Um dos pilares da arqueologia das Américas está no centro de uma disputa científica de alta voltagem.
Trinta pesquisadores publicaram três cartas de resposta na revista Science desmontando sistematicamente um estudo de março de 2026 que afirmava ter a ocupação humana do sítio de Monte Verde, no Chile, apenas 8.200 anos de idade. A datação estabelecida por décadas de pesquisa rigorosa aponta para 14.500 anos.
O sítio de Monte Verde, localizado nas montanhas do sul do Chile, foi descoberto em 1976 e é considerado a única ocupação humana do Pleistoceno tardio com datação segura na América do Sul. O arqueólogo Tom Dillehay, da Universidade Vanderbilt, conduz escavações no local há quase 50 anos. Ele recuperou ferramentas de pedra, madeira preservada, ossos e pele de animais extintos, uma pegada humana, restos de plantas comestíveis, lareiras e cordas naturais — tudo datado por carbono em 14.500 anos atrás.
O estudo contestado foi liderado pelo arqueólogo Todd Surovell, da Universidade do Wyoming, e publicado pela Science em março de 2026. Com base em amostras de solo coletadas recentemente e na identificação de uma camada de cinzas vulcânicas bem datada no local, Surovell e seus colegas concluíram que Monte Verde teria sido ocupado no Holoceno Médio, entre 4.200 e 8.200 anos atrás. “O chamado componente arqueológico de 14.500 anos, que deveria mudar para sempre nossa compreensão da colonização das Américas, na verdade vem de uma formação geológica com no máximo 8.000 anos”, afirmou Surovell à época.
As respostas vieram rápidas e contundentes. As três cartas científicas — chamadas de eLetters — foram publicadas na Science nos dias 4 e 5 de maio de 2026. Foram assinadas por Dillehay, pelo geoarqueólogo Michael Waters, da Universidade Texas A&M, e pelo arqueólogo David Meltzer, da Universidade Metodista do Sul, em Dallas, cada um como primeiro autor de uma das cartas.
Cada documento apresenta refutações detalhadas ponto a ponto das conclusões de Surovell, reunindo dezenas de especialistas em arqueologia, geoquímica, estratigrafia e genética. O conjunto forma uma das respostas coletivas mais contundentes já publicadas na Science sobre um único estudo arqueológico.
Um dos argumentos centrais do estudo contestado era a presença de uma camada de cinzas vulcânicas conhecida como Lepué Tephra, depositada há 11.000 anos após uma erupção. Surovell e colegas identificaram essa camada em seções geológicas ao longo do riacho de Monte Verde e concluíram que a erosão teria criado um canal que cortou o sítio, fazendo com que o componente arqueológico MV-II estivesse acima dessa camada — e portanto fosse mais recente que 11.000 anos. Dillehay e seus coautores rebateram diretamente: “com base em dados arqueológicos, geoquímicos, cronoestratigráficos e de pólen integrados, não há Lepué Tephra de cerca de 11.000 anos abaixo do sítio arqueológico MV-II.”
As amostras coletadas por Surovell, segundo os críticos, vieram de uma camada geológica distinta, marcada por fungos e uma camada de esferas piroclásticas ricas em óxido de ferro — não do Monte Verde II. Outro ponto atacado foi a hipótese de que madeira e carvão datados entre 13.400 e 16.500 anos atrás teriam sido carreados por água de outros locais e redepositados no sítio, inflando artificialmente sua idade.
Waters e seus coautores chamaram essa hipótese de “especulação”, apontando que o estudo de Surovell não apresentou nenhuma evidência de que qualquer material datado tivesse sido movido. A carta classificou como “a falha mais gritante” do estudo o fato de a estratigrafia descrita pelos autores não corresponder à estratigrafia real do componente MV-II, conforme reportado pelo Live Science.
“Anos de pesquisa prévia sobre e ao redor do componente MV-II produziram numerosas datações por radiocarbono em artefatos e feições diretamente do componente, sustentando uma idade do Pleistoceno tardio”, escreveram Waters e colegas. Meltzer e seus coautores acrescentaram um argumento de peso independente: a genética.
