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Putin alerta que hegemonia ocidental cai e Sul Global ascende

47 Comentários🗣️🔥 O presidente russo Vladimir Putin em pronunciamento, com o logotipo do governo da Rússia ao fundo. (Foto: Wikimedia Commons) O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que a hegemonia ocidental está em declínio e que o Sul Global está ganhando força no cenário global. Em uma mensagem em vídeo transmitida aos participantes do […]

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O presidente russo Vladimir Putin em pronunciamento, com o logotipo do governo da Rússia ao fundo. (Foto: Wikimedia Commons)

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que a hegemonia ocidental está em declínio e que o Sul Global está ganhando força no cenário global. Em uma mensagem em vídeo transmitida aos participantes do Fórum Diálogo Aberto, o líder russo destacou que uma nova arquitetura mundial, mais complexa e multipolar, está se consolidando diante dos olhos da comunidade internacional.

Putin enfatizou que os Estados que priorizam a soberania nacional em todas as dimensões — política, econômica, cultural e social — estão assumindo um papel cada vez mais central nas relações internacionais. Ele apontou que essas nações agora têm a capacidade de definir seu próprio caminho de desenvolvimento, guiadas por seus valores, recursos e prioridades específicas.

Conforme relatado pelo portal Sputnik International, o presidente russo observou que os modelos tradicionais de negócios e relações internacionais estão se tornando obsoletos. Para ele, essa transformação é impulsionada, em parte, pelas ações dos próprios países ocidentais, que estariam abdicando de sua influência e permitindo o surgimento de novos centros de crescimento econômico e político.

O líder do Kremlin também comentou que os eventos recentes evidenciam uma mudança irreversível em todos os aspectos do desenvolvimento global, abrangendo economia, finanças, tecnologia e demografia. Essa transição, segundo Putin, reflete o esgotamento de um sistema centrado no Ocidente e a emergência de uma ordem internacional mais equilibrada e inclusiva.

Putin defendeu que o progresso sustentável no mundo só será alcançado por meio de princípios de igualdade e respeito mútuo entre as nações. Ele argumentou que nenhum país pode prosperar de forma isolada ou construir seu futuro às custas de outros, advogando por uma cooperação internacional que contemple os interesses de todos os povos.

O discurso do presidente russo reforça a visão de um mundo multipolar, no qual potências emergentes como China, Índia e Brasil, além de outras nações do Sul Global, assumem maior protagonismo. Essa perspectiva está alinhada aos objetivos do grupo BRICS, que busca reformular instituições financeiras e comerciais globais, diminuindo a dependência do dólar e dos mecanismos de controle ocidentais.

Para Moscou, o declínio da hegemonia ocidental representa uma oportunidade histórica de estabelecer um sistema internacional mais justo e representativo. A Rússia tem promovido a criação de novas plataformas de cooperação que valorizem a diversidade cultural e os interesses regionais, rompendo com a lógica unipolar que predominou após a Guerra Fria.

O pronunciamento de Putin ocorre em meio a um cenário de reconfiguração geopolítica, marcado por tensões entre o Ocidente e o bloco euroasiático. Conflitos econômicos, sanções e disputas tecnológicas entre grandes potências aceleram a transição para um mundo onde o Sul Global se posiciona como protagonista de seu próprio destino.

Ao destacar a importância da soberania e da igualdade entre os Estados, Putin reitera a narrativa de que o futuro da governança global dependerá da colaboração entre os países emergentes. Para o Kremlin, essa cooperação é a fundação de uma nova era de multipolaridade que redefine o equilíbrio de forças no século XXI.


Leia também: Putin critica hegemonia ocidental e destaca ascensão do Sul Global


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Letícia Fernandes

28/04/2026

Ana Souza, você tocou no ponto nevrálgico da questão. O que vemos nesse pronunciamento de Putin é a tentativa de um capitalismo de Estado autoritário de se apresentar como alternativa ao imperialismo ocidental, quando na verdade o que está em jogo é uma reconfiguração da divisão internacional do trabalho. A Rússia vende commodities e armas, o Brasil exporta soja e minério, a China industrializa. O Sul Global ascende, sim, mas ascende dentro da mesma lógica de exploração de classe que sempre caracterizou o capitalismo. A diferença é que agora os centros de acumulação primitiva se deslocam para Moscou, Pequim e Brasília, enquanto a periferia do Sul Global — que é a maioria da população mundial — continua sendo espoliada.

O discurso de Putin é particularmente cínico porque ele fala em hegemonia ocidental como se a Rússia não fosse parte constituinte dessa mesma civilização burguesa que ele critica. A Rússia de hoje é um país que aboliu direitos trabalhistas, que persegue sindicatos, que transformou a economia em um cassino para oligarcas do petróleo e do gás. Quando ele fala em “multipolaridade”, está na verdade pedindo espaço na mesa dos exploradores, não uma transformação radical das relações de poder. É a mesma lógica do Brasil de Lula: queremos um assento no Conselho de Segurança da ONU, não a extinção do Conselho de Segurança.

Carlos Oliveira, você está certo ao lembrar do agronegócio. Enquanto esses senhores da geopolítica discutem o fim da hegemonia ocidental em fóruns luxuosos, o MST continua sendo criminalizado, os povos originários continuam sendo expulsos de suas terras, e o trabalhador rural brasileiro continua recebendo salário de fome. A ascensão do Sul Global é uma cortina de fumaça para esconder que, no fundo, o capitalismo continua o mesmo: uma máquina de produzir miséria para a maioria e riqueza para uma minoria. A única diferença é que agora a minoria pode ser russa, chinesa ou indiana, além de americana e europeia.

