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Brasil importou mais de R$ 1 trilhão de reais em petróleo nos últimos 10 anos

Por Miguel do Rosário

12 de junho de 2020 : 12h26

Desde que os Estados Unidos começaram, há duzentos anos, a estender seus tentáculos mundo à fora, seus interesses jamais se restringiram ao domínio sobre os recursos naturais dos diferentes países.

Frequentemente, um outro interesse ainda mais importante se impunha: o domínio dos mercados.

Possuindo até hoje uma das maiores estruturas produtivas do planeta, abrangendo quase todos os setores globalizados da economia, do petróleo à indústria pesada, do agronegócio e à alta tecnologia, os Estados Unidos precisam, assim como qualquer outro país industrializado, de compradores para seus produtos.

Neste sentido, é às vezes um pouco irritante como a esquerda brasileira raramente olha para esse ponto quando analisa os avanços do imperialismo americano sobre a nossa economia.

O último livro de Ciro Gomes, “Projeto Nacional: O dever da esperança”, traz uma denúncia muito dura contro golpe de 2016 e a Lava Jato. Mas repete o clichê equivocado de entender que a inequívoca sombra americana por trás desses acontecimentos seria explicada pelo interesse em nosso pré-sal. Não é bem assim.

É claro que os EUA espionaram nosso pré-sal com objetivo de obter o máximo de informações possíveis sobre o tamanho de suas reservas e a viabilidade de sua exploração.

O fato, porém, é que o nosso pré-sal, em proporção às reservas mundiais, não é expressivo.

Além disso, a história já mostrou que o interesse principal da indústria americana de petróleo não é em nossas reservas, tanto é que seus únicos compradores tem sido, na verdade, os chineses.

O interesse dos americanos se debruça sobre algo ainda mais valioso, mais estável e com capacidade de gerar caixa de maneira muito mais rápida: o nosso mercado consumidor de petróleo!

Como somos um país que abandonamos o transporte ferroviário, e não temos um transporte de cabotagem significativo, quase toda a circulação interna de mercadorias e pessoas, num país de extensão continental, depende de veículos movidos a gasolina e, sobretudo, a diesel.

Nos últimos 10 anos, o Brasil importou US$ 226,5 bilhṍes em petróleo, ou R$ 1 trilhão, um aumento de 84% sobre os 10 anos anteriores.

Entretanto, quando se olha apenas para o petróleo vindo dos EUA, nossas compras do produto aumentaram 738% nos últimos 10 anos. A maior parte dessa alta aconteceu nos últimos 5 anos, como se pode ver nos gráficos abaixo.

Nos anos de 2008 a 2015, antes do pré-sal finalmente começar a jorrar para fora das profundezas oceânicas, o Brasil importou quantidades enormes de petróleo bruto e refinado, num momento em que o preço do produto encontrava-se extremamente elevado, o que sobrecarregou nossa balança de pagamentos, e contribuiu para a deterioração do quadro econômico que veríamos em seguida.

Quando o preço do petróleo começa a cair dramaticamente, a partir de 2016, nossas despesas começam a cair. Além disso, dois fatores ajudam a reduzir nossas importações: a crise econômica, que reduz o consumo de combustível, e a entrada em produção dos primeiros poços do pré-sal, substituindo as plataformas do pós-sal, cuja produção já está em fase declinante.

Entretanto, a partir de 2016, dá-se o golpe de Estado, muda o regime, e uma mudança importante acontece na política petroleira do Brasil. A principal delas é a paralisação da construção de novas refinarias, e a redução drástica da capacidade operacional daquelas já existentes, o que leva a um aumento constante das importações de petróleo refinado. Os grandes beneficiados dessa mudança são as refinarias norte-americanas, pois o país passa a concentrar quase todas as suas compras externas de diesel, que é o produto de importação que mais pesa em nossa balança comercial, dos Estados Unidos.

As importações de petróleo com origem nos EUA, que até 2016, nunca haviam correspondido a mais de 20% de nossas compras externas de petróleo, começam a subir vertiginosamente, e hoje o país responde por cerca de 60% de todo o petróleo importado pelo Brasil.

Como o preço do petróleo oscila de maneira muito dramática, é importante analisarmos o fluxo do produto em termos de quantidade.

Em quantidade,  o Brasil tem importado quantidades recordes de petróleo refinado, o que compensou a queda nas compras de petróleo bruto.

É importante observar que, hoje, o Brasil vem obtendo recordes no saldo da balança comercial de petróleo.

Não estivéssemos importando quantidades tão grandes de petróleo refinado, gerando empregos e renda nos Estados Unidos, estes saldos poderiam ser infinitamente maiores, financiando o nosso desenvolvimento e estabilizando nossas finanças públicas.  No atual nível, eles servem apenas para compensar uma parte do déficit ainda crescente de nossa balança de pagamentos, puxado sobretudo pela desindustrialização galopante e pelo aumento dramático da importação de manufaturados.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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3 comentários

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Jean Fábio Bianconcini

14 de junho de 2020 às 05h08

Parabéns pelo texto, faz falta mais desses exercícios com números na mídia. Me chama a atenção a grande queda nas importações de petróleo em US$ bilhões a partir de 2016, mesmo com a estabilidade nos volumes. Seria resultado somente da queda nos preços internacionais do barril (não sei exatamente como se comportaram no período) ou teria relação com a alternância dos fornecedores (preços praticados por cada um)?

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Alan C

12 de junho de 2020 às 17h10

Os dois maiores absurdos da última década:

– Com STF, com tudo.
– Petróleo.

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chichano goncalvez

12 de junho de 2020 às 12h44

Quanto fez mal a ditadura militar ao nosso pais, nós que tivemos presos por protestar contra a expoliação, sabiamos que isso ocorreria, aliado aos nossos empresariado em sua grande maioria mercenarios, e antipátrioticos, e ainda por cima os analfabetos politicos juntamente com os maldosos, aceitaram o golpe de 2016, e para completar elegeram um psicopata-genocida-entreguista, lambe botas dos estados unidos.

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