A emancipação do povo brasileiro passa por um grande processo de reindustrialização do país. Segundo o geógrafo Elias Jabbour, especialista em China e estudioso dos processos de desenvolvimento, o Brasil precisa industrializar sua biodiversidade para gerar empregos melhor remunerados e escapar da armadilha do setor de serviços, que paga em sua grande maioria de um a um e meio salário mínimo e não abre nenhuma esperança de mudança real na vida da classe trabalhadora.
Pré-candidato a deputado federal pelo PCdoB do Rio, Jabbour preside hoje o Instituto Pereira Passos (IPP), órgão de pesquisa e planejamento urbano da prefeitura, posto para o qual foi nomeado por Eduardo Paes em dezembro de 2024 e do qual deve se licenciar para a pré-campanha. Antes do IPP, foi diretor de pesquisas do banco dos BRICS (NDB), em Xangai, a convite de Dilma Rousseff. É mestre e doutor pela USP, professor licenciado da UERJ, integrante do Comitê Central do PCdoB e autor de diversos livros sobre a China, entre eles China: o socialismo do século XXI, escrito com Alberto Gabriele e premiado pelo governo chinês com o Special Book Award of China em 2022. A China é a grande inspiração da sua ideia de projeto nacional, ancorada em indústria, planejamento e Estado.
A candidatura está inserida na estratégia do PCdoB dentro da Federação Brasil da Esperança, ao lado do PT e do PV, que mira eleger pelo menos três deputados federais pelo Rio: Jandira Feghali, a enfermeira Rejane e o próprio Jabbour.
Em entrevista a O Cafezinho, Jabbour afirma que está praticamente sozinho na disputa proporcional carioca a tratar do projeto nacional como tema. A política brasileira dos últimos 40 anos reduziu o debate público a temas fragmentados e perdeu a totalidade, diz, e o eixo do projeto nacional, na sua leitura, é a reindustrialização. Ela cumpre duas tarefas simultâneas: recoloca o país num mundo de potências e blocos de capital em competição feroz e, internamente, gera os empregos de qualidade que só a indústria pode criar. É também o caminho do combate ao fascismo: sociedades sem mobilidade social viram terreno fértil para a extrema direita, e a geração de 10 a 20 milhões de empregos industriais é o que pode reabrir a porta da esperança para a juventude.
Quais indústrias
Jabbour rejeita o discurso meramente futurista da quarta revolução industrial e defende a retomada do complexo industrial de defesa, da metal mecânica e da mecânica pesada, capaz de produzir trens, vagões e locomotivas. Defende ainda a digitalização da biodiversidade brasileira, lembrando que o país importa cerca de 26 bilhões de dólares em remédios com os insumos disponíveis em casa. Indústrias da primeira e da quarta revolução podem conviver aqui em unidade contraditória, e as várias industrializações respondem a várias demandas da sociedade, do trem de alta velocidade ao remédio de graça.
O impasse é também cultural. O desmonte do Estado nacional-desenvolvimentista nos anos 1990 e a captura da intelectualidade pelo fiscalismo erodiram a capacidade brasileira de pensar estrategicamente. O resultado é um país com as ligações internas destruídas e uma economia voltada para fora, como antes da Revolução de 30. A saída passa por uma parceria de longo prazo com a China, articulada à formação de conglomerados público-privados nacionais.
Geopolítica como eixo eleitoral
Para Jabbour, há pela primeira vez na história brasileira um candidato à Presidência abertamente pró-Estados Unidos. Flávio Bolsonaro acaba de voltar da CPAC, em Washington, onde prometeu entregar as terras raras brasileiras aos americanos para fazer frente à China, num gesto que Jabbour enquadra como adesão à Doutrina de Segurança Nacional dos EUA para a América Latina, que trata a região como reserva de recursos naturais e ativos estratégicos. A polarização eleitoral, defende, deveria ser entre projeto nacional e fascismo entreguista, com Lula como candidato da soberania e Flávio como candidato do alinhamento automático.
A esquerda também leva chumbo. Jabbour considera estranho falar em esquerda na periferia do capitalismo sem viés nacionalista e desenvolvimentista. Critica a migração da intelectualidade brasileira para o Norte Global nos anos 1970 e 1980, que voltou com agenda de democracia, instituições e economia neoliberal formatada nos Estados Unidos, e observa que aparelhos privados como a Open Society operam abertamente no campo progressista brasileiro.
Nova maioria, Rio e propostas
A reeleição de Lula, para Jabbour, fecha um ciclo de 50 anos. O que se abre é a disputa por uma nova maioria política de caráter de esquerda, nacionalista, desenvolvimentista e anti-neoliberal. Esse é o objetivo do mandato federal que ele pleiteia.
No Rio, ele propõe assumir que o estado passou por uma guerra econômica nos últimos vinte anos, com queda de emprego industrial compatível com a de uma região sancionada e expulsa do SWIFT. A saída envolve um novo Pacto Federativo, renegociação da dívida estadual e o que apelida de Plano Marshall para o Rio, com ramo ferroviário ligando Rio, Niterói e Baixada e dois polos industriais, no Norte e no Sul Fluminense, articulados ao petróleo, ao gás e às munições de defesa.
Eleito, Jabbour deverá protocolar dois projetos: a diferenciação entre capital nacional e estrangeiro, restaurando o texto original da Constituição de 1988, abandonado por Fernando Henrique Cardoso; e a revisão do regime de metas de inflação, cuja temporalidade anualizada força o Banco Central a operar sempre via taxa de juros, mesmo diante de choques que o ciclo econômico absorveria sozinho em três anos. É um mandato, não uma subversão republicana.