Cafezinho das 3: por que as manifestações de domingo floparam?

Rodrigo Perez: E depois do fogo na estátua? Acontece o quê?

Por Redação

27 de julho de 2021 : 13h47

Por Rodrigo Perez

Um grupo de pessoas sem representar nenhum movimento social organizado, nenhum partido político ou entidade de classe, decide atear fogo em um monumento localizado em espaço público. É claro que entendo perfeitamente a simbologia do ato.

Você, que está aqui me lendo, provavelmente entende também. Fazemos parte da mesma comunidade letrada e compartilhamos valores políticos semelhantes.

Mas e quem tava passando de ônibus pelo local na hora, entende? Como esse tipo de ato pode ser usado pelas forças políticas do atraso pra jogar a população contra as forças progressistas?

E se alguém tivesse se machucado? Pessoa sem nenhuma relação com o ato que estivesse ali na ocasião. Uma criança, talvez. Quem assumiria a responsabilidade?

Em qual plenária a ação foi deliberada? Quem responde pelo ato? Quais são as lideranças?

Outra questão importante:

Não raro, a força é usada como instrumento político. Particularmente, não gosto quando isso acontece. Tenho a democracia como valor em si. Uma das funções da democracia é exatamente conter os conflitos dentro da institucionalidade democrática, impedindo que descambem em violência.

Aí um grupo, sabe-se lá quem, sabe-se lá falando em nome de quem, resolve atear fogo no monumento. Tá bom, beleza! E se outro grupo, com outros interesses políticos e simbólicos, resolve fazer o mesmo?

Exemplo:

Um grupo de 30 pessoas, reunindo PMs, lutadores de MMA, tocam fogo na estátua de Zumbi. Ou se reúnem pra defender a estátua do Borba Gato.

Quem tem mais know-how de violência? Quem tem mais condições de ferir e matar? Em palavras mais diretas: quem é melhor de porrada? Quem bate mais forte?

Quando se lança mão da violência como arma política, é necessário estar pronto para o enfrentamento direto. Há de se conhecer os riscos. Aqueles que atearam fogo na estátua do bandeirante estão prontos? Treinados?

Eu ainda prefiro os trâmites da democracia: organizar a sociedade civil, mobilizar os representantes legislativos pra remover o monumento. Gosto desse papo de porradaria na rua não. Como professor universitário e historiador profissional, desestimulo esse tipo de mobilização. Não vai ser o meu corpinho que estará em risco se a situação fugir do controle.

É fácil fácil estimular a catarse da garotada protegido pela tela do celular, sem estar em campo exposto aos riscos.

Percebam! Não se trata de defender monumento, muito menos o personagem monumenalizado. Trata-se de discutir os efeitos políticos de uma ação política. O problema das consequências é que elas vêm sempre depois. Agir sem cálculo é pra ingênuos. A ingenuidade é o pior dos vícios políticos.

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11 comentários

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Paulo

28 de julho de 2021 às 18h50

Atentado direcionado para atingir as memórias paulista e paulistana e causar, para pespegar os supostos criminosos da história (e seus supostos descendentes), que deram ao Brasil 2/3 do seu território. Mais ou menos como Erundina, que, quando prefeita, desapropriou a Mansão Matarazzo e ali criou o Museu do Trabalhador, de forma intencionalmente provocativa, para contrapor o imigrante ao migrante…Assim é a esquerda…

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Alexandre Neres

28 de julho de 2021 às 18h30

Tenho respeito pelo Rodrigo Perez, porém quis fazer um contraponto. Será que assistiremos calados transeuntes perderem a vista e manifestantes serem agredidos pela polícia bolsonarista enquanto grande parte fica chocada com vitrines de bancos e multinacionais serem quebradas? Que país é este? Aceitaremos passivamente a prisão do líder dos entregadores Paulo Galo por causa da estátua de Borba Gato, considerando que ele e a esposa se predispuseram a colaborar? Será que nós branquinhos e burgueses eternamente iremos cagar regras para a turma da Revolução Periférica? Como sempre, estou com Mano Brown: “Procure saber o porque ….. mas preciso dizer antes de mais nada ; GANHEI O ANO ! Essa estátua è uma Afronta aos nossos ancestrais indígenas ! Burn baby burn !!”

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EdsonLuiz.

28 de julho de 2021 às 13h29

Kleyton,

Você escrveu : “Você queima um crack né… so pode” (sic).

Kleiton, você pode elaborar um pouco mais, por favor? Só com essa fala eu não o entendi.

Elabore mais o que você quer me dizer. Se não vai ficar parecendo com um ataque. E ataque parecido com os que alexandre bolsonéres me faz (ele faz a outros também). A diferença serå apenas que ele ataca quando desmascaram Lula e o PT. Diz que são meias verdades, diz que é coisa de falso moralista, em outras ele troca e diz que é coisa de moralista.

Estou aguardando!
Abraço!

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Kleiton

28 de julho de 2021 às 12h04

Acontece o mimimi do gado, rs.

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Alexandre Neres

28 de julho de 2021 às 02h05

Publicado originalmente no Facebook do Pensar a História:

Destruir monumentos nunca foi um problema no Brasil. Basta que sejam os monumentos certos.

O Monumento Eldorado Memória, projetado por Oscar Niemeyer para homenagear os dezenove sem-terra mortos durante o Massacre de Eldorado do Carajás, foi destruído apenas duas semanas depois de sua inauguração.

Nunca foi reerguido.

O Memorial 9 de Novembro, também de Oscar Niemeyer, construído em memória dos três trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional mortos pelo Exército Brasileiro durante a Greve dos Operários de 1988, foi destruído no dia seguinte à sua inauguração.