O que me preocupa profundamente é ver setores da esquerda brasileira aplaudindo esse discurso sem a menor crítica. Há uma espécie de infantilismo geopolítico que acredita que qualquer inimigo dos Estados Unidos é automaticamente nosso amigo. Putin não é nosso amigo. O Partido Comunista Chinês não é nosso amigo. São burguesias nacionais que disputam mercado e influência, exatamente como fizeram as potências europeias no século XIX. A única saída real para o povo brasileiro, para o povo russo, para o povo ucraniano, é a superação do capitalismo como sistema. Enquanto isso não acontecer, a hegemonia pode mudar de mãos, mas a opressão continua a mesma.

Ana Souza

28/04/2026

Pedro Neto, é por aí mesmo. Enquanto o discurso geopolítico troca de mãos, o preço do arroz na feira continua subindo e o frete do fertilizante russo chega na conta do produtor brasileiro. A ascensão do Sul Global pode ser real, mas a pergunta que fica é: quem desse Sul vai se beneficiar de fato? Até agora, a impressão que dá é que a elite de cada país vai continuar se dando bem, independente de quem manda no mundo.

Pedro Neto

28/04/2026

Enquanto isso, o Brasil continua importando fertilizante russo e exportando soja, mas quem vai continuar pagando a conta é o povo na fila do osso.

Mariana Lopes

28/04/2026

Carlos A. Mendes, você foi direto ao ponto. O Putin discursa contra a hegemonia ocidental enquanto constrói a própria hegemonia autoritária nos arredores. Acho curioso como esse pessoal que aplaude o discurso anti-imperialista esquece que a Rússia também tem seus próprios interesses geopolíticos bem claros. No fim, a tal ascensão do Sul Global parece mais uma troca de figurinhas do que uma verdadeira mudança de jogo.

Carlos A. Mendes

28/04/2026

Carlos Oliveira, você tem razão em desconfiar. O Putin vende um discurso bonito sobre o fim da hegemonia ocidental, mas é o mesmo cara que bombardeia civis na Ucrânia e fecha a boca de oposição na Rússia. Enquanto isso, aqui no Brasil a gente vê o agronegócio e a política econômica seguindo o receituário que sempre favoreceu quem já está no topo. Esse “Sul Global” parece mais uma cortina de fumaça para interesses geopolíticos do que uma alternativa real para o trabalhador.

Carlos Oliveira

28/04/2026

Julia, você tocou no ponto mais sensível de todos. Enquanto a elite russa discute o fim da hegemonia ocidental nos salões do BRICS, aqui no interior de Minas o que a gente vê é o avanço do agronegócio sobre a reforma agrária e o trabalhador perdendo direito. Esse discurso de Sul Global vira cortina de fumaça se não vier acompanhado de política concreta para o povo brasileiro.

Julia Andrade

28/04/2026

Jeferson, você trouxe a contradição mais concreta de toda essa thread. Esse discurso de Sul Global soa muito bem nos palácios do Kremlin e nos fóruns de BRICS, mas quando a gente desce para o chão da fábrica, da CLT sendo desmontada, do trabalhador que perdeu direito, a pergunta que fica é: que Sul Global é esse que não consegue garantir dignidade mínima pra sua própria população? Não é à toa que o Brasil virou plataforma de exportação de commodities enquanto importa insegurança jurídica e trabalhista.

O ponto que o João tentou defender — sobre o colapso da ordem liberal — tem um fundo de verdade acadêmica que a realidade material desmente. Sim, a hegemonia ocidental está em crise, mas crise não é sinônimo de colapso. O que a gente vê é uma reconfiguração violenta do capitalismo global, onde o Sul Global entra como fornecedor de matéria-prima e mão de obra barata, não como protagonista de uma nova ordem. O Putin pode discursar sobre o fim do Ocidente, mas a Rússia vende gás e armas, não constrói alternativas reais de desenvolvimento para os países periféricos.

O problema mais profundo é que a esquerda brasileira, em grande parte, comprou essa narrativa geopolítica sem fazer a autocrítica necessária. Enquanto a gente aplaude o declínio dos EUA e da Europa, a vida real do trabalhador brasileiro piora: reforma trabalhista, precarização, juros altos, fome voltando. O discurso anti-imperialista vira cortina de fumaça para a ausência de projeto nacional. Não adianta a Rússia ou a China questionarem a ordem liberal se aqui a gente continua reproduzindo a mesma lógica de exploração, só que com outros parceiros comerciais.

O que me preocupa é que essa conversa de Sul Global vira um fetiche intelectual que nos impede de olhar para o óbvio: a desigualdade interna do Brasil é o maior obstáculo para qualquer inserção soberana no mundo. Enquanto a gente não resolver o problema da distribuição de renda, da reforma agrária, da educação pública de qualidade, qualquer alinhamento geopolítico será apenas mais uma camada de retórica sobre uma base podre. O declínio do Ocidente pode ser real, mas a ascensão do Sul Global, do jeito que está sendo conduzida, só está trocando seis por meia dúzia.

