Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Bolsonaro recupera votos na classe média, mas aumenta rejeição entre mais instruídos

Por Miguel do Rosário

12 de julho de 2021 : 15h29

A última pesquisa Datafolha não foi boa para Bolsonaro, porque a vantagem de Lula sobre o presidente se ampliou: era de 18 pontos em maio, e passou para 21 pontos em julho.

Os 46% de Lula correspondem a mais de 50% dos votos válidos, e portanto significaria uma vitória em primeiro turno do petista.

Entretanto, uma análise dos números estratificados da pesquisa deveria acender o sinal amarelo nos estrategistas da oposição.

Antes de passar aos números, lembro do alerta do professor Jairo Nicolau, em seu livro sobre as eleições de 2018, de que os dados estratificados das pesquisas eleitorais costumam ser mais imprecisos, com maior margem de erro, do que os números totais. Então precisaremos aguardar uma outra pesquisa Datafolha, que deve sair em setembro, para confirmar algumas tendências apontadas nesta análise.

Por amor ao debate, todavia, vamos encarar os números como corretos. O máximo dano que poderíamos causar, em caso desses números não serem confirmados mais adiante seria nos deixar mais alertas do que o necessário. Mas o ditado popular nos ensinou há muito tempo que prudência e caldo de galinha não faz mal a ninguém.

O sinal amarelo deveria ser acionado, como ia dizendo, por causa da recuperação expressiva de Bolsonaro junto a faixas de renda que reputo estratégicas para a dinâmica da opinião pública: a classe média. Veremos isso a seguir.

***

Segundo a pesquisa Datafolha divulgada há alguns dias, as intenções de voto em Bolsonaro caíram entre as famílias de baixa renda (inferior a 2 salários), que representam 57% do eleitorado.

Nas faixas seguintes, porém, o desempenho de Bolsonaro melhorou.

Entre famílias com renda entre 2 e 5 salários, que representam 31% do eleitorado, a pontuação de Bolsonaro cresceu 4 pontos, passando de 29 para 33 pontos. Lula cresceu dois pontos nessa faixa, passando de 34% para 36%.

Nas faixas com renda entre 5 e 10 salários, que representam 8% do eleitorado, as intenções de voto em Bolsonaro dispararam 11 pontos, passando de 30% para 41%.  Lula perdeu 5 pontos nesse mesmo segmento, saindo de 26 para 21 pontos. Ainda nesse  setor social, que considero estratégico, por sua presença muito forte nas redes sociais, Ciro pontuou 11%, oscilando 1 ponto para cima, e Doria, 5 pontos, 2 a mais do que na pesquisa anterior.

Entre os eleitores com renda familiar superior a 10 salários, Bolsonaro também aparece bem à frente do ex-presidente Lula: o sociopata corrupto tem 36%, contra 22% de Lula, e cresceu 12 pontos. Lula, por sua vez, cresceu 4 pontos neste segmento. Ciro, que pontuou 13% em maio, recuou para 10%. João Doria apresentou uma boa performance junto a essa faixa mais rica do eleitorado, quase dobrando sua pontuação, que agora é de 15%.

Rejeição

Lula ainda tem um problema sério de rejeição junto a classe média, mas a sua sorte é que, à diferença de 2018, o seu principal adversário, que é o mesmo, agora também enfrenta um problema grave junto aos mesmos segmentos.

Segundo o Datafolha, a rejeição eleitoral a Lula (eleitores que responderam que não votariam nele de jeito nenhum) é de 37%, contra 59% de Bolsonaro e 31% de Ciro. Em maio, a rejeição dos três principais candidatos era de, respectivamente, 36%, 54% e 24%. Chama a atenção, portanto, o crescimento de 7 pontos da rejeição a Ciro (o que nem sempre é um dado negativo, pois indica também aumento de visibilidade).

A rejeição da Bolsonaro entre as mulheres é impressionante: chegou a 63% em julho, um crescimento de 4 pontos sobre a pesquisa anterior. Lula reduziu sua rejeição entre mulheres de 35% para 33%. Ciro viu sua rejeição entre mulheres crescer 6 pontos, de 21% para 27%.