O problema só ocorre quando se destroem os símbolos que glorificam a elite.

A destruição dos raros monumentos erguidos em memória da classe trabalhadora nunca suscitou indignação ou falsos debates sobre “preservação da história”.

https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/boaventura-as-estatuas-do-nosso-desconforto/

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EdsonLuiz.

27 de julho de 2021 às 18h11

Quem brinca com fogo pode se queimar!

É muito bom que vozes serenas profissionais e livres de fanatismos elaborem sobre as fogueiras, para que se evite contratempos. Precisamos elaborar sobre as fogueiras sociais, e também sobre as fogueiras com fogo no sentido básico dessa palavra, fogo mesmo, produto reativo às milhares, milhões de fogueiras sociais que ardem no corpo e na alma da sociedade. O Rodrigo Perez elabora muito bem sobre isso neste post. Eu, mesmo me identificando totalmente com o que elabora Rodrigo Perez, faço outras ponderações.

Eu, como alguns outros, receio que não muitos, sou aderente à democracia como valor permanente, absoluto. Para fazer valer meu conceito de democracia, não o relativizo.

Quem brinca com fogo pode se queimar. Fogos reais ou metafóricos, os dois fogos podem ser incendiários e intercambiáveis. E podem deixar a sociedade carburada. Disso sobrará entulhos esturricados, dissociados.

Fogo não serve para tudo. Na verdade, o fogo serve para poucas coisas, mas onde o fogo se aplica, ele é fundamental.

A técnica do fogo é uma péssima opção como fertilizante, esterilizando o solo que sofre os seus efeitos. Se a técnica do fogo houver que ser usada, tem-se que atentar para que seu uso seja feito com muita parcimônia, sempre consciente de que o fogo é para uso muito pontual e apenas quando o seu uso for inevitável.

Em algumas vezes, em poucas, em pouquíssimas vezes, o uso do fogo serve para evitar que se forme um grande e grave incêndio.

Quando abrem espaço no mato, queimam, e criam um espaço sem material combustível para propagar o fogo, incêndios graves não acontecem. E assim, o fogo serviu de prevenção contra incêndios. Nesses casos, o fogo preventivo serve para que a terra não arda em uma grande fogueira.

Nesses momentos históricos de tantos gravetos sociais, com o deboche público provocando queimaduras no corpo e na alma dos humilhados, que veem o deboche que sofrem homenageado até em estátuas, em debochada afronta à democracia, peço aos que ardem com as dores do mundo para evitarem, se possível, o uso do fogo. Mas se o uso do fogo for inevitável para quebrar a inércia política que perpetua o deboche e impede o avanço e a distribuição da democracia, peço que usem o seu fogo social com muita responsabilidade. Mas não escolho a forma de usarem o fogo social.

Eu sempre vou compreender os que se desesperam, quando teem motivos os seus desesperos, e usam o fogo contra os que não recolhem a lenha que incendeia as almas.

Mais incendiários são os debochados!

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    Kleiton

    27 de julho de 2021 às 22h28

    Você queima um crack né… só pode.

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    EdsonLuiz.

    27 de julho de 2021 às 23h20

    Por favor : onde está escrito “teem”, risquem e queimem. No lugar, considerem ” têm”.

    Responder

Fanta

27 de julho de 2021 às 16h17

“Um grupo de pessoas sem representar nenhum movimento social organizado, nenhum partido político ou entidade de classe.”

Eu acho que são agentes da Cia infiltrados na Lava Jato que ficaram no Brasil desempregados e querendo comprometer a esquerda novamente…kkkkkkkkkkkkkkkk

Essa esquerda tupiniquim é uma piada sem fim…

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Kleiton

27 de julho de 2021 às 16h12

“Um grupo de pessoas sem representar nenhum movimento social organizado, nenhum partido político ou entidade de classe…”

Como assim, esses animais que fazem baderna em todas as manifestações de esquerda são o que ? Kkkkkkk

A teoria dos infiltrados não funciona mais ? Ou querem mentir como sempre achando que alguém ainda acredita ?

Qualquer besteira conseguem associar a Bolsonaro logo de repente….a cada 4 segundos bolsonaristas aqui, bolsonaristas ali, bolsonaristas fizeram isso e aquilo e agora não sabem quem faz essas cagadas nas manifestações de esquerda ?

Quem colocou fogo nos ministérios em 2017 com as camisas do MST eram o que ? Paus mandados de quem…? Não sabem….?

Ataque a democracia são quatro imbecis que falam besteiras sobre o STF…? Será que esse é um ato “antidemocrático” como gostam de tentar vender isso inutilmente ?

Entendem o quanto são ridículos de hipócritas, de falsos e trogloditas ?

O problema é que o dinheiro para financiar o aparato acabou e o monopólio da informação também por tanto não vão conseguir impor mais nada aos brasileiros.

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William

27 de julho de 2021 às 15h21

Esquerdismo é isso, nada mais.

Os animais que fizeram essa asneira andam com as costas quentes pois sabem que sempre terá alguém da laia deles tentando justificar e os defendendo.

O MST colocou fogo nos Ministérios e ninguém de esquerda se posicionou contra, pelo contrário.

Em todos ou quase os atos dessa esquerda terceiromundista brasileira há violência, é um dado de fato.

O asno do irmão do Ciro Gomes tentou esmagar um grupo de manifestantes mas ao invés de condenar o ato troglodita e violento o transtorno mental esquerdofrenico inventou de justificar a barbárie como “escavadeira antifascista”.

A ideologia faz isso nas cabeças fracas de quem se deixa idiotizar mais do que já é de berço.

Marx não era um filósofo mas um fino psicólogo que entendeu como transformar idiotas em militantes cegos pela eternidade.

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