Jeferson da Silva

28/04/2026

João Silva, você até tenta dar uma de intelectual, mas colapso da ordem liberal? O que eu vejo aqui na fábrica é ordem liberal demais, patrão demais querendo acabar com a CLT. Esse papo de Sul Global é bonito no discurso do Putin, mas enquanto isso o Brasil vira plataforma de exportação de commodities e a gente perde direito todo dia. Hegemonia cai? Tomara, mas se for pra trocar seis por meia dúzia, fico com os meus direitos na carteira assinada.

Carlos Meirelles

28/04/2026

Luciana, você tenta dar um ar de sofisticação ao que é só velho desejo russo de controle. O declínio da hegemonia ocidental não é fato consumado, é narrativa vendida por quem perdeu a Guerra Fria e agora tenta se reerguer às custas de países como o Brasil. Enquanto isso, aqui em casa, o que sobra desse “Sul Global” é inflação, falta de liberdade econômica e um Estado que só sabe gastar.

    João Silva

    28/04/2026

    Carlos, você confunde a descrição de um processo histórico com adesão a ele — ninguém aqui está fazendo apologia ao Putin, estamos tentando entender por que a ordem liberal entrou em colapso antes mesmo da guerra na Ucrânia. Dizer que o declínio ocidental é “narrativa” é ignorar que o G7 já responde por menos de 30% do PIB global e que o BRICS ampliado supera o PIB do clube rico, isso não é desejo russo, é dado do FMI.

Luciana Costa

28/04/2026

Maria Silva, você tem razão em desconfiar de discursos grandiosos que não se traduzem em melhora concreta na vida do cidadão. Mas acho que a questão é mais complexa: o declínio da hegemonia ocidental é um fato geopolítico observável, independente de gostarmos ou não do Putin. O problema não é constatar a mudança, mas sim o Brasil não ter projeto próprio nesse novo tabuleiro — ficamos oscilando entre alinhamentos ideológicos enquanto a conta chega no supermercado.

Maria Silva

28/04/2026

Cíntia, você tocou no ponto que ninguém quer encarar: esse discurso de “Sul Global” é bonito no palanque, mas na prática a gente vê o Brasil se alinhando com regimes autoritários enquanto o cidadão de bem paga a conta. Não precisa ser especialista em geopolítica pra perceber que o barato sai caro.

Cíntia Alves

28/04/2026

A real, Lucas, seu comentário é um prato cheio pra quem gosta de teoria, mas na prática a Marina tem um ponto que incomoda: enquanto a gente discute hegemonia e Sul Global, o custo de vida aqui não espera o fim do debate. Não dá pra abraçar discurso antiocidental sem encarar que muitos desses países do tal Sul Global são tão autoritários quanto qualquer potência ocidental.

Marina Costa

28/04/2026

Gabriel Teen, você tem 15 anos e já entendeu o que muitos adultos se recusam a ver. Enquanto a esquerda brasileira aplaude Putin e chama o Ocidente de decadente, o trabalhador honesto aqui está vendo o preço do pão subir e a gasolina corroer o salário mínimo. O Sul Global que eles pregam é o mesmo que defende aborto, ideologia de gênero e perseguição a cristãos. Geopolítica sem Deus e sem família é só conversa fiada pra esconder a carestia que a gente enfrenta todos os dias.

    Lucas Pinto

    28/04/2026

    Marina, seu comentário cristaliza exatamente o tipo de operação ideológica que Gramsci descreveria como hegemonia cultural travestida de senso comum. Você transforma a carestia real do trabalhador brasileiro em munição para um discurso que, no fundo, defende a mesma ordem que produz essa carestia. Não há contradição maior do que culpar a crítica ao Ocidente pelo preço do pão, enquanto o sistema que você defende — o mesmo que precariza salários, desmonta direitos e mantém o Brasil como exportador de commodities baratas — é quem realmente corrói o poder de compra do trabalhador. O discurso de Putin sobre o declínio ocidental não é uma abstração de ar-condicionado: é a constatação material de que o centro do capitalismo global está em crise, e essa crise se transfere para a periferia via juros altos, dólar forte e inflação importada. O problema não é a geopolítica, é a geopolítica que você se recusa a enxergar.

    Agora, quando você diz que o Sul Global defende aborto, ideologia de gênero e perseguição a cristãos, você está fazendo o que Foucault chamaria de captura discursiva: pegar pautas morais que, na verdade, são instrumentos de controle das elites ocidentais e jogá-las como se fossem a essência de qualquer crítica ao capitalismo. A esquerda que você critica não aplaude Putin por ser um defensor da família tradicional — Putin é um oligarca nacionalista que usa a Igreja Ortodoxa como braço do Estado, exatamente como Bolsonaro usou os evangélicos. O Sul Global não é um bloco moral homogêneo; é o conjunto de países que sofreram e ainda sofrem com o colonialismo, o imperialismo e a dívida externa imposta pelo Ocidente. Reduzir essa luta a uma guerra cultural contra cristãos é ignorar que a própria noção de “cristianismo ocidental” foi usada para justificar o genocídio de povos inteiros na América Latina e na África.

