Mais de 70% dos eleitores já estão decididos sobre o voto presidencial, diz DataFolha

Bolsonaro em mais um "passeio de moto" com apoiadores hoje, no Rio de Janeiro: sem máscara e com aglomeração. Foto: Pilar Olivares / Reuters

Fase aguda

Por Pedro Breier

23 de maio de 2021 : 15h40

Apesar da diferença de posturas – Ernesto Araújo esteve amedrontado e gaguejante, enquanto Eduardo Pazuello exibiu uma certa arrogância fora de propósito – a estratégia dos, respectivamente, ex-ministros das relações exteriores e da saúde do governo Bolsonaro em seus depoimentos na CPI da Covid foi parecida: eximir o presidente da república de qualquer responsabilidade sobre as decisões que levaram o Brasil ao caos sanitário.

É, convenhamos, uma tarefa inglória.

As teorias da consiparação sobre a China, por exemplo, e a determinação de que Pazuello suspendesse a compra da Coronavac – “decisão minha”, disse Bolsonaro na ocasião – são públicas, registradas, eternizadas. Mas Araújo disse que os incidentes diplomáticos, inclusive os protagonizados pelo próprio ministro, não interferiram na relação com a China – apesar da paralisação na produção das vacinas por conta da interrupção do envio de insumos pelo país asiático.

Pazuello, por sua vez, disse que a ordem do presidente de suspender a compra da vacina chinesa foi apenas uma “declaração de internet” – decerto uma nova modalidade de ato administrativo de mentirinha cuja função é causar furor e radicalizar a base eleitoral do agente público que a profere. Sobre a questão mais grave de todas, que é a demora na compra das vacinas da Pfizer, o ex-ministro afirmou e reafirmou coisas como “negociamos o tempo todo” e “sempre respondemos a Pfizer”. A enrolação caiu por terra com a revelação de que o governo ignorou nada mais nada menos que dez e-mails da farmacêutica entre agosto e setembro de 2020.

Mesmo que os ex-ministros tivessem falado somente a verdade, nada mais que a verdade, haveria motivos contundentes para retirar Bolsonaro da cadeira presidencial. Ambos deram a entender que o presidente não lhes passava qualquer comando ou orientação estratégica para a luta contra a Covid-19. Pazuello afirmou que se reunia com Bolsonaro semanalmente ou quinzenalmente quando esteve à frente da saúde.

Não é um espanto que, no meio da maior crise de saúde da história brasileira, o presidente passe duas semanas sem se reunir com seu ministro da saúde, enquanto faz coisas importantíssimas como inaugurar estradas e participar de cerimônias festivas? Há ainda a falta de oxigênio em Manaus: Pazuello admitiu que Bolsonaro decidiu não intervir no estado quando as coisas colapsavam. Impeachment é, realmente, muito pouco.

As evidências cristalinas dos crimes de Bolsonaro, a indigência mental e emocional dos senadores bolsonaristas, a disposição dos senadores não governistas para a briga e as críticas pesadas que a grande mídia vem fazendo ao presidente indicam, na minha opinião, uma possibilidade bastante considerável de que a CPI deságue em um processo de impeachment. Além disso, a direita tradicional precisa que Bolsonaro seja afastado para ter alguma chance nas eleições de 2022, uma vez que Lula já carimbou seu passaporte para o segundo turno.

A chamada terceira onda – que deve ser um tsnumani, já que está partindo do patamar brutal de 2 mil mortes diárias – será mais gasolina na fogueira em que o governo Bolsonaro está sendo lentamento cozinhado. Os estrategistas do presidente, comandados por Carluxo, trabalham pra que o governo saia do processo apenas chamuscado; a outra opção é a incineração completa.

A tática principal é, como ficou claro nos últimos movimentos de Jair Bolsonaro, radicalizar. Na última sexta (21), por exemplo, o presidente se dirigiu ao Maranhão e aglomerou-se com uma pequena multidão. Sem máscara. Foi autuado pelo governo do estado e xingou o governador Flávio Dino.

