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Resposta ao texto de Fábio Marton publicado no The Intercept

Por Redação

06 de fevereiro de 2021 : 17h59

Por Alexandre Gonçalves, Cláudio Moreira e Fernando Mendonça

Antes de mais nada, essa resposta não tem nenhum cunho pessoal. O The Intercept é um sítio jornalístico independente e que já prestou grandes serviços ao país com reportagens que sempre visam o lado do povo pobre, das minorias perseguidas e do espectro político que tem pouca chance de falar na mídia tradicional.

Tampouco ao Fábio Marton, autor do texto, que é um jornalista competente e que tem uma trajetória ínclita em outros veículos, além de ter tido uma experiência pessoal bem negativa no meio evangélico onde viveu durante sua infância e adolescência. Enfim, nada pessoal.

Publicada na plataforma digital “The Intercept Brasil” nesta sexta-feira, 5 de fevereiro, o texto “O Lado B do Trabalho Social dos Evangélicos Fundamentalistas”, de Fábio Marton, é mais um desserviço à necessária retomada do diálogo entre os cristãos brasileiros e o campo progressista.

Aliás, reportagens desse tipo vêm sendo recorrentes em mídias pós-modernas como a do referido sítio, o que aponta para uma escolha editorial não acertada ao nosso ver, o que certamente é um direito do canal, mas que parte de premissas absolutamente equivocadas.

Dizer que existe assistencialismo social para produzir essa cidadania moral anti constituição e que o evangélico rejeita assistência social vinda do Estado é um erro grave. Ninguém deixa de usar o Bolsa Família, assim como ninguém tem orgulho de receber cesta básica na igreja.

O cristianismo é uma religião, tem sua cosmovisão de mundo como todas as outras, que tem suas explicações do porquê dos males das pessoas. Tratar isso como algo político é bem surreal pois faz parte da essência religiosa, da experiência de fé. Mas vamos ao texto.

Começamos pela pergunta feita pelo autor no início do texto:

O que acontece depois que o necessitado, compreensivelmente, pega o pão sem ver a mão? Foi um almoço grátis? A história acaba nisso? Não há consequências? Quem as igrejas evangélicas fundamentalistas tentam salvar da penúria? E por que querem salvá-lo?

O que vem logo em seguida é uma citação do pastor Ricardo Gondim (sem referências) onde, segundo o autor do texto, o pastor diz que:

O que passa batido a quem faz elogios à obra social fundamentalista é que há uma teologia por trás, que parte de um pressuposto pessimista…é a teologia da queda e do pecado original, que diz que as pessoas são inerentemente pecadoras e nasceram debaixo da ira de Deus.

Baseado nessa referência, o autor do texto atesta que, se um cristão acredita na doutrina da queda e do pecado original, logo o valor intrínseco do ser humano fica afetado, visto que é um ser caído e destituído da glória de Deus.

Segundo esse entendimento que o autor do texto expressa, não haveria alma cristã que conseguisse olhar o ser humano pelo valor que ele tem intrinsecamente, visto que a doutrina do pecado original e da queda do homem é uma doutrina universal de TODAS as igrejas cristãs conhecidas no Brasil, a saber, as que tomam por base, no mínimo o credo Niceno – Constantinopolitano.

Isso inclui a Igreja Católica Romana, Copta, Ortodoxa, Anglicana, Luterana, Presbiterianas, Batistas, Pentecostais, etc.

Não há relação entre a teologia da queda e a visão deturpada do caráter inerente do valor da vida humana. O valor da vida humana para o cristão está no fato de o ser humano ser criação de Deus. O manifesto do movimento Cristãos Trabalhistas, do qual fazemos parte e somos co-fundadores, diz isso em seu item 1:

  1. Acreditamos e afirmamos nossa crença em um único Deus, Criador e Senhor do mundo, que fez os homens à Sua imagem e semelhança. Por ser a humanidade a imagem e semelhança desse Criador, entendemos o valor da vida humana, sua dignidade e que todo nosso esforço nesta terra deve ser voltado para a solidariedade, compaixão e fraternidade para com todos os seres humanos, independente de raça, gênero, idade, crença ou opção política.

O valor do ser humano está ligado ao fato de ele ser criado com todo o amor pelo Criador, o Senhor Deus que todos os cristãos adoram. Essa ilação do autor é perigosa, pois coloca em um ponto vital da teologia cristã um caráter de desobrigação aos direitos da pessoa humana.

Dessa forma, fica claro que a ideia central que permeia o texto é que o trabalho social desempenhado por todas as igrejas ditas “fundamentalistas” tem o propósito oculto de cooptar pessoas incautas para um projeto maligno de dominação da sociedade sem nenhuma preocupação com o ser humano em si. Isso fica descrito literalmente pelo autor, quando diz:

O propósito principal de uma obra social fundamentalista não é sanar males sociais, mas criar mais fundamentalistas.

O autor pode ter a escusa de que ele fez uma seleção no texto, restringindo suas críticas aos cristãos fundamentalistas. Entretanto, em nenhum momento do texto fica claro o que o autor quer dizer com fundamentalismo.

