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A (justa?) crítica da esquerda identitária a Ciro Gomes

Por Miguel do Rosário

26 de maio de 2020 : 17h31

Em sua entrevista a CNN Brasil, o ex-ministro Ciro Gomes abordou uma de suas teses sobre os erros estratégicos da esquerda, segundo a qual as políticas identitárias fragmentaram a luta nacional-popular.

Sua declaração:

“Não é que as questões identitárias não sejam justas, não tenham que ser patrocinadas. As mulheres são perseguidas mesmo. Os negros são a parte mais vulnerável e mais perseguida mesmo. Os jovens são mais perseguidos mesmo. A comunidade LGBTQI sofre todo o tipo de selvageria e discriminação. E eles tem que ser protegidos. A questão é que a soma desses interesses identitários não representam o interesse nacional. E o interesse nacional é que a chave para a gente se reconciliar com a maioria do povo”.

A tese não foi inventada por Ciro Gomes. É uma reflexão que tem sido feita por inúmeros intelectuais de países democráticos, que vem observando um fenômeno perigoso: o avanço, dentro do campo progressista, de valores identitários, constituiria um fator de fragmentação e desagregação da classe trabalhadora, além de ter aberto o espaço para que a direita, em especial a extrema-direita, adotasse o discurso de “união nacional” e “defesa das maiorias”.

Antes, esse discurso pelas “maiorias” pertencia à esquerda, porque a direita, por sua vez, defendia uma “minoria” de proprietários e rentistas.

Se a esquerda decidiu não mais falar às maiorias (vistas como conservadoras), então a direita viu a oportunidadde de se apresentar como a campeã das maiorias, e passou a varrer a esquerda do mapa no mundo todo, Brasil incluso!

Bolsonaro percebeu esse ponto-fraco (não sabemos se recebeu alguma “dica” de seu amigo Steve Bannon) e disse exatamente isso num de seus discursos de campanha: que o Brasil pertence às “maiorias”.

Nos EUA, o professor Mark Lilla, um intelectual de centro-esquerda, se tornou o grande campeão das críticas ao identitarismo, o que lhe valeu também uma campanha de “cancelamento” e agressões.

Angustiado com o avanço de conservadores em todo o país, Lilla publicou um artigo no New York Times no qual atribui a vitória de Trump à  fragmentação produzida pelo identitarismo nas hostes do Partido Democrata. O artigo foi o mais lido do New York Times em 2016, e foi ampliado num livro que se tornou um best seller: O progressista de ontem e o do amanhã: Desafios da democracia liberal no mundo pós-políticas identitárias.

Pela fala de Ciro, cheia de dedos, percebe-se que ele tem consciência de que está diante de um ponto extremamente delicado, suscetível a todo tipo de críticas – justas e injustas – por parte da esquerda identitária, hoje hegemônica no campo progressista (apesar de derrotada no campo eleitoral).

O identitarismo chegou para ficar. Ele enraizou-se definitivamente dentro do campo progressista.

Ciro está errado, ao menos na maneira como se expressou. A soma das lutas identitárias representam, sim, o interesse nacional, na medida em que a luta de negros, gays e mulheres é por um país mais justo e mais democrático, o que seria bom para todos.

Por outro lado, é verdade que as lutas identitárias nem sempre são compreendidas como universais pela população.

Sobretudo, é verdade que a esquerda precisa de um discurso nacional, centrado na questão do emprego, do salário, e do desenvolvimento.  Esse é o único discurso capaz de mobilizar as maiorias e vencer eleições majoritárias em prefeituras, governos de estado e presidência da república. Além disso, é preciso tirar a bandeira da defesa da “maioria” das mãos da direita.

Aí é que eu vejo um problema real nas esquerdas identitárias: elas desenvolveram uma cultura de intolerância. Toda crítica, de ordem estratégica ou filosófica, ao espaço tomado pelas políticas identitárias dentro do campo progressista, é tratada com uma virulência absolutamente desproporcional. Esse debate, fundamental para o futuro de nossas democracias, permanece então bloqueado, e a direita continua avançando e ganhando eleições, para desgraça de todas as… minorias.

Outro problema da política identitária é a hipocrisia e o oportunismo.

Não adianta nada termos um discurso identitário, em defesa de negros, gays e mulheres, por exemplo, e ao mesmo tempo adotar políticas de segurança pública que fizeram do Brasil o campeão mundial de violência contra negros, gays e mulheres.

O discurso político, identitário ou não, quando não se materializa em ações concretas, perde o respeito do povo.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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15 comentários

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Marcos

27 de maio de 2020 às 18h29

Alexandre Neres, você acha que o PT também não se elegeu com votos dos conservadores. Em 2002 Lula se elegeu com um discurso para as maiorias, a cartas aos brasileiro, e durante seu governo vai se implementando mudanças que atendessem as menorias identitárias. Ciro está fazendo o mesmo, mas agora ele tem um projeto bem mais estruturado para o País.