A tendência é que esse tipo de enfrentamento público entre Bolsonaro e outros agentes políticos se repita com cada vez mais frequência – e agudez. A esquerda está chamando atos de rua pelo Fora Bolsonaro no dia 29/05. Os atos podem contribuir para a deterioração da popularidade do presidente, especialmente se forem utilizados como arma narrativa pelos grandes veículos de mídia. Ainda assim, diante do tsunami pandêmico que está se armando, não me parece a coisa mais sensata a se fazer agora.

A questão é matemática: quanto menos aglomerarmos e quanto antes Bolsonaro deixar seu cargo, menos pessoas vão morrer no Brasil. Que todos os cidadãos e agentes políticos de bom senso mantenham esses fatos em mente nas próximas semanas e meses.

Pedro Breier

Pedro Breier nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo. É formado em direito e escreve n'O Cafezinho desde 2016, sendo atualmente um dos editores do blog.

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11 comentários

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Aiaiai

24 de maio de 2021 às 12h33

Essa matemática deve ser de classe média pra cima, deve trabalhar sem sair de casa, sem pegar ônibus, metrô, deve ter até água encanada.

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Valdeci Elias

24 de maio de 2021 às 09h21

Os familiares de uma vítima, podem perdoar o assassino, más não impedir a investigação e punição do crime pelo Estado. Os eleitores de Bolsonaro , podem perdoa-lo pela incompetência na luta contra a epidemia, na associação com a Milícia, nos casos de corrupção e desvio do dinheiro público , más o Estado não pode fechar os olhos e fingir que está acontecendo nada.

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Paulo

23 de maio de 2021 às 20h00

A estratégia de defesa de Bolsonaro é estúpida, mas, paradoxalmente, deixa também a CPI numa situação incômoda. Aceitas como verdades as mentiras de Pazuello, Ernesto e outros que virão, terão os senadores que se valer delas para inculpar o Capetão por omissão, o que soaria a disparate e daria ao presidente da República uma narrativa política plausível de perseguição, já que tanto o relator como o presidente da Comissão já rotularam de mentirosas, essas declarações (e não é crível condenar-se alguém com base em mentiras, travestidas, oportunística e arbitrariamente, nesse caso, de verdades, para fins acusatórios). Além de, é claro, ser desmoralizante para a própria CPI, tal estratégia. Por outro lado, se não aceitas como verdades essas mentiras dos depoentes, teria que se extrair de depoimentos truncados a tese de acusação, o que é uma estratégia sempre temerária, pois poderia ser revista no STF. Acho que a saída documental, baseada nos e-mails da Pfizer, se de fato existirem, é o melhor caminho (talvez o único, se não surgirem provas ou declarações mais concretas)…

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Willy

23 de maio de 2021 às 17h12

Fase aguda de desespero da esquerda que achava que Bolosnaro com a pandemia perderia apoio, tentaram explorar politicamente os cadaveres a moda terceiro mundista mas não deu muito certo…

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Pururuca

23 de maio de 2021 às 16h39

E o impeachment Pedrinho…? Desistiu ?

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Galinze

23 de maio de 2021 às 15h54

A Pfeizer, sabendo que o Brasil é um grande mercados e um País de imbecis (ou pensando que a esquerda estivesse ainda no poder onde com certeza rolaram propinas) tentou vender milhões de doses de uma vacina que nem sequer existia e com as condições que eles queriam.

Para a compra da mesma seria necessário o aval do Congresso, coisa que na época não havia.

O Brásil está vacinando normalmente, em vários casos bem mais que países europeos.

Fim da narrativa e do circo da CPI .

Façam oposição com fatos e não com narrativas… não levam a nada

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    Kleiton

    23 de maio de 2021 às 21h32

    Circo Parlamentar de Inquerito.

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Ronei

23 de maio de 2021 às 15h49

A questão é matemática: quanto menos aglomerarmos e quanto antes Bolsonaro deixar seu cargo…Kkkkkk

A manifestação já sabem que será um fracasso, quer dizer isso com a desculpa da pandemia ?

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Kleiton

23 de maio de 2021 às 15h46

Mais uma manifestação hoje a favor do governo….essa semana sai outra pesquisa com Bolsonaro que não chega ao segundo turno e as esquerdetes que se molham as calcinhas….kkkkkkkkkkk

Acordem…!!

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Ugo

23 de maio de 2021 às 15h44

Sim Pedrinho, de tanto chutar um dia você acerta uma….kkkkkk

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