Estudos genéticos mostram que todos os nativos americanos antigos e contemporâneos descendem de três linhagens — os Beringianos antigos, que se separaram há cerca de 20.900 anos, e os nativos americanos do norte e do sul, que divergiram há cerca de 15.700 anos. Esses dados confirmam a presença humana ao sul das geleiras continentais antes de 13.000 anos atrás, corroborando diretamente a datação de Monte Verde.
A carta de Meltzer também apontou que o estudo de Surovell faz “várias afirmações questionáveis sobre o povoamento das Américas e sobre como entendemos esse processo.” No fundo do debate está uma questão mais ampla: a tentativa de ressuscitar a chamada “teoria Clovis First”, que defende que os primeiros americanos chegaram por um corredor livre de gelo há cerca de 13.000 anos, descartando a crescente lista de sítios pré-Clovis nas Américas.
Para Meltzer e colegas, as conclusões de Surovell “desconsideram não apenas as evidências de Monte Verde II, mas também décadas de pesquisa em disciplinas diversas”, com “uso seletivo da literatura e conclusões exageradas” que “não fazem avançar a discussão científica nem o campo dos estudos sobre os primeiros americanos.” Surovell respondeu que “quando mais de 30 autores se dão ao trabalho de escrever três cartas separadas em resposta ao nosso artigo, isso sublinha tanto a importância da nossa pesquisa sobre Monte Verde quanto as implicações mais amplas que ela carrega.”
O grupo prometeu uma resposta formal às cartas em breve, mas Surovell afirmou ver “pouco que levante preocupação séria”. O debate está longe de qualquer resolução imediata, e Monte Verde permanece no epicentro de uma das maiores controvérsias da arqueologia das Américas.
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Lucas Moreira
12/05/2026
Mais um exemplo de como a ciência financiada com dinheiro público adora criar polêmica para justificar orçamento. Se 30 pesquisadores desmontaram o estudo original, é sinal de que o peer review funcionou — mas o estrago midiático já foi feito. Enquanto isso, o contribuinte paga a conta de ambas as pesquisas.
Paulo Ribeiro
12/05/2026
Caro Lucas, sua leitura reduz o debate a uma equação contábil rasteira que ignora as contradições reais da produção científica. Você trata a controvérsia como se fosse mero marketing acadêmico, mas o sítio de Monte Verde é um campo de batalha epistemológico há décadas, e não por capricho orçamentário. A arqueologia nas Américas carrega o peso de um viés colonialista que durante séculos sustentou a narrativa da chegada tardia dos primeiros povos ao continente. Quando um estudo ousa desafiar esse paradigma, não é “polêmica” gratuita: é a ciência cumprindo seu papel de tensionar os limites do conhecimento. Gramsci já nos advertia que a hegemonia se mantém também pela naturalização de certos marcos temporais e culturais.
Quanto à suposta “conta paga pelo contribuinte”, você parece ignorar que o financiamento público é justamente o que permite à ciência escapar, ainda que precariamente, dos interesses privados imediatos. Sem dinheiro estatal, as pesquisas ficariam reféns de fundações empresariais que financiam apenas o que lhes convém. O fato de 30 cientistas terem refutado o estudo não é uma falha do sistema — é a prova de que ele funciona. O que seria problemático é se o trabalho fosse aceito sem críticas. Althusser nos ensina que não há ciência pura, descolada das lutas ideológicas; o debate acirrado não é ruído, é a própria matéria-prima do avanço científico.
Sua indignação com o “estrago midiático” revela uma ansiedade tecnicista que confunde informação com espetáculo. Mariátegui, ao analisar a realidade peruana, já mostrava como as disputas pela narrativa histórica são sempre disputas políticas. Monte Verde não é apenas um sítio arqueológico; é um símbolo da presença ancestral dos povos originários na América do Sul. Tentar datá-lo como mais recente ou mais antigo não é neutro: tem implicações diretas sobre como entendemos a ocupação humana e, por extensão, sobre como legitimamos direitos territoriais hoje. Portanto, sim, a midiatização importa, porque o conhecimento não fica trancado em laboratórios — ele circula, e nessa circulação ele transforma ou reforça relações de poder. O contribuinte não paga por “polêmica”, paga por ciência que, em sua essência, é um bem comum e um campo de disputa permanente.