    Você diz que geopolítica sem Deus e sem família é conversa fiada. Pois eu digo: a família que você defende é a mesma que, sob o capitalismo, se desestrutura quando o pai é demitido porque a fábrica fechou, ou quando a mãe não consegue sustentar os filhos porque o salário mínimo não cobre nem o aluguel. Deus não paga conta de luz, Marina. A fé pode dar conforto, mas não muda a correlação de forças que faz com que o Brasil exporte soja a preço de banana enquanto importa diesel a preço de ouro. O trabalhador honesto que você invoca está sendo usado como escudo por quem quer manter exatamente esse sistema. Se você realmente se importa com o preço do pão e a gasolina, deveria perguntar por que o Brasil, um dos maiores produtores de alimentos e petróleo do mundo, não consegue controlar os próprios preços. A resposta não está em Moscou nem em Brasília sozinha: está na lógica do capital financeiro que drena recursos do Sul para o Norte. Mas isso, claro, exige uma análise que vai além do pânico moral.

Gabriel Teen

28/04/2026

Beto Engenheiro, falou tudo, enquanto o Putin discursa no ar-condicionado o povo aqui tá vendo o etanol subir e o salário murchar, geopolítica não paga boleto.

Beto Engenheiro

28/04/2026

Pois é, João Carvalho, mas o problema é que enquanto a gente discute de que forma reformar o sistema tributário, o custo Brasil já comeu metade do orçamento da obra. O Sul Global pode até ascender, mas aqui no Espírito Santo a burocracia para licenciar uma estrada ainda leva mais tempo que a Guerra Fria inteira.

Lucas Moreira

28/04/2026

Ana, você resumiu o que ninguém aqui quer encarar: enquanto o pessoal debate geopolítica no ar-condicionado, o empreendedor e o trabalhador autônomo estão na linha de frente pagando a conta desse atraso cambial. O Sul Global pode até estar subindo, mas aqui o custo Brasil continua sendo o maior inimigo do pequeno empresário — e isso não se resolve com discurso de soberania, se resolve com menos imposto e mais liberdade para quem produz.

    João Carvalho

    28/04/2026

    Lucas, você tem razão ao apontar o custo Brasil como um problema concreto e imediato, mas cuidado para não cair numa falsa dicotomia: a crítica ao neoliberalismo não nega a urgência de reformar o sistema tributário e reduzir a burocracia — o que precisamos é discutir de que forma fazer isso sem aprofundar a desigualdade que já sufoca o pequeno empresário.

Ana Rodrigues

28/04/2026

Pois é, João Martins, você falou bonito, mas enquanto o Sul Global sobe e a hegemonia cai, aqui em Curitiba eu continuo rodando 12 horas por dia pra pagar conta. Teoria é linda, mas na prática o que segura o motorista é o preço do etanol e a taxa do aplicativo. O Putin fala bonito no palanque, mas quem vai sentir essa ascensão no bolso mesmo?

João Martins

28/04/2026

João Batista, você trouxe um contraponto necessário, mas acho que subestima o peso estrutural da questão. O problema não é apenas “monopólio do dólar” — é que o sistema Bretton Woods inteiro foi desenhado para perpetuar a vantagem dos países centrais. Dados do Banco Mundial mostram que, entre 1960 e 2020, a participação do G7 no PIB global caiu de 61% para 44%, enquanto o BRICS saltou de 11% para 31%. Isso não é ruído de conjuntura, é uma reconfiguração tectônica. A fala de Putin pode ter seu viés óbvio — ele está tentando vender a narrativa russa num momento de isolamento —, mas os números não mentem: a concentração de poder econômico está se deslocando para o Indo-Pacífico e a África, e isso tem implicações reais na correlação de forças.

O ponto que a thread parece evitar é que o “Sul Global” não é um bloco coeso. China, Índia, Brasil, Arábia Saudita e África do Sul têm agendas conflitantes — basta ver o que aconteceu na reunião do BRICS sobre expansão, onde a Índia vetou a entrada do Paquistão. O que Putin chama de “ascensão” é, na prática, uma multipolaridade caótica, onde cada polo busca maximizar seus próprios interesses. O Ocidente perdeu o monopólio da narrativa, mas isso não significa que o novo arranjo seja mais justo. A China, por exemplo, tem um histórico de financiamento de infraestrutura na África que, segundo estudo da Universidade de Boston, gerou mais endividamento do que desenvolvimento em vários países.

Marcus Almeida, você tocou num nervo importante sobre a esquerda brasileira e pautas identitárias, mas acho que o diagnóstico é incompleto. A dependência do dólar é real, mas a solução não é simplesmente “romper com o Ocidente” — isso seria trocar uma dependência por outra. O Brasil precisa de autonomia tecnológica e industrial, e isso não se resolve com discurso geopolítico. O que me preocupa é que, enquanto a elite política brasileira debate se o mundo é multipolar ou não, a Coreia do Sul já está produzindo 60% dos chips de memória do planeta e o Vietnã virou hub de manufatura. Nós estamos discutindo hegemonia enquanto perdemos o bonde da quarta revolução industrial. Se o Sul Global vai ascender de fato ou apenas trocar de patrão, depende de decisões concretas sobre investimento em P&D, reforma tributária e educação — não de declarações em fóruns.

Marcus Almeida

28/04/2026

Ronaldo, você falou uma verdade que poucos têm coragem de admitir: o preço do combustível e a inflação que o trabalhador sente todo dia são fruto direto dessa dependência econômica do Ocidente. Enquanto a esquerda brasileira defende pautas identitárias e esquece de combater o monopólio do dólar e a exploração estrangeira, o Sul Global acorda. É hora de o Brasil olhar para a Rússia, a China e os BRICS, e não para Washington e Bruxelas, que só querem nos manter como colônia.