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    Alexandre Neres

    27 de maio de 2020 às 20h46

    Prezado Marcos, Lula foi eleito com o voto dos conservadores, mas não deixou em nenhum instante de carregar as bandeiras progressistas, dentre as quais as identitárias. Digo mais, diante desse desgoverno que aí está, adotar esse tipo de postura covarde e oportunista de renunciar a certas pautas para agradar a maioria é um ato de pusilanimidade. Nunca foi tão clara a importância da secretaria das mulheres, que estão sofrendo feminicídio a rodo, da igualdade racial, cujo genocídio da população negra tá as pampa, vide o garoto João Pedro, também estão a perigo como nunca dantes os indígenas e os LGBTT, enfim, os direitos fundamentais de todos. Todavia, talvez Ciro, até pelo seu lugar de fala, não enxergue a justeza dessas lutas. Diria até que em alguns pontos e características pessoais ele se parece com Bolsonaro.

    Permita-me discordar quanto ao ponto do projeto mais estruturado. O PT representava um espectro bem maior da sociedade e outros foram sendo incorporados ao longo do tempo desde a sua criação, perfazendo uma legitimidade em amplos segmentos da sociedade. Por mais inteligente e autossuficiente que qualquer homem seja, é necessário que dialogue com as demais forças e instituições, isso não pode simplesmente ser imposto de cima para baixo. Em suma, qual a construção coletiva de Ciro Gomes ao longo de sua extensa e errática trajetória?

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      JOHN

      28 de maio de 2020 às 11h08

      Desculpe, mas a sua opinião não condiz com os fatos, nenhuma grande medida foi tomada nos governos PTistas que revertesse esse quadro de desigualdade. Nos Governos PTistas negros continuaram sendo chacinados nas favelas, o Brasil continuava a ser o País que mais matava LGBTs, não houve qualquer tentativa de descriminalização do aborto ou qualquer mudança das políticas de combate as drogas.
      O PT sempre foi progressista de goela, na prática nunca avançou nas pautas progressistas, não estou dizendo que o Ciro vá avançar, mas a certeza é que o PT não o fez.
      E a última do Santo Lula foi se intitular “Peão da senzala”, aparentemente ele é negro agora.

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        Alexandre Neres

        28 de maio de 2020 às 18h49

        Meu caro, teu discurso é meramente retórico. Você acha que quando se ganha uma eleição se chega ao núcleo duro do poder, sobretudo em um país como o Brasil? Você já deu uma olhada no nosso Congresso e quanta raiva acumulada fez com que tal partido fosse apeado do poder? Com a raiva despertada pelas cotas? Fiz faculdade Federal de direito nos anos 90. Não tinha um negro na sala de aula. Dizer que não houve redução da desigualdade nos governos do PT é querer brigar com os fatos, é praticamente como dizer que a Terra é plana. Governar é lidar com um jogo de forças, não é porque alguém se elegeu que consegue impor seus pontos de vista, ainda mais com o esfacelamento partidário que ocorre no país. Agora quando alguém de partida fala que vai deixar as pautas identitárias de lado, aí é que não anda um milímetro mesmo. Pode agradar o eleitorado bovino e servil brasileiro, mas simboliza a falta de visão e a pequenez desse político. Não por acaso mal o governo Temer golpeou o poder, cheio de homens velhos e brancos, todas as secretarias que tratavam dos direitos humanos e das questões identitárias foram rebaixadas ou extintas. Hoje já se pode afirmar com certeza do valor simbólico dessas secretarias e da importância que representam em um país como o nosso. Uma pena que você não tenha rebatido nenhum dos vários argumentos que abordei acima. Abraço

        Responder

          JOHN

          29 de maio de 2020 às 13h10

          Nunca disse que não houve redução, o que eu disse é que pautas progressistas não foram perseguidas, houve sim um avanço, mas pequeno para um partido que se manteve 16 anos no poder, dos quais teve um congresso favorável por pelo menos 14 deles, pautas importantes poderiam ter sido feitas e não foram, como a taxação das grandes fortunas.
          Então é falacioso isso, vez que sim, pessoas que eram excluídas tiveram acesso a universidade, contudo o que se viu foi um gasto muito maior com o FIES (que acabava financiando o ensino privado) do que gastos com a universidade pública ( principalmente no governo Dilma).
          Atrelemos nossa ideologia aos fatos e não o contrário.

Gabriel

27 de maio de 2020 às 16h01

Quando ele fala “que a soma desses interesses identitários não representam o interesse nacional”, pelo menos eu, interpreto que a soma dos interesses identitários não representam (a soma) do interesse nacional. Não significa que tais interesses sejam menos importantes ou devam ser deixados de lado, mas que a esquerda deve voltar a apresentar propostas concretas para o restante dos interesses nacionais, tais quais a recuperação da economia, criação de empregos, reforma tributária, saúde, segurança, educação etc.

