Live do Cafezinho (18 h): Pós-verdade na política brasileira (uma conversa com Fabio Palacio)

Município de Guaribas, no Piauí.

Auxílio emergencial e os novos bolsonaristas

Por Redação

10 de julho de 2020 : 19h56

Artigo da Época traz relatos que correspondem à realidade refletida em pesquisas de opinião que demonstram uma melhora da popularidade do presidente em setores da sociedade após a implementação do auxílio emergencial:

“Municípios onde o PT levou mais de 90% dos votos receberam em massa o novo auxílio, o que tem mudado lealdades: ‘Bolsonaro provou ser mais mão aberta’, disse a agricultora Maria da Paz

‘Quando morava com minha mãe, a casa era cheia de cartazes do Lula. Meus pais idolatravam ele. Repetia na hora da refeição que só tinha comida na mesa por causa do Lula. Cresci ouvindo isso. Votei na Dilma porque o PT tirou minha família da miséria. No Haddad, por obediência a meus pais. Mas agora mudei meu voto porque o Bolsonaro foi mais generoso, provou ser mais mão aberta na crise do vírus”, explicou Maria da Paz, a agricultora.

‘Políticas assistenciais tiveram impacto poderoso nas eleições na região. Em Guaribas, Lula passou de 30% dos votos em 2002 para 94% quatro anos depois, na esteira da criação do Bolsa Família’

No ano passado, Ivanildo conseguiu comprar uma moto, veículo essencial que substituiu os jegues em deslocamentos no interior. Votou em Haddad na eleição passada porque ‘seria uma traição’ um morador de Guaribas negar voto ao PT. Segundo conta, ‘era como virar as costas’ para tudo que foi feito por lá graças ao Bolsa Família. ‘Meus avôs passavam fome e sede. Meus irmãos choravam porque não tinha comida em casa. Quando meu avô morreu, fui mexer nas coisas dele e vi uma foto feita por uma revista em que ele está todo magrelo, sem camisa e cheio de moscas. Aquela foto doeu muito.

Minha mãe disse que foi o Lula que deu comida para ele’, relatou. E completou: ‘Mas o Lula perdeu rumo, se meteu em coisa errada e foi parar na cadeia. Minha família ficou decepcionada. Demos uma chance para o Haddad, mas agora simpatizei com o capitão. Bolsonaro é honesto até que se prove o contrário. Estou fechado com ele em 2022’, disparou Ivanildo, que apontou o pulso firme e a veia militar como as maiores vantagens do presidente.

As ponderações de Ivanildo e Maria da Paz são a tradução em carne e osso de pesquisas nacionais de opinião que registram uma melhora na popularidade de Bolsonaro tanto entre os brasileiros mais pobres como entre os moradores do Nordeste, na esteira do auxílio emergencial.

Segundo dados do Datafolha, o índice de aprovação do governo (aqueles que o consideram ótimo ou bom) subiu de 22% para 29% desde dezembro na população com renda mensal de até dois salários mínimos. Quando o foco são os nordestinos, a alta foi de 20% para 27% nos últimos seis meses.

O avanço do bolsonarismo num eleitorado antes cativo do PT ocorre no mesmo movimento em que o presidente perde apoio entre quem o levou ao poder.

A aprovação na camada que ganha mais de R$ 10 mil por mês despencou de 44% para 34%, ultrapassada pela rejeição, que disparou de 28% para 52%. ‘O governo perdeu as camadas médias urbanas, elas começaram a desembarcar. O que faz um político quando perde sua base eleitoral? Procura outra’.

‘Na política de transferência de renda, ele vai em busca da base mais sujeita a ser manipulada por ações e promessas pequenas. As pesquisas trazem essa tendência, os setores humildes começam a mudar de posição’, disse o cientista político Henrique Carlos de Castro, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)’.

Cerca de 19,3% dos não inscritos no auxílio emergencial avaliam o atual como governo como ótimo/bom, enquanto esse número cresce ligeiramente, para 21,8%, entre os beneficiários da iniciativa. A situação muda de figura quando analisada a reprovação de Bolsonaro.

Enquanto a rejeição é de 46,5% entre os listados no auxílio, a taxa sobe para 54,6% entre aqueles que não recebem dinheiro do governo, um crescimento de 8,1 pontos percentuais.

‘A conclusão é que Lula se favoreceu do Bolsa Família em sua aprovação. Já era alta e passou a ser maior ainda. No caso do Bolsonaro, é o oposto, o auxílio ajudou em sua rejeição. É grande, mas não ficou tão ruim. Sair do péssimo para o ruim representa uma melhora, mas é difícil acreditar que uma avaliação ruim possa lhe render muitos votos em 2022’, explicou o cientista político Cesar Zucco, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da FGV, um dos autores do trabalho.

‘Certamente um programa de transferência de renda é um motor para uma avaliação positiva de um candidato. Mas, pelos cálculos, é capaz de decidir apenas eleições apertadas, em que os candidatos estejam com percentuais muito próximos’, completou.

Essa incerteza em relação ao futuro surge nas conversas do sertão piauiense. A aprovação à ‘Bolsa do capitão’ do presente pode se transformar na frustração com o fim da ajuda no futuro, assim como o encantamento com o Bolsa Família do petismo cedeu, ao menos momentaneamente, às benesses do auxílio emergencial.

E, mesmo assim, nem sempre o raciocínio é tão linear quanto se supõe. Maria Nádia de Souza, de 42 anos, trabalha numa roça na localidade de Barra do Bonito, a 36 quilômetros do que seria o ‘centro’ de Capitão Gervásio Oliveira.

Na sexta-feira 3, ela sentiu febre e dor de cabeça. Toda a comunidade ficou em alerta, com a suspeita de coronavírus. Ela subiu em uma caminhonete com outras quatro pessoas e seguiu para um posto médico. Maria trabalha colhendo feijão e recebeu as parcelas mais gordas do auxílio emergencial por ser mãe solteira. Já votou em Dilma e Haddad (nunca em Lula), garante que não vota mais no PT, mas também não se inclina a Bolsonaro. ‘Não gosto dele. Mas não acho que seja ladrão. Só que 2022 está muito longe para decidir. Vamos ver o que vai acontecer daqui em diante’, ressaltou. Na terça-feira, Maria fez teste para Covid-19 em São Raimundo Nonato e o resultado deu negativo. No mesmo dia reassumiu suas funções na plantação de feijão.”

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2 comentários

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Vixen

11 de julho de 2020 às 07h46

Os metidinhos da classe media voltam em breve no colo de Bolsonaro assim que a pandemia passar, se não todos uma boa maioria.

Ninguém se elege com os votos da classe media no Brasil pois quase não existe.

2022 vai ser uma surra novamente para a esquerda.

Perdeu o povão já era. “Mano Brown”

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Paulo

10 de julho de 2020 às 22h23

Ou seja, o voto de cabresto continua o mesmo, em nossa triste tradição histórica…E a culpa não é do povo, que vota – conscientemente – em quem o favorece materialmente, pois onde falta o pão a consciência possível é a da barriga roncando…

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