Ficamos apreensivos, pois se a doutrina mais básica do cristianismo, a da queda e pecado original, já é tida como algo negativo, seriam grupos fundamentalistas todos os que creem nessa doutrina?

Caso positivo, a pretérita restrição feita pelo autor torna-se por demais ampla, pelos motivos que anteriormente já elucidamos, ou seja,  que esta doutrina é ponto comum no cristianismo.

Fundamentalismo virou uma palavra “trunfo” usada para adjetivar tudo o que a pós-modernidade não concorda na religião. Essa definição, para um texto que quer falar com e sobre as igrejas não serve. Precisamos da definição teológica do termo.

Há no texto uma confusão semântica onde a expressão “fundamentalismo” (definição teológica) se torna sinônimo ou tem relação com “ultraconservadorismo” (definição da teoria política). Conforme Allister McGrafth ensina em “Teologia Histórica, Cultural e Filosófica (Shedd, 2005)”,  Fundamentalismo não se resume somente à crença ferrenha em determinados princípios de fé, mas sim numa visão de mundo que se coloca em OPOSIÇÃO ao Modernismo e ao Relativismo, o que também é corroborado por Martin Dreher em sua obra “Para Entender o Fundamentalismo (Unisinos, 2002)”. 

Esta visão pode, eventualmente, estar amalgamada ao ultraconservadorismo político, mas não se confunde com ele. Ou seja, em certo sentido, as denominações históricas como a Presbiteriana, por exemplo, são mais fundamentalistas que as pentecostais pois não aceitam uma interpretação escriturística que não se baseie no método histórico gramatical, algo que os Pentecostais avançaram com um método também voltado à experiência do leitor e não somente à busca do que quis dizer o autor.

Além do que, a base teológica-política do atual governo vem de expoentes oriundos de igrejas tradicionais, reformadas ou calvinistas e estes não são comumente chamados de fundamentalistas.

Ademais, essa visão, academicamente influente, está longe de abarcar toda a complexidade do fenômeno do cristianismo evangélico brasileiro – o chamado “protestantismo de massas”, conforme a feliz expressão do sociólogo, brasilianista e pastor Paul Freston.

Se é verdade que existem nichos ultraconservadores com esse tipo de articulação, é preciso salientar que essa não é a posição majoritária do segmento quanto aos trabalhos assistenciais desenvolvidos pelas igrejas, nem mesmo quando associados à evangelização.

Aliás, importa referir que atrair pessoas para a mensagem do Evangelho nunca foi um “projeto oculto” do Cristianismo, e sim o cerne de sua prática de fé, conforme estabelecido pelo próprio Cristo na doxologia denominada “Grande Comissão” – “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mateus 28;19).

Seguindo adiante no texto, o autor se utiliza de diversos exemplos a fim de defender sua tese. Nesse ponto, o autor tem seus méritos e comprova o que já foi dito por aqui: é um jornalista competente. Os casos inseridos no texto são reais e graves em vários aspectos.

Entretanto, há um erro básico: não se deve utilizar de casos para defender sua opinião. Deve-se analisar os casos de maneira qualitativa e quantitativa. Vamos aos casos e as inferências que o autor impõe em seu texto.

O caso do conselho tutelar de Araraquara não tem nada a ver com o que está na chamada do texto. Um conselheiro tutelar é alguém do povo, eleito por sua comunidade para um mandato. Ou seja, é um cargo eletivo onde qualquer um, preenchendo requisitos mínimos, pode se candidatar e ser eleito.

O conselho, no caso citado, era de maioria evangélica e agiu com preconceito religioso. Com esse caso, eu posso inferir que é uma situação em que a igreja como instituição, agiu de maneira errada? Ou melhor, o que isso tem a ver com o tema “obras assistenciais” visto que o conselho tutelar é estatal e não religioso? É uma fuga eloquente da temática do texto! 

Logo em seguida, novamente na base do escapismo do assunto do texto, o autor fala de ministérios de “cura gay”. Onde isso se encaixa na assistência social promovida pelas igrejas? São situações promovidas por psicólogos que misturam sua profissão com a sua fé. E isso não tem relação nenhuma com os diversos ministérios de assistência social das igrejas.

Mais adiante, outro exemplo sem relação com assistência social, a saber, a deseducação sexual, adjetivo dado pelo autor à discordância de alguns líderes cristãos com a educação sexual nas escolas. Qual a relação disso com assistência social?

E logo em seguida, acusar igrejas de serem um ambiente estigmático para abusos sexuais, afirmando que nesses ambientes as pessoas preferem desconversar é um silogismo no mínimo reducionista, pois esta realidade não é exclusiva em igrejas, mas em TODO O NOSSO PAÍS!

Vejam, adjetivar todo trabalho caritativo e missionário como parte de um projeto reacionário, é absolutamente injusto com iniciativas diversas como o Desafio Jovem, a Cristolândia das Igrejas Batistas que atuam na cracolândia do Rio de Janeiro, os hospitais adventistas, os orfanatos metodistas e os abrigos para moradores de rua das igrejas pentecostais, dentre outros projetos espalhados pelo Brasil.