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John

27 de maio de 2020 às 11h19

Só para lembrar para a PTezada que isso é um texto de opinião, se o autor concorda com o que foi dito, mesmo em parte, como é o caso, ele tem o direito de expressar isso no texto.
Vocês tem inúmeros blogs PTistas cheios de artigos de opinião que vão corroborar a visão de mundo que vocês já tem.
Não vi qualquer erro na observação do autor do texto, visto que basta analisar as ultimas eleições nas quais a Extrema-direita sempre levava o debate político para o campo dos costumes o que fez com que grande parte do eleitorado se identificasse com o discurso e esquecesse questões econômicas e de projeto, e o PT fomentava isso pq também não possuía um projeto de governo estruturado.

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    Alexandre Neres

    27 de maio de 2020 às 18h00

    Uma vez frouxo, sempre frouxo!

    Responder

Alan C

26 de maio de 2020 às 21h49

Miguel, vc fala que Ciro está errado em duas linhas e meia e depois explica pq ele está certo nas outras 16 linhas até o final da matéria.

Me lembro bem dos seus textos na campanha de 2018 onde vc mesmo dava razão a essa opinião do Ciro, da armadilha que a esquerda identitária estava caindo e como o povo estava tomando antipatia dessa esquerda capitaneada pelo PT e seus puxadinhos.

Não precisa dizer, sem muita explicação, que o Ciro está errado só pra não causar a ira da petezada birrenta, as 16 linhas deixam claro o que vc pensa e eu concordo com vc, bem como concordo com a opinião do Chico D’Angelo, que, trocando em miúdos, era mais ou menos o que vc mesmo dizia nos textos sobre esse assunto em 2018.

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    Redação

    27 de maio de 2020 às 09h20

    Oi Alan, eu digo que ele está errado “ao menos na maneira de se expressar”, referindo-se a esta colocação de “soma” de interesses nacionais.

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Marcos

26 de maio de 2020 às 19h20

Esta bem que claro que a esquerda identitária vai perder de novo!
Eu já antevejo mais uma derrota.

O triste que não da pra criticar isso. Tem que aceitar! Senão é cancelado!

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Alexandre Neres

26 de maio de 2020 às 18h55

Miguel, parabéns pelo texto!

Tomei o cuidado de não criticar o Ciro sobre o assunto, porque não achei que as críticas eram compatíveis com o que havia lido que ele disse. Vê-se aí ao menos um esforço dele, um certo cuidado com as palavras.

Eu sou branquinho, estudado, hétero, fui favorecido do ponto de partida, criado em uma sociedade machista, por isso procuro ouvir mais outros pontos de vista em vez de querer ficar de palestrinha sobre assuntos que desconheço no dia a dia, tendo em vista meus privilégios e meu lugar de fala. Não cabe a mim cagar regra pra uma mulher negra e homossexual.

Não dá pra ficar indiferente, deixar essas questões para o momento oportuno. Basta de assassinatos como o do João Pedro. Veja a situação periclitante dos povos indígenas, povos indígenas sim seu cuzão do caralho, e a questão da demarcação das terras. Todas essas pautas identitárias são fundamentais pra explicar o caos que é o país hoje em dia. Articuladamente com a questão social, essas questões devem se integrar transversalmente.

Se o Ciro não se atualizar, vai ser cancelado, quem não sacar a força dessa juventude que tá chegando vai ficar datado. Se não faz escola, tal qual as posições pré-históricas do Bozo, vide a falta de discernimento dos minions ante um lidereco destrambelhado. Aqui mesmo neste blogue é possível distinguir alguns ciristas defensores do conservadorismo nos costumes, até passam disso. Tem um zé ruela que me enche o saco, que tratou uma comentarista que defendeu o Lula diante do Ciro chamando-a de “querida”. Deixe de ser misógino, rapá. Tu gostaria que tratasse tua mãe dessa forma? O mesmo infeliz, talvez porque tenha defendido pautas identitárias, fez insinuações a respeito da minha sexualidade. Não me importo nem um pouco com isso, acho que diz mais sobre a pessoa que faz este tipo de gracinha do que sobre mim. O que não gosto neste tipo de comentário é a homofobia latente que existe por trás dele. Aí cresço, neste ponto, infelizmente, sou parecido com o Ciro Gomes e tenho vontade de mandar esse fdp pr’aquele lugar.

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    luiz fernando

    07 de agosto de 2020 às 23h12

    Sintomática a forma como vc se anula intelectualmente para poder ser aceito pelo grupinho dos progressistas “identitários”, até porque o homem cis branco, na escala de opressões desses grupos é a pior escória da sociedade e tem que ser humilhado, cancelado e esculachado, e mesmo assim, sempre estará em débito com os identitários… eles acham que esse é o caminho para a luta contra o preconceito, eu já acho que esse é o caminho para criação de grupos identitários de extrema direita que se legitimarão com essa mesma narrativa.
    Eu to em outra, jamais apoiarei os fascistinhas do bem, com a desculpa da superioridade moral da minha causa.

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Nicolas

26 de maio de 2020 às 18h42

Ciro está errado? Não! Enquanto negarmos seus raciocínios continuaremos perdendo pleitos para a extrema-direita! Simples assim!

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Assis

26 de maio de 2020 às 17h42

O que ajuda a destoir o pais é o número muito grande de partidos de aluguel e sem nenhum projeto para o pais.

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