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Gilberto Maringoni: A chacina do Rio tem dois alvos, os pobres e o STF

Por Redação

08 de maio de 2021 : 09h54

Por Gilberto Maringoni

É BEM PROVÁVEL QUE A MATANÇA cometida pela Polícia Civil do Rio de Janeiro no Jacarezinho envolva uma operação muito maior e mais ousada do que a ação-surpresa que mobilizou 250 soldados, dois caveirões e dois helicópteros.

E que o alvo vá além dos 24 moradores dizimados com armas de grosso calibre. Tudo indica que, pelas movimentações de Jair Bolsonaro e a defensiva que enfrenta, duas táticas tenham sido deflagradas para emparedar as instituições democráticas do país e tirar o capitão das cordas.

Não comento aqui as táticas militares numa ofensiva que, segundo o governo do estado, “foi pautada por um longo trabalho de inteligência por dez meses”. Falta-me instrumental teórico e empírico para adentrar esse terreno, mas ação alguma planejada ao longo de tanto tempo pode resultar em extermínio semelhante. Comento o viés político da operação. Vamos a eles.

ONDE ESTAMOS EXATAMENTE NESSES DIAS?

Numa quadra em que o governo se vê acuado por uma decisão do STF que indicou a abertura de uma CPI no Senado, para apurar desmandos, absurdos, omissões e iniciativas francamente genocidas do presidente da República. A ele se somam “seu Exército” ( oficiais recrutados para o expediente na Esplanada), e o beneplácito de uma aliança que envolve pastores picaretas e parasitas incorretamente denominados de “setor empresarial”.

A montagem da CPI na Câmara Alta – com Renan Calheiros na relatoria -, a desastrosa fuga do general Pazuello, as intervenções atabalhoadas de seus auxiliares mais próximos – Ramos, Guedes e Mourão -, a hecatombe econômica e social que leva o país ao abismo, entre outras trapalhadas, tiraram do mandatário o poder de pautar a agenda nacional. Em português claro, o deixa em péssima situação. Some-se a isso, a presença cada vez mais marcante de Lula na cena nacional, e temos o caldo entornando para o lado do boçal.

DIANTE DISSO, BOLSONARO SENDO BOLSONARO partiu para a balbúrdia. Ataca em várias frentes, com ameaças de não realizar eleições ano que vem e com a tentativa – frustrada – de colocar multidões nas ruas no 1o. de maio. Até aqui, dá tudo errado: Pazuello deve ser fritado como um hambúrguer do 02 e as ameaças oficiais já não funcionam.

O capitão decidiu mover uma peça maior no tabuleiro. Partiu para o terror miliciano, e para um banho de sangue. Afinal, o que seriam mais duas dezenas de cadáveres perante uma média diária de mais de três mil?

O presidente desloca-se ao Rio na quarta-feira, para uma conversa com o governador. Não se sabe o que conversam. Pode ser tudo; pode ser nada. Na madrugada seguinte, a Wermacht da Polícia Civil do Rio ocupa o Jacarezinho. Toca-se o devido terror.

Onde está a confluência da pauta policial/miliciana com a pauta política? Vejamos.

PARA ALÉM DAS EXECUÇÕES QUE CHOCAM O MUNDO, é possível rastrear seu impacto na seara institucional. Qual o alvo principal?

O STF, que mesmo pusilânime, dá trabalho ao Planalto. A primeira tentativa, no início da semana, foi fazer andar na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara um projeto que facilita o impeachment de membros daquela colenda Corte. Baldados esforços, a coisa empacou. Aí a decisão oficial parece ter sido a terapia de choque.

Há um alvo visível. Existe uma determinação do STF, de 5 de junho do ano passado, na qual o ministro Edson Fachin concedeu liminar solicitada pelo PSB, que pedia a suspensão de operações policiais nas comunidades do Rio de Janeiro enquanto perdurar a pandemia. A medida não impede ações, mas sua deflagração só pode acontecer em situações extraordinárias, que devem ser justificadas por escrito imediatamente ao Ministério Público do estado.