A motivação por trás desses projetos não é oculta, nem tampouco subversiva da ordem constitucional, mas parte integrante dos deveres de quem é Cristão – a atitude concreta do amor ao próximo, e na maioria dos casos, ultrapassa recortes de natureza política nem condiciona a aceitação da ajuda a uma conversão religiosa.

No fundo, o destaque que as igrejas têm no aspecto social é pura culpa da ausência de estado. São pessoas ajudando outras pessoas. É mais voluntarismo que ação política. Agora é óbvio que uma pessoa que mata sua fome com um arroz que recebe na igreja, terá uma gratidão por aquela religião.

Porém, o cerne do problema está no motivo que fez com que essa pessoa tivesse de receber esse alimento.  Essa ideia do texto é lamentável, tal qual o  serviço identitário, que joga a esquerda contra seguidores da segunda maior religião do país. É uma agenda esquerdista infantil, ateísta que milita contra o povo e o afasta.

Parte destes raciocínios ainda lamentavelmente dominantes, segue enxergando o povo cristão do país como simples “massa de manobra”, uma massa ignara conduzida por espertalhões. Ignoram que a adesão a uma igreja possa se dar por ESCOLHA, pela noção de pertencimento, ou por outro valor racional do ser humano.

É nesse ponto que a “intelligentsia” de esquerda falha miseravelmente na compreensão do fenômeno, e prossegue com rotulações que só se explicam pelo ressentimento eleitoral de 2018, cujo resultado a esquerda continua se negando a aprender algo. 

Com esse tipo de adjetivação simplória, reducionista, sem apego à leitura histórica, o fosso sociológico se aprofunda, não somente entre a igreja evangélica e o campo progressista, mas entre a esquerda e a identidade espiritual da maioria do nosso povo.

Num passado recente, os cristãos sempre foram uma parcela significativa do campo democrático e popular. Na seara católica, a Teologia da Libertação estimulava o surgimento de Comunidades Eclesiais de Base, e no segmento evangélico, a co-irmã Teologia da Missão Integral sempre estimulou iniciativas como o Rio de Paz, a VINDE e a inclusiva AEVB.

Lula e Dilma, nas quatro eleições vitoriosas, tiveram ampla vitória no segmento evangélico. A ilusão semântica que associa o evangélico brasileiro ao bolsonarista conservador já vem se desfazendo desde 2020 com derrotas como a de Marcelo Crivella no Rio de Janeiro, sem que a intelectualidade de esquerda tenha atentado para o fato.

Com esse intuito nasceu o movimento Cristãos Trabalhistas, reunindo cristãos das diversas matizes confessantes do credo Niceno-Constantinopolitano, que acreditam na democracia para a criação de um estado de bem estar social, em acordo com a ideias de Alberto Pasqualini, também cristão, que criou as bases ideológicas de um trabalhismo brasileiro, adaptado a nossa realidade cultural.

Não somos os cristãos que a sociedade pós-moderna quer. Somos definidos e temos nossa identidade ligada ao Evangelho de Jesus, conforme dito pelo apóstolo Paulo: “Sede meus imitadores, assim como sou de Cristo Jesus” (I Coríntios 11:1).

Seguimos na compreensão de que o diálogo, em vez da cizânia beligerante e permanente, é o caminho para a retomada de uma construção democrática e progressista no Brasil. Por essa causa, escrevemos esse texto com o desejo fraterno de cooperar na compreensão e na informação. É com mãos estendidas, não com os punhos cerrados, que vamos restaurar o país que queremos.

Por Alexandre Gonçalves, pastor da Igreja de Deus, PRF, Diretor do SINPRF-SC e presidente do Cristãos Trabalhistas em Santa Catarina. Reverendo Cláudio Moreira, pastor quadrangular, presidente do Cristãos Trabalhistas no Rio Grande do Sul. Fernando Mendonça, advogado, jurista e secretário geral do Cristãos Trabalhistas no Rio de Janeiro

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1 comentário

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EdsonLuiz.

06 de fevereiro de 2021 às 19h51

Este é um texto muito bom, admito. Na minha leitura, teve o objetivo mais de servir de argumento de justificação do trabalho assistencialista feito por denominações religiosas do que de lidar com implicações e consequência políticas do assistencialismo religioso, que de resto têm as mesmas implicações e consequências de assistencialismos de qualquer natureza.

E então, essas ações assistencialistas têm cunho político? Melhor perguntando: há alguma coisa neste mundo dos homens que não seja política, a começar pela invenção do Céu por Platão?

A expressão do assistencialismo no Brasil é tão visceral e capilar que eu gostaria muito de ver neste ‘ocafezinho’ a abordagem de algum antropólogo sobre as causas, consequências e desdobramentos dessa prática neste nosso país de tantos populismos e instrumentalizações políticas.

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