Bolsonaro também enfrenta um severo problema de rejeição entre os eleitores mais instruídos: entre aqueles com ensino médio, 58% disseram não votar nele de jeito nenhum. Lula tem rejeição de 40% entre eleitores com ensino médio.

Entre eleitores com ensino superior, a rejeição a Bolsonaro chegou a 61%, contra 49% de Lula e 31% de Ciro.

Voltando às faixas de renda, o calcanhar de aquiles de Lula é sua rejeição de 59% entre famílias com renda entre 5 e 10 salários; na mesma faixa, Bolsonaro tem rejeição de 47%, e Ciro, de 34%.

Conclusão

É provável que boa parte dessa variação positiva de Bolsonaro junto à classe média se deva a ausência de Sergio Moro na disputa, pois o ex-ministro da justiça tinha o seu melhor desempenho justamente nesses segmentos. Caso seja este o motivo, então não se trataria exatamente de uma tendência, mas de uma reacomodação dos eleitores.

A escalada dos escândalos de corrupção envolvendo o próprio presidente da república, como o vazamento de áudio que resgata as práticas de “rachadinha”, ou desvio de verba de gabinete, no tempo em que Bolsonaro era deputado, além daqueles relativos à compra de vacinas, também devem afetar o desempenho de Bolsonaro junto a classe média, muito suscetível a esse tipo de denúncia.

Mas é bom ficar de olho aberto.

De qualquer forma, como já destacamos na outra análise, o esvaziamento de Bolsonaro está se dando principalmente de baixo para cima. Entre cidadãos com renda familiar até 2 salários, que respondem por 57% do eleitorado total, Lula cresceu 10 pontos, passando de 47% para 57%, ao passo que Bolsonaro perdeu 2 pontos, estacionando em 18%. A vantagem de Lula nesse setor é de quase 40 pontos.

Outro fator tranquilizante para Lula é a rejeição altíssima de Bolsonaro entre eleitores mais instruídos, o que é indicativo de que essa rejeição vai prevalecer na classe média.

Como aprendemos na física, a energia de qualquer sistema apenas afeta o mundo a seu redor após a neutralização das forças contrárias. Ou seja, a rejeição de Lula na classe média é hoje neutralizada pelo repúdio muito maior a Bolsonaro junto aos eleitores mais instruídos.

A melhora do desempenho de Bolsonaro entre eleitores de classe média e mais instruídos sinaliza mais uma dificuldade para a terceira via. A esta altura, seria muito importante, para abrir caminho a uma alternativa a Bolsonaro, que o presidente estivesse minguando ao menos entre os setores mais instruídos, que em tese se informam mais e estão cientes dos escândalos que envolvem o governo.

Abaixo, mais alguns gráficos que os internautas podem achar interessantes.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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5 comentários

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Bruno Aguiar

13 de julho de 2021 às 14h48

Premissa 1: aumento da popularidade do Bolsonaro entre a classe média e os mais instruídos.
Premissa 2: segmentos que tendem a ser dos mais bem informados.
Premissa 3: nas últimas semanas, vieram à tona diversas notícias sobre escândalos de corrupção no governo, na família e no gabinete do presidente.
Conclusão: se a popularidade do Bolsonaro não voltar a cair nesses segmentos, a verdade é que a corrupção de fato nunca foi uma preocupação para a classe média, é só uma retórica vazia mesmo.

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Querlon

13 de julho de 2021 às 12h58

Recuperando coisa nenhuma, só perde apoio, exceto o cercadinho do gado.

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Duilio

13 de julho de 2021 às 08h01

Bozo já é um defunto político, resta saber quem vai substitui-lo.

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Querlon

12 de julho de 2021 às 19h23

Folha e Globo perderam completamente o limite do ridiculo, jà entraram em campanha eleitoral.

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Duilio

12 de julho de 2021 às 18h28

Lula saiu da boca do povo hà anos.

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