Em fevereiro de 2026, o Brasil bateu seu recorde histórico de produção de petróleo e gás natural: 5,304 milhões de barris de óleo equivalente por dia. Desse total, 4,061 milhões foram de petróleo — um aumento de 16,4% em relação a fevereiro de 2025 — e o restante correspondeu ao gás natural, com produção de 197,6 milhões de metros cúbicos por dia, alta de 24,5% na mesma comparação. O pré-sal respondeu por 80,2% de toda a produção, totalizando 4,243 milhões de barris de óleo equivalente por dia. O campo de Tupi, na Bacia de Santos, foi o maior produtor nacional tanto de petróleo quanto de gás.
Onde o Brasil se posiciona no mundo
Em petróleo bruto, o ranking mundial de 2025 foi liderado pelos Estados Unidos (13,58 milhões de barris por dia), seguidos pela Rússia (9,87 milhões) e pela Arábia Saudita (9,51 milhões). O Canadá ficou em quarto (4,94 milhões), seguido por Iraque (4,39), China (4,34) e Irã (4,19). O Brasil, com média de 3,74 milhões em 2025, saltou para 4,06 milhões em fevereiro de 2026, encostando no Irã e na China.
A Venezuela, que possui as maiores reservas provadas do planeta, produz menos de 1 milhão de barris por dia — resultado de décadas de sanções e, mais recentemente, da intervenção militar norte-americana que capturou Nicolás Maduro no início de 2026.
Com a produção do Irã severamente comprometida pela guerra em curso desde 28 de fevereiro, o Brasil já ocupa de fato a sétima posição entre os maiores produtores de petróleo do mundo. E caminha para ultrapassar o Canadá até o final da década, segundo projeções do setor.
O gás natural como segunda fronteira
O recorde de fevereiro não foi apenas de petróleo. A produção brasileira de gás natural também atingiu seu maior nível histórico, com 197,6 milhões de metros cúbicos por dia — o equivalente a aproximadamente 72 bilhões de metros cúbicos por ano. Para efeito de comparação, os maiores produtores mundiais de gás são os Estados Unidos (cerca de 1.033 bilhões de m³/ano), a Rússia (630 bilhões), o Irã (263 bilhões), a China (248 bilhões) e o Canadá (194 bilhões).
O Brasil ainda está distante dos gigantes do gás, mas o crescimento é acelerado: a produção de gás subiu 24,5% em apenas um ano. Grande parte desse gás é associado ao petróleo do pré-sal, e sua exploração comercial vem ganhando escala com a entrada de novas plataformas FPSO e investimentos em infraestrutura de escoamento. O gás natural representa uma fronteira estratégica para o Brasil, tanto para reduzir a dependência de importações de GNL quanto para alimentar a indústria petroquímica e a geração de energia.
A guerra e o choque energético
Esse desempenho ganha dimensão ainda mais significativa diante do cenário geopolítico atual. Em 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram a Operação Epic Fury contra o Irã, um ataque surpresa em meio a negociações nucleares que resultou na morte do líder supremo Ali Khamenei e de dezenas de autoridades militares. O Irã retaliou com ondas de mísseis e drones contra Israel, bases americanas e infraestrutura energética dos países do Golfo.
O Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, sofreu um fechamento de fato. A EIA estima que as interrupções de produção no Oriente Médio chegaram a 7,5 milhões de barris por dia em março, com projeção de pico de 9,1 milhões em abril. O preço do Brent saltou para uma média de US$ 103 por barril em março, chegando a quase US$ 128 no início de abril.
O Brasil sofre com a inflação importada. O presidente Lula foi obrigado a mobilizar mais de R$ 30 bilhões em subsídios para amortecer o impacto. Mas o país está em posição incomparavelmente melhor do que a maioria: é superavitário na balança de petróleo e não depende das rotas do Golfo para abastecer sua produção.
A China, maior importadora mundial de petróleo (11,6 milhões de barris por dia em 2025), é uma das grandes perdedoras do conflito. Cerca de 17% das suas importações vinham do Irã e da Venezuela. Não por acaso, as exportações brasileiras de petróleo para Pequim cresceram 26,5% no acumulado de 12 meses, saltando de US$ 19,1 bilhões para US$ 24,2 bilhões. A China já absorve 41,3% de todas as exportações brasileiras de petróleo.
O peso do petróleo nas exportações brasileiras
Nos 12 meses encerrados em março de 2026, o Brasil exportou US$ 58,6 bilhões em petróleo e derivados, o equivalente a 16,6% de todas as exportações brasileiras. Há dez anos, essa participação era de apenas 6,4%. O petróleo tornou-se o principal item da pauta exportadora do país.
Os Estados Unidos foram o segundo maior destino (US$ 5,9 bilhões), seguidos por Singapura (US$ 4,4 bilhões), Holanda (US$ 3,2 bilhões) e Espanha (US$ 3,2 bilhões).
O petróleo brasileiro do pré-sal é leve, com baixo teor de enxofre e uma das menores intensidades de carbono do mundo. O custo de extração fica abaixo de US$ 40 o barril, com projeções de queda para até US$ 28.
O paradoxo do diesel
Apesar de toda essa potência produtiva, o Brasil carrega uma contradição estrutural que o torna vulnerável exatamente ao tipo de choque que estamos vivendo.
Nos 12 meses encerrados em março de 2026, o país importou US$ 10,3 bilhões em óleo diesel — cerca de 300 mil barris por dia, quase 7,5% de toda a produção nacional de petróleo sendo devolvida ao mercado internacional na forma de compra de derivados.
O diesel é o combustível que move a frota de caminhões, base de toda a circulação interna de mercadorias. Quando seu preço sobe no mercado internacional, a inflação se espalha por toda a cadeia produtiva: do frete ao alimento, do insumo industrial ao produto final na prateleira.
E de onde vem esse diesel? A Rússia é a principal fornecedora, responsável por 45,4% do total (US$ 4,7 bilhões), seguida pelos Estados Unidos, com 32% (US$ 3,3 bilhões). Índia, Arábia Saudita e Emirados Árabes completam o quadro.
O preço da Lava Jato
O Brasil ainda paga o preço da Lava Jato.
A operação desorganizou profundamente o setor de óleo e gás, paralisando investimentos estratégicos e inviabilizando o plano de expansão do parque de refino nacional. O Comperj, a refinaria Abreu e Lima, a Premium I no Maranhão e a Premium II no Ceará — todos esses projetos foram paralisados ou drasticamente reduzidos.
Se tivessem sido levados adiante, o Brasil poderia hoje estar em outra posição. Em vez de importar mais de US$ 10 bilhões em diesel por ano, poderia estar exportando derivados.
Desde 2016, o país já gastou cerca de US$ 80 bilhões na importação de diesel. Recursos que poderiam ter sido investidos na construção de refinarias, na geração de empregos e no fortalecimento da soberania energética.
O desafio que resta
O Brasil reúne hoje condições que pouquíssimos países possuem: reservas abundantes, tecnologia de exploração avançada, produção de petróleo e gás em expansão simultânea e custo de extração entre os mais baixos do planeta.
O desafio está na retomada de uma política industrial capaz de reconstruir o parque de refino e reduzir a vulnerabilidade externa. Sem isso, o país continuará exportando petróleo bruto em larga escala enquanto importa, a preços elevados e sujeitos à volatilidade geopolítica, os combustíveis de que depende para funcionar.
Num mundo em que guerras imperialistas redesenham as rotas do petróleo e a energia se torna instrumento de poder, a soberania energética não é luxo.










Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!