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Veto americano ao gasoduto do Báltico: Imperativo geopolítico e concorrência capitalista

Por Redação

27 de abril de 2021 : 15h00

Por José Luís Fiori

Segundo Halford Mackinder, “quem controla o ‘coração do mundo’ comanda a ‘ilha do mundo’, e quem controla a ‘ilha do mundo’ comanda o mundo”. A ‘ilha do mundo’ seria o continente eurasiano, e seu coração estaria situado – mais ou menos – entre o mar Báltico e o Mar Negro, e entre Berlim e Moscou.

J. L. Fiori. A geopolítica anglo-americana. In: História, Estratégia e Desenvolvimento. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 141.

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Halford Mackinder (1861-1947), o pai da geopolítica anglo-americana, formulou no início do século XX uma teoria sobre a distribuição espacial do poder mundial e traçou uma estratégia correspondente de conquista e controle anglo-saxão do poder global.

Sua teoria e estratégia foram na verdade uma sistematização e racionalização daquilo que a Inglaterra já vinha fazendo desde o fim das Guerras Napoleônicas, quando o Foreign Office inglês definiu, pela primeira vez, a Rússia imperial dos Romanov como principal concorrente do poder britânico na Europa, na Ásia Central e, inclusive, na América.

A mesma estratégia que depois se manteve no século XX, com relação à Rússia comunista de Lenin a Gorbachev, e segue vigente hoje, com relação à Rússia nacionalista e conservadora de Vladimir Putin. 

No século XIX, esta preocupação britânica foi a verdadeira origem da chamada Doutrina Monroe, que foi de fato formulada e sugerida aos americanos pelo ministro das Relações Exteriores da Inglaterra, George Canning, e que depois de ser rejeitada pelo presidente James Monroe, foi apropriada e anunciada por ele como sendo de sua própria lavra, no seu discurso ao Congresso americano, de dezembro de 1823.

No final do século XIX, e em particular durante o século XX, essa estratégia de isolamento da Rússia adquiriu uma nova dimensão, e um objetivo mais específico, a partir da “primeira unificação” da Alemanha, em 1871, como fica quase explícito na visão de Mackinder, que aparece na epígrafe deste texto: não permitir jamais que a Rússia e a Alemanha estabelecessem entre si algum tipo de aliança estratégica ou de interdependência econômica que lhes permitisse hegemonizar a Europa, e, como consequência, controlar o poder mundial.

A mesma ideia foi retomada pelo diplomata americano George Kennan, em seu famoso telegrama de 22 de fevereiro de 1946, no qual defendia a necessidade de “contenção permanente” da URSS, ideia que foi referendada por Winston Churchill em seu famoso discurso no Westminster College, na cidade de Fulton, Missouri, em 5 de março de 1946, quando propôs a criação de uma espécie de “cortina de ferro” separando a Europa Ocidental da URSS e seus países aliados da Europa Central.

Essa mesma doutrina estratégica está sendo retomada agora – de forma ainda mais radical – pela nova administração democrata de Joe Biden e seu chefe do Departamento de Estado, Antony Blinken, com relação à Rússia de Vladimir Putin.

Houve aumento das sanções, das ameaças e da pressão militar em cima exatamente do eixo que conecta o Mar Báltico com o Mar Negro, e que envolve interesses estratégicos diretos da Alemanha e da Rússia em torno da Ucrânia e da Crimeia, na região do Mar Negro, e em torno da Polônia, Lituânia, Letônia e Estônia, na região do Mar Báltico. 

É essa mesma estratégia de bloqueio e distanciamento entre Rússia e Alemanha que explica o veto cada vez mais agressivo dos norte-americanos ao projeto de construção do gasoduto “Nord Stream 2”, que começa na cidade de Vyborg, noroeste da Rússia, e chega até a cidade de Greifswald, no nordeste da Alemanha, passando pelo fundo do Mar Báltico, com 1.230 km de extensão e um custo previsto de U$ 10,5 bilhões.

Este gasoduto já está instalado em 95% da sua extensão, e ao ser concluído dobrará a capacidade do Nord Stream 1. Este foi concluído em 2011, com uma capacidade para 55 milhões de metros cúbicos de gás por ano, e com a instalação do novo pipeline, passará para 110 milhões de metros cúbicos por ano.

O projeto desse gasoduto do Mar Báltico inclui sua alimentação terrestre na Rússia, sua parte submersa e inúmeras ligações através da Europa Ocidental, e foi financiado por um consórcio liderado pela empresa russa Gazprom, associada com as alemãs Uniper e Wintershall, a austríaca OMV, a francesa Engie e a anglo-holandesa Shell.

Nos seus quatro primeiros meses, o governo Biden já praticou mais duas rodadas de novas sanções contra todas as empresas e governos envolvidos no projeto, e ameaçaram transformar seu veto numa “linha vermelha” intransponível, com ameaças ainda mais graves e destrutivas do que as que já foram feitas, sobretudo com relação ao governo da Alemanha.

Nessa sua geopolítica, os EUA contam com o apoio da Polônia, da Ucrânia e dos países bálticos e nórdicos, além de uma parte significativa dos governos e forças políticas da própria União Europeia.

