Pesquisadores identificaram pela primeira vez evidências físicas concretas de cães pelados peruanos no sítio arqueológico de Castillo de Huarmey. Esse centro funerário e administrativo do Império Wari esteve ativo aproximadamente entre 600 e 1050 d.C.
A equipe analisou um total de 341 ossos de cães recuperados no local. Pelo menos três indivíduos apresentaram traços compatíveis com a mutação genética FOXI3, responsável pela ausência de pelagem e pela falta congênita de alguns dentes.
As amostras foram datadas entre 688 e 870 d.C. e incluem um crânio mumificado pintado com cinábrio, além de um esqueleto adulto com sinais evidentes da condição genética. Esses materiais representam a primeira confirmação zooarqueológica da presença real desses animais no contexto Wari.
Anteriormente, a existência da raça era conhecida apenas por meio de representações artísticas e iconográficas. A nova pesquisa modifica essa narrativa ao entregar bases materiais diretas sobre o convívio entre humanos e esses cães especiais na sociedade antiga.
A análise isotópica dos ossos demonstrou que os cães pelados peruanos recebiam dietas semelhantes às oferecidas a crianças Wari durante a infância. Essa evidência aponta para cuidados diferenciados e para uma tradição de criação que valorizava o animal de forma particular.
Os cães também foram recuperados em contextos funerários associados a restos humanos. Em várias sepulturas, eles aparecem junto a indivíduos enterrados com troféus, ferramentas ou mesmo na companhia de adolescentes.
Esses padrões de associação reforçam o papel simbólico e espiritual dos animais na cultura Wari. A escassez de marcas de corte ou de consumo humano indica que eles não eram utilizados como alimento nem submetidos a sacrifícios rotineiros.
Em vez disso, os cães parecem ter ocupado posição de companheiros e de entidades dotadas de valor ideológico. Essa perspectiva ganha força com os achados e permite reconstruir aspectos da vida e das práticas rituais do Império Wari.
O estudo, publicado no Journal of Anthropological Archaeology, detalha as metodologias de análise empregadas. Ele pode ser consultado na íntegra por meio do portal ScienceDirect, que disponibiliza o artigo científico completo.
Embora o número de exemplares identificados seja pequeno, a constância dos sinais genéticos e osteológicos confere robustez às conclusões. Os pesquisadores destacam que novas escavações serão essenciais para determinar se a prática era generalizada ou restrita a elites e contextos cerimoniais.
Trabalhos futuros de zooarqueologia e arqueobotânica já estão programados para Huarmey. Esses esforços devem aprofundar o conhecimento sobre alimentação, relações sociais, rituais e o vínculo simbólico entre humanos e cães na região.
A descoberta amplia de maneira significativa a história dos cães como companheiros espirituais e símbolos culturais no Peru pré-colombiano. Os achados permitem entender com maior precisão como esses animais eram integrados ao cotidiano e à espiritualidade das sociedades andinas antigas.
Com informações de phys.org.
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