    João Batista

    28/04/2026

    Marcus Almeida, amado, o senhor acertou na ferida, mas cuidado pra não jogar o bebê fora com a água do banho. A luta contra o monopólio do dólar é sim uma causa justa, como o profeta Amós denunciava os que vendem o justo por prata e o pobre por um par de sandálias; mas pautas identitárias também são defesa dos oprimidos, e a esquerda não pode escolher entre combater a exploração estrangeira e cuidar dos que são espezinhados aqui dentro — Jesus acolhia a todos, do leproso ao endividado, sem separar o pão da justiça.

Ronaldo Silva

28/04/2026

Pois é, Marcos, você tocou num ponto que eu vejo todo dia no carro. O passageiro reclama do preço da gasolina, do imposto, e eu falo: “amigo, isso é herança de séculos de exploração”. O Sul Global crescer é bom, mas enquanto a gente ficar refém de dólar e de taxa de juros lá de fora, a conta quem paga é o povo brasileiro no suor do volante.

Marcos Andrade Niterói

28/04/2026

Cecília, você tem toda razão. A hipocrisia do Ocidente é o que mais me revolta como urbanista: o mesmo discurso de “liberdade” que justifica bombardeios no Oriente Médio é o que corta verba pra mobilidade urbana aqui no Rio. Enquanto isso, o Sul Global — com Niterói dando exemplo com o túnel Charitas-Cafubá — mostra que é possível pensar desenvolvimento sem subserviência ao FMI. Claro que Putin não é santo, mas se o sistema unipolar está ruindo, que venha um mundo multipolar de verdade.

Cecília Ramos

28/04/2026

Francisco, você tocou num ponto que me dói na alma como cristã: o mesmo Ocidente que se diz “defensor da democracia” apoiou sanguinários no Brasil, no Chile, na Argentina. E ainda tem gente que acha que “valores cristãos” combinam com imperialismo. O Sul Global não é santo, mas pelo menos não tem a hipocrisia de pregar liberdade com uma mão enquanto financia bombas com a outra. Que venha uma nova ordem mundial com menos fome e mais justiça, amém.

Francisco de Assis

28/04/2026

Luisa Teens, a menina é craque! O problema é que essa galera aí acha que o Ocidente é exemplo de democracia, mas esquece que foi o mesmo Ocidente que apoiou ditadura no Brasil, no Chile e na Argentina. O Sul Global não é perfeito, mas pelo menos não fica metendo o bedelho na soberania dos outros com desculpa de “defender a liberdade”. Putin tá certo: o mundo mudou, e quem não acordar vai ficar pra trás.

Luisa Teens

28/04/2026

Gente, o Capitão Tavares falando em “liberdade de expressão” enquanto defende um sistema que literalmente queima o planeta e explora o Sul Global há séculos é a piada do século. #ForaBolsonaro #SulGlobalAscende

Zé do Povo

28/04/2026

ISSO MESMO, PUTIN! 👏👏 CHEGA DE IMPERIALISMO AMERICANO! O OCIDENTE ACHOU QUE IA MANDAR NO MUNDO PRA SEMPRE! COMUNISTAS E ESQUERDISTAS DESTRUÍRAM NOSSAS FAMÍLIAS E AGORA QUEREM DITAR REGRA GLOBAL! SUL GLOBAL É O FUTURO! VOLTA VALORES TRADICIONAIS E FAMÍLIA CRISTÃ! FORA GLOBALISTAS! 😡🇧🇷

    Lucas Gomes

    28/04/2026

    Zé do Povo, sua fúria contra o imperialismo é legítima, mas misturar luta anticolonial com pânico moral contra comunistas e esquerda é cair na armadilha do próprio Ocidente, que sempre usou a família cristã como desculpa pra explorar o Sul Global. Se o Sul Global vai ascender de verdade, tem que ser com justiça social e ecológica, não com nostalgia de valores que sempre serviram pra manter pobres no lugar.

Capitão Tavares 🇧🇷

28/04/2026

Esse tal de Sul Global que o Putin tanto exalta é o mesmo bloco que abriga China, Rússia e Irã, regimes que matam opositores e perseguem cristãos. O Ocidente tem seus defeitos, mas pelo menos ainda há liberdade de expressão e eleições. Trocar a hegemonia americana pela chinesa ou russa não é ascensão, é trocar de tirano.

    Cecília Silva

    28/04/2026

    Capitão, com todo respeito, mas o Ocidente que o senhor defende é o mesmo que bombardeia crianças no Oriente Médio e fecha os olhos pra ditaduras no Golfo Pérsico porque o petróleo fala mais alto. Liberdade de expressão e eleições são bonitas no papel, mas aqui na favela a gente sabe que democracia que não põe comida na mesa é só fachada pra continuar explorando quem sempre foi explorado.

Cristina Rocha

28/04/2026

Vanessa, Tiago e João Batista, vocês três tocaram em pontos que merecem ser articulados com mais rigor teórico. A discussão sobre hegemonia ocidental e ascensão do Sul Global não pode ser reduzida a um embate entre “castigo divino” versus “geopolítica pragmática”. O que está em jogo aqui é a crise estrutural do capitalismo neoliberal e a falência do projeto civilizatório ocidental como universalizante. Quando Putin afirma que a hegemonia ocidental cai, ele não está fazendo um discurso moral ou religioso — está constatando um movimento histórico objetivo: a perda de centralidade dos Estados Unidos e da Europa como polos únicos de acumulação, decisão e produção de sentido.

