O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, tem elevado o tom contra a Eritreia, reacendendo temores de um novo conflito armado no Chifre da África. Laureado com o Prêmio Nobel da Paz em 2019 por seus esforços de reconciliação com o país vizinho, Ahmed agora parece preparar a nação para um confronto.
Em um evento recente realizado em um estádio lotado na capital etíope, ele exibiu tanques, aviões de combate e tropas, buscando galvanizar o apoio popular para uma possível ofensiva. O discurso beligerante do líder etíope tem como pano de fundo a ambição de garantir acesso ao Mar Vermelho, atualmente controlado pela Eritreia.
A Etiópia, considerada o país mais populoso da África sem saída para o mar, com mais de 120 milhões de habitantes, vê no corredor marítimo uma questão estratégica. Abiy Ahmed declarou que ‘o Mar Vermelho e a Etiópia não podem ser separados’, uma afirmação que gerou alarme em Asmara, capital da Eritreia, onde se teme uma invasão.
Em resposta, o governo eritreu também mobilizou suas forças e divulgou um vídeo de propaganda afirmando que ‘o Mar Vermelho é nosso’. Essa troca de provocações tem intensificado a tensão na região, que já viveu décadas de hostilidade entre os dois países.
Um marco na relação bilateral ocorreu em 2018, quando ambos os governos assinaram um acordo de paz, encerrando formalmente um conflito que durou de 1998 a 2000 e deixou dezenas de milhares de mortos. No entanto, os avanços diplomáticos estão sob ameaça.
A jornalista etíope Tsedale Lemma, fundadora do jornal Addis Standard, alertou para o risco de um conflito por procuração, considerando as alianças regionais complexas. Enquanto o Sudão tem demonstrado apoio à Eritreia em meio à sua própria guerra civil, a milícia Forças de Apoio Rápido (RSF), que atua no Sudão, estaria alinhada a interesses etíopes, embora essas dinâmicas permaneçam fluidas e marcadas por rivalidades internas no território sudanês. Países como Egito, Somália e Emirados Árabes Unidos também têm interesses na região, o que pode ampliar o alcance de um eventual confronto.
A memória de conflitos recentes ainda pesa sobre a população. Entre novembro de 2020 e novembro de 2022, a Etiópia, com apoio da Eritreia, enfrentou a região de Tigray em uma guerra devastadora que resultou em centenas de milhares de mortes e deslocou milhões de pessoas. Dados de agências internacionais apontam que cerca de 800 mil indivíduos ainda estão fora de suas casas devido às consequências desse embate.
Agora, há temores de que outras regiões etíopes sejam arrastadas para a disputa atual, especialmente diante de denúncias de que a Eritreia estaria financiando grupos rebeldes na Etiópia, algo que Asmara nega categoricamente.
A situação no Chifre da África exige um acompanhamento atento, já que tanto Addis Abeba quanto Asmara afirmam não desejar um novo conflito, mas mantêm posturas de confronto. Um incidente isolado pode ser suficiente para desencadear hostilidades abertas, com impactos que vão além das fronteiras dos dois países. Como destacou um relatório da Al Jazeera, a disputa pelo acesso ao Mar Vermelho é apenas a ponta de um iceberg de rivalidades históricas e interesses geopolíticos que continuam a moldar a região.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!