AS MOVIMENTAÇÕES DAS FORÇAS DE SEGURANÇA começaram ainda na madrugada do dia 6 de maio. O MP do Rio esclareceu que a operação foi comunicada ao órgão às 9h00, portanto depois de iniciada, o que é para lá de irregular. Segundo o Jornal Nacional, o MP afirma que “a realização de operações policiais não requer prévia autorização por parte do MP, mas a comunicação de sua realização e justificativa”. É estranho, mas assim foi feito.

Ao fim da quinta do terror, com os cadáveres ainda quentes, as forças de segurança vêm a público explicar o ocorrido. Rodrigo de Oliveira, subsecretário operacional da Polícia Civil concede uma entrevista coletiva, na qual afirma:

“Todos os protocolos exigidos pelo STF foram cumpridos, sem exceção. Há que se discutir o que se entende por excepcionalidade. Alguns podem até considerar uma aberração. Houve muito confronto dentro da comunidade. A gente tá tratando de um negócio que talvez até seja superior à questão da excepcionalidade. (…). A polícia civil não vai se furtar para que a sociedade de bem tenha seu direito de ir e vir garantido”.

SIM, SOCIEDADE DE BEM. De bem. Anotado. Sim, quem decide o que é excepcionalidade agora é a polícia e não o MP. Continua o oficial:

“De um tempo para cá, por conta de algum ativismo judicial que está hoje muito latente na discussão social a gente foi de alguma forma impedido ou minimamente dificultada a atuação da polícia em algumas localidades (sic). O resultado disso nada mais é do que o fortalecimento do tráfico. Quanto menos você age, quanto menos se faz presente, o tráfico vai ganhando mais poder (…) e avançando cada vez mais na sociedade organizada”.

SIM, A EXPRESSÃO “ATIVISMO JUDICIAL” tem destinatário certo, o ministro Facchin e o Supremo. É esse órgão que exerce “ativismo judicial” que coloca em risco a “sociedade de bem”. Anotado.

Para que ativismo judicial se os eruditos dirigentes da Polícia Civil do Rio já têm a sentença na ponta da língua, sem burocracia ou enrolação? É o que externa sem rodeios o delegado Felipe Curi, na mesma coletiva:

“Os 24 mortos, os 24 criminosos mortos, diga-se de passagem, não tem nenhum suspeito aqui, a gente tem é criminoso, bandido, traficante e homicidas, porque eles tentaram matar os policiais”.

STF, deixe de mimimi, a gente julga aqui, na lata. E o que vai valer é o fato consumado, das mortes, do sangue, dos pretos apavorados, do morro em pânico. Mais do que tudo, fodam-se vocês engravatados. Estamos com o nosso capitão. Não vai ter eleição sem voto em papel e o meu Exército vai para cima de vocês, cuzões.

Delegados, governador do Rio e Bolsonaro resolveram trucar, navegando em poças de sangue. Na Bolívia deu certo por um tempo, há dois anos.

A chantagem vai prosperar ou o STF e o Congresso mostrarão que ainda têm espinhas dorsais?

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7 comentários

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Valeriana

08 de maio de 2021 às 14h02

Se não foram no Vib=vendas da Barra não pegaram os donos do produto vendido no Jacarezinho.

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Willy

08 de maio de 2021 às 11h39

De onde saiu esse destrambelhado ?

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alex

08 de maio de 2021 às 10h57

Quem escreveu esse monte de asneiras tem claros problemas cognitivos ou mentais.

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    Osvaldão

    09 de maio de 2021 às 12h04

    Não tinha pensado nisso, meu caro bolsonarista, simpatizantes das milícias protofascistas.Parabéns pela sua percepção.

    Responder

Zulu

08 de maio de 2021 às 10h47

Agora o traficante armado de fuzil é o moçinho e o policial é o assasino ?

Nao é uma inversao de valores ?

Alias..como esses sujeitos estavam armados de fuzis de guerra e bombas se o estatuto do desarmamento està em vigor ? Via entender né…

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Valeriana

08 de maio de 2021 às 10h42

Esse fuzil da foto é oda policia ou dos traficantes ?

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Valeriana

08 de maio de 2021 às 10h42

Os traficantes sao vermes covardes que usam as favelas e os moradores para se esconder e fazer os prorpios negocios.

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