O problema, meus caros, é que essa constatação não vem acompanhada de uma crítica ao caráter predatório do capitalismo russo. Putin é um estadista que defende os interesses de uma burguesia nacional autoritária, não um líder revolucionário. A ascensão do Sul Global, se não for acompanhada de uma agenda anticolonial e feminista, corre o risco de apenas reproduzir as mesmas hierarquias de exploração, agora com novos atores. O Brasil de Lula, a China de Xi, a Índia de Modi — todos esses países têm elites que se beneficiam da ordem global, mesmo que disputem a hegemonia com o Ocidente. A questão central, que ninguém aqui levantou, é: ascensão para quem? Para as mulheres? Para os povos originários? Para a classe trabalhadora do Sul Global?

Tiago, você tem razão ao lembrar que o Evangelho está do lado dos oprimidos. Mas precisamos ir além da teologia e entender que a opressão tem nome e sobrenome: patriarcado, racismo, capitalismo. O Sul Global que eu quero ver ascender não é aquele que apenas troca de patrão, mas aquele que constrói instituições democráticas, redistribui riqueza, garante direitos reprodutivos e reconhece a diversidade de gênero e sexualidade. Enquanto isso não acontecer, a fala de Putin será apenas mais um movimento tático num tabuleiro de xadrez geopolítico, e não uma promessa de libertação real.

Vanessa Silva

28/04/2026

Tiago Mendes, você foi cirúrgico. A galera que quer ver castigo divino em geopolítica esquece que o próprio Putin é um líder que usa a fé ortodoxa como ferramenta de Estado, não como bússola moral. Se o Sul Global realmente ascender, que seja com planejamento econômico e instituições fortes, não com discurso messiânico que só serve para justificar autoritarismo.

João Batista Alves

28/04/2026

A Ana Paula Conserva tocou num ponto que me fez pensar: será que essa tal ascensão do Sul Global não é, na verdade, um castigo de Deus por termos virado as costas para a família tradicional? O Ocidente perde força porque perdeu a fé, e agora querem colocar a culpa na geopolítica. Enquanto isso, a Rússia do Putin, que ao menos defende valores cristãos, fica de olho nesse vácuo moral.

    Tiago Mendes

    28/04/2026

    João Batista, com todo respeito, mas essa ideia de castigo divino por causa da família tradicional é um desserviço ao Evangelho. A Bíblia que leio mostra Jesus do lado dos pobres e oprimidos, não defendendo impérios que acumulam riqueza às custas dos vulneráveis. Se o Ocidente perde força, talvez seja porque seus valores nunca foram tão cristãos assim.

Caio Vieira

28/04/2026

Prezados leitores e leitoras deste fórum, permitam-me, na condição de quem já percorreu algumas estações na vida acadêmtica e testemunhou as metamorfoses do capitalismo tardio, acrescentar uma camada de análise a este debate tão fecundo. A fala do presidente Putin, longe de ser um mero exercício de retórica geopolítica, opera como um sintoma — um diagnóstico preciso daquilo que o gramsciano de plantão chamaria de crise de hegemonia. O bloco histórico ocidental, ancorado no que poderíamos denominar de uma ideologia do progresso linear e do excepcionalismo liberal, vê suas costuras se romperem justamente porque a materialidade das relações de produção e circulação de capitais já não corresponde mais à superestrutura política que o sustentava. O Sul Global não ascende por acaso; ele é o produto dialético das próprias contradições do império, um movimento telúrico que emerge das periferias do sistema-mundo.

A intervenção da colega Fernanda Oliveira, ao trazer a perspectiva dos corpos racializados e feminizados, é particularmente sagaz e merece um adensamento. Quando ela aponta que o fim da hegemonia ocidental pode enterrar o feminismo salvacionista, ela está, em termos bourdieusianos, denunciando a violência simbólica de uma universalidade falsa. O Ocidente sempre se pretendeu o sujeito universal da história, mas sua universalidade era, na prática, a particularidade do homem branco, proprietário e europeu. A ascensão do Sul Global, com sua multiplicidade de epistemologias e lutas — do buen vivir andino à economia de solidariedade africana —, representa a possibilidade de uma polifonia civilizatória. No entanto, e aqui resgato a ponderação do João Carlos da Silva, não podemos cair no engodo de uma terceiro-mundismo romântico. A hegemonia não se transfere como um bastão de revezamento; ela se reconstrói em novas bases, e o risco de vermos uma nova elite burocrática do Sul Global reproduzindo as mesmas práticas predatórias do capitalismo financeirizado é real e iminente.

Há, contudo, um ponto nevrálgico que a thread ainda não deslindou com a devida profundidade, e que toca diretamente naquilo que a Ana Paula Conserva, com sua perspectiva conservadora, menciona ao falar de valores cristãos. Não se trata, evidentemente, de endossar uma cruzada moral, mas de reconhecer que a crise ocidental é também uma crise de sentido. O materialismo histórico sempre nos ensinou que a infraestrutura econômica determina a superestrutura ideológica, mas Weber já nos advertia que as ideias, como agulhas nos trilhos da história, podem determinar o rumo dos interesses materiais. O que vemos é o esgotamento do ethos protestante do capitalismo — aquele espírito de acumulação ascética que deu origem à modernidade. O Ocidente, ao se tornar hedonista e financeirizado, perdeu sua própria força motriz. O Sul Global, por sua vez, carrega consigo outras cosmologias, outras formas de entender o tempo, o trabalho e a comunidade. A questão, meus caros, não é se o Ocidente vai cair, mas se o Sul Global será capaz de oferecer uma alternativa civilizatória que não seja mera cópia do modelo decadente, com outros nomes e bandeiras.