Apesar disso, a Rússia tem insistido na natureza exclusivamente comercial de seu projeto conjunto com os alemães, até porque a Alemanha já recebe o gás russo através do próprio Nord Stream 1, além de outros dois pipelines que atravessam a Ucrânia e a Turquia, sem que esses projetos tenham sido vetados no momento de sua construção.

No entanto, deve-se lembrar que essas “autorizações” aconteceram antes da intervenção militar russa na Síria, que consagrou um novo patamar na correlação de forças militares entre a Rússia e os Estados Unidos, e, em particular, com relação às forças da OTAN. 

Pelo lado da Alemanha, entretanto, o panorama aparece mais complexo e indefinido, e neste momento os olhos estão postos nas eleições gerais do próximo mês de setembro, quando será eleito(a) o(a) substituto(a) de Angela Merkel, chanceler desde 2005.

E a posição alemã frente ao seu projeto do Nord Stream 2 tem estado no epicentro das discussões eleitorais: o Partido Social-Democrata apoia majoritariamente o projeto, mas hoje é apenas a terceira ou quarta força política da Alemanha, mas o próprio Partido Democrata-Cristão de Angela Merkel está dividido com relação ao tema; e os Verdes, finalmente, que são a segunda força política do país, opõem-se terminantemente ao projeto do gás russo. 

A chanceler, Angela Merkel, não vê diferença entre o projeto do Nord Stream 2 com relação aos demais gasodutos que já fornecem gás russo aos alemães e europeus, e considera que a oposição americana atual envolve questões políticas e geopolíticas que transcendem os campos econômico e energético propriamente ditos.

O mesmo pensa Gerard Schroeder, antigo chanceler social-democrata e atual dirigente do consórcio Nord Stream AG, que lidera o projeto do gasoduto, que considera que o Nord Stream 2 é uma alternativa energética eficaz e “limpa” ao uso do carvão e da energia nuclear, e que resolverá o problema da escassez energética da Alemanha por várias gerações. Além disso, Schroeder considera que o gás russo fracking gas é menos caro, de melhor qualidade e menos agressivo ecologicamente do que o fracking gas americano. 

Nessa mesma linha, mas utilizando uma linguagem ainda mais agressiva, o ministro das Finanças da Alemanha, Olaf Scholz, denunciou as sanções americanas como uma “severa intervenção nos assuntos internos da Alemanha e da Europa”, e o ministro de Relações Exteriores alemão, Helko Maas, chegou a tweetar que a “política de energia europeia tem que ser decidida pelos europeus, não pelos Estados Unidos”.

Assim mesmo, o projeto está “no ar” e é provável que se manterá assim até as eleições gerais do mês de setembro, apesar de que os russos estejam avançando por sua própria conta para concluir os cerca de 150 km que ainda faltam para completar a construção desse gasoduto russo-alemão. Mas não há dúvida de que a solução do impasse parece cada mais embaralhada pelo aumento das tensões geopolíticas e militares entre Estados Unidos e Rússia, e portanto seu desfecho é imprevisível, ou pelo menos deverá ser adiado ainda por algum tempo. 

Enquanto isto, entretanto, os produtores de gás liquefeito americano conseguem ir conquistando e se estabelecendo dentro do mercado europeu, expondo uma vez mais a relação direta que existe entre a geopolítica e sua luta pelo poder, e a conquista e monopolização dos mercados mundiais de petróleo e de gás pelas grandes empresas produtoras e exportadoras de petróleo e gás.

É como reconhece e denuncia a Associação de Negócios do Leste da Alemanha (OAOEV), quando declara que “na prática, a América quer vender seu gás liquefeito na Europa e suas sanções americanas visam expulsar seus competidores do mercado europeu”. Uma lei de ferro que transcende esta conjuntura imediata, e que se repete todos os dias no mundo do petróleo e do gás, e em toda a “economia de mercado capitalista. 

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2 comentários

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Paulo

27 de abril de 2021 às 19h35

A posição da Alemanha nesse processo é a mais difícil de definir. Possivelmente porque nem os alemães sabem o que é melhor pra eles, neste momento: inclinar-se para a Ásia, vinculando-a à UE (não esqueçamos da Nova Rota da Seda, idealizada por Pequim), ou permanecer ligada ao Ocidente. À discussão política subjaz a econômica, o que só complica a questão, e qualquer escolha promete ter consequências de longa duração. A Europa, que já foi o centro do mundo, tende cada vez mais à dependência…

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Netho

27 de abril de 2021 às 18h04

A diferença é que o Tio Sam tem de sambar na frigideira moscovita e berlinense; bem diferentes do que fazia na Guatemala de Árbenz com a “United Fruit”.
Uma coisa são o petróleo e o gás russos; outra coisa são as bananas das republiquetas bananeiras.
O melhor que Biden pode fazer é garantir uma saída honrosa, diferentemente do que se viu obrigado a fazer no Iraque, Síria, Afeganistão e Vietnam.
José Luís Fiori é um dos melhores, senão o melhor e mais erudito, estudioso da geopolítica mundial no Brasil.

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