, é importante que um político seja capaz de polarizar, porque isso também o ajuda a movimentar a opinião pública em torno de seu nome.

Mas há sempre um ponto de ebulição que não pode ser ultrapassado: se a rejeição for alta demais, tanto em termos quantitativos, como em qualitativos (os quais podemos inferir nas pesquisas estratificadas), então se cria o risco da rejeição servir como fator de mobilização social em favor do adversário, que foi o que aconteceu em 2018, quando uma massa importante de eleitores passou a se mobilizar em favor de Bolsonaro não por afinitidade com ele, mas para evitar a volta do PT.

***

A pesquisa também traz uma estratificação por renda que mostra dados interessantes: a avaliação positiva do governo é forte no interior (30%) e fraca nas capitais e periferia (19% e 20%, respectivamente)

No sul, Bolsonaro ainda é bem avaliado por 36%; não houve mudança expressiva na região.

Houve queda na avaliação positiva sobretudo entre famílias com renda abaixo de 2 salários, que caiu para 22%. O dado se contrapõe, portanto, a algumas análises que mostrariam o governo avançando entre os mais pobres.

É na avaliação negativa, contudo, que se observa as maiores mudanças. Essa avaliação negativa dita a tendência.

Houve aumento de 3 pontos na avaliação negativa no sul, que agora é de 36%, portanto superior à avaliação positiva na região (35%).

Em capitais, a avaliação negativa de Bolsonaro já está em 62%!

Nas periferias e interior, a avaliação negativa também é alta: 53% e 42%, respectivamente.

Em cidades com população acima de 500 mil habitantes, a avaliação negativa de Bolsonaro já chegou a 61%.

A avaliação negativa subiu muito nas classes mais baixas, que ganham menos de 2 salários (passou de 40% para 50%), e na classe média com renda familiar superior a R$ 5 mil (passou de 43% a 54%!).

Os números são claros. A gravidade (na acepção newtoniana, ou física, do termo) está ficando mais pesada. Todos os elementos mais influentes na criação de uma atmosfera política (cidades grandes, periferia, classe média) estão agindo contra Bolsonaro.

Se o clima não é suficiente para um impeachment, pode-se dizer ao menos que os primeiros passos estão sendo dados.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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Alan C

04 de maio de 2020 às 14h10

Tem alguma coisa estranha… Pesquisas de avaliação de governo e de intenção de voto devem falar entre si e apresentar resultados que se relacionam diretamente, pois um assunto afeta o outro, ou seja, se a maioria da população desaprova fortemente o presidente, este não poderia estar na frente em intenção de voto.

Não?

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