Por fim, devo saudar a lucidez da Marta, que nos lembra do chão da sala de aula e do Brasil concreto. Nós, aqui do lado de cá do Atlântico Sul, somos um caso de estudo fascinante. O Brasil é, simultaneamente, parte do Sul Global e uma economia que nunca rompeu completamente com sua condição de dependência. A nossa elite, como bem notou João Carlos, sempre preferiu fazer acordos com o capital financeiro internacional a construir um projeto nacional soberano. Portanto, a ascensão do Sul Global não é uma garantia, mas uma tarefa política — uma disputa de hegemonia no sentido mais lato do termo. Cabe a nós, intelectuais orgânicos e militantes da causa popular, articular as lutas concretas do nosso povo — do movimento sem-terra às cooperativas de catadores — com essa nova configuração geopolítica. A hegemonia ocidental cai, sim, mas a pergunta que fica é: que tipo de mundo estamos construindo sobre seus escombros? A resposta, meus amigos, ainda está sendo escrita nas trincheiras da história.

Ana Paula Conserva

28/04/2026

O João Carlos tem razão em nos trazer de volta à realidade. Esse papo de Sul Global como se fosse um bloco coeso e virtuoso é ilusão de quem nunca leu a história da América Latina. O que vejo é o Ocidente perdendo força justamente por ter abandonado os valores cristãos que o sustentaram, enquanto essas novas potências não oferecem nada além de pragmatismo sem Deus.

João Carlos da Silva

28/04/2026

A Marta trouxe um contraponto necessário ao entusiasmo geopolítico da thread. Quando o debate sobre a ascensão do Sul Global ignora que o Brasil segue sendo uma economia dependente, com sua elite atrelada ao capital financeiro internacional, corremos o risco de transformar uma análise materialista em mero fetiche por novos blocos de poder. Gramsci já nos alertava: hegemonia não se desfaz por decreto de cúpula, mas pela reorganização das relações de força na sociedade civil.

Marta

28/04/2026

Meus queridos, que alegria ver tanta gente jovem pensando sobre geopolítica! Mas, meninos e meninas, vamos com calma. A Fernanda ali em cima tocou num ponto que me fez lembrar das aulas que dava no estadual: quando a gente fala de Sul Global, não pode esquecer que o Brasil é parte disso, e não como coadjuvante. O Putin está certo ao dizer que a hegemonia ocidental está em declínio, mas isso não é novidade para quem estudou a Guerra do Vietnã ou a crise de Suez. O que me preocupa é ver alguns comentários tratando a Rússia como se fosse uma espécie de salvadora anti-imperialista, quando na verdade o que temos é um jogo de xadrez onde todas as peças têm interesses próprios. Lembrem-se do que o Celso Furtado escreveu sobre a periferia do capitalismo — não adianta trocar um patrão por outro.

O Helton, coitado, tentou puxar uma discussão teológica e moral, mas isso é coisa de quem nunca leu Caio Prado Júnior. A ascensão do Sul Global não é sobre aborto ou ideologia de gênero, meus filhos. É sobre a quebra do monopólio da violência e das finanças que os Estados Unidos e a Europa mantiveram desde o pós-guerra. Quando o Putin fala em declínio ocidental, ele está se referindo ao fato de que o dólar já não é mais a única moeda de reserva, que os BRICS estão criando alternativas ao FMI, e que a África está cansada de ser tratada como quintal das potências. Isso é materialismo histórico básico, coisa que a gente ensinava no segundo ano do ensino médio. Quem quiser entender melhor, recomendo a leitura do livro “A Nova Dependência” do Theotonio dos Santos.

Agora, sobre a Fernanda, que falou dos corpos racializados e feminizados: acertou em cheio, minha filha! Mas cuidado para não cair num discurso identitário que esquece a luta de classes. O fim da hegemonia ocidental pode sim abrir espaço para um feminismo mais interseccional, mas se não houver distribuição de renda e reforma agrária, de nada adianta. Eu vi isso na prática durante as greves dos professores em Minas: a polícia do Aécio Neves batia em todo mundo, independente de cor ou gênero. O que derruba a hegemonia não é discurso de Twitter, é organização popular e soberania nacional. O Lula entende isso, por isso defende a integração sul-americana e o fortalecimento dos BRICS.

Enfim, meninos mal-educados que espalham fake news sobre o governo Lula, fiquem quietinhos e vão estudar. O mundo está mudando, e quem não acompanhar vai ficar para trás como um dinossauro neoliberal. A hegemonia ocidental caiu porque o povo trabalhador do Sul Global acordou, e isso inclui o povo brasileiro que reelegeu Lula para mostrar que quer desenvolvimento com justiça social. Agora, se me dão licença, vou preparar meu café e terminar de ler o novo livro do Boaventura de Sousa Santos. Um abraço a todos e lembrem-se: história não é opinião, é ciência.

Fernanda Oliveira

28/04/2026

gente, toda essa thread discutindo hegemonia ocidental e ninguém parou pra pensar no que isso significa pros corpos racializados e feminizados do Sul Global? o fim da hegemonia ocidental não é só geopolítica, é a chance de enterrar de vez o feminismo branco e salvacionista que sempre tratou a gente como coitada pra ser resgatada. que venha um novo equilíbrio de poder, mas sem esquecer que dentro do Sul Global tem opressão de gênero e raça pra caralho também.

Renata Oliveira

28/04/2026

Helton, você toca num ponto real sobre a decadência ocidental, mas misturar isso com pauta de costumes como se fosse uma cruzada moral empobrece o debate. O Sul Global não é um bloco homogêneo de santos — tem regimes autoritários, corrupção e exploração também. A questão é que o mundo está se reequilibrando, e precisamos de diálogo sincero, não de triunfalismo de um lado ou do outro.

Helton Barros

28/04/2026

O velho ditado nunca foi tão verdadeiro: quem não chora não mama. O Ocidente se achou o dono do mundo, impondo aborto, ideologia de gênero e destruição da família, e agora colhe o que plantou. Putin está certo, a hegemonia deles está ruindo, e o Sul Global, que ainda tem Deus e valores, está se levantando. Tomara que o Brasil acorde e pare de ser puxadinho dos Estados Unidos.

    Mariana Ambiental

    28/04/2026

    Helton, discordo de você meter Deus e valores familiares no meio como se o Sul Global fosse um bloco moralmente superior. O que está em jogo não é aborto ou ideologia de gênero, é o fim da era de pilhagem imperialista — e o Sul Global que se levanta inclui China, Rússia e Irã, que têm suas próprias contradições sociais e ambientais. Se o Brasil quer acordar, que seja para construir soberania popular e ecológica, não para trocar de patrão moral.

    Mariana Oliveira

    28/04/2026

    Helton, vou te responder com o respeito de quem também enxerga a hipocrisia do Ocidente, mas preciso puxar teu argumento para um terreno mais complexo. Você acerta ao nomear a decadência da hegemonia ocidental — não é à toa que autoras como a jurista Kimberlé Crenshaw, ao formular a interseccionalidade, já denunciavam que o poder nunca se sustenta apenas na força militar, mas na capacidade de ditar narrativas morais e econômicas. O problema é que você troca uma armadilha por outra ao tratar o Sul Global como um bloco homogêneo e “com Deus”. A Rússia de Putin, por exemplo, é um Estado que persegue minorias LGBTQIA+ e silencia vozes feministas com a mesma truculência que o Ocidente usou para impor seus valores via bombas e ajustes estruturais. A ascensão do Sul Global não é automática nem sinônimo de virtude; é um processo contraditório, onde China explora mão de obra barata em países africanos e o Irã açoita mulheres por não usarem véu. A queda da hegemonia ocidental pode abrir espaço para outras formas de dominação — e aí, bell hooks nos lembra que a luta antimperialista precisa vir acompanhada de uma crítica interna aos nossos próprios fundamentalismos.

    Você fala em “valores familiares” e “Deus” como se fossem escudos mágicos contra a pilhagem, mas a história mostra que a aliança entre conservadorismo religioso e capitalismo predatório é velha conhecida. O mesmo Ocidente que você critica por impor aborto e ideologia de gênero foi o mesmo que apoiou ditaduras militares na América Latina com discurso de “defesa da família” — e o Brasil, meu caro, foi laboratório disso. O Sul Global que se levanta hoje inclui movimentos indígenas, feministas comunitários e coletivos negros que lutam contra a exploração tanto de Washington quanto de Pequim. Se o Brasil quer acordar, não basta trocar de patrão; é preciso rejeitar a lógica de que um bloco de nações vai nos salvar porque “tem Deus”. A verdadeira soberania popular passa por distribuir terra, descolonizar o pensamento e garantir que mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+ não sejam moeda de troca em nenhum projeto geopolítico. O que está ruindo não é só a hegemonia ocidental, mas a crença de que qualquer império — seja dos EUA, da Rússia ou de valores morais impostos — pode nos representar.

    Cláudio Ribeiro

    28/04/2026

    Helton, você tem razão ao apontar a decadência da hegemonia ocidental, mas reduzir a ascensão do Sul Global a uma disputa teológica ou moral é um deslize analítico grave. O que estamos vendo é a falência do neoliberalismo como projeto civilizatório, e a Rússia de Putin é um Estado oligárquico-capitalista que usa o discurso de “Deus e valores” como tática geopolítica, não como princípio ético — vide a guerra na Ucrânia. Se o Brasil quer se libertar do puxadinho, precisa de política industrial soberana e reforma tributária progressiva, não de um saudosismo familista que ignora as contradições de classe.

    Ronaldo Pereira

    28/04/2026

    Helton, você está certo sobre a hipocrisia do Ocidente, mas misturar a luta de classes com pauta de costumes é um desvio perigoso. Enquanto a burguesia brasileira lucra com a exploração do nosso trabalho, eles adoram ver a gente se digladiando sobre aborto e ideologia de gênero para não olhar para o salário mínimo e a carestia. O Sul Global que me interessa é o dos trabalhadores unidos contra os patrões, seja em Moscou, Pequim ou no ABC paulista.


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